terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

SER POBRE NÃO É NECESSARIAMENTE SER CRIATIVO


Por Alexandre Figueiredo

A tão badalada intelectualidade cultural dominante, com seus jornalistas culturais "tarimbados", seus cineastas que "recebem muitos prêmios" e acadêmicos que "sabem tudo das coisas", todos com seu privilégio inabalável de visibilidade, acham que o valor da cultura popular está no fato de fulano ser pobre e vir da favela.

O cara faz uma coisa "qualquer nota", é gênio porque veio da periferia, porque "se virou" em criar alguma coisa, e por isso virou, por si só, um "gênio visionário" e um "artista revolucionário" que se "perceberá" duas décadas depois.

É uma visão hipócrita, porque a intelectualidade "mais bacana" assume sua complacência explícita com a mediocrização cultural, e ela mesma vê genialidade até em mendigo dando sorriso banguela e, bêbado, rebola nas ruas como se parodiasse uma odalisca.

"É o suprasumo da sabedoria pop", aclama um acadêmico de uma universidade. "Ele desafia a moral elitista estabelecida", comemora o jornalista cultural. "De forma impressionante, um mendigo está conectado com as novidades globais da cultura pop, que expressa à sua maneira intuitiva e criativa", narra a cineasta documentarista.

Chega-se mesmo a dizer que o povo pobre é "criativo" por ser re-criativo, por "sabiamente" traduzir em "linguagem própria" os elementos culturais trazidos "inocentemente" pelo rádio e pela TV. É impressionante a possibilidade de fazer trocadilho entre "re-criativo" e "recreativo".

O paternalismo "anti-paternalista" da intelectualidade que "tudo sabe e tudo vê", só porque entrevistou muita gente, ganhou prêmios diversos e atrai aplausos de uma plateia condescendente, comete sérios equívocos para legitimar essa "cultura popular transbrasileira".

Primeiro, na sua "Disneylândia das periferias" em que o pobre vira "ultramoderno" só porque usa uma camiseta com alguma palavra ou frase em inglês, os intelectuais "mais bacanas" ignoram que rádios e TVs são controladas por oligarquias e que a "cultura popular" que eles conhecem é controlada por ricos empresários.

Em vez de assumir essa realidade, eles chegam a pregar que o poder das rádios está nos "humildes" e "combatentes" programadores de rádio e gerentes artísticos, "gente como a gente", e que os empresários do entretenimento são "tão pobres quanto um engraxate".

Com isso, eles tentam livrar a culpa de fazerem propaganda do coronelismo midiático, por acreditarem que ele "não existe". E aí, por exemplo, criam dois Parás, na ironia de Belém, a capital paraense, ser homônima à conhecida cidade palestina, um Pará de conto-de-fadas que produz tecnobrega e "forró eletrônico", e um Pará real que sofre os abusos do poder coronelista, que se reflete na capital.

CRIATIVIDADE NÃO É INVERSA AO PODER AQUISITIVO

Alguns intelectuais mais moderninhos chegam mesmo a acreditar que o máximo da cultura popular é ter um sâmpler na mão e uma ideia na cabeça. Todo mundo vira genial. É só vir das favelas. Mas o fato de alguns dos grandes nomes de nossa cultura terem vindo dos morros não significa necessariamente que a criatividade ocorra em proporção inversa à do poder aquisitivo.

Mas mesmo essa ideologia de "poder aquisitivo", como a ideia de "negritude" transmitida pela intelectualidade "bacaninha", é trabalhada de forma confusa, pretensamente simbólica. Dessa forma, MC Guimé falando de tênis de marca e carrões caríssimos é "pobre", e, sendo ele branquelo, é "negro" só porque faz "funk".

Em compensação, um Pixinguinha negro e de origem pobre é "branco e aristocrático" por causa da música que faz, sambas e chorinhos com tempero jazzístico, que o músico fez ressoar nos melhores bailes de seu tempo.

A intelectualidade manipula o discurso de tal forma que você se sente tentado a acreditar nela. Se a bregalização é a única via para a "revolução social" no Brasil, mesmo que seja à mercê do subemprego de camelôs e prostitutas e do humilhante recreio do alcoolismo que dizima idosos, os intelectuais criam todo um argumento confuso mas suficientemente sedutor para atrair a opinião pública.

O que vale é o mundo de cor e fantasia. Deslizamentos de terras, enchentes em subúrbios, tiroteio entre bandidos, estupros de mocinhas adolescentes que desaparecem das favelas por se sentirem atraídas por rapagões de classe média, tudo isso não aparece no discurso intelectual tão badalado, a não ser para eles dizerem que "não falam só de coisas boas".

Mas mesmo assim os problemas viram letra morta. Para a intelectualidade, problema é solução. A favela é "coisa linda", "arquitetura pós-moderna", o sofrimento dos pobres é a diversão de jornalistas culturais, antropólogos, sociólogos e cineastas que juram que entendem de "cultura das periferias", mas vivem isolados nos seus apartamentos confortáveis.

A intelectualidade não entende os problemas da educação pública, dos baixos salários, da insegurança, da precariedade dos serviços, e de tantos outros transtornos vividos pelo povo pobre. Para o intelectual "bacaninha", o que importa é que ser pobre, por si só, é "uma coisa linda e admirável".

Fico até imaginando como ficarão os intelectuais "bacanas" de hoje, que fazem pregação nos meios progressistas mas estão a serviço free lancer dos interesses do poder midiático-mercadológico, quando os pobres realmente romperem com seus estereótipos e se recusarem a assumir uma visão de "periferia" imposta pelas "inocentes" emissoras de rádio e TV e seus "humildes" executivos.

Eles, que acreditavam na glamourização da miséria, poderão sofrer uma reviravolta ideológica, protestando ao verem um jovem favelado se recusar a ser MC e passar a tocar violão e gaita e a compor grandes e engenhosas melodias.

A intelligentzia ficará apavorada, seus ideólogos irão protestar: "pobre de alma elitista", "vítima da pressão moralista da alta sociedade", "vítima manipulada pelo patrulhamento das dondocas", irão gritar os intelectuais "sem qualquer tipo de preconceito", mas muitíssimo preconceituosos.

Berrarão feito verdadeiros "urubólogos", contra progressos sociais verdadeiros nas classes populares, vistos pela intelectualidade cultural dominante como "abomináveis" só porque rompem com os estereótipos que ela acredita serem os ideais para definir a "cultura das periferias".

Ser pobre é, simplesmente, não ter dinheiro. Se alguém é criativo ou não nas classes pobres, é questão das mentes das pessoas, de sua formação sócio-cultural e, acima de tudo, da formação de sua sensibilidade para fazer alguma arte. Não é porque ele tem menos dinheiro que se torna mais criativo.

Se a intelectualidade "mais legal do Brasil" aposta em classificar como gênios qualquer artista "da periferia" que faça algo "qualquer nota" e expresse algum coitadismo, é porque ela prega sua visão "bondosamente" elitista para as classes populares.

Para tais intelectuais, o pobre não precisa fazer cultura de verdade, basta fazer qualquer bobagem e mostrar sua pobreza no comprovante de renda. Aí o jornalista cultural "bacaninha" irá divulgar o coitadinho da hora e tudo fica na mesma. Enquanto isso, a gente fica esperando pelos verdadeiros novos gênios que no passado eram fáceis de se encontrar nas favelas, roças e subúrbios.

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