quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

DISCURSO DA INTELECTUALIDADE SOBRE ÀS "PERIFERIAS" PODE SER PERIGOSO

A APOLOGIA DAS "PERIFERIAS" PELA INTELECTUALIDADE DOMINANTE PODE INSPIRAR O AUMENTO DE TENSÕES SOCIAIS NAS CLASSES POBRES.

Por Alexandre Figueiredo

O discurso que a intelectualidade cultural dominante - aquela que se gaba de ter "profunda consciência social" - faz em relação ao que entendem como "periferias" é bastante perigoso. A glamourização da pobreza, da miséria e da ignorância estaria inspirando nos jovens pobres um sentimento narcisista que pode agravar as tensões sociais relacionadas às populações pobres.

Isso porque esse discurso, que transforma em "fenômenos político-ativistas e sócio-culturais" meros hábitos de entretenimento e consumo (muitas vezes influenciados pelo poderio midiático), pode influenciar nos jovens pobres um espírito de arrogância e presunção que pode aumentar a agressividade e propiciar assaltos, arrastões e outros crimes.

Evidentemente, nem todo pobre é criminoso e é injusta a ação policial que se exerce contra pobres inocentes, assim como injusta é a criminalização do direito de ir e vir dos pobres, até mesmo em centros comerciais mais conceituados.

No entanto, sabe-se que também existe, nas classes pobres, indivíduos ligados a atividades criminosas, e que podem se aproveitar de toda essa campanha da intelectualidade "bacana" em prol do que elas entendem como "periferias".

INTELECTUALIDADE TRABALHA UM PADRÃO IDEALIZADO DE "POVO POBRE"

Um dos principais problemas que podem provocar a agressividade do povo pobre é que a intelectualidade cultural dominante, aquela mesma dotada de muito prestígio e visibilidade, estabelece, na verdade, um padrão idealizado de "povo pobre", através de estereótipos domesticados.

Mesmo documentários e monografias trabalham essa imagem "pueril" de favelas descritas como "paraísos" de uma "pobreza feliz" e de um povo que "extrai alegria do sofrimento", "criativamente" (sic) trabalhando suas carências e misérias em suas vidas.

Essa campanha do "orgulho de ser pobre", mesmo difundida em mídias progressistas, na prática nem de longe seguem esse propósito, uma vez que cria um "parâmetro de pobreza" que não pode ser superado na sua essência, apenas admitindo melhorias paliativas de ordem institucional, legal e pragmática no cotidiano do povo pobre.

Em outras palavras, a intelectualidade admite que o povo pobre ganhe mais dinheiro, tenha melhor sistema de energia elétrica e fornecimento de água, melhores serviços de várias naturezas e leis que as protejam contra a violência e a repressão.

No entanto, os mesmos intelectuais reprovam que o povo pobre tenha uma melhor educação - embora não assumam isso no discurso - nem busquem uma qualidade de vida que vai além do simples direito de consumir melhores produtos. Definem qualquer melhoria cultural do povo pobre como "elitista" e "higienista".

Com isso, a glamourização da pobreza e da ignorância, que sugere uma visão "purista" desses mesmos intelectuais, pode criar tanto uma arrogância quanto uma revolta por parte de jovens pobres, na medida em que eles duplamente são induzidos a fortalecer a autoestima e a querer melhorias.

O problema nem é esse fortalecimento da autoestima e da busca por qualidade de vida, mas o fato de que jovens ainda dotados de ignorância educacional e moral levarem isso a uma revolta agressiva que poderá levá-los não a manifestações pacíficas, mas a assaltos, sequestros, homicídios e atos de vandalismo, entre outros.

O desprezo da intelectualidade em desejar melhorias sócio-culturais reais para o povo pobre, na medida em que apenas defendem os tais "fenômenos populares" defendidos pelo poderio midiático e sua concepção caricata de definir as classes populares, pode ser a ignição para o agravamento das tensões sociais.

No último domingo, eu pude observar o quanto jovens que ouvem "funk" se divertem quando pessoas se afastam deles nos assentos dos ônibus. A mídia e a intelectualidade lhes colocaram em suas cabeças que o "funk" é "ativismo", e o mero lazer de ouvir "funk" pelo celular tornou-se uma forma dos jovens fazerem provocação para as pessoas.

Isso é apenas o tom mais suave da situação. Em São Paulo, o "funk" foi pivô de uma onda de vandalismo e agressões. Um aviso de proibição de um "baile funk" ao ar livre resultou na reação violenta de seus frequentadores, que invadiram um posto de gasolina, agrediram frentistas e também depredaram supermercados e fizeram saques.

A intelectualidade, em vez de querer a melhoria do povo pobre, aumenta suas expectativas diante da glamourização da pobreza e da ignorância. E ainda acusa de "higienistas" aqueles que lutam pela melhoria moral e cultural da população. Daí a visão bastante perigosa de confundir valorização com ufanismo.

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