sábado, 29 de março de 2014

1964 E AS UTOPIAS INTELECTUAIS DE ANTES E DE HOJE

HÁ QUEM ACREDITE QUE AS FAVELAS SÃO POR SI SÓ "SOCIALISTAS"...

Por Alexandre Figueiredo

Intelectualidade "bacana". Intelectualidade "sem preconceitos". Intelectualidade "anti-elitista". Mas intelectualidade preconceituosa à sua maneira, elitista em seu jeito, nada bacana por adotar uma postura paternalista para a cultura popular, e intelectualidade medrosa incapaz de assumir posturas ideológicas firmes.

A intelectualidade que quer a bregalização do país adota posturas muito mais ingênuas do que a intelectualidade que se reunia nos salões do ISEB e dos CPCs da UNE e nos cineclubes que fomentavam as ideias para serem aplicadas nas produções do Cinema Novo. Evidentemente, a intelectualidade de 1964 teve sua ingenuidade, mas a de hoje chega a ir longe demais.

Em 1964 se acreditava que a revolução socialista brasileira se daria com o apoio da burguesia nacional, numa aliança que se acreditava fácil com o Estado trabalhista e com o Partido Comunista Brasileiro, que mal havia tranferido o nome "Partido Comunista do Brasil" para o maoísta PC do B.

Os intelectuais de então sonhavam que bastasse transformar as canções folclóricas em panfletos comunistas para que as classes populares pudessem implantar a revolução socialista no Brasil. Havia também a glamourização da pobreza, mas não a das favelas, mas a do agreste nordestino. Mas, por incrível que pareça, as utopias de 1961-1964 eram muito menos confusas que as de hoje.

A glamourização da pobreza e do subdesenvolvimento, que transformava a condição de Terceiro Mundo (quando havia o Primeiro Mundo capitalista e o Segundo, comunista) em orgulho brasileiro, numa espécie de "complexo de vira-lata" transformado em causa militante.

Eram outros tempos, outros sonhos, que se tornaram impotentes. A burguesia nacional se aliou à burguesia entreguista nos salões do IPES-IBAD, defendendo depois a derrubada de João Goulart e a instalação da ditadura militar. Ela deixou os intelectuais da época na mão, preferindo se vincular aos interesses capitalistas dos EUA e seus representantes e clientes brasileiros.

E a utopia de hoje? Ela é muito mais confusa. A intelectualidade cultural dominante de hoje, que acredita num Brasil brega e vulgar, pensa a cultura popular com sotaque neolibelês bastante carregado, mas jura que está defendendo uma abordagem "socialista" e "revolucionária".

Tentam inverter as coisas, como no caso do machismo do "funk", que seus ideólogos - e sobretudo suas ideólogas - definem como "feminismo", e defendem ídolos, cantores e conjuntos que eram aliados da ditadura militar ou, se eram censurados, não era por qualquer letra revolucionária, mas tão somente por letras sobre sexo que não são tabu sequer nas reuniões da Opus Dei.

Fazem uma glamourização da pobreza ainda mais radical, se orgulhando de um neosubdesenvolvimento que acreditam se resolverem facilmente com as verbas do Ministério da Cultura e com a informatização plena e dotada de novas mídias digitais. Como se mais dinheiro e mais eletrônica melhorassem em si a vida das classes populares.

Não conseguem mais explicar se são contra ou a favor da mídia. Os intelectuais pró-brega preferem o fogo amigo de falar mal dos astros da mídia reacionária, enquanto evitam polemizar com intelectuais realmente progressistas. Esculhambam um Marcelo Madureira que poderia lhes socorrer num momento de agonia, mas elogiam um Emir Sader com o qual poderiam ter divergências violentas.

Se a intelectualidade cultural de 1961-1964 era um tanto ingênua e sonhadora, e de certo modo impotente e imprevidente, a intelectualidade cultural de hoje é esquizofrênica, confusa, medrosa, que não assume seu conservadorismo pró-brega, pró-mercantilista e pró-ditadura midiática.

Disfarçam seu neolibelês com a falsa postura de "progressistas" só porque se apoiam no rótulo "popular" numa abordagem, em tese, "positiva". Seu esquerdismo oco e falso chega a ser bem menos convicto do que o dos antigos pensadores de 1964.

Os intelectuais de 1964 mal conseguiam ler os livros de Karl Marx. Mal conseguiam debater projetos socialistas sem adaptar à realidade brasileira ideias relacionadas à Revolução Cubana e a Revolução Russa, pois mal conseguiam discutir questões como a mais-valia e a Reforma Agrária.

Os de hoje, pior ainda. Endeusam o "livre-mercado", querem que o socialismo do Brasil tenha uma aura de Brooklyn, bairro pobre de Nova York, nas casas pobres de Belém, de Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo etc. Veem as favelas como "Disneylândias" paradisíacas cercadas de lixo, casas mal construídas, esgoto e outras degradações, a apostam nessa visão como base para seu idealismo tosco.

Eles seguem Francis Fukuyama pensando que estão segundo Emiliano Zapata e Ernesto Che Guevara. Acham que qualidade de vida é só derramar dinheiro nas periferias, sem que seja feita qualquer transformação real na vida das pessoas. Acham que socialismo é ter mais consumo e menos cidadania, algo que tem mais a ver com o neoliberalismo mais radicalmente direitista.

Por isso estamos à mercê de mais uma crise. No passado, os intelectuais esquerdistas mais ingênuos se desiludiram tanto que vários deles passaram para a direita ideológica, como Arnaldo Jabor, Ferreira Gullar e José Serra.

No presente, o que vemos é a intelectualidade "bacana" transtornada, sem poder explicar por que os funqueiros, numa manobra similar à da burguesia nacional de 1964, preferiu se aliar à mídia direitista apunhalando as esquerdas médias pelas costas. E não conseguem explicar por que o projeto de um Brasil mais brega não assusta em um só segundo sequer os barões da grande mídia.

Por isso, mais uma vez, um sinal de alerta. Quem serão os neocons de amanhã? De que se servirão os intelectuais "bacanas" de hoje nos próximos anos? Eles preferirão morrer de fome lutando por um socialismo que no fundo não acreditam ou seguirão a rota de desilusões que Jabor, Gullar, Serra e os Marcelo Madureira, Sônia Francine e Lobão que vieram na frente?

O futuro não é uma fotocópia do presente. A confusão intelectual de hoje é perigosa, porque, no âmbito das transformações sociais, poderá revelar um conservadorismo latente como a lava de um vulcão adormecido prestes a explodir.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...