domingo, 9 de fevereiro de 2014

CASO ABRAKADABRA E A INTELECTUALIDADE "BACANA"


Por Alexandre Figueiredo

O caso do grupo Abrakadabra, o segundo grande escândalo envolvendo o "pagodão" baiano nos últimos três anos, faz muito a pensar sobre a complacência intelectual em torno das tendências do grotesco. Para os intelectuais mais badalados do país, vale tudo em nome do "popular".

A blindagem ao "funk" observada no eixo RJ-SP, em que até mesmo uma parcela de ativistas sociais aplaude quando um empresário de "funk" diz que o ritmo poderia substituir o ensino de redação nas escolas, contrasta com a revolta que os movimentos sociais fazem contra as baixarias do "pagodão".

Mas, em outros tempos, mesmo o "pagodão" sofria séria blindagem. O sociólogo Milton Moura, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia (FFCH-UFBA), havia escrito em 1996 um artigo chamado "Esses pagodes impertinentes..." fazendo defesa apaixonada da cena comandada por É O Tchan e derivados.

Ele havia antecipado os intelectuais pró-funqueiros de hoje, acusando de "elitistas" os que reprovassem o cenário de "pagodão" baiano. Na carona, Roberto Albergaria, antropólogo da mesma FFCH, definiu a pornografia do "pagodão" como "expressão de iniciação sexual das jovens pobres", e denominou o grotesco do ritmo como "autoesculhambação".

A "autoesculhambação", sabemos, é um mito que intelectuais baianos que fazem apologia ao grotesco, afirmando, em clara visão etnocêntrica, que os pobres gostam de serem expostos ao ridículo e que isso é o meio ideal de sua expressão cultural.

QUE TCHAN É ESSE? E O FEBEAPÁ

Para reforçar, a antropóloga Mônica Neves Leme ainda botou na conta do poeta Gregório de Mattos, falecido há mais de 300 anos, o teor das baixarias do grupo É O Tchan, pouco importando se uma estrofe do sucesso "Segura o Tchan" faz uma clara apologia ao estupro. A manobra foi feita no livro Que Tchan é Esse?, lançado em 2003.

Querendo soar "bacana" - ou "provocadora", no dizer de Hermano Vianna - , Mônica no entanto cometeu uma atitude deplorável, comparável a de um episódio que, fictício ou não, foi narrado satiricamente por Sérgio Porto (1923-1968), sob o codinome Stanislaw Ponte Preta, num dos volumes do livro FEBEAPÁ - Festival de Besteiras que Assola o País.

Conta Sérgio / Stanislaw que a ditadura militar enviou seus soldados para invadir um teatro onde era encenada uma peça do dramaturgo Sófocles, que viveu na Grécia Antiga. O governo militar, que se autoproclamava "governo revolucionário", havia mandado prender Sófocles, por conta do conteúdo "subversivo" da peça.

É o mesmo sentido, embora em outro contexto, da alusão "simpática" da "provocativa" Mônica Neves Leme, que recorreu a um antigo poeta baiano do século XVII para explicar as baixarias do É O Tchan, indo até mais longe que os defensores do "funk", que geralmente se dirigem à sociedade brasileira da República Velha.

O QUE A INTELECTUALIDADE "BACANA" DIRIA DO ABRAKADABRA?

Os intelectuais "bacanas" provavelmente correriam em solidariedade ao Abrakadabra, aderindo aos comentários do empresário Diego Pereira, visto como "pobrezinho" por seus apologistas, vide a glamourização que existe por trás desses fenômenos ditos "populares".

Provavelmente, a intelectualidade "bacana" irá acusar as reações de reprovação e condenação contra o Abrakadabra de "manifestações higienistas contra a negritude". "Condena-se o Abrakadabra porque ele é negro, enquanto se permite que moças sejam estupradas por rapazes brancos nas raves realizadas em sítios privados no interior", pregaria, com uma certa demagogia, tal intelectualidade.

Esses intelectuais, da mesma forma, "não entenderiam" a condenação ao grupo dada por movimentos ativistas, da mesma forma que "não entendem" por que as periferias reprovam a realização de "bailes funk" durante a madrugada inteira.

Os intelectuais esnobariam o fato da deputada que processa o Abrakadabra por incitação ao estupro ser do PT. "Como uma Rachel Shererazade do Legislativo, Luíza Maia segue a agenda elitista que destoa da natureza do Partido dos Trabalhadores, sempre solidário aos movimentos sócio-culturais", diria com a mesma demagogia.

Para a intelectualidade "bacaninha", pimenta nos olhos dos pobres é refresco. Não o gás de pimenta da polícia, já que a intelectualidade tenta pautar contra a repressão policial ou, de preferência, contra o policiamento nas favelas.

Isso porque a intelectualidade cultural dominante quer que as periferias fiquem ao "deus dará". Pouco importa se a "cultura popular" é determinada pelo poder radiofônico ou não, ou que a degradação sócio-cultural aconteça a olhos vistos.

A intelectualidade "bacana" acha tudo muito lindo, e acha que basta ser "popular" para que se deixe tudo como está, só injetando mais verbas da Lei Rouanet. Nada de melhorias sociais nem educacionais, que a intelligentzia julga "elitistas". As periferias tem que se manter "imexíveis", e isso prova o caráter purista dos intelectuais mais badalados. E eles ainda têm coragem de dizer que são antipuristas!

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