domingo, 16 de fevereiro de 2014

DOIS ERROS GRAVÍSSIMOS DA INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA

ESTÚDIO DA AFILIADA DA NATIVA FM, NO RIO DE JANEIRO - Intelectuais imaginam as rádios FM como guias do "novo folclore brasileiro".

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade cultural dominante, "sem preconceitos", "paladina da cultura das periferias", "porta-voz da cultura dos excluídos" e outros adjetivos atraentes, pode ser desmascarada por apenas dois graves erros cometidos por ela e que põem xeque-mate na supremacia dessa elite "pensante" na avaliação da cultura popular brasileira.

Elas defendem a bregalização cultural como forma de efetivar o que eles entendem como "folclore popular contemporâneo", estabelecendo pontos de vista que parecem "generosos" mas que escondem valores elitistas, paternalistas e até mesmo conservadores, apesar de servidos de bandeja nas mídias progressistas.

Só que eles cometem muitas contradições. Muitas e graves. E, entre tantas contradições, duas principais são cruciais para comprovar que toda aquela campanha de defesa do brega, do "funk" e derivados não tem validade para a defesa da verdadeira diversidade cultural ou do verdadeiro patrimônio cultural brasileiro. E muito menos para definir CULTURA com todas as maiúsculas.

1) A "CULTURA" É TRANSMITIDA NÃO ATRAVÉS DE RELAÇÕES SOCIAIS COMUNITÁRIAS, MAS POR RÁDIOS, TVS E REVISTAS.

É o que se nota no discurso intelectual que defende a bregalização do país. Seus ideólogos tentam desconversar, embolando as coisas, como se gerentes e programadores de rádio fossem tão pobrezinhos quanto um engraxate de rua, ou como se a emissora FM "mais popular", geralmente controlada por alguma oligarquia, fosse articuladora de relações sócio-comunitárias contemporâneas.

No entanto, esse ponto de vista, tão atraente e sedutor, tem valor duvidoso na medida em que vemos que, na prática, o rádio determina a "cultura popular" de forma vertical e não horizontal, decidindo "de cima para baixo" o que o povo pobre apreciará.

Intelectuais tentaram desmentir essa constatação, romantizando a figura do programador de rádio e ocultando o poderio midiático que está por trás. Mas não conseguem convencer com suas teses, já que, com o brega-popularesco, houve a ruptura do antigo convívio comunitário, não há mais a transmissão de cultura através de gerações, é a mídia que "acultura" as pessoas.

Às vezes, seus ideólogos deixam vazar essa informação. MC Leonardo, ex-presidente da APAFUNK (Associação de Amigos e Profissionais do Funk) - a função hoje é exercida por MC Mano Teko - , escreveu certa vez que os jovens pobres "não têm a responsabilidade" de assumir a herança cultural de seus pais. Só esse argumento tornou-se anticultural, chocando-se frontalmente com os supostos compromissos dele com a "defesa da cultura".

2) A DITA "CULTURA POPULAR", EM ESPECIAL O "FUNK", NÃO CONTRIBUI PARA A EVOLUÇÃO SÓCIO-CULTURAL DAS POPULAÇÕES POBRES.

Outro argumento observado pela campanha dos intelectuais e ideólogos da bregalização do país é sobre o zelo que têm contra qualquer mudança de perspectiva nas classes populares e na ameaça do povo pobre de romper com os paradigmas e ídolos ligados a essa bregalização.

No "funk", isso se torna mais claro, mas mesmo no "brega de raiz" de Waldick Soriano e similares se observa a visão anticultural da intelectualidade "mais bacana", que estabelece padrões ideológicos que mais fazem o povo pobre ficar preso na sua própria pobreza e ignorância.

Na ideologia brega, aspectos lamentáveis como a prostituição, o alcoolismo, o subemprego são definidos como "positivos" diante de um "paraíso" idealizado de uma imagem glamourizada da pobreza, da ignorância e da miséria.

No "funk", o que se observa é o zelo excessivo pelos valores associados ao gênero. Qualquer crítica à imoralidade e ao grotesco associados ao gênero é vista pela intelectualidade como "elitista" e "preconceituosa".

Daí que, no caso da vulgaridade feminina, por exemplo, existem dois pesos e duas medidas. Melhorar a expressão moral e sócio-cultural só vale para as elites. Vulgaridade feminina expressa em comerciais de TV é vista sempre como ofensiva, mas quando o caso é o "funk", as mesmas ideólogas "feministas" (!) definem as grosserias das funqueiras como "discurso direto" e "divertida provocação".

Chegou-se mesmo a se realizar uma palestra num centro cultural de Vila Cachoeirinha, em São Paulo, só para estudar um meio do "funk" ser aceito mesmo em suas piores caraterísticas. Embora o debate - que contou com o citado MC Leonardo - seja visto como "ativista", ele foi a demonstração do mais escancarado purismo ideológico do "funk".

Os intelectuais pró-brega se apavoram quando se fala que o jovem pobre deveria tocar um violão. Que, pasmem, era o mesmo instrumento do jovem boêmio do século XIX. Esses intelectuais ficam com medo quando se fala que a jovem favelada não deveria ser MC, mas professora, ou que o músico pobre deveria compor melodias e se distanciar do rádio.

Essa demonstração é também anticultural. A intelectualidade não quer ver o povo pobre se evoluir culturalmente, acha que isso é "elitismo". Preferem que as "evoluções" aconteçam aos poucos, sob o paternalismo das elites acadêmicas e ativistas, e sem romper com os padrões, valores e ídolos lançados pelo poderio de rádios, TVs e imprensa popularesca.

Elitistas são eles, que querem o rico patrimônio cultural para si, enquanto rejeitam a ideia dos jovens pobres assumirem as heranças de seus antepassados e renová-las, com todo o direito de preservações e alteranções que seus corações e mentes mandarem.

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