sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O VIOLÃO COMO UM INSTRUMENTO POPULAR


Por Alexandre Figueiredo

Uma das maiores aberrações que a intelectualidade cultural dominante - aquela que se autoproclama "progressista" e "muito bacana", mas que defende a bregalização do país - é que, com a defesa insistente ao "funk", priva-se, na verdade, os jovens pobres de buscar um aprimoramento cultural de verdade.

O "funk" se julga "injustiçado", "discriminado" e outros adjetivos similares dentro de sua choradeira discursiva que só serve para reafirmar e fortalecer um mercado opressor controlado por ricos empresários-DJs que, dizem, já compraram até fazendas no interior do Rio de Janeiro e outros Estados.

Nesse mercado opressor, que envolve MCs que são ao mesmo tempo fetiches e fantoches, com direito a falsos ativistas e até falsas solteiras - que volta e meia inventam uma dengue para fugirem e darem seus beijinhos nos ombros e nas bocas de seus robustos maridos, que vivem em locais ignorados até por Léo Dias e Fabíola Reipert - , o pobre é "convidado" a permanecer na pobreza.

No "funk", a pobreza é "linda" e a única realização pessoal está no consumismo. "Fique rico, mas seja pobre", tendo mais consumo e menos qualidade de vida. Empurre o "funk" para boates e condomínios de gente abastada, enquanto se veta e barra a MPB autêntica no seu ingresso despretensioso nas favelas, roças e subúrbios, a não ser pelo "filtro" das trilhas da Rede Globo.

Enquanto isso, os jovens pobres são proibidos de aprender melodias e a escrever versos melhores. A intelectualidade "mais bacana" acha isso maravilhoso, aprova até mesmo os versos em português errado, ou as baixarias das funqueiras, porque tudo é "discurso direto", é a "manifestação mais pura" do que entendem por "cultura das periferias".

Ou seja, nada de cidadania. "Cidadania", para o "funk", é tirar a polícia das favelas e elevar os funqueiros ao título nobre de "gênios da MPB". Como se MPB fosse um título de nobreza, tal qual os títulos de "barões", "viscondes" e "duques" dos tempos do Segundo Império.

Aliás, já que falamos em Segundo Império e, por conseguinte, a República Velha, supostas fontes de patrulhas moralistas que a intelectualidade cultural de hoje atribui à rejeição enérgica sofrida pelo "funk", nada melhor do que lembrarmos do que era o violão, um instrumento antes discriminado pelas elites, e que hoje foi tirado do acesso amplo das populações pobres.

VIOLÃO ERA "COISA DE VAGABUNDO"

Até o século XIX, o violão era um instrumento ligado à boemia, e era violentamente discriminado pela sociedade elitista de então. O homem fazia alguma cantoria com voz e violão para conquistar a mulher desejada era intimidado com banhos de água jogada de baldes ou de alguma perseguição de cães ferozes liberados por seus donos.

Tocar violão era visto como "coisa de vagabundo", e só mesmo no decorrer do século posterior é que o instrumento passou a ganhar um espaço digno na musica brasileira, a ponto de haver até uma modalidade mais sofisticada de tocar violão, a do violão clássico.

Em contrapartida, nos últimos anos, quando o rico patrimônio cultural brasileiro foi surrupiado do povo pobre pelas elites dotadas de um desejo de privilégios pessoais, obrigando o povo nordestino a ficar sem sua música nordestina (baiões, maracatus etc) e transformando o antigo samba dos morros numa "música da Zona Sul", o violão deixou de ser um instrumento popular.

Mesmo quando músicos de origem pobre compram violões para fazer seus sambregas e breganejos - as leituras bregas do samba e da música caipira que tem mais de soul music e country malfeitos do que de qualquer esboço de sambas e modinhas - , mesmo assim o violão já está fora do contexto de instrumento eminentemente popular.

No grosso, o jovem das favelas só pode usar um microfone e "fazer o que sabe", conforme a visão paternalista da intelectualidade festiva. O "funk" é o principal laboratório da apologia à ignorância, a pretexto de ser a "expressão pura das periferias", na visão intelectual dominante. Uma visão rigorosa e estupidamente purista, de uma elite "pensante" dita "não-purista".

O jovem pobre não pode aprender um violão. A não ser que faça "breguices românticas" sob o rótulo de "pagode" e "sertanejo", seu único destino é segurar um microfone e disparar palavreado. Quando muito, fazer balbuciações tipo "tchuscu-tchuscudá" na função de "MC de apoio", criada pelos DJs de "funk" para poupar tanto trabalho de efeitos sonoros.

Se o jovem decidir tocar como Jacob do Bandolim, Turíbio Santos etc, a intelectualidade "bacana" reage com horror: "Pobre com alma burguesa!!", "Vítima manipulada dos preconceitos sociais das elites!!", entre outros comentários preconceituosos dessa gente "sem preconceitos".

Da mesma forma, assim como um pobre nordestino não pode ser um novo Gonzagão, o jovem carioca que, em ver de ser funqueiro ou "pagodeiro", querer ser um novo Cartola, um novo Nelson Cavaquinho, também é "massacrado" pela intelectualidade "sem preconceitos".

"Que coisa elitista, favelado compor um samba no violão. Pelo menos se ele arrumasse um dueto com o cantor Belo ou gravasse uma cover de Waldick Soriano ou de Michael Sullivan, ainda dava para aceitar", vociferam jornalistas culturais, acadêmicos e cineastas dotados de seus preconceitos "sem preconceitos".

Assim, as elites "pensantes" do Brasil, comprometidas com uma concepção etnocêntrica das populações pobres, a ficarem presas em seus estereótipos a serem aceitos sem verificação, querem que o povo pobre fique privado de sua própria cultura, sem seus instrumentos, melodias, crenças, valores etc. Que o povo fique apenas com o "popular" imposto por rádios e TVs.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...