sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O APOIO DA GRANDE MÍDIA AO "FUNK". COMO FICA A 'INTELLIGENTZIA'?


Por Alexandre Figueiredo

Com o apoio explícito da revista Veja ao "funk" - descontada a cara feia com que certos articulistas "olavetes" como Reinaldo Azevedo encaram o ritmo - , os funqueiros consagraram a aliança mais do que escancarada que eles têm com os barões da grande mídia.

Isso enterra definitivamente o mito de que o "funk" era "discriminado pela mídia", difundido sem questionamentos até cerca de cinco anos atrás, mesmo quando os funqueiros entravam nas Organizações Globo pela porta da frente e até a Folha de São Paulo fazia reportagens elogiosas ao gênero na primeira página de Ilustrada.

Esse mito de que o "funk" é "movimento sem-mídia" é tão falso que foi construído em conjunto pela Globo e Folha. Foi uma estratégia de marketing, tal qual o contramarketing das grandes empresas que fingem ter medo de patrocinar um evento de "funk" e dizem "retirar o patrocínio", enquanto patrocinam por fora, sem emprestar seus logotipos a tais eventos.

A consagração do "funk" pela revista Veja, aparentemente "derrubando" as "barreiras" da grande mídia, atraindo o apoio entusiasmado de um periódico que condena o movimento dos sem-terra (sobretudo numa época que o MST faz 30 anos), os sindicatos, os movimentos estudantis, os governos trabalhistas, as iniciativas populares, deixa a intelectualidade dominante transtornada.

Afinal, pensemos filosoficamente: se o "funk" é tido como "movimento sócio-cultural", porque Veja, que condena os verdadeiros movimentos sócio-culturais, foi tão carinhosa com o "funk ostentação", como os demais veiculos da imprensa ultraconservadora paulistana (sobretudo a outrora moderna Folha, que se jogou mais à direita como se fosse um PSDB em forma de jornal)?

A intelectualidade cultural dominante faz vista grossa. Aparentemente, porque MINGAU DE AÇO não possui a visibilidade necessária para fazer frente à intelectualidade "bacana", e portanto fala de uma realidade "nada agradável", desmascarando mitos consagrados pela intelligentzia oficial.

Não tendo muita visibilidade, a visão, por mais coerente que seja, não repercute. Prevalecem os mitos, as visões equivocadas, porque elas são trazidas por jornalistas culturais que "entrevistaram muita gente", cientistas sociais com diplomas, cineastas documentaristas que acumulam prêmios e outros intelectuais que "sabem tudo das coisas".

Além da baixa visibilidade que temos - o que nos alinha realmente numa mídia nanica, alternativa, e não um "Farofafá" da vida que presta serviço freelancer aos barões da grande mídia - , há o mito intelectualoide de que o "funk", como outros ritmos igualmente "provocativos", só aparece na grande mídia por conta de uma atitude "conspiratória", "invasão do espaço inimigo" e outras lorotas.

Aparentemente, a indiferença da intelectualidade cultural dominante em relação ao apoio de Veja ao "funk ostentação", mesmo quando sabemos o contraste entre o pseudo-ativista MC Guimé (ou MC Guimê ou MC Guime, para "diversificar" a busca no Google), bem tratado pela revista, e um ativista social que só vira capa no mesmo periódico na condição de "criminoso", é gritante.

Tentam argumentar que isso ou é "coincidência", ou é fruto de uma "ação conspiratória de ocupação do espaço do inimigo". Foi esta tese que alguns intelectuais badalados quiseram fazer quando a Banda Calypso apareceu na Rede Globo, seja nos palcos do Domingão do Faustão e Caldeirão do Huck, seja no Casseta & Planeta com Joelma e Chimbinha abraçados a Marcelo Madureira.

