quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

"FUNK" E O CONSENSO FABRICADO PELOS INTELECTUAIS


Por Alexandre Figueiredo

É preocupante a supremacia de uma visão oficial de que o "funk" é associado ao ativismo sócio-cultural, vide a choradeira de intelectuais e ativistas diversos, e agora de mais gente "bacana" dizendo que ama o "funk", que acha tudo "legal" e que até as mulheres-frutas podem peidar na cara deles que eles ficam até com orgasmo.

Embora eles insistam no discurso da "ruptura do preconceito", e multipliquem dentro de seu circuito de visibilidade, prestígio e de uns bons egos intelectuais inflados pela projeção fácil, eles dotam uma postura cruelmente preconceituosa, embora dizer isso, para quem não tem o mesmo privilégio de visibilidade, como o nosso blogue, seja o mesmo que dar conselhos a surdos.

Prestando muito bem atenção, o "funk" é um ritmo bobo, superficial, dotado de sérias limitações artísticas e culturais. Chega a ser mais repetitivo e tedioso do que se imagina, e nada tem de vibrante nem de conscientizado.

O que fez o "funk" crescer foi a esperteza de DJs e empresários, e também de DJs-empresários, que vendo os "bailes funk" serem palco de atos violentos - fazer o quê, eles ocorrem em subúrbios que sofrem a influência do crime organizado - , passaram a criar um discurso pseudo-ativista a partir da aparente repressão policial a esses eventos.

E aí os chefões do "funk", cansados de ficar só subornando gerentes de rádio ou ficar arrendando a todo momento espaço em emissoras FM ou de TV aberta, decidiram financiar "por fora" teses acadêmicas, documentários e reportagens "sérias" para iniciar um discurso pró-funqueiro às custas da falsa imagem trabalhada ao gênero.

MARKETING "COM CATEGORIA"

Aproveitando a estagnação do discurso anti-funqueiro, que repete clichês de roqueirinhos peraltas, o discurso pró-funqueiro, mesmo com teses contraditórias e de veracidade duvidosa, adotou um aparato bastante sofisticado que passou a seduzir muita gente abastada.

Há alguns dias, o cineasta Fabiano Amorim, em artigo publicado no Diário do Centro do Mundo, afirmou que "gosta muito de funk". Pouco depois, no blogue Farofafá, o colaborador Kevin Assunção escreveu um texto sobre uma competição de MCs em São Bernardo do Campo, no ABC paulista.

Há muitos apologistas, gente diversa, que se alimenta e realimenta esse falso consenso em prol do "funk", criando um padrão ideológico de que as nossas elites sócio-culturais são muito "boazinhas", e defende-se o "funk" para que não se defenda, pelo menos com a ênfase que deveria, outras melhorias sociais.

É muito duvidoso que pessoas defendam o "funk" achando que isso é uma atitude progressista, quando vemos a Globo, a Folha e mesmo a Veja - espécie de Geraldo Alckmin em versão mídia impressa - apoiando o gênero com inegável e escancarado entusiasmo.

"FUNK" NÃO ROMPE PRECONCEITOS, MAS CRIA OUTROS MAIS "POSITIVOS"

Isso é sinal que a ideologia confusa defendida pelos funqueiros consegue enganar muita gente, e seu perfil ideológico torna-se um atrativo para pessoas que carecem ainda de uma observação mais apurada das coisas.

Afinal, "gosta-se" de "funk" não porque ele realmente valha alguma coisa, mas por sentimentos de paternalismo e curtição que fazem as elites esconderem suas hipocrisias e seus preconceitos. O "funk" nunca deixa alguém sem preconceitos, antes criasse novos e "mais positivos" preconceitos.

O cara não gosta do "funk" em si. Ele gosta daquilo que o "funk" é associado: boates alucinantes, noitadas movimentadas, curtição obsessiva e valores que possam fazer as elites parecerem mais "modernas", "inclusivas" e "socialmente participantes".

A ânsia da intelectualidade ver o "funk" trazendo aqueles ideais do Bronx e do Brooklyn, transformando São Paulo em Nova York, é para eles bastante confortante do que zelar por qualquer patrimônio cultural que o Brasil construiu com muito trabalho e sangue dos escravos.

Desconta-se a hipocrisia de tentar comparar "funk" e samba ou atribuir aos funqueiros uma negritude cultural que não existe, até porque muitos branquelos do "funk" usam essa falsa negritude para se autopromoverem.

O pessoal defende o "funk" porque ele é uma forma dupla de manipulação. Ele glamouriza a pobreza e faz com que as populações das favelas se contentem com as limitações sociais. Por outro lado, faz com que acadêmicos, cineastas, jornalistas e outros "bacanas" elitistas deem à sociedade a falsa impressão de que tais elites "possuem consciência social" e "são solidários às periferias".

Construído o consenso, o "funk" cria um simulacro de controvérsia e polêmica que na prática também inexiste. Primeiro, porque o "funk" nunca causou qualquer susto ou repugnância aos barões da grande mídia, que sempre foram receptivos e solidários ao gênero.

Segundo, porque é estratégia de marketing os patrocinadores "sentirem medo" de investir nos eventos funqueiros. Eles patrocinam, sim, mas omitem suas logomarcas porque sabem que seu público não é necessariamente funqueiro. Mesmo assim, o "funk" agrada em cheio os interesses das multinacionais (ou transnacionais, para ficar lado a lado do discurso "transbrasileiro").

O sério problema disso é que o pessoal "mais bacana" acaba prejudicando a cultura com esse discurso pró-funqueiro. Foi assim que, na Bahia, criou-se um discurso pela axé-music que gerou um mercado de exploração do mercado de trabalho e sonegação fiscal.

A monocultura da axé-music criou verdadeiros astros-magnatas, corruptos, sovinas e gananciosos. A monocultura do "funk" segue o mesmo caminho, agravado pela mania de coitadismo do gênero. Tudo parece "legal" hoje, mas é o discurso do conhecido MC, o MC Donald's, que queria que "amemos tudo isso" mesmo explorando vilmente seus próprios funcionários.

Os efeitos colaterais da "unânime" adesão da sociedade "bacana" ao "funk" não tardarão a vir.

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