quinta-feira, 13 de março de 2014

É O EFEITO DA "CULTURA TRANSBRASILEIRA", UAI!!


Por Alexandre Figueiredo

Espanta que um texto publicado no blogue Farofafá, "A vitória de Dick Vigarista", apresente visões que contrariam frontalmente a proposta do mesmo espaço, questionando elementos que justamente fazem parte da chamada "cultura transbrasileira" defendida pela "prata da casa".

Escrito pelo historiador Sérgio J. Dias, autor do blogue Pele Negra, ele reclama que os valores culturais brasileiros tenham sido deixados de lado pelo Carnaval carioca, em prol de uma cultura estadunidense que supostamente estaria causando uma "revolução estética" na cultura brasileira em geral, e no Carnaval carioca em particular.

"Estavam lá os elementos da Corrida Maluca, The Flash e tantos outros a tomar o lugar do Palácio Monroe e do “verdadeiro” Maracanã, não por acaso demolidos. Qualquer turista estrangeiro se espanta com os signos agora adorados. Afinal, onde está o Brasil?", lamenta o historiador.

Ele descreve o processo de idiotização cultural apoiada por um falso discurso que promove a vitória de Dick Vigarista e Penélope Charmosa, que substitui Candeia por Michael Jackson e o Curupira pelo Homem Invisível.

Além disso, Sérgio também lamenta a tendência errônea de uma parte de historiadores em acusar a defesa de valores nacionais na cultura brasileira como uma imposição da ditadura varguista, como se o Brasil não passasse de um país fictício, uma "república de bananas" concebida pelos burocratas do Estado Novo.

Só que essa visão de idiotização cultural e a queixa contra as acusações de que a cultura nacional era um subproduto da ditadura de vargas - só faltava dizer que a Revolução de 1930 inventou Mário de Andrade, apesar dele batalhar pela cultura brasileira até mesmo antes da Semana de 1922 - são um recado direto justamente aos intelectuais "bacaninhas" que querem bregalizar o país.

A tese da cultura brasileira como subproduto do Estado Novo eu identifiquei até mesmo dos textos raivosos do professor mineiro Eugênio Arantes Raggi, um cara que escreve como Reinaldo Azevedo mas se passa por "intelectual progressista" para agradar seus colegas e sua esposa que deve ser admiradora de Lula e Dilma Rousseff.

Já a queixa da americanização da cultura brasileira vai frontalmente contra os interesses do próprio Pedro Alexandre Sanches, que só aceitou a publicação do texto para "polemizar", ou talvez por causa da reputação do historiador. Talvez para disfarçar qualquer aura neocon de Sanches, já abalado por ver o "funk ostentação" recebendo "beijinho no ombro" até da reacionária revista Veja.

Se não fosse dito por alguém com alguma visibilidade e prestígio, as queixas de Sérgio J. Dias seriam vistas como um "lastimável lamento elitista", como uma "patrulha cultural" contra a "saudável mundialização" de nossa cultura. Que problema tem, para a intelectualidade "bacana", que Candeia seja trocado pelo fantasma de Michael Jackson tocando cuica e dançando uns passinhos?

Se funqueiros, axézeiros e "pagodeiros" viajam demais para Miami, Nova York e Las Vegas, importando de lá "novidades admiráveis", a intelectualidade "bacana" sorri e aplaude. "Vejam só, estamos hiperconectados com o mundo"!

Dá até para imaginar Pedro Alexandre Sanches dizendo: "Somos Nova York, somos os guetos de Miami, somos Roma, Havana, Paris, Moscou, Berlim, Hollywood, tudo num só lugar e sem sair do território brasileiro", em tom comemorativo de nossa suposta integração ao mundo, com os subúrbios de Belém querendo imitar os guetos novaiorquinos.

Nota-se que Sérgio evitou falar de "funk", a reprodução do miami bass dos EUA e responsável por transformar o tributo a Ayrton Senna num desfile de ícones estrangeiros como The Flash, Corrida Maluca (The Wacky Races) e tantos outros em detrimento de um Palácio Monroe e um velho Maracanã de 1950 destruídos. Seria quebrar o protocolo incluir o próprio "funk" nisso tudo.

Sobre a tendência da indústria carnavalesca de adotar ícones da cultura estadunidense, Sérgio ainda acrescenta que ela é "tratada como inovadora pela mídia conservadora". Sim, mídia conservadora. Mas isso inclui também "progressistas" como Paulo César Araújo, cortejado pela Globo, Ronaldo Lemos, cortejado pela Folha, Estadão e Globo, e Pedro Alexandre Sanches, que veio da Folha.

Só mesmo uma pessoa com bom trânsito entre os ativistas sociais, como o professor Sérgio J. Dias - embora ele seja pouco conhecido do público comum - para dar uma queixa que, dada por pessoas de menos visibilidade, seriam tidas como "preconceituosas" e fruto de "patrulhas elitistas ressurgidas dos porões mofados de 1910".

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