sexta-feira, 7 de março de 2014

ALCEU VALENÇA, MAIS UMA VEZ, CRITICA BREGALIZAÇÃO CULTURAL


Por Alexandre Figueiredo

Embora os farofafeiros e outros "bacaninhas" da intelectualidade festiva sintam uma aparente simpatia com Alceu Valença, ele nem de longe representa a MPB obediente que compactua com o status quo da bregalização generalizada.

Em entrevista recente ao portal UOL, o músico pernambucano, com visível indignação, criticou o suposto "multiculturalismo" que contamina o Carnaval de Pernambuco e outros lugares, denunciando a prática de jabaculê e a ameaça de perda da identidade cultural brasileira.

Ironicamente, Alceu Valença teve uma música, "Morena Tropicana", vertida para uma versão "provocativa" - "Sarcasmo?", perguntaria o personagem Sheldon Cooper de The Big Bang Theory - por um MC de "funk carioca". É citado em uma música do Chiclete Com Banana e é tratado pela intelectualidade como se fosse um ídolo pós-tropicalista subserviente à bregalização.

Mas Alceu passa longe desse rol de exploração de sua imagem, não se iludindo com gente querendo se prostituir às custas do carisma do músico. Vale aqui reproduzir alguns trechos colhidos da entrevista, e que nos põem a pensar sobre os rumos que sofre a música brasileira nos últimos anos.

"Estão vendendo gato por lebre. Inventou-se agora o conceito de multiculturalismo, que é uma forma de enfiar qualquer coisa em festas populares como São João e Carnaval", comentou o cantor, enquanto poucos percebem que o alvo das críticas de Alceu é a mesma "aquarela brasileira" descrita pelo queridinho dos "bacaninhas", Pedro Alexandre Sanches.

Alceu reclama, entre outras coisas, sobre a obsessão dos ídolos medíocres em entrar em todo tipo de festa carnavalesca, e podemos inferir que o mesmo ocorre nas "viradas culturais", o que não foi citado pelo cantor. Ele compara o cenário atual aos pacotes turísticos de resorts, onde "tudo está incluído" e as pessoas "comem além da necessidade".

Outro aspecto que Alceu Valença destaca é que a apologia à falta de cultura favorece os interesses das indústrias do entretenimento. "Veja a situação a que chegaram os programas de televisão, nada contra nada, tudo pode existir, há uma glamourização do lixo cultural. Quanto mais burro, melhor para o sistema", afirma, lamentando a falta de uma curadoria na cultura brasileira.

JABACULÊ E MICHAEL SULLIVAN

Ele denuncia a cartelização das rádios brasileiras que compram ídolos brega-popularescos para tocar uma "música sem alma", que ele define como "fuleiragem music". "Tudo que entrar será lucro", acrescentou Alceu, afirmando que ele mesmo está rompido com as grandes gravadoras.

Ele denuncia o esquema de jabaculê que existia em gravadoras como a BMG-Ariola (atual Sony Music), que havia nos anos 80. Sem creditar nomes, é justamente a fase em que o selo RCA era comandado pela perversa máquina de fazer sucessos do produtor Michael Sullivan, o mesmo que hoje posa de "injustiçado" e "gênio incompreendido".

Alceu denuncia que artistas como ele e Chico Buarque, entre outros, eram contratados para "ir para a gaveta", nas palavras do pernambucano, enquanto eram ordenados a gravar outros produtos que interessavam aos objetivos comerciais do diretor artístico, que, sabemos, foi Miguel Plopschi, parceiro de Sullivan nos Fevers.

O próprio Alceu chegou a ser "aconselhado" pela gravadora - leia-se Plospchi e Sullivan - a gravar sucessos bregas e compor músicas nos moldes dos sucessos do hit-parade norte-americano que eram divulgados no Brasil na época.

O esquema era feito a troco de ofertas de apartamento, de hospedagem em hotel cinco estrelas. Exemplos de gente que aderiu ao esquema, como Joanna e Raimundo Fagner, fizeram muito sucesso na época, mas, em contrapartida, saíram depois mais apagados, tendo a reputação bastante comprometida.

Atualmente, Alceu Valença não é contratado por grande gravadora e segue sua carreira sem esquema empresarial. Ele investe pura e simplesmente na sua força artística, se apresentando no Brasil e no exterior com plateia lotada, independente de qualquer esquema de divulgação.

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