sexta-feira, 21 de março de 2014

MARCHA DA FAMÍLIA: VINGA OU NÃO VINGA?


Por Alexandre Figueiredo

Há 50 anos atrás, ocorreu a Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade, na verdade a manifestação mais importante, em 19 de março, depois de tantas outras marchas que ocorreram antes e depois do que se chamou "Revolução de 1964", o hoje reconhecido golpe militar. Em 02 de abril daquele "meia quatro", houve outra marcha no Rio de Janeiro para comemorar o golpe realizado.

Depois de tanto tempo enterrada no passado - nos 20, 30 e 40 anos de celebração do golpe de 1964 ninguém se encorajou em reconstituir as "marchas" - , eis que recentemente se articula uma manifestação, prevista para amanhã, em São Paulo, para comemorar o cinquentenário do evento que pediu a derrubada de João Goulart do poder.

Jango havia feito, dias atrás, um comício na Central do Brasil. Era uma sexta-feira 13. O presidente prometia levar em prática as prometidas reformas sociais, consideradas reformas de base, inclusive a reforma agrária e a reforma política.

Até a reforma midiática João Goulart se empenhou a fazer, ele que ironicamente, na condição de presidente em exercício durante o governo Juscelino Kubitschek, assinou o contrato de concessão do canal 4 da televisão do Rio de Janeiro para a Rádio Globo, de Roberto Marinho, em 1957.

Jango procurou criar uma Lei de Radiodifusão mais democrática e que divergisse dos interesses das oligarquias da Comunicação, em 1962. Nessa época a TV Globo do Rio de Janeiro, sede da atual Rede Globo, não existia, mas já provocava escândalo pelas denúncias de participação ilegal do capital estrangeiro na criação da emissora, por conta do grupo empresarial Time-Life.

João Goulart feriu os interesses dos EUA quando anunciou que iria reduzir as remessas de lucros das empresas e restringir a evasão de divisas financeiras ao exterior. Vendo nessas decisões uma maneira de fortalecer economicamente o Brasil, contrariando a supremacia da nação estadunidense, o governo do presidente John Kennedy e a CIA já pensavam num modo de tirar Jango do poder.

E aí, com um país que se discutia muitos problemas - desde os problemas educacionais até mesmo ao já antiquado pragmatismo comunista - , João Goulart pretendia avançar com suas metas de governo. Mas a pressão da direita naquela época foi intensa e até mesmo uma pegadinha de um pseudo-esquerdista, o sargento da Marinha Cabo Anselmo, favoreceu a reação golpista contra Jango.

E aí houve a passeata da direita, sob o pretexto da "reunião de famílias" supostamente comprometida com o Cristianismo e com os valores "edificantes" da sociedade. Com um moralismo retrógrado, líderes religiosos, por inspiração de um católico norte-americano de sobrenome engraçado, Patrick Peyton e seus rosários "contra o comunismo", lançaram então as tais Marchas da Família.

Também conhecidas como Marchas Deus e Liberdade, elas tiveram a adesão até mesmo de Hebe Camargo, quatro décadas antes da falecida apresentadora se juntar a Ivete Sangalo, Regina Duarte e Zezé di Camargo ao movimento Cansei, este em si uma evocação grotesca e "laica" das Marchas da Família.

Outros astros da época eram simpáticos à marcha, como o radialista César de Alencar e o pregador católico Gustavo Corção (que, pelo apetite de suas pregações, era o Olavo de Carvalho da época), para não dizer os golpistas da grande imprensa. E tinha o "instituto" IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e entidades "civis" que iam de grupos estudantis e operários aos militares.

Hoje, porém, apesar da ameaça de sucesso da mobilização, aparentemente está condenada ao fracasso. Em entrevista ao portal Terra, a antiga líder da União Civil Feminina (uma das várias entidades "civis" a pregar a queda de Jango), Maria Paula Caetano da Silva, de 82 anos, diz que não existe hoje um contexto para o sucesso de uma nova Marcha, tal como a de 1964, em que ela participou.

Outra ex-militante da União Civil Feminina, Maria Aparecida, também afirmou que os propósitos da época eram diversos aos de hoje. Ela não vê sentido hoje pedir um golpe militar para o Brasil, com tantas transformações vividas na nossa sociedade.

Já o coronel da Polícia Militar e ex-deputado federal Jairo Paes de Lima, mesmo se considerando conservador e repudiando governos de cunho nacional-reformista, como os da Venezuela, ele também não vê sentido num novo golpe militar. Ele, que tinha 11 anos na época do golpe, prefere que as mudanças políticas sejam feitas pelas eleições, através do voto popular.

O que surpreende é que o movimento que anuncia a Marcha da Família é comandado por antigos oficiais militares, os chamados "golpistas de pijamas", enquanto até o Instituto Millenium mantém silêncio sobre a manifestação de amanhã. A Folha e a Veja anunciam o evento, mas no Facebook há um modesto número de seguidores.

A dúvida será se a Marcha da Família fará sucesso ou não. Ou se haverá alguma surpresa e o evento repercutir acima do esperado - sobretudo com a "discreta" adesão dos que pareciam omissos com a situação - ou o evento será um grande fiasco, como o Cansei.

Aparentemente, temos um Brasil mais estável socialmente do que o dos tempos de Jango. Mas, como qualquer coisa pode acontecer, fica aqui a pergunta: a Marcha da Família vinga ou não vinga?

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