sábado, 11 de janeiro de 2014

FALTA DE AUTOCRÍTICA DO PT ABRE CAMINHO PARA A EXTREMA-DIREITA

RODRIGO CONSTANTINO - O fantasma do IPES assombra a socidade com uma direita reacionária e pseudo-intelectualizada.

Por Alexandre Figueiredo

A falta de uma postura autocrítica dos integrantes do Partido dos Trabalhadores, em especial os dois envolvidos no "mensalão", José Dirceu e José Genoíno, faz com que a direita brasileira, bastante articulada e coesa, preparasse sua escalada de busca de maior visibilidade, criando uma base sólida de oposição às esquerdas políticas e ideológicas.

Vários episódios dão conta disso. No Facebook, num contexto já diferente ao do Orkut - quando parte da direita se fantasiava de "esquerda" para bajular o governo Lula enquanto defendia valores retrógrados, sobretudo em relação à dita "cultura popular" da grande mídia - , é crescente a onda de "cidadãos zangados" se entregando de corpo e alma ao direitismo ideológico.

A extrema-direita ressurge com bandeiras como o "combate à corrupção" e a "reivindicação pelas melhorias de vida". Paranoica, a extrema-direita classifica de "esquerda" até mesmo regimes fascistas ou neoliberais, vide as pregações do lunático escritor Olavo de Carvalho.

Vivendo distante do país e, provavelmente, de seu tempo - Olavo parece viver em algum castelo medieval perdido no século XIV - , ele chega mesmo a dizer que Fernando Henrique Cardoso, a Folha de São Paulo, Luciano Huck e até o presidente dos EUA, Barack Obama, são "comunistas".

O "MODERNO" RODRIGO CONSTANTINO

A paranoia extremo-direitista, que os leitores comuns podem reconhecer na revista Veja, também é feita por Rodrigo Constantino, uma espécie de Ronaldo Lemos às avessas, porque, enquanto este defende um "retrocesso futurista" que junta mediocrização cultural e supremacia tecnológica, o outro defende um "obscurantismo ilustrado", que forja a superioridade ideológica da direita.

Me surpreende ao ver que o livro Esquerda Caviar, escrito por Rodrigo - que é autor também do entreguista Privatize Já - , está esgotado em todas as livrarias, em contraste com os encalhes sucessivos da revista Veja.

Isso porque Esquerda Caviar - que talvez não tenha a tiragem de um autêntico best seller - , no entanto, representa um atrativo para as "zangadas" elites da direita social brasileira, ou mesmo de alguns neutros descontentes com os rumos do PT, dentro de uma massa habituada a comprar muitos livros.

Rodrigo tenta se passar por um "juiz maior da sociedade", talvez acima até mesmo de Joaquim Barbosa, presidente do STF, para o qual Rodrigo tende a ver como "moderado demais" para as expectativas da sociedade sonhada pelo escritor, que também é um dos membros-fundadores do Instituto Millenium.

BUSCA DE VISIBILIDADE

Rodrigo é apenas um dos direitistas festejados que buscam a escalada da visibilidade e da tentativa de atrair a opinião pública "neutra" e "independente". Junto a ele, Diogo Mainardi deixou o colunismo semanal de Veja, mas é um dos membros do programa Manhattan Connection, do canal Globo News.

Globo News também serve para promover a visibilidade de Rodrigo Constantino e de Reinaldo Azevedo que, esperto, toma as dores de Mainardi em Veja, possui espaço na Folha de São Paulo e agora é "visitante ilustre" do canal noticioso dos irmãos Marinho. Que ironicamente também dá espaço aos "progressistas" Hermano Vianna e Ronaldo Lemos, que também escrevem para jornalões.

A própria Folha de São Paulo, como pessoa jurídica, ampliou seu poder de influência na TV Cultura, que exibe seu TV Folha, e na "rádio rock" paulistana 89 FM, sobre a qual mantém uma discreta participação acionária na emissora radiofônica "roqueira" cujo dono hoje está ligado a uma aliança da pesada com o "irado" e "animal" Geraldo Alckmin.

Há também o jornalista gaúcho Augusto Nunes, que já era estrela do grupo RBS - da família Sirotsky e do qual veio a "progressista" Denise Garcia para fazer o documentário funqueiro Sou Feia Mas Tô Na Moda, sob o apoio não-oficialmente creditado da Globo Filmes - , que se tornou também astro da Veja e apresentador do Roda Viva da TV Cultura.

O discurso que gente como Augusto Nunes, Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi e outros - destacam-se também o historiador Demétrio Magnoli e o filósofo Luiz Felipe Pondé - , além dos habituais Miriam Leitão, Merval Pereira e do "garoto de recados" William Bonner, fazem é de uma suposta racionalidade "imparcial" traída pelos desmandos do PT.

