terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O CHEFÃO DO BREGA E SEU "EMBELEZAMENTO" MUSICAL

 
Por Alexandre Figueiredo

A glamourização da breguice musical, por conta de uma poderosíssima blindagem intelectual, que finge estar à margem do mercado e da grande mídia, gera discos bastante surreais, em que o comercialismo musical recebe tributos por demais sofisticados para o homenageado em questão.

Tivemos um tributo roqueiro a Odair José. Mas até aí, poderia soar uma curiosa ironia, não fosse o fato do "Pat Boone brasileiro" ser levado a sério demais. Mas tivemos também o surreal e meio febeapeano tributo "alternativo" ao grupo de sambrega Raça Negra, que poderia ser tudo, menos vanguarda alternativa.

Agora temos um "tributo de MPB" - ou quase todo de MPB - ao compositor e produtor Michael Sullivan, que foi um dos chefões do comercialismo musical brasileiro, com um poder comparável ao que Ali Kamel hoje tem no telejornalismo, ambos sob a proteção midiática das Organizações Globo.

O lançamento, em que pese nomes respeitáveis como Os Cariocas, Ney Matogrosso, Zélia Duncan e Fernanda Takai, outros como Raimundo Fagner (apesar dos "deslizes") e os talentosos mas intelectualmente duvidosos Zeca Baleiro e Adriana Calcanhoto, é dotado do mais puro oportunismo.

Afinal, Michael Sullivan, que pelo seu forte senso de publicidade, tenta se passar hoje por "gênio incompreendido" e "artista injustiçado", se aproveitando da memória curta da maioria dos brasileiros e do coração mole que atinge uma parcela da intelligentzia brasileira, mesmo da parte de pessoas de boa-fé.

Isso porque Sullivan, na verdade o ex-Fevers Ivanilton, que como produtor era ligado a outro ex-membro do grupo de Jovem Guarda, Miguel Plopschi, e como compositor era parceiro de Paulo Massadas, ex-Lafayette e Seu Conjunto, era um dos chefões e artífices do processo mais agressivo de bregalização do país.

A serviço da máquina manipulatória da Rede Globo de Televisão e tendo a apresentadora Xuxa como principal vitrine de suas obras - a "rainha dos baixinhos", como dublê de cantora, priorizava as composições de Sullivan & Massadas - , Michael Sullivan, que também integrou o "brega exportação" junto com Christian (da dupla Christian & Ralf) e Fábio Jr. (sob a alcunha Mark Davis), prenunciou a supremacia dos neo-bregas nos anos 90.

"MPB DE MENTIRINHA"

Michael Sullivan e Paulo Massadas completaram o "serviço" de pasteurização da música brasileira. Se, no final da década de 1970, nomes como Lincoln Olivetti e Robson Jorge (este já falecido) contribuíram para a pasteurização da MPB autêntica, criando um padrão comercial adotado pelas grandes gravadoras, os demais contribuíram com o "embelezamento" da música brega.

Essa cosmética em torno do brega, no entanto, tomava como modelo justamente o que foi imposto à MPB, uma fórmula "burguesa" de baladas açucaradas, arranjos luxuosos e estética de pompa e luxo. A mesma MPB que repeliu o público jovem que, depois, mergulhou fundo no Rock Brasil.

Juntou-se a "Musica Para Burguês" com o brega arrumadinho, e aí tivemos, de um lado, Gal Costa e Tim Maia gravando juntos a melosa "Um Dia de Domingo", Roupa Nova gravando o sub-roquinho "Whisky a Go-go" (que cita até Johnny Rivers, que só o provincianismo brasileiro acredita que criou o sucesso "Do You Wanna Dance?" que até os Beach Boys) gravaram antes.

Além deles, tivemos também Joanna, cantora inspirada na Simone, numa fase intermediária entre a vibrante MPB setentista e seus primeiros ventos comerciais, e Raimundo Fagner deixando de lado as raízes nordestinas para gravar discos comerciais sob a batuta de Sullivan. E a sambista Alcione, com sambas-canções pasteurizados, abriu alas para os sambregas dos anos 90.

De outro, temos José Augusto, um dos queridinhos do "dirigismo cultural" das esquerdas médias - aquelas que acham que existe "música de protesto" na acéfala axé-music - , e Xuxa e Trem da Alegria sufocando as infâncias com a obsessão de uma adolescência que se antecipou e depois se prorrogou em muitas mentes brasileiras nascidas na virada dos anos 70 para os 80.

Michael Sullivan fez aumentar ainda mais o desinteresse dos jovens pela MPB, já que levou ao extremo todo tipo de pasteurização. Ele mesmo tornou-se o chefão de uma indústria musical, impondo fórmulas comerciais, determinando as regras de um hit-parade brasileiro, sob as bênçãos das multinacionais (sobretudo a antiga RCA-Victor, hoje parte da Sony Music) e do "doutor" Roberto Marinho.

