segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

E A MPB "FOFINHA"?

TULIPA RUIZ E MARCELO JENECI - MPB bonitinha, mas inofensiva.

Por Alexandre Figueiredo

Existe a supremacia quase absoluta do brega-popularesco, que, a pretexto de querer conquistar "seus" espaços, tira a MPB autêntica dos seus próprios espaços. Mas existe também uma parcela da MPB autêntica que, no entanto, mais parece inofensiva e um tanto complacente.

Desde que a geração 90 da Música Popular Brasileira recusou a assumir a oportunidade de ruptura com a supremacia brega-popularesca e, pelo contrário, compactuar com a mesma, vide os casos de Adriana Calcanhoto e Zeca Baleiro, a música brasileira de qualidade carece de um poder desafiador e uma força artística prestes a deixar marca.

O que se observa são, como se queixavam muitos jornalistas culturais da fase intermediária entre a crise da revista Bizz / Showbizz (1991-1999) e a ascensão da intelectualidade "bacana" (2005-2013), artistas que se limitam a reverenciar o que já foi feito na MPB e agora partem para fazer um pop alegrinho, fofinho, convencional.

A gente observa, no mercado musical brasileiro, que existe um lobby para eliminar a cultura musical brasileira e substituí-la por um hit-parade "transbrasileiro", sob a desculpa de se promover um cenário musical "mais moderno, hiperconectado e globalitário".

Assim, se temos os tais "grandes sucessos", representados pelos "injustiçados" ídolos "populares" - pode ser Michel Teló, como Odair José, ou MC Gui (MC Guimé já não vale mais; a mídia golpista já mandou seu "beijinho no ombro" a ele) ou então um grupo de axé-music de segunda divisão que "se descobriu" fazer "canção de protesto" (?!) - , temos também o equivalente do pop adulto.

Daí a MPB "fofinha", cujos expoentes mais novos são os cantores Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci, que à primeira vista parece descompromissada e despretensiosa, mas o problema é que ela é pretensiosamente "despretensiosa", e um tanto inócua e insossa.

São canções bonitinhas, que parecem um pop simpático, levando às últimas consequências a MPB "feijão com arroz" de Ana Carolina e Jorge Vercilo, que já era bastante inócua para significar algum espírito de ruptura ou transgressão.

Hoje não temos artistas realmente transgressores na música brasileira. E, quando há, a intelectualidade "mais bacana do país" vem com seu habitual "linchamento", querendo derrubar nomes de criatividade e força de opinião como João Gilberto e Chico Buarque.

Tentam esses intelectuais - para não dizer os troleiros que, com sua reacionária delinquência digital, defendem os "sucessos do povão" como se fosse a nona maravilha do mundo - dizer que "transgressores" são os ídolos brega-popularescos porque, com sua expressão de "mau gosto popular", causam pavor nas "elites moralistas e preconceituosas".

O brega-popularesco constrói sua supremacia assim, com esse discurso. Ele está no poder, mas finge que não está, porque seu "mau gosto" é visto como "subversivo". Enquanto isso, quem quer música de qualidade é premiado com artistas inócuos que até são dotados de talento significativo e informação cultural, mas suas posturas são inócuas, insossas e até mesmo muito ingênuas.

Eles acabam criando uma leve contraposição ao brega-popularesco como o pop adulto ou mais sofisticado se contrapõe ao hip hop e ao pop dançante nos EUA. É como contrapôr James Blunt a Justin Bieber, lá fora, e aqui se contrapõe Marcelo Jeneci a Luan Santana.

Isso significa que um poderoso lobby de intelectuais não quer mais zelar pelo patrimônio cultural brasileiro. O que eles querem é hit-parade, mesmo. Criam um discurso "revolucionário" que para nada serve, porque o que querem mesmo é que a cultura brasileira se submeta às regras de "livre mercado". Esse papo de "apavorar as elites" é apenas um detalhe.

No fundo, essa conversa de "cultura transbrasileira" não passa de um engodo neoliberal. Querem apenas que a cultura brasileira seja uma adaptação das regras do paradão dos EUA. Querem que imitemos os ianques, só que "com categoria". E depois esses intelectuais ficam chorando quando chamamos eles de neoliberais.

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