Tanto exploraram algum caráter pseudo-revolucionário da Banda Calypso - inclusive uma fictícia organização "guerrilheira" (?!) espalhou o boato, depois desmentido, de que o grupo foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz - que foi só Joelma sofrer um surto moralista do nível de Marco Feliciano para a reputação do grupo ser derrubada e a intelectualidade dominante, envergonhada, ficar em silêncio.

Agora eles não conseguem explicar por que o "subversivo" MC Guimé virou capa de Veja numa bem elogiada matéria. Talvez tentem argumentar que os elogios são apenas de responsabilidade do jornalista cultural Sérgio Martins, remanescente dos bons tempos da Bizz. Mas por que cargas d'água MC Guimé virou capa de Veja? É decisão dos editores o que será capa de uma edição na revista.

São os mesmos editores que colocam aquelas manchetes lamentáveis, seja criminalizando os movimentos sociais, seja mostrando matérias pedantes sobre saúde e comportamento. Portanto, houve consentimento e apoio ao "funk ostentação", por parte da cúpula da revista, normalmente ranzinza para tudo que corresponde às classes populares.

Isso derruba a farsa do "funk". Mas a intelectualidade nem liga. Só no blogue Farofafá, Pedro Alexandre Sanches e Eduardo Nunomura, que não conseguem mais esconder seu neoliberalismo ideológico, sendo propagandistas da lei de "livre mercado" aplicada à MPB, a ligação do "funk" com a grande mídia é omitida com confortável silêncio.

SE AS COISAS CUSTAM DINHEIRO, TEMOS QUE COMPRAR, NÉ?

No entanto, eles deixam escapar seu neoliberalismo encharcado de Fernando Henrique Cardoso, de Francis Fukuyama, de Rede Globo, de Otávio Frias Filho, quando falam da visão que eles acreditam ser a meta final dos jovens das periferias brasileiras: "consumir".

"A nova geração – em todas as classes sociais – quer consumir, consumir com ostentação, inclusive a música que a representa atualmente com maior precisão", dizem os dois, em artigo conjunto, numa declaração digna de algum diretor "conscientizado" do Fundo Monetário Internacional.

Consumir é apenas um pequeno detalhe. É claro que, se as coisas custam dinheiro, temos que comprar. O grande problema é que essa obsessão pelo luxo defendida pelos funqueiros de ostentação é vista como "ativismo social", quando na verdade é uma submissão às regras do mais escancarado capitalismo neoliberal.

É o mesmo capitalismo neoliberal defendido pelos ideólogos da "livre iniciativa", aparentemente "combatidos" pelos intelectuais culturais "bacaninhas". Fala-se de gente "da pesada" como Eliane Cantanhede, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, William Waack, Arnaldo Jabor, Josias de Souza, Augusto Nunes e Miriam Leitão.

Sobre Miriam Leitão, é bom ressaltar que ela "também entrevistou muita gente" e não obteve a "santidade" que coloca Pedro Alexandre Sanches na divina trindade intelectual ao lado de Paulo César Araújo e Hermano Vianna.

A intelectualidade que defende o "funk ostentação" não consegue esclarecer por que prefere que as periferias consumam em vez de defender a verdadeira cidadania. No fundo fica aliviada com isso, já que os funqueiros se livram do fardo de terem que fingir defender valores sociais e morais que no fundo nem estão aí para exercer.

A desculpa observada no discurso atual da intelligentzia é que a obsessão pelo luxo era também expressa por roqueiros, por rappers e por cantores de pop sofisticado da linha de Frank Sinatra, e que foi seguida "inocentemente" pelos funqueiros brasileiros.

Mas isso não resolve o problema. Da mesma forma que o apoio explícito da mídia ao "funk ostentação". Ao que se observa, nenhum barão da grande mídia se sentiu ameaçado ou coagido a apoiar o ritmo. Nem os da Rede Globo, nem os da Folha, e nem sequer os da Veja. Todos deram apoio porque gostaram do tema. Essa é a verdade. A grande mídia apoia o "funk ostentação" e ponto final.

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