sábado, 22 de fevereiro de 2014

INTELECTUALIDADE "BACANA" É AUTISTA?


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade "bacana" não conhece a cultura brasileira. E cada vez mais adota um discurso repetitivo investindo nos mesmos argumentos chorosos, cada vez mais maçantes, cada vez menos eficazes.

Tanto na Caros Amigos quanto no Le Monde Diplomatique Brasil há gente que, a pretexto de defender os rolezinhos, fazem propaganda do "funk". A choradeira está desesperada, as desculpas mais esfarrapadas - tipo "Eu não gosto de funk, mas reconheço seu grande valor para o povo pobre" - e o discurso cada vez mais apelativo e aparentemente unânime.

Enquanto tentam fazer de tudo para dizer que o "funk" é cultura, a realidade mostra que não é assim. O "funk" tem sua estética rígida, seu moralismo rígido definido e nivelado "por baixo", e o povo pobre não pode ultrapassar seus estereótipos, por mais que melhorem seu poder aquisitivo e tenham mais água e luz em suas casas e maiores proteções constitucionais.

Se o "funk" é machista, que se faça "feminismo" nos limites desse machismo, com mulheres e homens brincando de cães e gatos (ou "cachorras" e "tigrões"?). Se o "funk" fala errado, é porque tem que ser assim. Educação, cidadania, decência? Tudo isso é palavrão para os funqueiros para os quais os verdadeiros palavrões são "poesia" e "protesto artístico".

A intelectualidade "bacaninha" do Brasil - cujas vozes já se multiplicam em terceiros, como líderes comunitários, artistas performáticos, estagiários culturais e jornalistas nanicos que repetem o mesmo discurso choroso da intelligentzia - tenta criar um falso consenso na qual a cafonice cultural, o brega, o "funk", o grotesco, o piegas são a "verdadeira cultura do povo pobre".

AUTISMO?

O que se percebe no entanto é que a intelectualidade cultural dominante é, ela em si, uma elite. Seus ideólogos tentam se confundir com o povo pobre e suas vontades pessoais tentam se sobrepôr á vontade popular.

Esses ideólogos - de jornalistas culturais a antropólogos, de líderes comunitários a atores teatrais, de cineastas a músicos - que defendem a bregalização do país (inclusive a forma mais radical de brega que é o "funk") se acham os juízes máximos da cultura popular, num país em que Joaquim Barbosa preside o Supremo Tribunal Federal e Merval Pereira é "imortal" da ABL.

A intelectualidade cultural dominante acha que a MPB que só ela ouviu e apreciou e agora está cansada dela era ouvida pelo "povão". Acha que um Itamar Assumpção escondido em discos da Baratos Afins estava facilmente acessível ao pescador que vivia isolado nas entranhas da selva amazônica.

Tentam argumentar que a era da MPB acabou, que Chico Buarque está ultrapassado, enquanto tentam dizer que Waldick Soriano - que nunca foi mais do que uma paródia ruim de Vicente Celestino - era "moderno e sofisticado".

Em contrapartida, os intelectuais "bacanas" acham que ritmos como o tecnobrega e o forró-brega estão "em alta" no Norte e Nordeste, sem perceberem a ira popular que está cansada de ouvir esses ritmos que tratam o povo pobre como uma caricatura.

Da mesma forma, há muita gente nas favelas e outras comunidades pobres que não aprovam o "funk" e ficam preocupadas com a trágica volúpia que os jovens pobres estão sujeitos a sofrer no "saudável" entretenimento funqueiro. Na melhor das hipóteses, muitas adolescentes voltam de lá grávidas de filhos que não estão preparadas para criar sozinhas (e terão que assumir tal tarefa).

Suas convicções de "bom elitismo", seu etnocentrismo "cordial", tentam ser divulgados como se fossem sua "natural" inclinação para compreender, "sem preconceitos", a "vontade popular". Acham que seu julgamento é puro, que percebem o povo pobre "tal como realmente é", ignorando que a bregalização cultural foi condicionada durante décadas pelo coronelismo midiático.

A intelectualidade é autista? A impressão que se tem é que sim, porque a intelectualidade "mais legal do país" não compreende as contradições e problemas da sociedade. E, pior, nem chega a compreender seus próprios erros, já amplamente difundidos por aqui.

Esses intelectuais tão badalados continuam com suas visões sobre "cultura popular" que parecem desprovidas de preconceitos, mas são cheias de vícios piores e muito mais preconceituosos do que se pode imaginar.

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