segunda-feira, 24 de março de 2014

INTELLIGENTZIA ACONSELHA: "SEJA TODO MUNDO, SÓ NÃO SEJA VOCÊ"



Por Alexandre Figueiredo

"Carnaval é samba, é marchinha, é frevo, é axé, é candomblé, é umbanda, é forró, é ciganidade. Carnaval é funk brasileiro", prega o neoliberal Pedro Alexandre Sanches, principal porta-voz dos "bacaninhas" que comandam a intelectualidade pró-brega brasileira.

Não interpretemos essa mensagem no estreito limite das aparências e do agrupamento de palavras existente. O que Sanches quis dizer, com tudo isso é uma coisa só: "Carnaval é livre-mercado". Com todo o sentido oculto que um discípulo não-assumido de Francis Fukuyama despeja em palavras meio envergonhadas.

A intelectualidade "bacaninha" quer a tal cultura "transbrasileira". Tramada pela ditadura militar com os primeiros ídolos cafonas tocados, com gosto, pelas rádios que apoiavam o regime do generalato. E que foi reforçado pelo respaldo de Roberto Carlos - procurem saber, "bacaninhas"! - e pelo esquema jabazeiro de Michael Sullivan.

Cultura "transbrasileira" é economia "transnacional". O "transnacional" de Fernando Henrique Cardoso que Sanches e companhia jogam debaixo do tapete. O "transnacional" que nem de longe apavora ou desagrada os barões da mídia, embora a intelectualidade finja e minta que apavora e desagrada eles.

É a "cultura" que glamouriza a pobreza, a ignorância, a imoralidade, o grotesco. E é defendida por uma intelectualidade que até quer um brasil (em minúsculas, para não assustar os investidores estrangeiros) mais "gay", mais "libertino" e até "mais drogado" e "bebum", mas não quer um Brasil cidadão. Acham que cidadania pode ser obtida num "quadradinho de 8", num "lepo lepo" e similares.

A intelectualidade "bacaninha" faz de tudo que prevaleça esse tipo de visão. "Quanto mais mistura, melhor", pregam. Querem a "cultura" dos alhos com bugalhos, com o joio misturado com o trigo, e ainda gracejam diante de outros questionamentos acerca da hegemonia do mau gosto e da alienação cultural.

Daí seu discurso "muito bacana" e "bem legal". É como água com açúcar numa reunião de diabéticos. Tudo parece delicioso, refrescante. A intelectualidade cultural dominante prega o discurso da bregalização como processo "ideal" e "até inevitável" de fortalecimento (sic) da cultura popular brasileira, e quer que esse discurso seja ao mesmo tempo o "mais objetivo", "imparcial" e "bacana".

Mas é esse discurso que glamouriza elementos das classes populares que campanhas educacionais sérias querem combater. A intelectualidade cultural dominante, festiva, badalada e "muito querida", que ainda chora que nem criança assustada quando é questionada, não quer saber de cidadania.

A intelligentzia - trocamos o "s" pelo "z" da intelligentsia original porque ela aposta no "Brazil transbrasileiro" (ou seria "transbrazileiro"?) - só quer libertinagem, quer uma "cultura" asséptica, sem sabor, sem higiene, sem nutrientes, sem coisa alguma, porque acham que "tudo é tudo que é tudo e que é tudo". Só que, pensando assim, revelam que "tudo acaba sendo nada".

Eles querem que o brasileiro seja todo mundo. Só não seja ele mesmo, porque fica "mais chato" e "mais complicado". O que Pedro Alexandre Sanches faz pelos barões da grande mídia não tem preço. O que ele defende de "artistas transbrasileiros" vai logo direto para a tela da Rede Globo ou até na capa de Veja. Tem certeza que hospedou o blogue certo, Mino Carta?

Essa "cultura" tão "bacanamente" defendida pela intelectualidade "sem preconceitos" mas bastante preconceituosa não é cultura porque não evolui a sociedade. Só gera dinheiro, geralmente para os empresários do entretenimento, tão "pobrezinhos", no dizer da "intelectualidade mais legal do país".

Essa "cultura transbrasileira" não faz evoluírem os valores sócio-culturais das classes populares. Só glamourizam a ignorância, a imoralidade, a miséria, através de uma gororoba cultural que mistura alhos com bugalhos e é capaz de culpar até mesmo Gregório de Matos pelas baixarias que ocorrem hoje nos "bailes funk". Nem o Febeapá chegaria a noticiar tamanha barbaridade intelectual.

Fica muito fácil jogar os valores morais e sócio-culturais no lixo, bancar o norte-americano, hispânico, germânico e outros forasteiros a um só tempo e misturar pornografias, paródias e ironias num discurso que se pretende "muito sério". Seja até promíscuo e drogado. Vale tudo. E tudo com cientistas sociais, cineastas e jornalistas culturais aplaudindo de pé.

Fica muito fácil ser o outro, porque é "menos preconceituoso". Ser si mesmo não é recomendável pela intelectualidade "bacana", porque ela pensa que isso é ficar estagnado, parado no tempo e no espaço. Não é. Mas quem sou eu diante da visibilidade astronômica da intelectualidade "bacana" para colocar as ideias dentro dos eixos?

Infelizmente, é essa a regra dominante da intelectualidade "bacaninha". Você pode ser todo mundo, pode ser até o pior de tudo. Você só não pode ser você mesmo. Esqueça seus dramas, reduza-se a uma piada que, mesmo sendo piada, não pode ser gracejada, sob o risco de quem for rir dessa anedota ser acusado de integrar patrulhas moralistas de 1910...

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