segunda-feira, 17 de março de 2014

LOBÃO E SEU UNIVERSO PARALELO

LOBÃO E OLAVO DE CARVALHO - Para um roqueiro que achava Patrick Moraz antiquado, aderir a um escritor medieval soa muito estranho.

Por Alexandre Figueiredo

1977-1982: O jovem João Luiz Woerdenbag Filho, que recebeu o apelido de Lobão por causa do macacão jeans de uma só alça, tal qual o personagem de história em quadrinhos, era o membro caçula do conjunto Vímana, lendária banda de rock carioca dos anos 70.

Ele tocava bateria, estudava violão clássico e tinha como parceiros o cantor Ritchie e o guitarrista Lulu Santos, figuras muitíssimo conhecidas, além do relativamente pouco conhecido Fernando Gama, um dos membros do Boca Livre, e Luiz Paulo Simas, desconhecido mas autor da popular vinheta da Rede Globo de Televisão, o "plim-plim" (embora sonoramente estivesse mais para "pló-pló").

A banda estava indecisa entre fazer um som de rock básico da linha dos Rolling Stones e o som progressivo da linha do Yes. Com um LP gravado e nunca lançado e poucas apresentações, o grupo se extinguiu precocemente para se tornar banda de apoio de Patrick Moraz.

Só que essa experiência nunca chegou a se realizar, pois foi abortada por causa dos ensaios tensos, intermináveis e conflituosos. Moraz, por exemplo, não gostava de Lulu Santos e queria substitui-lo por outro músico. E Lobão, já conhecendo as novidades pós-punk de 1978, ainda se envolveu amorosamente com a esposa do músico suíço, chegando a ter um breve casamento com ela.

Passados os anos, Lobão, a exemplo de Lulu e Ritchie, passaram por um curso intensivo de música pop e passaram, cada um à sua maneira, a fazer canções básicas e assobiáveis de três minutos. Lobão era o mais visceral e "cru", pois queria fazer um som mais roqueiro. Os outros dois passaram a ser conhecidos por músicas acessíveis como "Como Uma Onda" e "Menina Veneno", até hoje populares.

Lobão começou sua trajetória sob as bênçãos da Rádio Fluminense FM, que lançou em primeira mão o disco Cena de Cinema, de 1982. Já nessa época o roqueiro carioca mostrava ser uma figura difícil, e não tardou ele virar desafeto de outra banda lançada pela emissora niteroiense, Os Paralamas do Sucesso, que Lobão acusava "pegar carona" na sua obra.

Afinal, coincidência ou não, os Paralamas vieram com Cinena Mudo depois que Lobão lançou Cena de Cinema. Em seguida, gravaram a música "Me Liga" depois que Lobão lançou "Me Chama". O próprio estilo alegre e praiano dos Paralamas também não era do agrado do ex-baterista do Vímana.

Lobão já teve seus momentos progressistas, e foi um batalhador contra os abusos da indústria fonográfica. Encorajou a venda de discos nas bancas de jornais, e, mesmo com alguns senões - como o apoio a Mr. Catra e Amado Batista, dois ídolos brega-popularescos - , ainda lutava contra a mediocridade cultural brasileira.

Mas, nos últimos anos, Lobão surtou. Tornou-se um direitista ferrenho, o que, para seu jeito de roqueiro rebelde, se encaixa no atual contexto do "cidadão revoltado", estereótipo que a direita trabalha nos últimos anos para voltar ao poderio político.

De repente, Lobão passou a cortejar até mesmo Olavo de Carvalho, numa atitude mais surpreendente ainda do que o casseta Marcelo Madureira cortejar Diogo Mainardi. O que um roqueiro que achava Patrick Moraz demodê faz sendo amigo e entrevistador apaixonado de um escritor de ideias medievais é algo que não dá para entender.

É verdade que, volta e meia, aparece gente neocon aqui e lá fora. Nos EUA, o roqueiro Ted Nugent é uma espécie de Tea Party com roupagem hard rock. Armamentista como o falecido Charlton Heston - que, como Moisés, só faltou soltar a espingarda para atirar nos pagãos - , Nugent também é um entusiasta defensor do Partido Republicano e seus ideais reacionários.

Lobão é um caso a refletir no nosso país. Ele é adorado por uma geração de neo-conservadores, os que vão, daqui a alguns dias, ir para a "Marcha da Família" em São Paulo pedir um novo golpe militar para o país, pela imagem de rebeldia que ele empresta à direita reacionária.

Isso é algo que não era pensável há 50 anos. Naqueles tempos, os neocons eram escritores da geração de 1945, jornalistas moderados ou astros da televisão. Mas eles não tinham algum aspecto ultramoderno ou avançado na personalidade, mesmo os arroubos modernistas - que haviam tomado um Plínio Salgado em 1922, ele que já era direitista em 1964 - eram lembranças de passado juvenil.

Mas Lobão, com seus 57 anos, mas afiado na sua retórica de roqueiro rebelde - com um quê de autêntica, tamanha a visceralidade de seu comportamento - , preocupa diante de um cenário que envolve direitistas raivosos e esquerdistas frouxos, estes tomado pela influência de uma centro-direita acanhada que tenta um vínculo "definitivo" e "permanente" com as forças esquerdistas.

Lobão vive um universo paralelo para o qual só o seu reacionarismo é a verdadeira rebeldia. Talvez ele disputasse com os ouvintes da 89 FM (SP) e Rádio Cidade (RJ) no quesito reacionarismo "roqueiro", sobretudo pelo aspecto surreal dele agora querer processar o igualmente neocon CQC, por causa de uma brincadeira que acusou o músico de ter se rendido a Mano Brown, dos Racionais MC's.

Para Lobão, a liberdade de expressão só serve para ele e seus colegas, enquanto, por outro lado, ele quer censurar o que não lhe agrada. Lobão não gostou da brincadeira, que nem tinha de muito grave assim, e processou o humorístico da Band, proibindo-o de veicular qualquer coisa relacionada ao roqueiro carioca, hoje radicado em São Paulo.

Por isso é que uma figura dessas preocupa, porque simboliza o pensamento golpista num verniz claramente rebelde, uma "paudurecência" direitista que se contrapõe à "paumolecência" esquerdista que podem pôr a luta pelos progressos e conquistas sociais a perder.

As novas pressões da direita brasileira são uma ameaça à democracia brasileira. Não a "democracia" que os direitistas defendem, mais uma desculpa para pregar seus ideais privatistas, mas aquela que se contrói com justiça social, liberdade e cidadania autênticas. Se houver mais uma ditadura militar, o Brasil, que já sofreu um colapso com a ditadura de 1964-1985, poderá ir à falência.

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