terça-feira, 25 de março de 2014

"CENTRÃO" NEOCON?


Por Alexandre Figueiredo

De repente, virou moda dizer que as questões envolvendo esquerda e direita no Brasil estão ultrapassadas. Não que isso não tenha seu sentido de verdade, mas nota-se um certo gosto de oportunismo por trás dessa onda toda.

Há certos modismos no dito establishment da "opinião pública" oficial. Durante a Era Collor, a intelectualidade mais influente apostava no neoliberal Fernando Henrique Cardoso, antigo discípulo "moderado" do filósofo Max Weber, como a salvação do Brasil.

Pouco depois, a mesma intelectualidade, com a eleição de Lula para a Presidência da República, passou a se autoproclamar "socialista", em parte, pois a outra passou a se dedicar mais ao Instituto Millenium, na busca do tucanato fracassado.

Era a onda dos pseudo-esquerdistas, em que analfabetos políticos que, no âmbito cultural, querem a bregalização do país, se achavam "marxistas" apenas porque sentiam simpatia pelo presidente Lula. E tornaram-se parasitas de todo o aparelho estatal por causa de motivos que variam do corporativismo sindical às verbas do Ministério da Cultura.

Agora, no final do primeiro governo Dilma Rousseff - se levarmos em conta que ela planeja a reeleição - , surge a tendência dos "descompromissados", que agora acham "ridículas" as discussões em torno de esquerda e direita, o que pode significar também um contexto diverso do de dez anos atrás.

Afinal, agora é o mesmo discurso que se vê em "urubólogos" da mídia mais reacionária e em intelectuais "bacanas" supostamente progressistas. A queixa de que "estão superadas as questões envolvendo esquerda e direita" voltou a unir tanto a turma do Instituto Millenium quanto farofafeiros e similares.

Será um novo "Centrão" neocon, em alusão ao colégio eleitoral que lançou a candidatura de Tancredo Neves à Presidência da República, há 30 anos atrás? De repente, virou "novidade" esse negócio de "superar" as questões de esquerda versus direita.

Que muitas dessas questões estão ultrapassadas, é verdade. Mas isso nunca foi novidade, desde que a Revolução Russa ocorreu em 1917. Os excessos dos dois lados mostram o quanto a militância exagerada nas esquerdas e o economicismo que usa o dinheiro para medir todas as coisas, na direita, põem essa dicotomia ideológica na berlinda.

RETÓRICA "IMPARCIAL"

O problema não é isso. O problema é que a ideia de que "esquerda e direita estão superadas" virou uma desculpa para neocons e pseudo-esquerdistas manterem suas posturas e procedimentos, na falta de alguma justificativa relevante para tal.

De um lado, vemos intelectuais pró-brega reclamando das críticas que recebem dos esquerdistas por causa da postura tendenciosa de tratar o "funk carioca", por exemplo, como um suposto sinônimo de "ativismo social libertário".

De outro, vemos pessoas reclamando da "demonização" da revista Veja e de colunistas como Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi, julgando que estes possuem a "mais objetiva visão da realidade". E são pessoas que acham que o lunático Olavo de Carvalho entende mais de Brasil, mesmo vivendo longe dele, do que qualquer um de nós.

Daí o problema. O problema não é considerar ultrapassadas certas posturas de esquerda ou direita, mas a maneira oportunista com que tal postura é adotada. Isso tem muito mais a ver do que uma tentativa de evitar a ampliação do debate público do que realmente reconhecer o caráter ultrapassado deste ou daquele procedimento.

Num primeiro momento, essa postura se torna apenas um "escudo" para que determinadas pessoas mantenham suas contradições na ideologia e na atitude adotadas. No segundo momento, é uma tentativa de salvar a reputação de totens abalados pela contestação pública.

Assim, o brega-popularesco que passava a falsa imagem de "progressista" - sobretudo da parte de funqueiros ou do "brega de raiz" - usa essa postura para permitir que ingresse na grande mídia sem "causar vergonha", justificando que "tais questões estão superadas".

De outra forma, é o reacionarismo de Veja que usa essa postura para neutralizar as críticas que a revista recebe, atribuindo a elas um "radicalismo intolerante das patrulhas petralhas" ("petralha" é como os reaças de Veja chamam os petistas).

Com essa manobra, é "antiquado" querer contestar a "cultura popular" imposta pelos barões da grande mídia e pelos chefões do entretenimento, como é "antiquado" querer ir contra os interesses dos investidores estrangeiros. Neste sentido, é "imparcial" acreditar na desnacionalização da economia, da americanização da cultura brasileira e na supremacia da imprensa reacionária no Brasil.

Enquanto isso, questões como a defesa da reforma agrária e da regulação da mídia são vistas como "demodês" pelo discurso "imparcial" dessas novas forças neocon,  que irão atribuí-las a um suposto corporativismo sindical e estatal que tiraria a liberdade de propriedade dos "admiráveis" empresários da Comunicação e dos "batalhadores" senhores do latifúndio.

O maior problema desse "Centrão" é que ele irá reforçar a mesmice e a letargia ideológica em que o país vive. A banalização tendenciosa dos questionamentos aos vícios de esquerda e direita só fará com que as estruturas e forças viciadas na sociedade continuem prevalecendo. E as elites dominantes que oprimem a população se apoiarão dessa suposta "imparcialidade" para se manter no poder.

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