quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O "BOM RACISMO" DO "FUNK"


Por Alexandre Figueiredo

Os intelectuais culturais "bacaninhas" bateram o martelo. Quem rejeitar o "funk" está rejeitando, na visão deles, a negritude brasileira, e acaba ganhando o rótulo de "racista". Pode ser um roqueiro fã de Jimi Hendrix, ou um emepebista fã de Johnny Alf, o rótulo "racista" é carimbado no seu rosto sem dó.

Isso é um discurso muito, muito perigoso. De repente o "funk" passou a ser o "símbolo máximo" de negritude, folclore afro-brasileiro moderno e expressão de negros pobres, para uma elite de intelectuais dotada de muita visibilidade, títulos e prestígio.

Só que o discurso, usado para favorecer a reputação do "funk", na verdade vai contra a negritude brasileira. A retórica tão alegremente defendida pelos intelectuais mais influentes pode representar um tiro pela culatra, e o que parece um elogio à cultura negra acaba sendo uma demonstração de racismo puramente elitista.

Isso porque, como já havíamos escrito, o "funk", ao ser definido como "expressão máxima" da negritude contemporânea, vincula o negro brasileiro a uma forma estereotipada e caricata que o obriga a rebolar até o chão e a se comportar como um patético "leleke" que só beneficia mesmo o paternalismo de um Luciano Huck da vida.

Tal atitude é tão ruim quanto a escravidão. Quantos "escravos" o "funk" cria, esse mercado controlado por empresários-DJs muito ricos, e quase todos brancos (independente de serem mestiços ou não, mas socialmente "embranquecidos" pelo status quo), com seus MCs a manipular corações e mentes de um povo pobre que se aprisiona nos valores ideológicos deste ritmo.

O jovem pobre não pode compor melodias nem tocar instrumentos musicais. A jovem não pode ser sonhar em ser professora, cozinheira, costureira ou advogada, porque "ser MC é muito melhor". Valores morais não podem ser ensinados, porque a pornografia é que é o "discurso direto", o "modelo" de afirmação juvenil, mesmo que por via da pedofilia mais escancarada.

Só que dizer isso, mesmo para alguém que não tem a visibilidade fácil dos ideólogos que defendem o "funk", fica sempre em vão. A intelectualidade cria uma visão oficial para o "funk" sob a qual só se deve enxergar valores positivos ao gênero, mesmo quando ocorre sexo grupal sob o efeito de drogas num "baile funk".

É o que acontece. O povo pobre é julgado não por sua realidade, mas pela "sabedoria" etnocêntrica de jornalistas culturais, cientistas sociais e cineastas comprometidos com a bregalização do país. O problema é que eles fazem tudo para que prevaleça seus pontos de vista.

Uma manobra discursiva é dizer que os funqueiros são "negros". Mesmo quando são brancos como MC Guimé. Um funqueiro branco, uma funqueira loura, são "negros", representam a "negritude". Por esse raciocínio, um músico sofisticado como Pixinguinha seria "branco", por causa de sua arte requintada. Assim fica complicado levar a intelectualidade a sério neste país.

Só eles, os intelectuais "bacanas", é que pensam o que é "melhor para as periferias". E chegam mesmo a dizer o que deve ser e o que deve fazer o negro pobre no Brasil. "Fique rico, mas seja pobre", é o mandamento da intelectualidade que quer parecer "a mais bacana do Brasil".

Com isso, o pobre fica refém dos detentores de diplomas, títulos e colecionadores de aplausos desavisados que nem sempre possuem uma visão coerente das periferias. Eles pensam o povo dentro de seus escritórios, colegiados e outros espaços privados, mas seu privilégio da visibilidade garante que muita gente acredite nas suas visões etnocêntricas sobre as classes populares.

Intelectuais se aproveitam de seu prestígio fácil para praticar um racismo sutilmente cruel. Para eles, o povo negro e pobre tem que rebolar até o chão, rir feito um pateta e apenas desejar mais consumo, sem poder superar sua ignorância e seus valores de miséria.

Dessa maneira, o povo negro e pobre, na "generosa" visão etnocêntrica da intelectualidade cultural dominante, fica refém de seus estereótipos racistas, que apresentam até mesmo nos espaços relativamente elitistas. Questionar esse estereótipo não é racista.

Racista é achar que o negro pobre só se afirma "descendo até o chão" ou se comportando como um leleke. E mais racista ainda é a intelectualidade "mais bacana" achar que o "melhor" caminho para a emancipação social dos negros pobres é através desses estereótipos.

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