domingo, 12 de janeiro de 2014

RODRIGO CONSTANTINO, A VOZ DA DIREITA CAVIAR


Por Alexandre Figueiredo

Rodrigo Constantino, o direitista que pretende ser o porta-voz da "sociedade zangada" do Brasil, "indignada" com a corrupção e com a crise econômica, teve em seu recente livro, A Esquerda Caviar, a sorte que não teve com seu livro anterior, Privatize Já!.

Sendo um dos vários reacionários envolvidos na corrida da visibilidade plena, ao lado de Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Leandro Narloch, Augusto Nunes e Eliane Cantanhede, que desejam a projeção já conquistada de nomes como Alexandre Garcia, Merval Pereira e Miriam Leitão, Constantino é também um dos membros-fundadores do Instituto Millenium.

Com seus habituais ataques ao Partido dos Trabalhadores - apenas num verniz mais "objetivo" do que a fúria gratuita e pseudo-erudita de Reinaldo Azevedo - , Rodrigo Constantino sonha com um Brasil reduzido a um país-fantoche submetido à supremacia político-econômica dos Estados Unidos.

No âmbito ideológico, Rodrigo, que é influenciado pelo pensamento lunático de Olavo de Carvalho, que parece ter se esquecido do que realmente é o Brasil - , compartilha do medieval mentor de certas visões surreais sobre o esquerdismo que combatem.

Desqualificam, por exemplo, o linguista e cientista político Noam Chomsky da pior maneira possível. Definem como "esquerdistas" entidades e pessoas vinculadas ao direitismo ideológico, como a Folha de São Paulo, o apresentador Luciano Huck e até mesmo o presidente dos EUA, Barack Obama.

QUASE CONVINCENTE

No âmbito cultural, Rodrigo tenta até parecer correto e, à primeira vista, ele parece endossar as análises sobre a mediocrização cultural brasileira, sobretudo em relação ao "funk", apesar do seu direitismo histérico.

Rodrigo parece correto ao criticar, por exemplo, que a intelectualidade cultural dominante - que o escritor enquadra na "esquerda caviar" - apoia a imbecilização simbolizada pelo "funk", pagodão e similares a pretexto de "democratizar a cultura e combater o preconceito".

O escritor também reprova o fato de que celebridades e intelectuais defendam a suposta "cultura popular" por achar que a "pobreza" idealizada por uma visão predominante sobre as periferias é uma condição social "admirável e bonita".

A glamourização da pobreza e a permissividade até mesmo ao sexo praticado abertamente até por menores de idade nos eventos "populares" - em especial os "bailes funk" - são contestados por Constantino, assim como a desculpa da intelectualidade cultural dominante de romper com os valores estéticos antes consagrados.

O questionamento parece interessante, e Rodrigo Constantino chega a soar convincente quando reclama que a apresentadora Regina Casé acha a pobreza "linda" mas vive uma vida de rico, ou que os intelectuais não querem mais julgar a diferença de valor entre Tati Quebra-Barraco e Igor Stravinsky.

No entanto, Rodrigo Constantino parece mais feliz ao diagnosticar um problema do que propor uma solução. Vagamente, ele apenas sugere que uma educação melhor para os pobres possibilitará maior capacidade de discernir a boa cultura da má.

DIREITA CAVIAR

Evidentemente, não vamos defender a intelectualidade que defende a "esculhambação" da cultura brasileira, a pretexto de permitir a "diversidade", o "fim dos preconceitos" e sem medir escrúpulos em derrubar qualquer tipo de conceitos estéticos, numa espécie de abordagem míope e embriagada dos ideais modernistas.

Até porque Rodrigo Constantino, na prática, soa como um Ronaldo Lemos às avessas e, se tivermos uma observação ainda mais cautelosa, não existem diferenças fundamentais entre a "esquerda caviar" e a "direita caviar", esta simbolizada na figura de Constantino.

Mesmo as "arenas" de expressão são bem parecidas. As Organizações Globo que servem para promover a visibilidade de Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo, que fazem coro aos "urubólogos" da casa, como Merval Pereira, Miriam Leitão e Arnaldo Jabor, também servem para a projeção de "progressistas" como Hermano Vianna, Paulo César Araújo e Ronaldo Lemos.

Ronaldo Lemos, assim como Rodrigo Constantino, adotam a mesma pose tecnocrática de alguém que pensa que "sabe tudo e melhor das coisas". Mas Lemos está do lado da defesa da mediocrização cultural, enquanto Rodrigo parece estar contra.

Da mesma maneira, vemos um Hermano Vianna defendendo tanto o "funk" quanto o cantor Lobão, embora este fosse citado por Constantino nos comentários que condenam a mediocrização cultural. Lobão já declarou que é fã entusiasmado dos funqueiros, que segundo ele expressariam a "rebeldia" que se perdeu no Rock Brasil.

No fundo, a "esquerda caviar" e a "direita caviar" se igualam, porque enquanto a primeira quer que o povo pobre permaneça na sua condição de imbecilidade cultural, a segunda quer zelar pela sua alta cultura. Uns e outros fazem com que a cultura de qualidade seja um privilégio privativo das elites, o "povão" que fique imerso na sua mediocridade.

Se Rodrigo parece querer defender as "melhorias culturais" do povo, ele adota uma postura elitista. Na prática, ele não se preocupa com a verdadeira cultura popular. Ele prefere que o "povão", se é para ter alguma cultura, pareça o "mais europeu" possível, de preferência algo próximo das comunidades bucólicas da Holanda ou da Áustria.

Mas que diferença tem um Rodrigo Constantino que sonha com os campos holandeses e um Pedro Alexandre Sanches que sonha com os guetos de Nova York? Ambos, no fundo, têm a mesma paranoia elitista, um medo traumático de alguma nova rebelião popular, apenas diferem na forma como pensam suas soluções e seus pareceres.

Assim, a "direita caviar" quer que as elites protejam sua alta cultura, e, quando muito, transformem o povo pobre num fantoche do eruditismo elitista. Mas isso já é feito nos ídolos neo-bregas, como Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó, Belo, Cláudia Leitte, Victor e Léo, Leonardo, Daniel e Zezé di Camargo & Luciano, que adotam uma estética supostamente sofisticada.

Já a "esquerda caviar" quer, como as elites que elas são, proteger sua alta cultura do acesso do "povão". Pedro Alexandre Sanches, por exemplo, defende a bregalização para evitar que o povo conheça a rara MPB que só o farofafeiro e outros predestinados conhecem. Daí que ele inventa que o "funk" e o "brega de raiz" são "tão bons" quanto Quinteto Violado e Sérgio Ricardo.

Daí o mesmo elitismo. A mesma paranoia anti-popular. Uns querem a decadência desprotegida para as classes populares. Outros querem a domesticação cultural das mesmas. Nenhum dos lados se compromete em propor alternativas viáveis a "cultura popular" midiática, até porque ela é vinculada ao baronato midiático que garante espaço e projeção aos ideólogos dos dois lados.

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