sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

POR QUE A INTELECTUALIDADE DOMINANTE QUER TANTO A BREGALIZAÇÃO?

 
Por Alexandre Figueiredo

É tentador. Mesmo para sinceros esquerdistas, o canto da sereia da breguice parece sedutor, procurando desnortear as pautas progressistas e reduzir suas agendas apenas a alguns pontos de ordem legislativa, econômica, política e jornalística, deixando o lado cultural à mesma deriva do circo do poder midiático.

Eles até acham "exagerados" os comentários contra a bregalização cultural, choramingando quando são criticados porque acharam que o ídolo cafona tal era "subversivo", o grupo de axé-music qual fazia "canção de protesto", que o funqueiro vive "à margem da mídia" pouco importando as mil visitas ao Caldeirão do Luciano Huck e por aí vai.

Eles acham que o brega, esse "popular" de mercado, forjado pela grande mídia e pela indústria do entretenimento, é "admirável" porque "tem cheiro de povo". No fundo, os intelectuais e seus simpatizantes, que são pessoas de classe média, gostam do brega e seus derivados porque trazem uma imagem romântica e confortável de classes populares.

De argumentos (ou desculpas) que variam entre "ser brega é mais divertido" e "isso garante muitos empregos", os elogios à bregalização resultam muito mais numa visão tecnoburocrática e economista da cultura popular do que da visão realmente sócio-cultural da coisa.

Há a questão do espetáculo, ou mesmo de uma perspectiva estrangeirista e mercantilista que intelectuais, ativistas e outros veem do brega-popularesco, em que a esperança de ver o "velho" folclore ser substituído pelo hit-parade "genuinamente brasileiro" garante um mercado estável e sustentável de entretenimento.

MÁQUINAS DE FAZER DINHEIRO

Em tese, o mercado de ídolos brega-popularescos é bem sucedido. Aparentemente, descontando os casos de exploração cruel do mercado de trabalho, o mercado de "ídolos populares", "subcelebridades" e até mesmo de mídia policialesca, é bem administrado.

Contrariando os clamores intelectuais mais comuns de que isso é "cultura de pobre", ele já movimenta milhões de dinheiros e os principais ídolos popularescos, ligados sobretudo ao "sertanejo", "pagode romântico", axé-music, "forró eletrônico" e "funk" já se tornaram mais ricos do que os supostos "aristocratas" da MPB.

Um único Tom Jobim não consegue, perto dos 20 anos de morte, absorver tanto dinheiro do que DJ Marlboro, Chiclete Com Banana / Bell Marques, Só Pra Contrariar / Alexandre Pires, Banda Calypso e Zezé di Camargo & Luciano, só para citar alguns "pobretões", cuja riqueza acumulada faz Chico Buarque parecer um mendigo.

Um nome emergente do "funk carioca" consegue adquirir, somente numa única apresentação, cerca de trinta vezes o salário de um servidor público em um mês. Ou seja, se levarmos em conta cerca de três apresentações por semana, a proporção então chega a ser de 360 vezes o do salário mensal de um servidor. O "pobretão" funqueiro é muito mais rico que o "afortunado" servidor do Estado.

Esses nomes do brega-popularesco, assim como nomes popularescos não-musicais, como as chamadas "boazudas", os ex-membros de reality shows e jornalistas e apresentadores popularescos, se tornaram verdadeiras máquinas de fazer dinheiro, embora, em valores culturais e sociais, sua contribuição esteja muito abaixo do inútil, apesar de intelectuais afirmarem o contrário.

A intelectualidade vê o sucesso econômico como maior virtude, mas acha que isso trará benefícios de outras esferas. É como se, vendo na Economia (e na sua parceira Administração) a medida de todas as coisas, houvesse a garantia de que a chuva de dinheiro trará um Sol de cidadania, evolução sócio-cultural e outras conquistas.

Não é assim. Há mais de vinte anos a bregalização rende mais dinheiro - pelo menos para seus empresários e para os ídolos de maior sucesso - e, no entanto, isso não representou melhor qualidade de vida para a população. As periferias continuam sendo tão pobres e problemáticas quanto antes, seus ídolos "pobrezinhos" é que ficaram muito mais ricos.

SÓ PROFISSIONALISMO

O que se nota é que existe profissionalismo de sobra, talento de menos. É incontável o número de artistas "populares" que sabem dar um alô para as plateias, que apresentam desenvoltura diante das câmeras, mas não sabem trazer algum valor sócio-cultural relevante.

Nota-se, também, que existem apresentações ao vivo superproduzidas, cheias de luz, pompa, tecnologia de ponta, todo um jogo de cena que dá certo diante da gravação de DVDs. Há também arranjos corretos e até mesmo videoclipes feitos dentro das exigências do mercado.

Há muito profissionalismo, porque o show business brasileiro, mesmo quando vinculado à bregalização cultural, estabelece regras do sistema de estrelato que consegue administrar as carreiras dos intérpretes ou de sub-celebridades e sub-jornalistas.

Mesmo diante de fatos controversos, incidentes delicados e tudo, existe todo um planejamento de gerenciamento da fama, que, mesmo alimentada por factoides que geram reações adversas, parece inabalável.

Até mesmo as regras adotadas pelo comercialismo musical brasileiro, que, por exemplo, supervaloriza o lançamento de DVDs ao vivo, são administradas para fortalecer a imagem publicitária dos "artistas" envolvidos, além de economizar custos com gravação em estúdio.

O que deslumbra a intelectualidade progressista menos exigente é esse paraíso de finanças estáveis. Só que isso não é cultura, é economia. Ela não traz os benefícios de natureza sócio-cultural às classes populares, por mais que a intelectualidade tente argumentar o contrário, com suas alegações confusas mas aparentemente sofisticadas.

O que isso traz é dinheiro. Tudo isso é entretenimento no sentido mercadológico do termo. Mas não é cultura. Não é a verdadeira cultura popular porque não contribui para a evolução dos valores culturais. Só gera dinheiro, fetiches, consumismo, sensacionalismo.

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