sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O BREGA DE VEJA E A CHORADEIRA FAROFAFEIRA CONTRA O SILÊNCIO AO "FUNK"

ODAIR JOSÉ E MC GUIMÉ - Duas gerações da música brega que o dirigismo ideológico das esquerdas médias recomenda, mas que garantem o sossego dos barões da grande mídia.

Por Alexandre Figueiredo

A choradeira continua, mas enquanto as esquerdas médias abduzidas por intelectuais culturais "bacaninhas" acham que a breguice brasileira ocorre à margem da grande mídia, eis que a própria grande mídia faz louvores à bregalização, ganhando eco até nos círculos mais reacionários.

A revista Veja, na edição de hoje, mas lançada nas bancas com antecedência, faz uma reportagem elogiosa aos ídolos cafonas, que, fotografados vestindo roupa de gala, ganharam de presente o título "O fino da Fossa", fazendo trocadilho ao sofisticado programa de MPB dos anos 60, O Fino da Bossa, reduto da "insuportável" MPB politizada que hoje irrita os intelectuais "bacaninhas".

O mesmo periódico que demoniza tudo quanto é movimento social, das entidades estudantis às populações indígenas, dos movimentos sindicais aos roqueiros alternativos e só acredita nos investidores estrangeiros para garantir a prosperidade brasileira é o que também faz altos elogios a duas correntes "injustiçadas" da música brega: o "brega de raiz" e o "funk".

A Veja faz coro aos "progressistas" intelectuais "bacaninhas" quando recorre ao brega para pregar os estigmas de "lamentos amorosos" e "lindas melodias" de um suposto apelo popular, usando "provocativamente" um título que faz trocadilho a um programa de TV antigo para elevr os cafonas ao status de "arte superior".

É a mesma corrente que quer derrubar a MPB autêntica e que ganhou fôlego depois do caso do movimento Procure Saber. A intelectualidade parte para cima de Chico Buarque e quer derrubar a Bossa Nova, o Clube da Esquina e outros movimentos de cultura de qualidade, para escravizar o Brasil no hit-parade simbolizado por toda a linhagem da música brega-popularesca.

Daí a ênfase que se tem dos dois mais controversos ritmos do brega, como o "tradicional" brega "de raiz" (simbolizado por Waldick Soriano e Odair José) e o "funk", supostamente "rebelde". São duas faces extremas de um mesmo universo cafona, que inclui também ritmos híbridos como o "pagode romântico", o "sertanejo", o "forró eletrônico", o tecnobrega, a axé-music etc.

Pois tanto antigos ídolos cafonas como funqueiros carregam mais na choradeira discursiva, uma choradeira que nada tem de progressista nem de esquerdista, até porque tudo não passa de uma manobra discursiva para ampliar tendências popularescas para redutos e públicos mais "selecionados".

Os bregas não são cortejados pela mídia direitista por coincidência. Até porque eles devem seu sucesso à mídia de direita, que através de rádios regionais, ligadas a oligarquias dominantes, eles desenvolveram um falso paradigma de canção popular, baseada em estereótipos que fazem apologia à mediocridade, à pobreza, à ignorância, ao sofrimento, à ausência de valores morais.

"BRASIL COITADINHO"

O brega simboliza o "Brasil coitadinho" em que a baixa autoestima é travestida de "elevada" na medida em que se cria uma visão dominante de que o pobre não pode melhorar de vida, pelo menos sem fazer se afirmar como um "coitadinho", sem transformar sua inferioridade sócio-cultural em visibilidade e sucesso financeiro.

Primeiro, o povo pobre mostra tudo que tem de ruim, e depois, sob o apoio paternalista da intelectualidade "mais bacana", ele "se evolui". Mas essa evolução é até falsa, porque tudo continua brega, miserável, grotesco, piegas e exagerado, só que choveu mais dinheiro, há mais consumo, embora a verdadeira qualidade de vida simplesmente nem chega a existir.

E no caso do "funk", a choradeira chega ao seu tom mais dramático e extremo. O "funk" pode até não falar de dores amorosas tal como os ídolos do brega mais antigo, mas carrega mais na choradeira por um "espaço nobre" na dita "diversidade cultural" (não seria "livre mercado"?), com uma dramatização observada sobretudo nas palestras, reportagens, documentários e até monografias.

E eis que chegam os farofafeiros choramingando por que o "funk" não pode mais se tocado em altíssimo volume nas ruas durante a madrugada. Os dois blogueiros, Pedro Alexandre Sanches e Eduardo Nunomura, que prestam um serviço free lancer para a ditadura midiática, são notórios propagandistas desse ritmo e que levam a choradeira ao seu grau mais extremo.

"LEI DO PANCADÃO"

Agora é Nunomura que converte lágrimas em palavras diante da sanção do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), a "Lei do Pancadão", que prevê multas de mil reais, com aumento de 100% a cada reincidência, para quem tocar "funk" em altíssimo volume entre 22 horas e 7 da manhã. A lei foi sancionada depois da aprovação do projeto de lei de dois ex-policiais aprovadas pela Câmara Municipal da capital paulista.

Nunomura é enfático: "Com o “Proibidão de Haddad”, vencem a criminalização do gênero musical e a sociedade que abomina a mais popular manifestação dos jovens das periferias", diz, na sua dramatização discursiva diante de situações desse porte.

Isso se torna tão absurdo quanto atribuir à sociedade moralista de 1910 a rejeição que se dá ao "funk". Além disso, o som do "funk", com suas grosserias, causa incômodo para as pessoas que querem dormir para no dia seguinte irem ao trabalho.

E não são madames nem policiais militares que reclamam isso. Muitos trabalhadores pobres, gente das periferias, que não aguenta uma poluição sonora que, tirando-lhes o sono diário, pode afetar no seu rendimento profissional.

Pois o "livre direito" de fazer "bailes funk" nas madrugadas prejudica as próprias classes trabalhadoras. Se o "funk" diz gerar empregos, na prática, porém, pode gerar desemprego, já que quem perde o sono diariamente não consegue ter o desempenho necessário para o trabalho, devido à indisposição causada pela impossibilidade de repouso.

Aí, é aquela coisa: quem trabalha mal acaba entrando na fila de futuros demitidos, sobretudo quando empresas e instituições fazem reestruturação econômica. E aí temos que inocentar o "funk", que não aceita qualquer tipo de crítica e joga para a República Velha, das velhas madames e dos truculentos policiais, a culpa da rejeição que sofre.

O "funk" só tem o som de acalanto para "bacanas" como Sanches e Nunomura, os dois "frilas" dos barões midiáticos, a vestirem a camisa adversária para fazerem gol contra e garantir pontos para a ditadura midiática.

E se até Veja adora Odair José em detrimento a Chico Buarque e elogia até o "funk ostentação" de MC Guimé e companhia, de que "reforma agrária" cultural Pedro Alexandre Sanches imagina haver? Só se for a "reforma agrária" dos tempos da antiga UDN, aquela que garante a indenização em dinheiro vivo para os coronelistas da terra, das finanças, da política e da mídia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...