domingo, 9 de março de 2014

CARNAVAL E A MERCANTILIZAÇÃO DA MULHER

EM SALVADOR, BLOCOS DE CARNAVAL USAM MULHERES BONITAS PARA FORTALECER SEU MARKETING SEXISTA.

Por Alexandre Figueiredo

O Carnaval midiático fez toda a sua farra, dando destaque ao que há de mais "provocativo" do brega-popularesco, incluindo "funk", "sertanejo universitário", arrocha e "pagodão", enquanto o "forró eletrônico" tenta seu canto de cisne em alguns redutos da folia pernambucana.

De bandeja, houve toda uma ênfase, bastante tendenciosa por sinal, ao "mercadão" das "solteiras". As aspas indicam que nem todas as que afirmam serem solteiras são realmente "livres, leves, soltas e disponíveis" de fato, mas mesmo assim o "mercadão" usou e abusou da imagem de "mercadoria" dada às mulheres.

Teve até funqueira casada que disse que estava "solteira na pista", e outra só mandando "beijinho no ombro" aos fãs porque beijo na boca só mesmo com o marido. E teve folionas dando fora nos homens que as assediavam, enquanto depois espalhavam nas mídias sociais que "os homens fugiam de medo delas".

Mulher virou a maior "mercadoria" do Carnaval, seja no Rio de Janeiro ou em São Paulo, seja em Salvador. E a grande mídia, sobretudo a dita "popular", que festejou o circuito de glúteos e peitos em "livre circulação" na folia, seja em cima dos trios, seja nos desfiles, seja entre os foliões. Teve até mulher que terminou o casamento só para ficar no Carnaval de Salvador.

O pretenso sensualismo e o mito da facilidade da vida amorosa - para os homens - mostra o quanto a imagem de objeto atribuída ao mulheril ganha seu significado mais extremo no Carnaval. Mas, em Salvador, até mesmo um IBGE pressionado pela indústria hoteleira já veio com a "animadora" notícia de que "terá mais mulher" na capital baiana.

A ideia é exatamente a da logística de produtos de supermercado. As mulheres possuem um "estoque inesgotável", por mais que os noticiários de todo dia mostrem cada vez mais mulheres morrendo por causa da violência, dos acidentes, dos erros médicos, de doenças graves etc.

E o IBGE vai ajudando, empurrando para as omissões estatísticas centenas de milhares de homens que, em sua maioria negros e pobres, vivem em situação errática em várias partes do país e por isso não se encontram disponíveis para os recenseadores. Não se encontram e "nem devem" se encontrar, já que o mercado hoteleiro e turístico quer vender um Brasil "sensual" para atrair mais demanda.

A sensualidade é um eficaz produto de marketing. Tanto no mercado legal quanto no clandestino. A Justiça até se empenha em combater atos ilegais, como o tráfico de mulheres e a exploração sexual de moças adolescentes, que são mais escancarados, mas deixa passar o sutil mercado sensual que está implícito nas propagandas turísticas.

Este é o mais implícito. Tanto que até a ideia de "sexo" é dissolvida no eufemismo do "amor". A transa é deixada de lado, no discurso publicitário, e chegam ideias mais "sugestivas" como beijo na boca, namoro e abraços de namorados. A mulherada vira um chamariz, já que elas podem dar uma imagem mais agradável ao entretenimento carnavalesco.

Além disso, o machismo sutilmente expresso nesse mercado se compraz em promover a pura curtição e os instintos materialistas do sexo e da bebedeira (para não dizer outras "coisas") juntando a isso a mulherada que nem está aí para usar o lazer como alimento para o espírito, para a mente.

Dançando o "Lepo Lepo" do Psirico e outros sucessos da axé-music, do "funk", do "sertanejo" e outros que rolarem na folia - mesmo um mofado "É o Amor" de Zezé di Camargo & Luciano, transformado em marchinha nos carnavais de bairros - , as mulheres inutilizam seus cérebros exagerando no entretenimento vazio e na bebedeira durante as horas de folia.

Ninguém vai ao Carnaval para pensar, é verdade. Ninguém vai à folia visando desenvolver uma atividade sociológica, existencial e científica. Mas em outros tempos havia um pouco mais de inteligência e decência, não a curtição como um fim em si mesmo, em que não se celebra mais coisa alguma a não ser instintos e vaidades pessoais.

E aí vem o "estoque inesgotável" da mulherada. Do contrário da sociedade "normal", em que a sucessão de atrizes casadas - Fernanda Machado, Gisele Itié, Carol Castro, Carolina Ferraz e outras - torna-se um termômetro do comprometimento feminino, na "alegria" carnavalesca é proibido ficar comprometida.

Por isso é que, no caso de muitas folionas, há a exagerada situação das supostas encalhadas, moças consideradas bonitas demais para ficarem sem namorado, e que, enquanto recusam cantadas até de bonitões educados, digitam nos seus celulares que "sofrem muito com a falta de homens no 'mercado'".

Nem mesmo um falso mendigo iria fazer o jogo de cena de recusar um prato de comida oferecido por outrem, enquanto espalha para a sociedade que sofre de fome. Mas é parte do protocolo carnavalesco que se deva haver o maior número de mulheres "sozinhas" para manter a graça "sensual" da folia, mesmo quando estranhamente várias garotas se divertem bancando as "encalhadas".

Passada a folia, dias atrás, nota-se o saldo: instituições e empresas apostando na imagem de "mulheres solteiras", sobretudo numa Bahia que atrai afoitos traficantes de mulheres que, com suas espertezas e seus trajes de "turistas comuns" conseguem até mesmo conquistar as "periguetes" dos subúrbios e favelas de Salvador.

Assim, a mercantilização da imagem da mulher, no Carnaval, torna-se um banquete para o discurso machista que movimenta milhões de reais, promovendo uma imagem "sensual" do Brasil que se opõe à realidade. Mas quem disse que realidade é um produto vendável? A fantasia é que é! Que a fantasia se passe por "realidade", para o bem do mercado e de seus interessados. Já a sociedade...

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