domingo, 5 de janeiro de 2014

PROTESTOS DE RUA: A DIREITA QUER SE APROPRIAR DELES E A ESQUERDA FICA APREENSIVA


Por Alexandre Figueiredo

A observar pelas análises midiáticas mais recentes, a tendência de haver protestos de rua como haviam ocorrido em 2013 encontra um contexto muitíssimo estranho, mas compreensível a partir de situações e posições daqueles que se encontram tanto contra quanto a favor das manifestações.

A direita, aparentemente, parece mais solidária e entusiasmada com os protestos de rua e vários de seus ideólogos querem que ocorram muitos protestos neste ano de 2014, com uma ânsia que, à primeira vista, parece muito estranha, ante a histórica postura golpista de seus ideólogos.

Para eles, "protestos" só devem ser como há 50 anos atrás, quando as "marchas com Deus e a Família pela liberdade" ocorreram para pedir a saída do presidente João Goulart, expulso do poder com o golpe civil-militar (o senador Auro de Moura Andrade, presidente do Congresso Nacional, havia declarado vago o cargo, mesmo com Jango ainda em território nacional).

"Clamores" pelos protestos das ruas foram notados em articulistas como Elio Gaspari ou em personalidades "neutras", mas amigas da direita, como a ex-petista e ex-verde Marina Silva, que não conseguiu registrar a tempo o novo partido Rede Sustentabilidade e, por enquanto, vive da órbita do pessebista Eduardo Campos, de Pernambuco.

Mas, com as mudanças diversas de contextos, hoje a direita ideológica, que tem a adesão de gente "mais arrojada" (como o humorista Marcelo Tas, o cineasta e articulista Arnaldo Jabor, o roqueiro Lobão e a ex-VJ da MTV Sônia Francine), quer protestos não mais de "madames, pastores e padres descontentes", mas protestos "modernos" com muitos jovens.

O grande problema é que os protestos de junho de 2013 aconteceram sem qualquer vínculo ideológico. Criticava-se Dilma, Lula, Rede Globo, o FMI, entre outras instituições diversas à direita e à esquerda. Faz parte do jogo democrático. E mesmo gente ligada ao PT, ao PC do B e ao PSOL também fazia sua manifestação. Direito deles também.

Mas isso é muito diferente do que o PT, por exemplo, se julgar dono dos protestos de rua. Assim como a  Rede Globo ou os "descontentes" do PSDB. Ou mesmo aparecer o Coletivo Fora do Eixo para tirar o eixo mobilizador das manifestações populares e subordiná-las à sua grife.

A esquerda, pelo menos seus setores médios, do contrário da direita, que "convida" o povo a ir às ruas, parece mais cautelosa. Ela parece temer que os protestos de rua resultassem no fracasso da campanha de Dilma Rousseff para a reeleição.

Por isso, há uma estranha ênfase nas ações de vandalismo, no aparecimento de grupos como Black Blocs, ou mesmo uma exagerada preocupação de que os protestos contra o governo Dilma, ou contra a figura de Lula, José Dirceu e José Genoíno, tivessem o mesmo tom dos comentários reacionários da grande mídia, que veem erros até quando petistas espirram em público.

Em ambos os lados, há tão somente o risco do cabo-de-guerra pender contra os petistas. Pela confiança excessiva dos métodos grotescos da direita, pela confiança excessiva do carisma ideológico das esquerdas. E o medo de outros de que os protestos ofusquem o "espetáculo" futebolístico da copa da Fifa no Brasil.

Mas as manifestações populares de verdade, se ocorrerem como em junho de 2013, irão além das ideologias, e causarão, nos dois planos ideológicos, o mesmo temor de escaparem de qualquer intenção corporativista ou institucional. Há medo em ambos os lados. Talvez uma confiança excessiva em si, um temor excessivo de rupturas violentas.

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