terça-feira, 28 de janeiro de 2014

REVISTA VEJA DECLARA SEU AMOR AO "FUNK"


Por Alexandre Figueiredo

Essa a intelectualidade cultural dominante não consegue explicar. Como uma revista que condena os movimentos sociais, criminaliza qualquer tipo de ativismo e abriga porta-vozes do mais extremado conservadorismo direitista, como Reinaldo Azevedo e Augusto Nunes, adere tão facilmente ao "funk", ritmo tido oficialmente como "subversivo".

Há um bom tempo intelectuais dotados do privilégio do mais cômodo prestígio, da mais ampla visibilidade e da garantia (ou ilusão?) de que diplomas e prêmios expressem seus méritos pessoais frente à opinião pública, tentam nos convencer de que o "funk" vive "à margem da grande mídia".

A Veja colocou logo na capa o funqueiro MC Guimé, o queridinho do dirigismo cultural das esquerdas médias, e ele como outros funqueiros foram muito bem tratados na reportagem de capa, tratamento por demais carinhoso para uma revista que "espanca" tribos indígenas, sindicalistas, líderes estudantis e sobretudo agricultores sem-terra.

"Como tantos gêneros musicais que vieram das áreas urbanas mais pobres, o funk já conquistou parte da classe média. Mas é sobretudo entre a garotada da periferia que ele tem a ressonância de uma Marselhesa: um hino de cidadania e identidade para os jovens das classes C, D e E", descreve a reportagem de Sérgio Martins.

Comparável a MC Guimé sendo capa de Veja - sob aprovação de seus reacionários editores - só mesmo o flerte que as Organizações Globo têm com Valesca Popozuda, a pseudo-solteira do "funk" que sintetiza numa só pessoa a antiga Carla Perez do É O Tchan e a funqueira Tati Quebra-Barraco. Ela foi capa da Revista O Globo e apareceu na sessão de música do portal G1.

Isso mostra o quanto o "funk", como outras tendências brega-popularescas, não assusta os barões da grande mídia. O mito de que tais tendências "populares" assustam a grande mídia que a boicota de imediato é mentiroso, tamanho o apoio que o poder midiático dá a esses gêneros, o que não é coincidência nem rendição conspiratória.

Pelo contrário, o brega-popularesco usa as esquerdas como um trampolim para forjar alguma "independência" ideológica, enquanto prepara as condições de fazer a festa final dentro dos cenários do mais conservador poder midiático.

Nos últimos anos, foi assim com Gaby Amarantos, que com seu tecnobrega foi acusada de causar pavor na grande mídia e depois foi acariciada até pela revista Veja e depois virou figurinha fácil da Rede Globo. Mais recentemente, o grupo de sambrega Raça Negra, que sobreviveu a um acidente de ônibus, criou um programa no canal Multishow, também das Organizações Globo.

As esquerdas médias não se intimidaram em seu dirigismo cultural "recomendando" Zezé di Camargo & Luciano goela abaixo para as mentes progressistas, mesmo quando a Globo Filmes patrocinou Os Dois Filhos de Francisco e com a dupla apoiando Ronaldo Caiado.

Foi só Zezé pedir o "fora Lula" nas passeatas do Cansei para as esquerdas médias acordarem. Da mesma maneira, elas acordaram também diante de uma "revolucionária" Joelma da Banda Calypso depois que ela deu seu surto moralista da linha do deputado Marco Feliciano.

#OCUPAIGRANDEMÍDIA NO "FUNK" NÃO EXISTE. É MENTIRA.

O que é de admirar é que, até agora, o "funk" estava mais vinculado a espaços flexíveis da mídia direitista, como a própria Rede Globo e a Folha de São Paulo. Mas agora, com a adesão assumida de Veja, cai por terra o verniz "progressista" dado ao gênero, com a reportagem elogiosa do semanário ultraconservador.

Tanto o "funk carioca" quanto o "funk ostentação", e especialmente este, são bem abordados pela reportagem, que destaca os 10 milhões de fãs até mesmo no título. A capa com MC Guimé (ou MC Guimê, ou MC Guime) mostra o quanto os funqueiros estão em boa conta com os barões da grande mídia.

Por incrível que pareça, isso não é um "rolezinho" que apavora as elites. Até porque a elitista Veja acolheu os funqueiros com gentileza incomum. Uma gentileza que não existe quando a revista parte para cima de sindicalistas, agricultores e líderes estudantis, só coloca as forças progressistas na capa para criminalizá-la. Colocou um funqueiro na capa como um "herói".

Portanto, o "funk" não aparece na Veja como um invasor que ocupou o território inimigo. Não é uma conspiração, até porque os popularescos se sentem muito felizes e bem tratados pelo poder midiático. Os barões da mídia não mostram um só incômodo, os popularescos também não expressam qualquer tipo de raiva. Parece até uma confraternização.

Portanto, o mito intelectualoide de que os funqueiros comandam a operação #OcupaiGrandeMídia simplesmente é MEN-TI-RA. Não é alguém usando o espaço do inimigo para obter visibilidade, mas um cúmplice não assumido que em dado momento prova ser o aliado do poderio midiático que no fundo sempre foi. "Funk" não é mais que subproduto do poder midiático.

Com o apoio da revista que condena a reforma agrária, não há mesmo que apostar numa "reforma agrária na MPB" através do "funk ostentação". E o "funk" não quer regulação da mídia. Ele gosta e precisa mesmo dos barões da mídia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...