quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

INTELECTUALIDADE BRASILEIRA É QUE ESTÁ PRESA EM 1910


Por Alexandre Figueiredo

"O funk é rejeitado por valores moralistas adormecidos há mais de cem anos, que ressurgiram apavorados diante das plateias lotadas e de tanto cartaz dado ao gênero", pregam, com uma certa demagogia, a intelectualidade cultural dominante.

Preocupados com os questionamentos acerca não só do "funk" como de outras tendências derivadas ou originárias do brega, os intelectuais que apostam num Brasil mais cafona, porque, parafraseando Cazuza, "pois assim se ganha mais dinheiro", eles tentam apelar para a choradeira dizendo que tudo o que defendem é "vítima de preconceito feroz".

Esse discurso rola há mais de dez anos. Nós, as pessoas que se preocupam com a qualidade de vida dos brasileiros e que sabemos que isso não passa sem a cultura, somos acusados, indevidamente, de pertencermos a antigas patrulhas moralistas que já nem existem mais.

Como se não quisessem ver diferença entre os moralistas extremos que se assustavam com inocentes pezinhos nus das jovens donzelas dos anos 1900-1910 e da rejeição das pessoas aos glúteos siliconados grotescamente exibidos por "mulheres-frutas", a intelectualidade "mais bacana" tenta apelar para o dramalhão discursivo para fazer prevalecer sua visão.

O que os intelectuais mais badalados, que fazem o jogo da grande mídia mas se recusa a admitir isso, querem é que se mantenha tudo que é estabelecido em nome do "popular". Seja o que for de absurdo, de aberrante, de grotesco, de piegas, de problemático. Nós é que aceitemos tudo isso, porque "é o que o povo gosta e sabe fazer".

Esses intelectuais é que estão presos a 1910. Ou talvez muito antes. Supostos "progressistas", esses intelectuais "provocativos" e "sabedores" da cultura brasileira, na medida em que defendem a bregalização resistindo a qualquer questionamento alheio, pensam igualmente aos "iluministas de engenho" dos séculos XVIII e XIX.

Já dissemos que a intelectualidade dominante naqueles tempos, entre o Brasil colonial e o começo do Segundo Império, adotava parcialmente ideais progressistas trazidos pela Revolução Francesa e pelos teóricos iluministas, mas batia o pé para defender os retrógrados ideais escravistas, mesmo sob a pressão econômica negativa do império britânico.

A paranoia dos intelectuais da época os fazia pregar que, se fosse feita a abolição da escravatura, os negros iriam provocar uma carnificina e uma série de atos de vandalismo, incendiando lojas, casas, apedrejando prédios públicos etc. Além disso, achavam que a escravidão era necessária porque ela "movimentava" a economia brasileira.

Hoje seus semelhantes dizem o mesmo. Se acabar a bregalização do país, vai ter mais gente incendiando ônibus, saqueando mercados, assaltando universitários. E dizem que o brega, seja o "de raiz", seja o tecnobrega, o forró-brega, o sambrega, o breganejo, o "funk", o brega-funk e tudo o mais, criam empregos e garantem lucros estáveis para a "cultura brasileira".

Os antigos "iluministas de engenho" tiveram que ceder seus pontos de vista quando a campanha abolicionista se avançou. Sua linha de pensamento adaptou-se para a ascensão das elites cafeeiras, que ganharam apoio dos descontentes escravocratas abandonados pelo Império, depois do maio de 1888, traduzindo-se no então emergente coronelismo de matiz neoliberal.

Evidentemente, o pensamento conservador da intelectualidade cultural brasileira, que no fundo prefere que o povo pobre permaneça nos estereótipos caricatos da bregalização do que devolver a ele os sambas, baiões, modinhas e maracatus que a intelligentzia paternalista roubou dele, só é "progressista" mediante algumas conveniências.

Contatos com sindicalistas e ativistas institucionais, participações em projetos que dependem das verbas do Ministério da Cultura petista, tudo isso faz de muitos intelectuais pró-brega, de origem claramente neoliberal - alguns foram formados sob a sombra do PSDB e sob o poderio midiático - os fazem "esquerdistas por situação".

