sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

CULTURA BRASILEIRA EM PROCESSO DE "JOAQUIMBARBOSIZAÇÃO" E "MCDONALDIZAÇÃO"



Por Alexandre Figueiredo

A cultura brasileira passa por um processo de "joaquimbarbosização" e "mcdonaldização". Mesmo com as melhorias sociais de âmbito político, econômico e institucional em curso, a supremacia do brega-popularesco, herança remanescente do poderio político, midiático ou mesmo latifundiário dos tempos da ditadura e dos governos neoliberais, tenta persistir a todo custo.

Nosso blogue, ainda à margem do circo da visibilidade fácil que envolve intelectuais culturais ditos "tarimbados", "bacanas" e "indiscutíveis", se arrisca a questionar o estabelecido. Nem todos se sentem confortáveis com isso.

Alguns ficam constrangidos, porque limitados a uma visão monolítico-midiática do que é o "popular", se sentem incomodados achando que qualquer questionamento sério e constante soe como uma campanha "elitista" e "fascista".

Esquecem de ver o outro lado. Afinal, a bregalização cultural é que parece se aproximar de um totalitarismo, tirando a cultura de verdade até mesmo dos redutos mais abastados ou da apreciação de pessoas com relativo grau de esclarecimento.

Virou um status quo achar que o "popular" midiático é uma esperança para a população pobre. As elites, sejam as classes médias altas, as elites acadêmicas e as elites empresariais, acham ótimo o povo pobre reduzir-se a uma caricatura risível, conformada, ingênua, transformando pobreza, ignorância e subemprego em glamour.

PERSPECTIVA MÍOPE DO QUE É "JUSTIÇA SOCIAL"

Essa visão do povo pobre reduzido a uma multidão de gente ingênua, risonha e quase patética é apoiada diante de uma perspectiva míope do que é "justiça social", que deixa muita gente confortável, achando que é a conquista do povo no ramo do entretenimento.

Reclamar sobre isso, verificar as contradições e equívocos dessa "cultura popular" de proveta, é passar uma imagem, ainda que equivocada, de "antissocial". A sociedade acha ótima a bregalização, mas se recusa a perceber que esse canto de cisne da ditadura midiática, se tornar-se uma quase unanimidade, poderá reciclar o poderio midiático da forma que poucos imaginam.

Os barões da grande mídia patrocinam a bregalização do país. De forma mais do que explícita. Mas o suposto "senso comum" tenta fazer crer que isso é mera coincidência e que mesmo os mais ingênuos nomes da bregalização musical que tomam conta de rádios e TVs aparecem na mídia ora para "conquistar um espaço seu", ora para "conspirar contra a mídia".

E quem difunde essas visões? É uma intelectualidade cultural que se formou nos tempos de Fernando Henrique Cardoso e aprendeu concepções neoliberais aplicadas à cultura brasileira, algo que já analisamos há muito, muito tempo, embora muita gente esteja surda a essa realidade.

Afinal, pouco importa se a intelectualidade cultural dominante floresceu na Era Lula. Ela se formou em etapas anteriores: governos FHC, Era Collor ou mesmo através de uma linha de pensamento difundida a partir da Era Médici. Ou mesmo partindo de intelectuais relativamente mais novos - entre 35 e 50 anos - que assistiram à TV na infância durante a ditadura militar.

Quando se alerta para isso, uns se calam com a indiferença que mais parece uma reprovação. Outros reagem dizendo que nós não temos visibilidade e portanto tais constatações não procedem. Outros dão risadas esnobes, porque o que vale é a visão "oficial", que é mais "verossímil" e mais confortável.

"JUÍZES" COMO O JOAQUIM BARBOSA

Para todos eles, pouco importa se o jornalista cultural tal, o antropólogo qual, o historiador aqui, o professor ali, adotam influências de Francis Fukuyama, Fernando Henrique Cardoso e até Reinaldo Azevedo para analisar a "cultura popular" que acreditam. Basta bajular Lula e similares para serem vistos como a "fina flor do pensamento cultural de esquerda".

