segunda-feira, 3 de março de 2014

COM CRISE NA AXÉ-MUSIC, ARROCHA E "PAGODÃO" TENTAM O MERCADO SULISTA-SUDESTINO

PABLO, PRINCIPAL NOME DO ARROCHA BAIANO NO MOMENTO.

Por Alexandre Figueiredo

Só mesmo a intelectualidade "bacana" adora as tendências bregas do Norte / Nordeste. Em seus condomínios em São Paulo e no Rio de Janeiro - fora seus "QGs" em Belo Horizonte, Porto Alegre, Florianópolis e outras capitais - , eles desconhecem ou até ridicularizam a crise que tais fenômenos sofrem nas suas regiões de origem.

No "forró eletrônico", isso é sintomático. Ninguém mais aguenta a sucessão de ídolos caricatos, de roupas com cores aberrantes, pessoas que são apenas desinibidas, mas não são artistas, gente que está mais preocupada em "interagir com a galera" do que para mostrar música, e, quando tenta mostrar, é um desastre.

Só mesmo o intelectual que mora em São Paulo, que redescobriu uma Belém do Pará que só existe na sua imaginação, que não sabe que os nortistas e nordestinos não suportam mais ídolos caricatos, que representam uma concepção estereotipada de "popular" e que até agora nada somaram, em qualidade, para as culturas locais tão carentes de renovação.

A última grande renovação no Nordeste, que representou um sucesso duradouro até hoje, foi na década de 1970, quando surgiram artistas como Zé Ramalho, Ednardo, Amelinha, Fagner e Alceu Valença que modernizaram o som nordestino numa perspectiva universitária.

O grande problema é que eles eram artistas de classe média, e naqueles idos da ditadura militar o povo pobre era condenado a apreciar de longe essas músicas, até que as rádios coronelistas determinaram um tipo de "música popular" que o povo teria que tomar como "sua".

Com isso, o povo era privado de ter seus baiões, maracatus, catiras, cocos, carimbós e outros ritmos populares que agora eram apenas de apreciação privativa de "especialistas", gente abastada com formação universitária que antes apenas pesquisava os ritmos populares, hoje se apropriou deles de tal forma que o povo foi privado de sua própria cultura.

Enquanto isso, formas caricaturais como lambada, breganejo, "forró eletrônico" e outras eram associadas às classes populares, de maneira tendenciosa, oportunista e respaldada por uma elite intelectual cheia de discursos populistas de uma visão bastante etnocêntrica.

Para a intelectualidade "bacana", o melhor é o povo pobre ficar dentro dos padrões caricatos do humorismo da TV, com um comportamento patético e resignado, para que se mantenham as estruturas de poder político e midiático regionais.

Os intelectuais até inventam que, por exemplo, pobre faz "ativismo" rebolando até o chão, mas isso é uma desculpa para que o povo pobre deixe de exercer os verdadeiros ativismos. "Bonito" é pobre rebolar e sorrir de forma patética, "feio" é pobre fazer barricadas para pedir melhores moradias e melhor Educação.

A CRISE DA AXÉ-MUSIC

A crise da axé-music, em Salvador, é um fato que salta aos olhos. E atinge desde os medalhões do Carnaval baiano, como Bell Marques, até os ídolos do arrocha e do "pagodão". No caso do "pagodão", a coisa chegou ao ponto de haver escândalos de violência sexual direta ou indiretamente associados a seus grupos.

A "nata" da axé-music é associada pelos próprios baianos a uma postura elitista e negligente às classes populares. A mesma axé-music que, em locais como São Gonçalo (município fluminense vizinho de Niterói e terra-natal da cantora Cláudia Leitte), só se apresenta em casas noturnas "populares", é tida como "coisa de riquinho" no mercado da capital baiana.

Mas mesmo o arrocha e o "pagodão", derivações "populares" da axé-music, também não estão em boa situação. O "pagodão", a exemplo do "funk" no Rio de Janeiro, já criou sua cena de "proibidão", com letras exaltando a pornografia e a violência.