Mas é grande o risco deles virarem "urubólogos" de uma hora para outra. Se eles, por exemplo, culpam o moralismo de 1910 pela rejeição dada ao "funk", é porque "conhecem" bem seu contexto histórico. Na verdade, eles mesmos integram esse contexto, mas, conforme define a ideia de projeção de Freud, eles atribuem seus próprios defeitos a outrem.

A intelectualidade "sem preconceitos", mas bastante preconceituosa, é que se apavora quando empregadas domésticas jogam os discos de Odair José, Chitãozinho & Xororó e até Thiaguinho para os sebos, desejando comprar os discos de MPB sofisticada igualzinho aos de seus patrões.

A intelectualidade "libertária" se apavora, assustada, quando uma jovem da favela se inspira em Leila Diniz, e não em Gretchen, como modelo de sucesso feminino. Os intelectuais "mais bacanas" se assustam quando um jovem favelado recusa o "funk" para aprender violão clássico e composição.

Daí ficam apavorados e tentam criar um discurso "progressista" para ideias retrógradas que defendem. Falam até numa absurda "reforma agrária na MPB", que nada tem de reforma agrária, até porque inclui no seu "caldeirão" nomes completamente cafonas apadrinhados com gosto pelos latifundiários de sua região.

Portanto, eles defendem a degradação sócio-cultural das classes populares como se fosse algo lindo. Tentam dizer, alegremente, que o povo indo que nem gado para os galpões onde se apresentam os "ídolos do povão" é "ativismo social". Mas se apavoram de ódio quando veem os pobres fazendo passeatas ou fechando trânsitos em rodovias para protestar ou pedir melhorias.

Essa intelectualidade quer apenas que haja a Casa Grande & Senzala do Brasil bregalizado. A Casa Grande curtindo MPB autêntica e o antigo patrimônio cultural das classes populares, que seus descendentes não podem mais usufruir, porque é "elitista demais".

Por outro lado, há as Senzalas modernas dos "bailes funk", dos eventos "brega-cult", dos bailões de "forró eletrônico", das micaretas e vaquejadas em que o peão boiadeiro é um misto de palhaço e equilibrista a encher de risadas os latifundiários.

Nestas senzalas modernas, o "povão" é mantido "feliz" na sua feição caricatural ditada pelo poder midiático, mas atribuída "carinhosamente" pela intelectualidade dominante como se fosse o próprio "consciente e inconsciente popular". O povão se bregaliza até o chão apoiado pela intelectualidade e pelas vigilantes elites política, empresarial e midiática que financiam tais espetáculos.

O que a intelectualidade não quer são os Quilombos modernos, de culturas populares realmente vivas, vibrantes e baseadas não nos receituários radiofônico-televisivos, mas pelo convívio comunitário.

Pouco ajuda a manipulação do discurso transformando Senzalas do brega em Quilombos do folclore, como tão fazem os farofafeiros da vida a tingir de verniz guevariano suas ideias aberta mas não assumidamente inspiradas em Francis Fukuyama. Até porque não há como classificar conceitos de "livre mercado" como se fosse "revolução socialista". Não faz sentido.

A bregalização do país deveria até ter sido lançada na República Velha. Mas somente os netos, bisnetos e tataranetos dos políticos e proprietários de terras da época é que tiveram a ideia de manipular a cultura popular para esta se transformar num engodo cafona, mofado, caricato e imbecilizado.

Só que os ideais da República Velha voltam a assombrar num momento ou em outro. Daí a saudade que a intelectualidade cultural de hoje tem dos tempos das velhas madames e dos subúrbios sujos e sem higiene.

O "funk" queria resgatar o pior do Rio de Janeiro pré-Pereira Passos, tirando de seu povo os velhos sambas que foram parar nas salas de estar das elites memorialistas. Mas hoje está até pior, com a proibição do povo pobre à cultura de qualidade, que, independente de sua origem, está confinada aos modernos preconceituosos "sem preconceito" dos dias de hoje.

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