domingo, 2 de fevereiro de 2014

A "VERDADEIRA MPB" NADA VERDADEIRA E MUITO MENOS MPB

TÃO QUERENDO "EMEPEBIZAR" LUAN SANTANA. A INTELECTUALIDADE "BACANA" FICA BABANDO.

Por Alexandre Figueiredo

O que é a "verdadeira MPB"? O que é essa tal de "MPB com P maiúsculo"? Essas expressões correspondem a um mito criado por intelectuais "mais bacanas do país" para definir astros com forte apelo popular mas que possuem um fraco talento musical e um valor artístico duvidoso.

A intelectualidade "bacana", mas que se vende para o mercado fonográfico, para o jabaculê radiofônico e para o poderio midiático - do qual exerce uma função freelancer, ou "frila", como se diz, sem que tenha um aparente vínculo formal com os barões da mídia - , tenta assim creditar aos "sucessos do povão" o futuro do folclore brasileiro.

A tese, mesmo apresentada em ambiciosas reportagens, monografias e documentários, como se plateias lotadas, CDs vendidos e grandes audiências televisivas garantissem, por si só, o rótulo MPB para qualquer um que atrair um maior número de pessoas por um prazo recorde de tempo, é desprovida de lógica.

Mesmo assim, a intelectualidade dominante insiste e até reage com indignação à rejeição que os ídolos da música brega e seus ritmos derivados - a categoria "música brega" envolve desde o "brega de raiz" dos ídolos cafonas do passado até os funqueiros, passando por axé-music, "pagode romântico", "sertanejo", "forró eletrônico" e outros - recebem da opinião pública.

Aí, sabe-se de praxe o que se dá. Acusações gratuitas de "preconceito", "moralismo", "saudosismo doentio", "elitismo", tudo porque rejeitamos, "injustamente", a popularidade dos "ídolos do momento", que possuem cadeira cativa fácil nas FMs ditas "populares" e não podem, todavia, entrar no primeiro escalão da Música Popular Brasileira.

INTELECTUAIS SÓ ACEITAM A MPB "OBEDIENTE" AO MERCADO

A verdade é que o sentido de "MPB" oficialmente defendido pela intelectualidade cultural dominante nada tem a ver com o verdadeiro - verdadeiro, mesmo! - sentido de MPB, que anda sendo menosprezado e até esnobado por jornalistas culturais considerados "mais bacaninhas".

Isso é tão certo que hoje esses intelectuais se voltam furiosamente contra a geração que fez a MPB nos anos 60. Partem para cima, sobretudo, de Chico Buarque, mas na prática também se jogam contra Elis Regina, Agostinho dos Santos, Silvinha Telles, Tom Jobim, Milton Nascimento e Djavan.

O que existe é um protocolo secreto da intelligentzia de evitar atacar certos figurões da MPB pós-Bossa Nova, para evitar complicações. Milton e Djavan são negros, os ataques podem soar racistas. Elis, Silvinha e Tom são falecidos. Pode soar desrespeitoso demais. Agostinho era negro e também falecido, os ataques poderiam se complicar em dobro.

Há também a preferência da intelectualidade para aceitar artistas de raiz ou mesmo da órbita bossa-novista desde que eles estejam mais receptivos aos "livres rumos" da música brasileira, independente que seja o sambalanço, o pós-modernismo da Lira Paulistana ou, no âmbito comercial, a bregalização.

Essa ala receptiva da MPB é a "MPB obediente" que os intelectuais, que tanto pregam a tolerância ao "funk", ao tecnobrega, aos cafonas mais antigos etc, mas sentem uma raivosa intolerância contra a nata da MPB, aceitam até para dizer que também valorizam artistas mais consistentes.

A SUPOSTA "VERDADEIRA MPB": REGRA DE ETIQUETA? TÍTULO DE NOBREZA?

O que se nota, nessa campanha feita pelas elites intelectuais, é que o sentido de "verdadeira MPB" segue determinados padrões ideológicos, geralmente quantitativos, que valorizam a música brasileira mais pelo sucesso econômico do que pelo sentido sócio-cultural, que no discurso vira coisa "qualquer nota".

Se levar em conta esses critérios, o tão alardeado "aspecto artístico-cultural" nem de longe é levado em conta, só sendo considerado como pretexto para legitimar os "sucessos do povão" como "algo sério" e até como a "alta cultura" tão mal ou bem falada pelos intelectuais de acordo com o contexto.

Isso porque a "alta cultura" só serve para abrigar a "baixa cultura", dentro daquela perspectiva de "verdadeira MPB", "MPB com P maiúsculo" e outros termos igualmente pretensiosos. Mas, afinal, o que faz alguém ser considerado assim dessa maneira tão oportunista?

Primeiro, a intelectualidade trata a MPB como se fosse um título de nobreza. A MPB não está dentro do povo brasileiro: é apenas um pote de ouro no final do arco-íris. É algo distante, a ser conquistado depois de tantos e tantos anos, de preferência quando os "artistas populares" já estiverem ricos de dinheiro.

