sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

COMO SERIAM OS ROLEZINHOS SE OCORRESSEM NOS ANOS 60?

SHOPPING IGUATEMI, EM SÃO PAULO, NO ANO DE 1966.

Por Alexandre Figueiredo

A memória curta das pessoas, mesmo aquelas com determinado grau de esclarecimento, faz com que certas coisas sejam muito mal percebidas. No caso dos rolezinhos, a polêmica acaba sucumbindo ao preguiçoso maniqueísmo da "revolução social" dos pobres contra o "horror moralista" das elites.

Muitos acham que os pobres sempre tiveram essa forma caricata simbolizada pelas tendências brega-popularescas, uma caricatura maior do que aquela trabalhada nos filmes de chanchada da Atlântida, nos anos 1940 e 1950.

No entanto, se fôssemos voltar ao tempo, entre 1960 e 1966 - épocas que envolveram crises políticas e até primórdios da ditadura militar, mas a sociedade ainda não vivia as violentas tensões que vieram pouco depois, embora houvessem ensaios em 1966 - , e supormos como seriam os rolezinhos naqueles tempos, eles seriam muito diferentes dos que observamos hoje em dia.

A cultura era bem diferente e, para o jovem das periferias da primeira metade dos anos 1960, o que significa entre a euforia da finalização das obras de Brasília e o anúncio das medidas impopulares do ministro da Educação Flávio Suplicy de Lacerda - um dos "gurus" de Jaime Lerner - , havia sobretudo uma influência dupla da cultura popular de raiz e da modernidade pop da Jovem Guarda.

Os jovens pobres do Brasil dos anos 60 apreciavam tanto nomes como Luiz Gonzaga, Jorge Veiga, Noite Ilustrada, Jackson do Pandeiro, Emilinha Borba, Teixeirinha e Zé Kéti, além de apreciar as marchinhas de João Roberto Kelly e os sambas enredos e os frevos carnavalescos, começavam a apreciar os sucessos da Jovem Guarda a partir de Roberto Carlos.

Seu estado de espírito seria um meio-termo entre as gangues roqueiras urbanas e as Ligas Camponesas, isso em termos de atitude. Alguns seriam vândalos e agressivos, mas a maioria entraria nos então nascentes shopping centers brasileiros tranquilamente, embora chocassem com seus grandes contingentes de pessoas.

Certamente, os rolezinhos seriam reprimidos depois de abril de 1964. Isso porque os generais não tolerariam reuniões de grandes grupos de pessoas, que em seu julgamento de caserna acreditariam ser alguma conspiração vinculada a decisões comunistas de Moscou, Havana ou Pequim. Seus integrantes seriam detidos na hora e a sociedade estaria aliviada, mas quem não gostasse deveria ficar calado.

Antes de 1964, porém, elas apenas causariam problemas. Talvez houvesse algumas discussões que existem hoje, descontados os contextos popularescos que existem hoje, pela mediocridade do "funk ostentação" (infinitamente inferior à música apreciada pelos pobres de 50 anos atrás) e pelos estereótipos das classes pobres lançados pela ditadura midiática.

Tais reuniões nem seriam chamadas rolezinhos. Como seriam eles conhecidos? Convescotes urbanos? Talvez. E há quem os compare com as passeatas da Contracultura ou com os sit-ins que os negros faziam, em seus protestos pacíficos serenamente sentados em algum lugar, mesmo no chão.

No entanto, a essência dessas reuniões seria a mesma: jovens pobres entrando nos centros comerciais para se divertirem. E estes centros, emergentes - o Shopping Iguatemi paulista e o Shopping do Méier carioca tinham poucos anos de existência - , as elites apenas se sentiriam incomodadas com uma freguesia "pouco requintada". As questões seriam semelhantes, os contextos seriam outros.

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