sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

ÍDOLOS BREGAS NUNCA SE PREOCUPARAM COM AS "DIRETAS JÁ"

SÍLVIO SANTOS DÁ SEU MICROFONE PARA O ÍDOLO BREGA SÍLVIO BRITO - Com certeza, não foi para falar sobre a campanha pela volta das diretas.

Por Alexandre Figueiredo

Desde que se ascendeu a intelectualidade etnocêntrica, aquela considerada "bacana" por apostar na bregalização do país e creditar ao jabaculê radiofônico o futuro do folclore brasileiro, através de Paulo César Araújo, os ídolos popularescos sempre foram vistos, ainda que equivocadamente, como "subversivos" e "revolucionários".

Eles eram "revolucionários" porque se projetavam através da expressão do "mau gosto popular". E eram "subversivos" porque derrubavam valores estabilizados pelo patrimônio cultural brasileiro. Além disso, a intelectualidade, com seus documentários, monografias, reportagens etc, apostavam na tese de que basta ser vaiado pelo público e pela crítica para virar um "gênio" da música brasileira.

O lobby intelectual era tal que Paulo César Araújo era visto como se fosse o "sacerdote" do meio, ele com aquela pinta de pároco medieval, promovido a guru na Idade Mídia de hoje. Seu livro Eu Não Sou Cachorro Não chegou a ser definido como "Bíblia" e mesmo suas piores inverdades eram vistas como "verdades indiscutíveis" na abordagem da música brasileira.

O grande problema é que essa intelectualidade que se gaba em ser "contraditória e provocativa", já a partir do próprio festejado PC Araújo, é que sua tese de que os ídolos cafonas dos anos 70 apavoraram a ditadura militar esbarra em uma série de equívocos que desmentem essa visão.

Em primeiro lugar, a Censura Federal era composta de pessoas com diversas visões do que era "agressivo" ou não. Havia desde donas-de-casa de senso puritano a sargentos quase paternais mas severos, passando por muitos paranoicos. Há coisas que eram censuradas e nem por isso elas vão contra os interesses do regime militar.

Daí que a censura aos bregas se limitou apenas a interpretação errada de trocadilhos - como a canção "Torturas de Amor", que Waldick Soriano gravou em 1962 (!), mas a nossa intelectualidade "muito legal" de hoje atribuiu o tema de sua letra ao AI-5 - ou a aspectos comportamentais, como a música "Pare de Tomar a Pílula", de Odair José.

A História mostrou que Waldick e Odair, no fundo, nunca passaram de cidadãos conservadores, algo como os equivalentes brasileiros dos ultra-antiquados Perry Como e Pat Boone. Mas a intelectualidade cultural dominante sempre se empenhou em desafiar a realidade dos fatos e transformar os dois ídolos cafonas em "rebeldes combatentes".

Uma das provas contundentes de que os ídolos cafonas nunca representaram qualquer tipo de ameaça à ditadura militar - apesar dos clamores do "injustiçado" Paulo César Araújo - , é que eles nem estavam aí quando o assunto era se mobilizar pela redemocratização do país.

CHICO BUARQUE - "Demonizado" pela intelectualidade "bacaninha", ele sempre esteve atuante nos movimentos sociais.

Os ídolos cafonas apareciam nos programas de televisão, tranquilamente, e não havia qualquer tipo de preocupação com a redemocratização do país. Quer dizer, se eles, como cidadãos, possuem algum desejo, isso é outra coisa, mas a impressão que se tem é que, se a ditadura se prolongasse, eles nem de longe se sentiriam ameaçados com isso.

As manifestações pela redemocratização do país, ancorada pelo movimento Diretas Já, que começou um tanto "tímido" (pelo menos em termos de cobertura da imprensa) em 1983 e se tornou mais intenso em 1984, não contaram com a presença de um único ídolo cafona em seus comícios nem sequer em qualquer declaração realmente solidária.

E olha que Paulo César Araújo já estava em idade para ser universitário, nessa época, Pedro Alexandre Sanches já estava na adolescência e Hermano Vianna começava sua carreira de crítico musical e estudante de Antropologia enquanto seu irmão Herbert colhia os primeiros anos de popularidade com os Paralamas do Sucesso.

Em contrapartida, o "insuportável" Chico Buarque, o "coronel da Fazenda Modelo" nas palavras de Pedro Sanches, o "aristocrata" de um clã "decadente" (sic), sempre esteve solidário, ontem e hoje, aos movimentos sociais e as manifestações de esquerda, independente de serem sectárias ou não.

Chico Buarque sempre esteve do lado das esquerdas em momentos mais difíceis, e sempre se manifestou solidário aos movimentos sociais, coisa que os intelectuais "bacaninhas" ignoram completamente, por verem nele um "burguês insuportável que merece ser expurgado de qualquer escalão da Música Popular Brasileira".

"Demonizado" pela intelectualidade "mais legal do país", Chico tem opinião, iniciativa e ativismo, coisa que os bregas não possuem. No exemplo da imagem acima, o cantor brega Sílvio Brito aparece no programa Qual é a Música?, de Sílvio Santos - hoje patrão da ultrarreaça Rachel Sheherazade - , tranquilo respondendo as questões e ouvindo e contando piadas.

Fora desses palcos televisivos, a ditadura militar já agonizava numa série de crises políticas - iniciadas com o assassinato do jornalista Vladimir Herzog em 1975 pelos militares do DOI-CODI, sem qualquer consulta dos generais - , e nenhum brega parecia estar engajado com qualquer mobilização que pelo menos quisesse derrubar o regime.

Desse modo, a História, com H maiúsculo, está muito acima de posturas pessoais. Paulo César Araújo queria ser o "dono da História", manipulando os fatos históricos da música brasileira conforme seus interesses pessoais. Não deu certo. Os fatos depois se mostram e o doce etnocentrismo de muitos intelectuais badalados cai em contradição.

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