sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O REACIONARISMO NAS MÍDIAS SOCIAIS



Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade cultural dominante acredita no poder revolucionário das novas tecnologias digitais. Muito se teorizou sobre o poder "transformador" dessas novas mídias, sobretudo com otimismo descomunal, o que foi demonstrado em muitas palestras, artigos e reportagens, entre outros recursos discursivos.

Recentemente, as pregações sobre a "revolução digital" estão associadas a tecnocratas como o advogado e especialista em Informática, Ronaldo Lemos, da Fundação Getúlio Vargas e do programa Navegador da Globo News, ao Coletivo Fora do Eixo e aos integrantes da Mídia Ninja, grupo "ativista" que tentou desviar o foco dos protestos populares em 2013.

Só que a tão anunciada "revolução" simplesmente não aconteceu. Apenas houve uma mudança na transmissão das informações, que se tornaram ágeis, mas isso não tornou as pessoas necessariamente mais solidárias, progressistas ou inteligentes, antes mudou os mesmos processos sociais num outro contexto.

O reacionarismo na Internet, pelo menos no Brasil, surgiu desde que a nova tecnologia se popularizou. E envolve muita gente jovem, o que superou, há muito, o mito de que a juventude tenra é necessariamente rebelde e revolucionária. Há muito reacionarismo extremo, ao mesmo tempo raivoso e zombeteiro, de gente aparentemente "rebelde" e "moderna".

O meio social é que faz o jovem ser reacionário ou não. E existem muitos fascistas de 17 anos, que se enchem de tatuagens e piercings, ouvem som pesado, falam muito palavrão, escrevem mensagens desbocadas, são dotados da mais violenta ironia, do mais impiedoso sarcasmo.

Durante anos esquecemos que, na década de 1960, em pleno fervor da Contracultura, houve jovens reacionários ligados ao Comando de Caça aos Comunistas. Se levarmos em conta apenas o visual e a retórica, eles se passariam por beatniks vanguardistas socialistas.

A "galera do CCC" era composta por jovens que, da parte de homens, usavam barba sem bigode, vestiam suéteres de gola rulê sob ternos, falavam palavrão e eram zombeteiros, gostavam de guitarras elétricas e tudo mais. As mulheres pareciam sósias da Twiggy com o mesmo aparato "moderno".

A memória curta apagou essa imagem de juventude reacionária, de verniz "moderna" e "arrojada", e com a ditadura militar veio uma série de mimetismos ideológicos que fizeram muitos jovens reacionários parecerem "progressistas".

Mesmo numa prática de bullying - do qual fui vítima há cerca de 30 anos atrás; eu mesmo denominava a prática como "implicância" - , os valentões eram vistos sempre como pessoas simpáticas, atraentes e, pasmem, modelos de realização pessoal. Os mesmos valentões que xingavam rapazes "pouco convencionais" animavam até excursões de alunos.

Só nos últimos anos, quando os noticiários tiveram que abrir algum leque, por causa dos fatos sociais diversos, mesmo a mídia mais conservadora tem que engolir a existência de jovens reacionários. Até mesmo por uma questão de sobrevivência: tais jovens poderiam ser habilidosos "cães de guarda" nas mídias sociais.

No Orkut, ainda sob o reflexo do carisma do presidente Lula, vi muitos desses reacionários fantasiados de esquerdistas. "Socialistas" com QI de fascistas, praticando trolagem, mas exibindo nos seus perfis definições falsas como "esquerda-liberal" e falsas adesões a comunidades relacionadas a Che Guevara, Lula e Fidel Castro.

Eram pessoas neuroticamente neoliberais, dessas que acham que "toda música é comercial" e "até o ar que respiramos é mercadoria", mas numa contradição hipócrita, se revoltam quando alguém lhes acusa de neoliberais: "Neoliberal é a mãe", "Se eu sou neoliberal, então f***", reagem.

Aliás, como verdadeiros hipócritas, eles sempre batiam ponto em comunidades como "Odeio Hipocrisia" e "Odeio Gente Hipócrita". Suas posturas farsantes sugerem até mesmo o refrão: "Eu sou da paz, sou 'déis' (nota dez), sou tudo de bom e sou show de bola", reunindo declarações típicas dessa patota digital.

Durante os dois governos Lula, a maioria dos internautas reacionários adotava um verniz "progressista". Depois da posse de Dilma Rousseff, isso mudou, ressurgindo reacionários sinceros, mas igualmente agressivos. Com o desgaste do Orkut causado pelo extremo reacionarismo e mesmo casos de violências, o Facebook virou alternativa para o outro portal.

No Facebook, aquele reacionarismo do Orkut diminuiu o tom, enquanto florescia uma consciência contestatória dos retrocessos sociais que não havia antes. Mesmo assim, surgem pessoas não-reacionárias de pensamento conservador, ao lado de reacionários histéricos em outros contextos, não mais a "galera tudo de bom" que forjava "guevarismo" com QI ultradireitista.

Os atuais conservadores e reacionários exaltam o capitalismo e defendem valores neoliberais, diferentes daquela patota que dizia que "tudo é mercadoria" e se disfarçava com falsas adorações a Che Guevara. Embora com algumas posturas pertinentes, sobretudo contra o fanatismo pelo futebol e contra a imbecilização cultural, a postura pró-capitalista doentia preocupa, e muito.

Isso é certo porque há 50 anos atrás havia gente com esse mesmo ponto de vista, capaz de aceitar regimes autoritários - como acabou sendo a ditadura militar - , forjando lucidez e objetividade para camuflar posturas golpistas que, uma vez implantadas, promoveram a degradação social que até agora não se resolveu.

Vira um círculo vicioso. A ditadura militar ajudou na bregalização do país, promovendo a degradação sócio-cultural que fez o povo pobre deixar de ser ele mesmo para ser uma caricatura montada por emissoras de rádio e TV, revistas e jornais "populares" e pela pressão violenta das campanhas publicitárias que vendiam "sonhos" surreais e de natureza sócio-cultural alheia.

Querer que a situação se resolva com outra ditadura, com mais outro entreguismo, é tentar salvar a vida de um moribundo com soda cáustica. Ela só agravará o que já é grave, e com outra ditadura poderemos ter um país ainda mais brega, com reacionários pseudo-esquerdistas ou direitistas escancarados impondo, pelas mídias sociais, uma visão ditatorial aprendida com os generais.

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