A esse clube se somam ainda o cineasta e articulista Arnaldo Jabor, o roqueiro Lobão e o humorista e produtor de programas educativos Marcelo Tas, também porta-vozes das "pessoas zangadas". Todos forjando uma superioridade intelectual e uma suposta imparcialidade para defender um país cada vez mais submetido à cartilha sócio-político-econômico-cultural dos EUA.

ERROS DO PT

Não que dentro dos petistas essa cartilha não seja cumprida. É que, só para citar o âmbito cultural, enquanto a direita "mais zangada"defende os valores protecionistas das elites abastadas, as chamadas "esquerdas médias" - que envolve as esquerdas menos exigentes e pseudo-esquerdistas vindos da centro-direita intelectual e dotada de algum populismo - querem a domesticação sócio-cultural das classes populares.

Enquanto as "esquerdas médias" defendem o capitalismo reformista, mantendo praticamente intatos os paradigmas de "cultura popular" transmitidos pela mídia reacionária e seu empresariado associado, a "direita zangada" usa a crítica à mediocrização cultural resultante dessa visão para defender o protecionismo de sua "alta cultura".

Mas outros erros do PT fazem com que a extrema-direita planeje sua ascensão na opinião pública. Como a falta de autocrítica que os acusados de envolvimento com o mensalão, os antigos heróis da luta contra a ditadura José Dirceu (ex-presidente da UNE em 1968) e José Genoíno (remanescente dos militantes envolvidos com a guerrilha do Araguaia em 1972), insistem em manter.

Até agora, os dois se limitam apenas a se dizerem "perseguidos". Tudo bem que boa parte das condenações é exagerada e que a grande mídia não mede escrúpulos para desmoralizá-los gratuitamente, na calúnia mais explícita, a ponto de poderem ver, até num simples espirro de José Dirceu, o bombardeio de armas químicas a destruir a humanidade brasileira.

José Genoíno, aparentemente, adoeceu, e anda sofrendo a implicância jurídica do presidente do STF, Joaquim Barbosa, o mesmo que prefere ser um astro midiático - sobretudo das Organizações Globo, que empregaram seu filho para um cargo de produção - , e José Dirceu foi proibido até de ler livros quando estava detido na cadeia da Papuda, em Brasília.

No entanto, Dirceu e Genoíno não expressaram definitivamente uma "mea culpa" em relação aos erros que fizeram. Quando houve conveniência, eles se aliaram a Marcos Valério para o esquema de barganhas político-financeiras em favor do PT.

É de praxe do Partido dos Trabalhadores obter alianças pouco confiáveis na ânsia de obter maior visibilidade e vantagens políticas imediatas. Do PMDB ao empresariado ligado ao entretenimento brega-popularesco - que está de olho no dinheiro do Ministério da Cultura dos governos petistas - , passando até mesmo pelo magnata George Soros, o PT arranhou sua reputação por causa do fisiologismo político.

Daí essa falta de autocrítica abrir caminho para a reação direitista. O maior risco é a decadência das esquerdas, seja o PT, sejam outros partidos, tanto se considerar a reeleição de Dilma Rousseff ou alguma alternativa viável para as forças progressistas.

Isso porque o não-reconhecimento de erros cometidos pelo PT, pelo PSOL, pelo PC do B ou outras forças das esquerdas, que poderia ser uma chance de correção de vícios, abandono de práticas inconvenientes e de reabilitação autocrítica de seus líderes, acaba sendo pior do que as hesitações políticas de João Goulart, há 50 anos atrás.

Jango propiciou o golpe num complicado esquema de alianças e promessas que era combatido por uma direita intolerante à sua figura. Jango foi cortado da vida política mais pelos acertos que queria fazer e desagradavam as forças dominantes do que pelos erros que havia cometido.

Já o PT pode se comprometer pelos erros que cometeu. Posar de vítimas não é algo que resolva o problema, até porque isso provoca gargalhadas nos ideólogos reacionários. É fácil se dizer perseguido e posar de vítima-vitoriosa - nesse habilidoso jogo discursivo - , mas difícil é assumir os piores erros e afirmar que não os cometerá.

Está na hora de José Dirceu e José Genoíno darem uma explicação definitiva a respeito dos erros que cometeram. Eles têm amplo direito a isso, dentro de seu direito de ampla defesa e ajuste de contas com a sociedade. Dependendo de sua autocrítica, eles poderão até dar a volta por cima. Caso contrário, a direita se aproveitará disso para caluniá-los cada vez mais.

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