sábado, 8 de fevereiro de 2014

"PAGODÃO" CAUSA MAIS PROBLEMAS NA BAHIA


Por Alexandre Figueiredo

Enquanto no "funk" as baixarias são consideradas pela intelectualidade "bacaninha" como "livre expressão da juventude", e que mesmo atos de pedofilia e exploração sexual de adolescentes são vistos como "iniciação sexual", assim como a pornografia é vista como "discurso direto", na Bahia o "pagodão", com o mesmo apelo "sensual", causa sérios problemas e é repudiado pela sociedade.

Em dezembro passado, o grupo de "pagodão" Abrakadabra lançou no YouTube o clipe da música "Tigrão Gostoso", que mostra os chamados "putões" - como é o estereótipo caricato do negro baiano, visto como "tarado", "bobo alegre" e "bombado" - perseguindo uma garota, visando estuprá-la.

O clipe causou repercussão negativa, na medida em que sugeriu apologia ao estupro, algo que mesmo o "grandioso" conjunto É O Tchan havia feito, através da segunda estrofe da música "Segura o Tchan", de 1995. Na época, porém, a blindagem intelectual em prol do grupo baiano era grande e o som do grupo era divulgado até mesmo para o público infantil, impunemente.

Felizmente, as coisas começam a mudar na Bahia e a deputada estadual Luíza Maia (PT-BA) se mobiliza contra abusos assim. Ela já entrou em ação junto ao Ministério Público para pedir punição contra o grupo, por causa da apologia ao estupro e da exploração leviana da imagem da mulher baiana.

E, mais uma vez, há a reação esnobe no outro lado, que é a do empresário do grupo, Diego Pereira, que tentou argumentar que o clipe é "uma obra de ficção". Sem definir se a situação era vista de forma positiva ou negativa, Diego tentou se desculpar tentando comparar o clipe com o enredo de uma novela de TV, dizendo que não iria processar contra as baixarias exibidas nessas produções.

No entanto, os movimentos sociais condenaram severamente o clipe, vendo claramente o propósito de apologia ao estupro, que já era observado desde o começo da onda do "pagodão", seja com o É O Tchan, seja com grupos tipo Pagodart (da música "Tapa na Cara") e outros com seus refrões tipo "Toma, toma", "Tira e Bota", "É na madeirada".

Aqui segue um manifesto contra o clipe, uma boa lição para a intelectualidade "ativista" do eixo Rio-São Paulo, que se derrete com as baixarias causadas pelo "funk" e ainda acusam de "patrulhas moralistas de 1910" aqueles que se voltam contra as baixarias funqueiras:

Nota de repúdio ao clipe “Tigrão gostoso”, da Banda Abrakadabra

Nós, movimentos sociais, entidades estudantis e organizações, viemos declarar nosso repúdio à banda conquistense Abrakadabra e seus patrocinadores pela veiculação do clipe da música “Tigrão Gostoso”, disponível no youtube. No início do clipe, retrata-se uma situação que é corriqueira na vida de todas as mulheres, que vivem diariamente o medo e a insegurança de serem violentadas ao andarem sozinhas à noite ou em ruas desertas. Entretanto, ao invés de se denunciar a violência sexual, o clipe se desenrola de forma a enaltecer a posição do estuprador, colocado como a figura do “tigrão gostoso”, de modo a associar a agressividade à masculinidade. Por outro lado, reforça a imagem da mulher como um ser frágil e submisso, sem autonomia de vontade, sendo explícita a apologia ao estupro durante toda a música, como pode-se perceber no trecho: “é na hora do espanto que o bicho vai pegar”.
Infelizmente, esse não é um caso isolado e não se relaciona apenas a um determinado estilo musical. Cotidianamente, as infinitas formas de violência contra a mulher passam despercebidas nas rádios, na TV, nos outdoors. A exemplo disso, temos as propagandas de cerveja e de determinadas festas, em que os corpos seminus das mulheres são utilizados com objetivos comerciais, reforçando o estereótipo equivocado da mulher como mercadoria, como objeto sexual, reproduzindo discursos e práticas machistas, num processo de mercantilização do corpo feminino.
A violência é utilizada como forma de controle sobre a vida, o corpo e a sexualidade das mulheres, como uma punição para aquelas que não obedecem aos padrões de conduta a elas impostas. O estupro é talvez a manifestação mais cruel da violência machista, pois anuncia o fato de que a mulher não tem possibilidade de escolhas sobre o seu próprio corpo, e que nossas vidas estão inscritas no limite da subordinação aos homens. O medo do estupro restringe a liberdade de ir e vir das mulheres, viola o seu direito de livre expressão (de poder se vestir como quiser, por exemplo), sendo que a cultura do estupro culpabiliza a mulher pela violência sofrida, pelo fato de estarem utilizando determinadas roupas ou frequentando determinados locais.
No Brasil, as estimativas acerca da violência crescem assustadoramente a cada ano (somente no ano de 2012, o número de estupros notificados chegou a 50 mil), e casos de estupro coletivo indignam a sociedade, que se mobiliza exigindo a punição, como o da Banda New Hit, cujos 9 integrantes, no ano passado, violentaram covardemente duas jovens menores de idade após um show em praça pública na cidade de Ruy Barbosa, na Bahia. Diante disto, um clipe como este representa uma afronta aos direitos das mulheres e não ficará por isso mesmo! É inadmissível que uma banda lucre a partir da naturalização da violência, da apologia ao estupro e do incentivo à transfobia! Vale lembrar aos integrantes da banda Abrakadabra que apologia ao estupro é CRIME punido com detenção pelo Código Penal, em seu artigo 287.
Desta forma é que iniciamos esta campanha de denúncia, exigindo que a produção da banda e os patrocinadores se pronunciem e que retirem do ar o clipe, contando também com a colaboração de todos e todas que leiam esta nota para que DENUNCIEM O VÍDEO NO YOUTUBE. Importa ressaltar que não se trata de preconceito ou aversão ao estilo musical, mas sim de uma indignação diante de uma apologia tão explícita à violência.
Não nos calaremos!
Contra a banalização da violência, seguiremos em marcha!
Assinam esta nota:
Marcha Mundial das Mulheres
Núcleo Maria Rogaciana
Núcleo Negra Zeferina
União de Mulheres de Vitória da Conquista
Levante Popular da Juventude
Consulta Popular
Movimento Negro Unificado
Sindicato dos Bancários de Vitória da Conquista e Região
Sindicato dos Trabalhadores em Limpeza Pública da Bahia – SINDILIMP
Circuito Fora do Eixo
Grupo ELO
KIzomba Lilás
Enegrecer – Coletivo Nacional de Juventude Negra
Rede Ecumênica da Juventude – REJU
Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher – NEIM/UFBA
Observatório pela Aplicação da Lei Maria da Penha – OBSERVE
Coletivo de Diversidade Sexual FINAS
Grupo de Lésbicas SAFO
Diretório Central de Estudantes – UFBA
Centro Acadêmico de Ciências Sociais/ UESB
Centro Acadêmico Ruy Medeiros – Direito/ UESB
Centro Acadêmico de Geografia – UESB
Centro Acadêmico de Nutrição IMS/UFBA – Gestão RenovAÇÃO
Centro Acadêmico de Comunicação – UESB
Centro Acadêmico Machado Neto – Direito/ FAINOR
Diretório Acadêmico de Engenharia Elétrica – IFBA
Centro Acadêmico de Filosofia – UESB
Diretório Acadêmico Luislinda Valois – Direito/ UNEB – Campus XX)
Federação de Estudantes de Agronomia do Brasil – FEAB
Associação Brasileira de Estudantes de Engenharia Florestal – ABEEF
GUNALE – Grêmio da União Aluno-Escola IFBA
PS: Estas são as empresas que patrocinam o clipe: Centor de Estética Dr. Humberto Neto; Zip Nautica Vitória da Conquista; Mil Coisas Moda Fitness; MNA Suplementos; Life Club Academia; danilonune.com.br; YagoBorges Designer Gráfico.

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