Pouco importa se o que eles acreditam como "cultura popular" é o que é veiculado sob o apoio mais aberto de barões da grande mídia e latifundiários. Se tem as verbas do Ministério da Cultura em jogo - mesmo baseados numa Lei Rouanet da Era Collor, sendo que Rouanet foi um político ligado ao grupo de FHC - , tudo é visto como uma "alegre conspiração guevariana" brasileira.

Só que pessoas assim, ligadas à intelectualidade cultural ou mesmo a seus seguidores, se situam no mesmo contexto de pretensos juízes, de pretensos julgadores da realidade social da mesma linha do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, em relação aos fatos jurídicos e políticos do país.

Assim como JB, endeusa-se jornalistas e historiadores "culturais" porque eles "entrevistam todo mundo" e "pesquisam muito". Mas Joaquim Barbosa "estudou muito", Miriam Leitão e William Waack "entrevistam muito", Marcelo Tas "fez muito pela educação do país". E daí?

Quem aposta na bregalização do país vira um "deus". Até dirigentes funqueiros viram totens inabaláveis. Ninguém pode criticá-los, sem que seja acusado de integrar patrulhas moralistas de 1910, ou de "demonizar" demais os intelectuais "mais bacanas do país".

Só que, sem saber, intelectuais pró-brega, dirigentes funqueiros e tudo o mais acabam gozando de um prestígio que, até tempos atrás, os próprios "urubólogos" gozavam de forma então inabalável. O "quarto poder" foi conquistado pela intelectualidade empenhada na bregalização, já que, no fundo, os intelectuais "bacanas" prestam um serviço freelancer para os barões da grande mídia.

MCDONALDIZAÇÃO

A "maravilhosa cultura popular" que os intelectuais "bacanas e tarimbados" defendem, dentro de sua perspectiva de fazer o Brasil ser o mais cafona possível, consiste em apenas legitimar fenômenos e valores que estão mais associados a uma visão consumista promovida pelo poder midiático do que pela "natural vontade" do povo das periferias.

Esse modelo chega mesmo a parecer uma "mcdonaldização" da cultura brasileira, vide o caso observado no McDonald's, rede norte-americana de comida rápida acusada de exploração no mercado de trabalho e associada a um tipo de alimentação nada saudável.

Pois é isso que vemos na "admirável cultura das periferias". Uma "cultura" entregue a empresas de entretenimento e agenciamento de famosos, que promovem a imbecilização sócio-cultural à custa da prevalência do "mau gosto", que encanta os intelectuais mas nem sempre agrada a sociedade, mesmo as próprias periferias.

Essa "cultura" se vale de mais consumo e menos cidadania. As classes populares não podem se evoluir moralmente, a não ser quando isso garante publicidade às ações paternalistas de intelectuais, produtores e ativistas associados. Como se as classes populares não pudessem andar por conta própria, dependendo de "especialistas" para obter algum progresso.

Enquanto isso, o que vemos é a folclorização do jabaculê, como se os rumos da cultura do povo dependessem de sub-celebridades, de personalidades associadas ao grotesco ou de cantores, duplas e conjuntos que se comprometam com a mediocridade musical.

Daí a analogia do McDonald's e sua comida rápida, mas gordurosa. Temos uma "cultura popular" que não produz valores, mas cria fetiches. Uma "cultura popular" que gera dinheiro, mas não gera conhecimentos, e que só é defendida por uma intelectualidade diversamente atrelada: aos empresários do entretenimento, barões da mídia, burocracia acadêmica e verbas do MinC.

Essa intelectualidade não é o povo. E entende muito menos de "povo" do que imagina seu paternalismo supostamente generoso. Com uma vontade de julgar digna do jurista Joaquim Barbosa e defendendo uma "cultura popular" que mais parece um junk food em forma de supostos artistas e celebridades, a intelectualidade cultural dominante é elitista. Até por causa de seus próprios interesses de classe.

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