sábado, 18 de janeiro de 2014

"FUNK OSTENTAÇÃO" EXALTA O "DEUS MERCADO"


Por Alexandre Figueiredo

O "funk ostentação" nem de longe apavora os barões da grande mídia. Da mesma forma que o "funk carioca", que até os deixava tranquilos e recebiam mesmo seu apoio. Não é preciso detalhar que o "funk carioca", com toda sua suposta fama de "discriminado pela mídia", sempre contou com o apoio da maior corporação midiática, as Organizações Globo.

Já o "funk ostentação" indica ter o apoio dos barões da mídia paulistanos. Folha de São Paulo, Veja, TV Bandeirantes e Revista Época sinalizaram o apoio aos funqueiros, com entusiasmo demais para uma mídia tida como "apavorada" com o sucesso dos funqueiros.

Com suas letras falando de bens de consumo caríssimos, e com vídeos mostrando seus MCs e suas musas em muitas orgias, elementos extraídos do gangsta rap norte-americano, o "funk ostentação" no entanto ganhou a blindagem da persistente intelectualidade cultural dominante.

Tentando repetir o discurso que, em 2005, prevaleceu no "funk carioca", a intelligentzia brasileira, com sua reputação comparável a de versões pós-tropicalistas de Joaquim Barbosa, ou de versões etnográficas de Ronald McDonald, tenta empurrar o "funk ostentação" para a "alta cultura", depois de terem jogado o "funk carioca" para condomínios de luxo e boates caríssimas.

Pois o discurso pretensamente etnográfico pregado pelos intelectuais "bacanas" tenta dar ao "funk ostentação" o status de "algo até mais ousado que o já ousado funk carioca", segundo o que eles pensam como "ousadia", levando mais em conta o caráter de rejeição do que a mediocrização artístico-cultural simbolizada pelo "funk".

Alguns intelectuais mais atrevidos, pregadores de uma tal "cultura transbrasileira" ("transbrasileira" é um termo análogo ao "transnacional" da economia neoliberal) e tomados de algum verniz "progressista", tentam fazer do "funk" não apenas uma suposta "alta cultura" ou um pretenso "ativismo social", mas atribuir a ele um caráter socialista que nunca existe no ritmo.

O discurso intelectual tenta pegar carona nos rolezinhos reprimidos pela polícia, só porque muitos desses frequentadores pobres dos shopping center cantam sucessos de "funk ostentação", e daí para acharem que MC Guimé é "ativista socialista" é um pulo.

Foi a mesma malandragem que Paulo César Araújo, em seu livro Eu Não Sou Cachorro, Não, quando o historiador querido pelas Organizações Globo havia usado um suposto trabalho acadêmico da PUC de Belo Horizonte para dizer que a canção de Waldick Soriano que deu nome ao livro era "canção de protesto", só porque era cantada por trabalhadores descontentes.

Mas bregas e funqueiros unidos pelo pretenso socialismo nada tem a ver. Afinal, o "brega de raiz" era direitista e conservador, o "funk" é capitalista e, escândalos comportamentais à parte, conservador à sua maneira. Nenhum dos dois tem o ranço progressista  tanto sonhado pela festejada intelligentzia.

"FIQUE RICO, MAS SEJA POBRE"

Na verdade, o "funk ostentação", na medida em que exalta os bens de consumo, exalta o "deus mercado". Se um dos sucessos de MC Guimé, queridinho do dirigismo cultural dos intelectuais "mais bacanas", fala mal de patrão, nem por isso o funqueiro de ostentação que mais se ostenta na mídia se torna um "militante guevaro-bolivar-zapatista" sonhado por seus ideólogos.

Pelo contrário. Relações hostis entre patrões e empregados existem nos cenários mais intransigentes de capitalismo. E o discurso "socializante" da intelectualidade falhou quando tentou atribuir as "virtudes" do "funk ostentação" a algum pretexto socialista.

Primeiro, porque a simples inserção dos pobres nos mais altos padrões de consumo não representa, em si só, alguma revolução social. É até algo esperado nos padrões do neoliberalismo mais radical, o de querer ampliar as faixas de consumidores, porque isso rende mais lucro às empresas.

Segundo, porque consumismo não é necessariamente qualidade de vida. É apenas a capacidade de comprar e adquirir coisas, mas não uma conquista de reivindicações sociais. Pode-se comprar mais durante regimes ditatoriais e com a casa sendo atingida por deslizamentos em dias de chuva. Consumiu-se mais, mas nem por isso houve melhoria na qualidade de vida de uma população.

Terceiro, porque os funqueiros de ostentação, ao exaltarem os bens de consumo, estão exaltando o capitalismo, tornam-se propagandistas certos de muitas mercadorias, poupando até o trabalho de publicitários para tamanha persuasão.

Não há um questionamento sério contra a sociedade de consumo, contra o consumismo. Pelo contrário, os funqueiros de ostentação exaltam o consumo até as últimas consequências. Mas, como eles são considerados "pobres", pelo menos simbolicamente, a intelectualidade vê "socialismo" até em favelado urinando nas ruas.

A grande mídia acha ótimo esse discurso. As grandes empresas também. Ninguém, entre as elites detentoras do poder, se apavora porque um funqueiro passa a "cantar" sobre um carrão de luxo, um relógio caro, uma bebida alcoólica de marca, e por aí vai. Os barões da mídia, do mercado, do empresariado em geral, todos até dormem tranquilos.

E o sono tranquilo é garantido pela barulheira dos funqueiros paulistanas, agora autorizada pela Prefeitura de São Paulo. Quem sofre insônia é a intelectualidade cultural dominante, incapaz de explicar equívocos e contradições no seu discurso apologista.

O "funk ostentação" segue a máxima "fique rico, mas seja pobre", fazendo com que os pobres desejem mais consumo e mais bens materiais, sem que isso represente qualidade de vida. Simbolicamente, tudo fica na mesma, porque não é podendo comprar mais que se faz cidadãos melhores. O "funk ostentação", tão somente, propicia maior número de consumidores. E só.

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