terça-feira, 14 de janeiro de 2014

ROLEZINHOS, PRISÕES E REPRESSÕES POLICIAIS


Por Alexandre Figueiredo

Violências nas prisões do Maranhão. Repressão policial contra pobres nos shoppings de São Paulo. As populações pobres sofrem infortúnios pesados, seja da parte daqueles que, sucumbindo à tentação da criminalidade, mesmo a mais leve, acabam sendo mortos em rebeliões nas cadeias, seja daqueles que são detidos apenas porque saíram das fronteiras "autorizadas" de lazer.

O caso da repressão policial, ou mesmo da consequente determinação de administradores de shopping centers da Grande São Paulo, proibindo os chamados "rolezinhos" nesses estabelecimentos, é um assunto bastante delicado.

É verdade que existe o exagero de pessoas se reunirem às centenas para os rolezinhos combinados nas mídias sociais. Mesmo um numeroso grupo de amigos não se reúne em centenas de pessoas, mas em grupos de dez, mesmo que sejam diversos grupos de dezenas.

Eu me lembro de várias comédias juvenis dos EUA em que, quando um filho dos donos de uma casa decide fazer uma festa, ele convida seus amigos para entrar na casa. Só que, em dado momento, os amigos convidam outros amigos e é tanta gente que qualquer transeunte atrevido acaba entrando na festa, que passa a ter penetras sem muito controle.

De repente, tem gente que nem tem relação com o jovem morador e esvazia o refrigerador a bel prazer. Objetos de vidro são quebrados na bagunça, tem gente vomitando em cama de casal, o vaso sanitário se entope com vibrador jogado junto a feses e urina.

Talvez esses aspectos, que não se relacionam necessariamente ao pessoal das periferias - as festas das comédias estadunidenses envolvem gente de classe média, mesmo - , apavorem a sociedade diante das reuniões massivas nos estabelecimentos comerciais frequentados pela "boa sociedade".

Não vamos achar que os rolezinhos representem alguma rebelião de caráter socialista. Com todo o exagero de juntar grandes grupos de pessoas, que, repetimos, é impensável até para grupos de amigos, os pobres têm todo o direito de frequentar esses estabelecimentos comerciais, que, embora sejam oficialmente espaços privados, são, ao menos em tese, abertos à toda sociedade.

O próprio discurso capitalista de "livre consumo", "livre mercado", "livre iniciativa" e "liberdade de escolha dos consumidores" permite que, em teoria, mesmo os mais pobres tenham acesso a qualquer bem de consumo, embora, na prática, a discriminação acontece quando os produtos e serviços de melhor valor sejam mais caros, portanto inacessíveis ao povo pobre.

A entrada de multidões de jovens pobres nos shopping centers das grandes cidades - prática que já acontece há muito, mas sem a envergadura das últimas semanas, sobretudo desde dezembro passado, quando apareceram os rolezinhos - não representa problema algum, embora não fosse também algo revolucionário ou subversivo.

Afinal, essa questão é mais um problema de capitalismo do que de socialismo. A inserção de pobres nesses ambientes de consumismo é apenas uma ampliação da faixa de consumidores, daí que não dá para falar em "reforma agrária urbana", "rebelião punk moderna" ou "Contracultura das periferias".

O que está em jogo, portanto, é a repressão policial contra tais pessoas. Mesmo quando alguns provocam desordens e vandalismo, não significa que qualquer um deva ser detido. Quem deve ser detido é apenas quem cometeu os delitos, provavelmente gente infiltrada nessas multidões para cometer seus crimes.

No caso do Maranhão, além das mortes de presos por conta de rebeliões de grupos criminosos rivais, há também os reflexos das revoltas nas ruas, como quando um ônibus foi queimado por ordem dos chefes do crime, em que uma menina inocente saiu queimada e morreu dias depois num hospital.

Assim como nas revoltas de facções criminosas no Complexo das Pedrinhas, em São Luís, capital do Maranhão, e toda a  fragilidade de seu sistema carcerário, o problema da repressão policial, de um lado, e das desordens de um pequeno número de pobres, de outro, é uma consequência da crise de valores em que vivemos.

De um lado, falta educação. O sistema educacional, nos níveis fundamental e médio, é ainda deficitário, e seria melhor que os partidários das cotas raciais nas universidades também enfatizem a necessidade de melhorar o nível das duas fases anteriores de ensino, para que os pobres, sobretudo negros e índios, não precisem aprender no ensino superior o que não puderam aprender nos níveis escolares anteriores.

De outro, é a militarização da polícia que é um problema. Será necessário haver uma Polícia Militar? Não seria melhor a fusão da Polícia Civil com a Militar? E como ficam os investimentos estatais no setor? Há muito o que discutir a respeito disso, mas a militarização já mostra também suas tragédias.

Pois a "fábrica" de policiais truculentos também fez vários mortos em treinamentos torturantes, exaustivos e sem qualquer condição em prol da saúde de seus alunos. Eles morrem por causa do calor, da desidratação, dos exercícios pesados, dos problemas cardíacos, não bastasse o estresse e a depressão diante de maratonas tão exaustivas e humilhantes.

Tudo parece guerra. As guerras de quadrilhas que dizimam detentos no Maranhão. As guerras da "boa sociedade" contra o lazer dos pobres em seus novos cenários de consumo. O ambiente hostil dentro das próprias repartições policiais, que já cria um trauma psicológico que faz com que policiais descontem suas raivas contra qualquer um, mediante algum pretexto.

Se a sociedade pudesse se preocupar com a Educação, com a melhoria da distribuição de renda, com a verdadeira qualidade de vida e com o fim da mentalidade de caserna nas polícias, talvez muitas dessas ocorrências lamentáveis teriam sido evitadas.

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