Dessa feita, a MPB também vira uma "regra de etiqueta", se transformando numa fórmula asséptica de "boa música" que mostra padrões que unem pompa, luxo e um apelo popular "mais fácil". Ou seja, é uma equação em que o "artista" envolvido junta um aparato pomposo e uma capacidade de atrair maiores plateias.

Musicalmente, tudo vira uma fórmula insossa. A maioria dos "artistas" envolvidos se limita a gravar covers de MPB ou a gravar arremedos de ritmos conhecidos de MPB com a ajuda de outros arranjadores, estes mais especializados.

No entanto, na maioria das vezes, o que se ouve são apenas baladas pop acústicas, iguaizinhas àquelas que os artistas de MPB, numa fase mais burocrática, gravavam, mais pop do que MPB, com canções meramente românticas, com arranjos fáceis, refrões pegajosos e coisa e tal. Coisa menos MPB que isso, impossível.

MPB: MERCADORIA, PRODUTO E BENS (DE CONSUMO)?

Mais uma vez se vê o sentido de "verdadeira MPB" como um sucesso econômico. Se atrai mais gente, dentro de uma perspectiva de sucesso, visibilidade e fama, então isso não é um fenômeno cultural, é um fenômeno econômico.

Gera-se lucro, o ídolo "popular" constrói seu sucesso vendendo CDs, aparecendo na mídia, se alimentando com factoides, dando depoimentos às vezes corretos, noutras sofrível, só para manter o cartaz na mídia, e isso, repetimos, é um fato econômico, e o que se vê é o desejo desse "artista" de ampliar e aperfeiçoar a faixa de consumidores.

Aí é que vem o termo "verdadeira MPB". Pura estratégia publicitária. A choradeira intelectual é nada mais do que um truque de marketing, respaldado por um aparato "o mais científico possível": reportagens "objetivas", documentários e monografias, tudo dentro de uma narrativa mais engenhosa, embora com alguns comentários apelativos e subjetivos num trecho ou outro.

Embora a intelectualidade "mais bacana" teorize demais sobre o fato dos "sucessos do povão" serem, sob a ótica deles, a "verdadeira MPB", a ponto de haver uma verdadeira exploração necrófila conceitual que envolve de Oswald de Andrade a Itamar Assumpção, passando por nomes como Vinícius de Moraes, os argumentos são meramente de natureza econômica.

Esses argumentos tão somente são feitos para colocar os tais "sucessos do povão" para ampliar e melhorar sua faixa de consumidores. Os ídolos brega-popularescos são, acima de tudo, mercadorias, e depois de tanto tempo consumidos pelos públicos das classes D e E, eles precisam ampliar o público através da exploração de faixas consideradas mais "exigentes" de público.

E desse modo, se "emepebiza" o brega, para que ele atinja plateias mais seletas. Em 1998, no auge do governo de Fernando Henrique Cardoso, a geração neo-brega representada por Alexandre Pires, Chiclete Com Banana, Zezé di Camargo & Luciano, Chitãozinho & Xororó, Belo, Leonardo, Daniel e tantos outros passou por uma "nova cosmética" com a ajuda das Organizações Globo.

Ao longo do caminho, "emepebizar" o brega, adequando-o às fórmulas de "MPB" vigentes desde os anos 80 - as mesmas que fizeram romper a MPB com o público mais jovem e com os fãs mais exigentes - , dentro de uma fórmula asséptica e comercial de "boa música", tornou-se uma falsa solução para tentar resolver a mediocrização da música brasileira no país.

Aí tentou-se também "emepebizar" Frank Aguiar, Harmonia do Samba, É O Tchan, Gang do Samba, Terra Samba, Bruno & Marrone, César Menotti & Fabiano, Cláudia Leitte e, mais recentemente, Thiaguinho, Michel Teló e Luan Santana. E querem fazer o mesmo até com MC Leozinho e Anitta, ou mesmo MC Guimé. Pode isso?

Mas também há os tributos "mais arrojados" como as releituras "alternativas" do repertório de Odair José e Raça Negra - cujos produtores ainda tiveram a coragem de disponibilizar o disco-tributo gratuitamente - ou, mais recentemente, o pretensioso disco "emepebista" em homenagem a Michael Sullivan, o chefão do brega "arrumadinho" dos anos 80.

Só que todos esses esforços só transformam os "sucessos do povão" em mercadorias mais "palatáveis" para os consumidores de classes mais abastadas. É tão somente uma questão de conquistar consumidores de maior poder aquisitivo.

Só que, em termos artísticos e sócio-culturais, são esforços em vão, porque os resultados se tornam assépticos, insossos, tudo fica tendencioso e sem espontaneidade, embora parecesse "mais agradável" para um público supostamente mais exigente. E que, pelo jeito, só possui mais dinheiro no bolso, mas não necessariamente melhor compreensão do que é MPB de verdade.

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