sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

PINTURA PADRONIZADA E A TRAGICOMÉDIA DA "MOBILIDADE URBANA" NO RJ


Por Alexandre Figueiredo

Pode parecer que a pintura padronizada seja apenas uma questão de pintura, mas ela, além de causar muita confusão para os passageiros de ônibus - confusão que não é amenizada com a exibição de logotipos de empresas nos ônibus de outras cidades, nem a colocação de nomes em letreiros digitais - , tornou-se um véu a acobertar muitas irregularidades no sistema.

Além disso, a medida tornou-se um símbolo de uma série de dramas e tragédias que atravessa o Rio de Janeiro, cada vez mais sacrificado por congestionamentos gigantes e por diversos transtornos e acidentes que chegam a causar mortes, que atingiram até atleta de ciclismo e produtora de TV.

A pintura padronizada acabou tornando o símbolo desse sistema desastrado de ônibus, vigente no Rio de Janeiro em 2010. E só o fato de empresas diferentes exibirem a mesma pintura já mostra que a coisa é muito pior do que se pode imaginar.

Primeiro, porque a pintura padronizada é uma comunicação de que a Prefeitura do Rio de Janeiro impõe sua imagem nas frotas de ônibus. Isso significa uma intervenção. As empresas, particulares, não podem exibir suas identidades visuais e, se a Prefeitura carioca impõe sua imagem, através da "pintura dos consórcios", é porque ela realiza uma intervenção nas empresas.

Isso em si já cria uma crise. Afinal, o sistema de ônibus é uma concessão da gestão municipal para empresas licitadas. As empresas levam as linhas concedidas, mas o visual fica com a Prefeitura. É como se os ônibus ficassem retidos pela Prefeitura, que na prática vira "dona" das frotas e cria uma crise de responsabilidade.

Daí, o Secretário de Transportes vira um dublê de administrador dos ônibus, mais mandando do que assumindo responsabilidades. E os empresários de ônibus, em vez de terem seus poderes limitados, estendem seu poder para a máquina eleitoral, já que, com a intervenção feita sob o rótulo de "consórcios", o sistema de ônibus é entregue à politicagem.

Junta-se a isso outros aspectos da administração lamentável de Eduardo Paes, dos quais só salva a derrubada do Elevado da Perimetral, mas mesmo assim não sem controvérsia e feita de forma equivocada, sem aproveitamento social da área envolvida.

Eduardo Paes é do tipo que é capaz de rasgar a Constituição Federal e a do Rio de Janeiro para impor seus interesses. Ele tem uma concepção de mobilidade urbana que é só sua e não abre mão disso. Isso vem de seu padrinho político, Sérgio Cabral Filho, que também tem suas manias autoritárias.

Tudo isso gerou uma série de desastres e tragédias que se vinculam direta ou indiretamente a seu grupo político, que se desgasta dramaticamente. Das quedas de edifícios, explosões de bueiros e restaurantes, acidentes de ônibus e outros incidentes, há vários mortos e feridos que a gente pergunta se Paes e Cabral Filho não deveriam ser culpados por "genocício culposo".

O que se nota é que há bastante tempo o Rio de Janeiro deixou de ser a Cidade Maravilhosa. Não por culpa sua, mas pelos abusos de autoridades que criam um modelo de cidade urbana que na maioria das vezes se choca com o verdadeiro interesse público, que não é o "interesse público" das promessas de palanque ou das pesquisas de mentirinha dos gabinetes de tecnocratas.

Por isso, a situação está dramática, já a partir do modelo de transporte coletivo, que segue concepções vindas da ditadura militar - é bom lembrar que Jaime Lerner era o "bom aluno" que cursou a UFPR comandada pelo ministro da ditadura, Flávio Suplicy de Lacerda - , mas também em outros aspectos arbitrários e antisociais.

Por enquanto, as autoridades tentam afirmar que os problemas serão resolvidos "da melhor maneira". Eles prometem realizar "estudos" para tomar as medidas cabíveis, a maioria de paliativos. Só que eles tentam resolver os problemas sem que possam eliminar justamente o principal: os próprios problemas.

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