sexta-feira, 28 de março de 2014

A VOLTA CONFUSA E DATADA DA RÁDIO CIDADE 102,9 MHZ, DO RJ

OUTDOOR DA RÁDIO CIDADE, DO RJ - Rebeldia estereotipada, caricata e infantilizada.

Por Alexandre Figueiredo

"O que é bom é para sempre", diz o lema publicitário da Rádio Cidade, antiga emissora FM do Rio de Janeiro que inovou sua linguagem nos anos 70, mas que adotou posturas esquizofrênicas de 1985 até hoje, incluindo mudanças de nome e de formatos que enfraqueceram completamente a emissora.

No atual contexto do rádio FM brasileiro, em que esquemas de jabaculê não-musical e envolvendo sobretudo programações esportivas são denunciados na Bahia, FMs em geral perdem audiência por causa da Internet e colunas e portais de rádio vivem do autismo, do corporativismo e do culto aos "números mortos" do Ibope, a Cidade teve uma volta confusa e bastante complicada.

A Rádio Cidade surgiu sinceramente e assumidamente pop. Foi em 01 de maio de 1977, quando a emissora ancorava seu repertório musical na disco music, no pop romântico, na MPB mais jovem e apenas em sucessos do rock mais brandos, acessíveis e com penetração no público não-roqueiro.

Mas, de repente, a partir dos anos 80, a Rádio Cidade passou a ter uma obsessão pelo rock que nunca foi sua competência. Foram ao todo quatro tentativas, sendo a última a adotada desde 10 de março último, quando a rádio recuperou o nome oito anos depois de usar os nomes OI FM e Jovem Pan 2.

Se a Rádio Cidade cometeu gafes e outras coisas lamentáveis na abordagem do rock, no fundo sentindo uma dor de cotovelo por não ter tido o carisma duradouro da antiga Rádio Fluminense FM - que ensaiou uma volta melhorada aos moldes da programação de 1991-1994 em frequência AM, esperando um novo prefixo para se alojar em FM - , a volta recente ainda ficou mais esquisita ainda.

A emissora, através do programa "Cidade do Rock", tenta fazer uma retrospectiva parcial de sua história chamando locutores diversos para participarem do programa, dando depoimentos e entrevistas. Até Fernando Mansur, um dos pioneiros e atualmente na MPB FM, foi chamado.

Ficou muito estranho. A Rádio Cidade, posando de roqueira, e revendo sua história naquilo que lhe interessa transmitir, tentando nos fazer esquecer que a emissora foi a primeira a divulgar o pop dançante no rádio do Rio de Janeiro, sendo uma das maiores divulgadoras da disco music do rádio brasileiro. Boa parte da popularidade de Earth Wind & Fire e Donna Summer se deve à Cidade FM.

"RÁDIOS ROCK" OU "RÁDIOS ROCK IN RIO"?

A Rádio Cidade aparece hoje num contexto diferente ao de 1995, quando tentou "definitivamente" se passar por "roqueira", depois da tímida experiência de 1985-1989 que serviu de "laboratório" para a 89 FM de São Paulo.

Afinal, a 89 e a Cidade encontram um contexto em que o poder midiático brasileiro não tem a força de outrora, as pessoas preferem a Internet do que o provincianismo da TV aberta, do rádio FM e da imprensa escrita brasileiros e a cultura rock há muito tempo deixou de depender das FMs brasileiras para se expressar no país.

A 89 FM regressou com muito alarde, elogios exagerados e surreais e uma "pequena ajuda" do baronato midiático e de uma TV Cultura "tucanizada". Mas encontrou um público roqueiro que há muito se afastou da emissora e que prefere se manter nas suas coleções de CDs e de arquivos MP3, já que não aceitariam ouvir só o hit-parade "roqueiro" tocado pela emissora.

A Rádio Cidade teve repercussão ainda mais fraca. Como a 89, virou uma "rádio rock" ouvida por não-roqueiros, e se reduziu a ser mera alimentadora de eventos de artistas internacionais promovidos pela indústria do entretenimento ancorada pela empresa Artplan, do empresário Roberto Medina.

Ou seja, a razão de ser da Rádio Cidade e da 89 FM nem é pela sua reputação na cultura rock, que se revela baixíssima, devido às duras críticas recebidas pelas emissoras nos últimos 15 anos e que as fizeram suspender a programação "roqueira" durante muito tempo, mas pelo fato de seus donos serem aliados e parceiros mais confiáveis para os interesses de Roberto Medina e seus asseclas.

