domingo, 5 de janeiro de 2014

COXINHA COM FAROFA...FÁ



Por Alexandre Figueiredo

O que a intelectualidade esquerdista ou mesmo a pseudo-esquerdista que tenta vincular à outra faz oferece munição para a direita reagir com certo ar de pretensa superioridade. Um exemplo disso é a coluna que o roqueiro Lobão escreveu na mais recente edição de Veja, creditada para a próxima quarta-feira, 08 de janeiro.

O roqueiro neo-conservador, que recebeu o termo pejorativo de "coxinha", se aproveita de certos vícios e omissões feitos pelos militantes de esquerda para desqualificá-los no seu enérgico texto. Numa onda de neo-direitismo nas mídias sociais, isso é um prato cheio para a direita zangada do Brasil.

Para quem não sabe, "coxinha" é uma gíria nova que equivale a "almofadinha" no passado. É referente àquela pessoa metida, privilegiada e que se diz dona da razão, mesmo sem ter os méritos necessários para tal.

Lobão seria um desses símbolos, ao lado de Reinaldo Azevedo, Eliane Cantanhede e Soninha Francine, ou mesmo Aécio Neves, para ir direto ao âmbito político-partidário. Algo como uma sociedade privilegiada que tenta se passar por "cidadãos comuns indignados".

O roqueiro-colunista chega a ser irônico em seus argumentos, clamando os "coxinhas de todo mundo" a se unirem. Chega a tratar com "alegria" jocosa o fato de ser considerado como tal, enquanto desqualifica a esquerda que, para ele, só existe a do PT.

PARTE DA ESQUERDA DÁ A CARA A TAPA, MESMO

O grande problema é que boa parte da esquerda faz por onde para ser criticada pela direita. Esta, com seu obscurantivo tendenciosamente "raivoso", defende os valores elitistas numa postura confusa que se passa pela "sociedade comum" supostamente prejudicada pelos rumos da política e da economia.

O próprio PT fez alianças nem sempre confiáveis para obter vantagens políticas e pessoais. O ápice dessa tendência foi o esquema financeiro comandado pelo publicitário Marcos Valério, que gerou uma investigação confusa, apressada e duvidosa, que condenou demais os petistas pelo mesmo tendenciosismo com que poupa tucanos em outros escândalos.

Até agora, envolvidos como José Dirceu e José Genoíno não fizeram uma postura realmente autocrítica. Poderiam até dizer que se envolveram no esquema e se arrependeram disso. Mas até agora eles se limitaram a dizer que "não participaram" ou que "são perseguidos pela Justiça como verdadeiros condenados políticos".

Da mesma forma que os petistas reclamaram da falta de provas e de transparência nas investigações do Judiciário, os petistas carecem também de uma postura autocrítica sobre seus erros. De fato, a Justiça e a mídia exageram no tom das críticas aos petistas, mas eles perdem a oportunidade de resolver seus próprios problemas, entregando suas cabeças para a direita.

Na cultura, porém, é o que as esquerdas adotam posturas duvidosas e constrangedoras, que fazem a direita se divertir aos risos. Tem ativista social "tarimbado" que acha que o jovem das favelas só curte "funk" e hip hop. Recentemente, um conhecido jornalista e blogueiro progressista elogiou os videoclipes de uma funqueira.

Aliás, a postura da intelectualidade esquerdista em relação ao "funk" - influência principalmente de gente vinda da mídia direitista - é um forte estímulo para as réplicas reacionárias de peito estufado. De repente, até um Olavo de Carvalho que parece ter se esquecido do Brasil se acha na moral de julgar a "cultura brasileira" usando as críticas ao "funk" em causa própria.

Intelectuais aparentemente ou supostamente progressistas que apoiam a bregalização do país, além de adotarem ideias neoliberais muito mal dissimuladas, acabam sendo vistos como verdadeiros palhaços para o circo verborrágico dos direitistas zangados.

Ideias como a tal "cultura transbrasileira" de Pedro Alexandre Sanches, analogia exata à "economia transnacional" difundida por Fernando Henrique Cardoso, são travestidas a partir de uma referência à "reforma agrária na MPB", que na prática é uma concepção udenista de uma "reforma agrária" que deva garantir sempre a grana do coronelismo cultural do brega-popularesco.

Definir tais ideias como "esquerdistas", dentro de um populismo que visa arrancar as verbas estatais do Ministério da Cultura petista, faz com que as forças progressistas se tornem frouxas, sem defender uma pauta cultural realmente esquerdista, preferindo a "zona de conforto" neoliberal da glamourização da breguice, da ignorância, da pobreza e do vazio de valores morais e culturais.

Por isso, a falsa bússola das pregações fukuyamianas do Farofafá e seu desejo de decretar oficialmente o "fim da História da MPB", além dos "sacerdotismos" de Paulo César Araújo, apesar dele estar em alta rotação nas Organizações Globo, e dos pragmatismos politiqueiros do PT e partidos similares, fazem as esquerdas perderem o crédito entre a sociedade, pelo menos no índice que esperariam obter.

Nesse cabo-de-guerra em que a sociedade é a maior prejudicada, os "coxinhas" e os farofafeiros acabam se tornando duas faces de uma mesma moeda, a moeda que mantém a miséria, a corrupção e o jeitinho brasileiro, enquanto uns e outros, nos dois planos ideológicos, brincam de defender a justiça social e o progresso do país. Assim o Brasil não irá crescer como deveria.

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