segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

COMO A INTELECTUALIDADE "BACANA" PODE SER TÃO PURISTA?


Por Alexandre Figueiredo

Como os intelectuais mais influentes do país, mas que se comprometem em defender a bregalização cultural e fazem glamourização da pobreza, conseguem ser tão puristas, mesmo quando juram de pés juntos que defendem o "mais irrestrito antipurismo" na cultura brasileira?

O discurso dessa intelectualidade considerada "bacana" porque defende tudo que está sob o rótulo de "popular", oficialmente, soa como o mais transparente, o mais progressista e o mais democrático discurso de defesa da cultura aparentemente expressa pelas classes populares.

Supostamente conciliadores, essa intelectualidade e seus ideólogos se empenham em adotar um verniz progressista nos seus discursos, embora também não adote uma postura firmemente hostil ao poderio midiático, não raro usando a grande mídia como vitrine para suas ideias "imparciais".

Vemos cineastas fazendo documentários premiadíssimos e festejados que no fundo mostram o quanto ser pobre "é lindo" e como ser ignorante, para as classes populares, é "fundamental para a expressão das perifarias".

Vemos jornalistas culturais que se acham "muito legais" escrevendo o quanto "é maravilhoso" ser cafona, e o quanto o "mau gosto popular" é uma causa nobre a ser considerada "revolucionária" e associada a um karma irreversível da cultura brasileira, ou melhor, "transbrasileira".

Vemos antropólogos, sociólogos e historiadores descrevendo em teses com discurso rebuscado e metodologia academicista, monografias diversas, algumas de Doutorado, tentando filosofar demais sobre a cafonice cultural e como a mediocrização popular pode "servir" para o que esses "pensadores muito legais" entendem como "emancipação popular".

Agora, vemos também outros colaboradores, como produtores culturais emergentes, estagiários de cinema, estudantes universitários e outros reforçando o discurso intelectualoide de que como é "bacana" o pobre transformar sua ignorância numa "usina de criatividade".

INTELECTUALIDADE QUER EVITAR A VERDADEIRA REBELIÃO POPULAR

Por trás de todo esse poderoso lobby de intelectuais, há uma campanha perversa de evitar que a população pobre reivindique melhoria de vida, cultura melhor e mais educação e cidadania. Daí o esforço de nossos "pensadores tão legais" em querer dizer que o consumismo e o entretenimento popularescos "já são um tipo de ativismo sócio-cultural por si".

Para os intelectuais desse porte, justamente os "mais progressistas", o povo pobre só faz "ativismo social" quando vai que nem gado aos galpões de espetáculos "populares" para ver seus "sucessos radiofônicos", ou vai para as boates suburbanas para "se divertirem" com o "ritmo do momento".

Da mesma forma, esses intelectuais também entendem como "ativismo" atos como pobre rebolar e cantar mal em português errado, desejarem mais consumismo, mulheres pobres exagerarem no silicone nos seios e glúteos, os pobres em geral "capricharem" no grotesco e no patético e expuserem sua miséria, seus dentes banguelas e seus sorrisos patéticos para "apavorar as elites".

Se alguém fora dessa "simpática panelinha" decide dizer que o povo pobre deveria superar sua ignorância cultural, querendo cultura melhor e valores sociais e morais mais edificantes, a intelectualidade "bacana" deixa cair a máscara e parte para seu oculto e não-assumido elitismo.

Não adianta se você escrever que os jovens das periferias deveriam redescobrir Cartola, Pixinguinha, Gonzagão e Jackson do Pandeiro. A intelectualidade "bacaninha" tem duas opções: ou dizer que eles são "coisa do passado" ou inventar, em falsa analogia, que seus "novos equivalentes" estão no "funk ostentação", no tecnobrega ou coisa parecida.

A intelectualidade que defende bregas, funqueiros, derivados e similares tenta dizer que é "antipurista convicta". Mas deixa vazar seu purismo mais gritante, pior até mesmo do que muitas madames que se apavoravam com rodas de samba nas vizinhanças.

É aí que os intelectuais "sem qualquer tipo de preconceito" mostram seus preconceitos mais preocupantes. Para eles, pobre tocar violão e ouvindo os sambas que animavam seus avós não pode, e a paranoia chega ao ponto da intolerância mais elitista.

Para os intelectuais, o pobre tem que assumir apenas os papéis que os rádios e TVs determinam para eles. Isso é "mais natural", dentro do discurso engenhosamente trabalhado até em documentários e monografias.

Para essa intelectualidade, o pobre precisa ficar na sua ignorância e transformá-la em "arte". Só que esta visão acaba se tornando anticultural, porque não quer que o povo pobre se evolua de forma espontânea. Primeiro o pobre precisa fazer papel de idiota para depois, acariciado pelas elites intelectuais, "progredir" com a ajuda destas. Daí o pior purismo dado por essas elites "antipuristas".

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