Já existem comentários que revelam que o rótulo "rádio rock" adotado pela 89 e pela Cidade (esta de maneira menos explícita) não passa de uma elipse, recurso gramatical que oculta termos que são entendidos implicitamente pelo contexto. Neste sentido, as rádios na verdade deveriam ser definidas como "rádios Rock In Rio".

ROQUEIROS ESTEREOTIPADOS E ALTERNATIVOS TOCADOS PARA AS "PAREDES"

O que se observa nas campanhas publicitárias da Rádio Cidade é a exploração de uma imagem caricata, estereotipada e até infantilizada do roqueiro, sobretudo a partir de um anúncio que diz que um hipotético publicitário de 29 anos se transformou numa criancinha fantasiada de "roqueiro rebelde".

Houve também "roqueiros" cheios de tatuagem, botando língua para fora ou fazendo o sinal do demônio com a mão, dentro daquela "rebeldia" que agrada muito "titio" Medina. Toda essa rebeldia de fachada que transforma a imagem do roqueiro num completo idiota.

O repertório musical foi aliás o aspecto mais fraco notado pela Rádio Cidade, que preferiu se projetar como uma rádio "de locutores". Até o ex-casal Vanessa Riche e Alex Escobar - apresentador do Globo Esporte, da Rede Globo, que se lançou no Rock Bola da Cidade - apareceu para darem depoimentos. A ex-locutora da rádio, Monika Venerabile, teve destacada presença como convidada especial.

Supostamente ancorado no "rock em geral", a exemplo da 89 FM paulista, a Rádio Cidade não foi além do rock convencional e na divulgação parcial e superficial de bandas consagradas ou alternativas que, na prática, eram tocadas para "as paredes", já que não fazem parte da preferência de seu público, cujo gosto não vai muito além de nomes como Offspring, Charlie Brown Jr. e Guns N'Roses.

Numa observação mais cautelosa, mesmo a divulgação de bandas novas não é incondicional, mas feita mediante alguma conveniência. Nomes como Arcade Fire, Imagine Dragons, Black Keys e Panic At The Disco, para não dizer Strokes e Franz Ferdinand, só são tocados porque aparecerão em algum festival de música realizado no Brasil. Não fosse isso, nem fazendo simpatias ou rezando novenas.

Há também que observar certos contextos. Por que será, por exemplo, que a Cidade, pouco afeita ao blues, passou a dar espaço para a carreira musical do ator inglês Hugh Laurie? Ora, não é preciso muito: ele tornou-se popular pelo público juvenil através do famoso personagem mal-humorado que protagonizava o extinto seriado House. Não fosse isso, nem com prantos.

Para agravar, se entre 1995 e 2006 - quando a Rádio Cidade se passou por "roqueira" por duas etapas, uma sozinha, até 2000, e outra, a partir de então, como afiliada da 89 FM - a emissora praticamente estava sozinha na sua reserva de mercado, a ponto de esnobar as tentativas de concorrência da Rocknet (apenas rádio digital, restrita à Internet) e da Fluminense AM, hoje enfrenta concorrência.

A Kiss FM, rádio paulistana cujo dono pretende ressuscitar a TV Excelsior, mesmo com todos os senões de tocar o chamado "metal farofa" (Bon Jovi, Guns N'Roses, Mötley Crüe, Poison e similares) e por vezes botar vinhetas e locução em cima das músicas, oferece um diferencial de tocar também bandas e artistas solo seminais da história do rock, em se limitar aos hits básicos.

Há também a concorrência da Fluminense AM, dentro do projeto Maldita 3.0 de Alessandro ALR, que busca ampliar e aperfeiçoar o desempenho que a Fluminense FM teve entre 1991 e 1994, sem os defeitos que depois caraterizariam a Rádio Cidade, acrescido de uma criatividade adotada pela Fluminense AM em 2001-2002 e da rádio digital do Grupo Fluminense, a Maldita FM.

Com isso, a Rádio Cidade sai enfraquecida. Ela está datada, ineficiente e antiquada para o âmbito da cultura rock hoje em dia. Ela fica soando mais a Mix FM de São Paulo - quando ela não tinha afiliada no Rio de Janeiro - , que começou com repertório "roqueiro" mas com linguagem pop mais escancarada.

Sem usar a palavra "rock" no logotipo, a Cidade parece estar preparada quando um dia tiver que assumir o pop de vez. Das três que, em tese, exploram o rock no rádio, a Cidade é a que não tem personalidade ideal para rádio de rock e é a com mais baixa reputação entre o público roqueiro autêntico.

Sem falar que ela perde não só para a Kiss e a Flu AM, mas para MP3 e coleções pessoais de CD dos verdadeiros roqueiros, que não se contentam em ouvir uns poucos hits de suas bandas tocados por FMs oportunistas.

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