O "império" de Michael Sullivan foi impulsionado sobretudo pelas emissoras de rádio "populares" controladas por oligarquias - sobretudo rádios como a carioca 98 FM, das Organizações Globo - e por muitas outras apadrinhadas por Antônio Carlos Magalhães e José Sarney nos anos 80. Se até Toninho Malvadeza deu um empurrãozinho para os sucessos de Sullivan e Massadas...

Aí ele abriu o caminho para as primeiras formas híbridas de música brega, adotadas pela geração "neo-brega" dos anos 90: Alexandre Pires, Belo, Raça Negra, Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Art Popular, Zezé di Camargo & Luciano, Frank Aguiar, Mastruz Com Leite, Chiclete Com Banana, todos de uma forma ou de outra influenciados por Michael Sullivan.

Por causa disso, Michael Sullivan tornou-se o "pai" da "MPB de mentirinha", embora aventuras pseudo-MPB tenham sido notadas, nos anos 70, através de nomes como o próprio José Augusto, Fernando Mendes, Wando, Ângelo Máximo, Dudu França, Nahim, Markinhos Moura, Kátia e Adriana, embora a culpa fosse jogada para nomes realmente MPB como Guilherme Arantes e Zizi Possi. Papagaio come milho...

Só que, com a glamourização da breguice difundida por um poderoso lobby de intelectuais, celebridades e artistas comprometidos com um Brasil mais cafona e mais consumista, mais preocupados em formar um hit-parade brasileiro quase monopolista do que em proteger o patrimônio cultural brasileiro, Michael Sullivan entrou para a galeria dos "injustiçados".

Esperto e ciente dos mecanismos de autopromoção pessoal, Sullivan havia estado num relativo ostracismo até voltar trabalhando a falsa imagem de "vítima". Reclamando de "ter sofrido preconceito" por conta de sua "eclética" produção musical, Sullivan queria voltar ao mercado vestindo a máscara de "gênio da MPB".

PROCUREMOS SABER

No entanto, Sullivan contribuiu muito para o enfraquecimento da MPB. Com a pasteurização da MPB feita por Lincoln Olivetti e Robson Jorge, e a cosmética de luxo do brega feita por Michael Sullivan e Paulo Massadas, os quatro foram "comemorar" a supremacia do comercialismo na música brasileira compondo a música "Amor Perfeito".

E quem é que eles escolheram para gravar a música? Geraldo Vandré? Itamar Assumpção? Tom Zé? Garotos Podres ou algum outro "subversivo" que venha nas imaginações surreais da "mais bacana" intelectualidade cultural dominante?

Não. O escolhido foi ninguém menos que Roberto Carlos, o ídolo pop brasileiro que está desquitado da intelectualidade cultural dominante depois que expressou um zelo demais por sua privacidade processando o arroz-de-festa da intelligentzia, Paulo César Araújo, por causa de uma biografia não-autorizada.

Sim, o mesmo Roberto Carlos do Procure Saber havia feito a "aliança" entre bregas e emepebistas, abrindo os primeiros caminhos para os neo-bregas, caminhos estes "pavimentados" por Michael Sullivan, criando o establishment para o mais escancarado comercialismo musical brasileiro.

Hoje Michael Sullivan quer se livrar da culpa dos excessos cometidos pelo brega-popularesco, sobretudo de nomes como MC Naldo, Fernando e Sorocaba ou mesmo de um Chiclete Com Banana em seus abusos de ordem financeira e fiscal, por decisão de um prepotente Bell Marques que provavelmente decidiu sair da banda (só está cumprindo os últimos compromissos profissionais) por desentendimentos com os demais integrantes.

Mas nada disso teria ocorrido se não fosse o império midiático-musical de Michael Sullivan, que nem de longe é o "gênio injustiçado" que tenta trabalhar hoje em dia. Muito do comercialismo musical brasileiro de hoje se deve a suas atividades como compositor e produtor. Ele não pode ser considerado um benfeitor da MPB se ele contribuiu para sua destruição e o afastamento da MPB do grande público.

Não será um tributo majoritariamente emepebista que irá mudar a situação. Na música brega, é costume que os mesmos ídolos que querem acabar com a MPB tentem se apropriar dela e prometam - sem qualquer chance de cumprimento verdadeiro - salvá-la.

Michael Sullivan será sempre ligado ao comercialismo musical, e em parte como colaborador da ditadura midiática, que através dele desenvolveu formas caricatas e estereotipadas de "cultura popular". Graças a ele é que o povo pobre anda afastado de suas próprias tradições culturais.

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