Daí os grupos que se envolvem em escândalos sexuais ou porque incitam o estupro e a pornografia. Daí alguns cantores que chegam a ser assassinados. Daí as violências que ocorrem durante os eventos em que tais ídolos se apresentam. São realidades que a intelectualidade "muito legal" ignora. Para ela, pimenta nos olhos do povo é refresco.

BARONATO MIDIÁTICO

Por causa da crise que assola as tendências bregas no Norte / Nordeste, sobretudo a aguda crise da axé-music baiana, a grande mídia tenta agora jogar tais ritmos para o público do Sul / Sudeste, em especial o mercado sudestino (eixo Rio-São Paulo), principal vitrine para a projeção nacional.

A tentativa do "forró eletrônico", por incrível que pareça, só deu certo em mercados um tanto periféricos do Sul / Sudeste, como Belo Horizonte e Florianópolis, ou em áreas muito suburbanas e rurais dos Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. O tecnobrega vai de carona.

A axé-music parece seguir o mesmo caminho, depois que perdeu mercado no Rio de Janeiro e cometeu o erro estratégico de querer conquistar o Brasil deixando a Bahia de lado. Abandonou os baianos para conquistar mercados antes adversários como Niterói e Porto Alegre, e, quando voltou à Bahia, não teve a mesma popularidade de antes. Axé-music virou agora coisa para turista ver.

Agora o arrocha é promovido a "mania nacional", e o ritmo baiano teve que mudar sua estratégia para promoção em todo o país. Em vez da parceria com a axé-music, o arrocha - que na Bahia é conhecido por nomes como Brazilian Boys, Silvano Sales, Nara Costa e Pablo - busca parceria com o "sertanejo universitário" em âmbito nacional.

Daí a parceria, por exemplo, com nomes do "sertanejo" como Israel Novaes e Gabriel Gava. O arrocha ganhou até mesmo o som de teclado imitando acordeon, embora o mesmo "grito de guerra" do arrocha - "Arrocha, arrocha, arrocha" - que se ouvia desde os primeiros sucessos locais na Bahia sejam ainda ouvidos pelos novos "artistas".

Já o "pagodão" em crise, depois dos incidentes com os grupos New Hit e Abrakadabra - que levaram ao extremo as posturas machistas já adotadas pelos "equilibrados" Pagodart, Saiddy Bamba e até mesmo o É O Tchan - , tanta o sucesso nacional com Psirico e Parangolé.

Travestidos de "folclóricos" e falsamente "pós-tropicalistas", Psirico e Pagodart adotam uma postura mais "sóbria" em relação aos "proibidões" do gênero, mas mesmo assim não menos caricata nem grotesca.

O Psirico virou uma espécie de Grupo Molejo do "pagodão", na ironia do próprio Molejão ter feito "pagodão" na linha do É O Tchan durante um tempo. Ironicamente, na mesma época, o Harmonia do Samba tentava se aproximar do sambrega da linha do Só Pra Contrariar.

Depois que o Parangolé tentou conquistar o país com a música de título ridículo, "Rebolation" - mas que deixa a nossa intelectualidade farofafeira e "joaquim-barbosiana-merval-pereirense" de queixo caído - , o Psirico agora tenta fazer o mesmo com "Lepo Lepo".

Isso ocorre num contexto em que o Chiclete Com Banana se despede da "era Bell Marques" enquanto seu futuro ex-vocalista - sua despedida está programada para este Carnaval, em Salvador - tenta superar a estranheza na sua carreira-solo, quando, ao que parece, não poderá mais cantar "Quero Chiclete, Chiclete" ou "Chiclete...Oba! Oba!".

Fora do percurso axézeiro, nota-se que a cultura rock na Bahia volta a crescer com o bom desempenho do Palco do Rock, enquanto, no Sudeste, o crescimento da Kiss FM tenta neutralizar caricaturas promovidas por rádios amigas de Roberto Medina, Eike Batista e Geraldo Alckmin como a 89 FM. O império da breguice está jogando muitos jovens para o rock.

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