quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

BREGA E SEU MERCADO CRUEL E DOMINADOR


Por Alexandre Figueiredo

A julgar pelos textos "bacanas" de Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches e similares, que joaquimbarbosamente pregam a bregalização do país, transformando a "cultura popular" em sub-Disneylândias suburbanas ou rurais, tudo é muito maravilhoso.

Eles escrevem que a bregalização é um processo de expressão e comunicação das populações pobres e um cenário legítimo de prazer e libertação sócio-cultural pela arte, através de suas crenças, seus signos, seus símbolos e seus valores. Então tá.

Só que esse mundo de sonho e fantasia esconde não apenas as questões de conflitos de classes, como também processos que envolvem até mesmo precarização de trabalho, disputas de compositores e até concursos de dançarinas que já gerou até crime no Espírito Santo.

Somos levados a acreditar piamente em intelectuais que vivem em seus condomínios de luxo, pregando uma "cultura popular" que só eles acreditam verdadeira, que na verdade não é mais do que a aplicação das leis de livre mercado dentro de uma estrutura irregular que envolve politicagem e até mesmo descumprimento de leis trabalhistas.

A coisa fica mais pesada quando os ritmos são "mais populares". A eles, infelizmente, a intelectualidade dominante desqualifica qualquer crítica. O que para nós é um processo industrial de imbecilização, de alienação e de corrupção radiofônica, para a intelligentzia é um misto de felicidade popular e rebelião libertária.

Pouco importa, para esses intelectuais, se esses ídolos "populares" aparecem na mídia felizes abraçados aos seus barões regionais ou nacionais. Caindo sempre em contradição, mas protegidos pela visibilidade e pelo discurso "amigo", os intelectuais tentam ver nas relações entre breguice e poder midiático como uma suposta conspiração popular nos espaços midiáticos.

Enquanto mil maravilhas são citadas, não só em reportagens e artigos, mas em festejadas monografias e badalados documentários, que reforçam sutilmente a blindagem ideológica da bregalização do país, um mercado muito cruel aparece por trás dessas "expressões populares".

FUNQUEIROS ESTARIAM ASSINANDO MÚSICAS COMPOSTAS POR PRODUTORES

Se fosse feita uma investigação nos bastidores desses "maravilhosos ritmos populares" - do "funk" ao tecnobrega, do "forró eletrônico" ao arrocha, do brega-funk à tchê-music, e por aí vai pelos vários cantos do país - , verá um mercado perverso que trabalha não só uma imagem caricata das classes populares, mas um cenário de politicagem e exploração.

Nos bastidores do "funk carioca", por exemplo, há indícios de que muitos dos MC's emergentes, que surgiram do nada, não seriam autores de parte de seu repertório. Embora um "funk" fosse facílimo de fazer, alguns funqueiros e funqueiras no entanto nem chegam a fazer suas músicas, alguns ainda adolescentes, outros nem tanto.

Consta-se que "suas" composições seriam, na verdade, feitas por empresários e produtores que, evitando oferecer alguns encargos trabalhistas para seus criados, "permitem" que as músicas que eles compõem sejam oficialmente atribuídas à autoria de cada funqueiro, que receberia em direitos autorais o que deixaria de receber em outras remunerações.

Explorações de músicos existem até nos grandes nomes da axé-music. Músicos de apoio ou mesmo músicos de banda - como Cacique Jonny do grupo Chiclete Com Banana - são reduzidos a "empregados" e são obrigados a criar pessoas jurídicas fictícias para receber "por fora" enquanto seus patrões (os "admiráveis ídolos do axé") evitam assumir certas obrigações trabalhistas.

Há os grupos com donos, cujos empresários evitam o máximo possível a usar ternos e gravatas e, ricos e esnobes, usam paletós velhos e usados, jeans rasgados e tênis furados e velhos para simular alguma "pobreza", com o apoio solidário do jornalista cultural "mais bacana".

Nestes grupos, o "humilde" empresário - que o jornalista "bacaninha" logo adianta em defini-lo como um "modesto produtor cultural", "gente como toda a gente" - manda e desmanda nos integrantes, escolhe o vocalista conforme as circunstâncias, manipula desde o que seus criados devem dizer nas entrevistas até as relações amorosas das dançarinas e cantoras.

No "funk", há muito falamos nas pseudo-solteiras cuja condição não é investigada sequer por colunistas de fofocas mais audaciosos, como Fabíola Reipert e Leo Dias. Duas conhecidas funqueiras - uma "mulher-fruta" com "nome de carne" e outra que se diz ativista LGBT - são orientadas por seus empresários a se passar por "solteiras encalhadas", enquanto seus maridos são guardados na privacidade.

É o "efeito Scheila Carvalho", da dançarina do É O Tchan que escondeu seus primeiros anos de casada, entre 2001 e 2006, por recomendação de Cal Adan. No caso das funqueiras, seus maridos chegam a receber uma boa indenização enquanto também são privados de exposição enquanto suas esposas, tidas como "solteiríssimas", se servem a todo tipo de factoide para autopromoção de seu sucesso.

"BANDAS" EM QUE SÓ OS MEMBROS PRINCIPAIS APARECEM

Há também o caso de "bandas" em que apenas dois integrantes principais ficam com o monopólio de imagem, da mesma forma que existem grupos que nem bandas são. Neste caso, o É O Tchan, que é o "grupo com dono", no caso o acima citado Cal Adan, apenas aparecem os cantores e um trio de dançarinos.

A coisa chega a tal ponto do absurdo que um dos músicos que tocaram no É O Tchan, um percussionista, só se tornou famoso porque foi assassinado. Mesmo sob o pretexto do "caldeirão de ritmos", os músicos muitas vezes são jogados em segundo plano, reduzidos a meros figurantes.

A Banda Calypso, por sua vez, é até uma banda, mas a imagem é monopolizada em torno do casal Joelma, vocalista, e Chimbinha, guitarrista. Não há uma chance de baixistas, tecladistas ou bateristas serem fotografados, eles não têm direito de imagem.

Graças a essa hegemonia de imagem de vocalistas ou integrantes principais que outros músicos são reduzidos a meros "empregados", explorados de forma desumana, obrigados a fazer manobras - como criar empresas-fantasmas - para que seus patrões (vocalistas e músicos principais), que detém o poder de imagem, não lhes paguem obrigações trabalhistas.

EXPLORAÇÃO DE COMPOSITORES

No que diz aos compositores, o mercado brega é um dos mais cruéis e que desmentem definitivamente qualquer relato sonhador de jornalistas culturais, documentaristas e cientistas sociais "tarimbados" que, mesmo sob um pretexto de "objetividade", fantasiam demais sobre a tal "cultura das periferias" que dizem entender.

Se nos tempos pré-ditadura midiática pudemos ter um Cartola, um Nelson Cavaquinho, um Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Adoniran Barbosa e Ataulfo Alves compondo livremente e difundindo suas músicas sem qualquer esquema explorador, hoje vemos não só a mediocridade dos "compositores populares", mas um esquema de exploração e disputas.

 O que antes era uma vocação artística, hoje é uma linha de montagem. Os compositores não fazem mais músicas pelo próprio coração - vide, por exemplo, "As Rosas Não Falam", bela canção do sambista Cartola - , mas através de uma "linha de montagem" do que a indústria cultural regional entende como "canção popular".

Por exemplo, na música nordestina, esses compositores - geralmente ligados a outros empregos, como feirantes, borracheiros, frentistas, camelôs e pequenos comerciantes - precisam colocar uma letra "safada", tipo o sucesso "Você Não Vale Nada", gravado pelo Calcinha Preta.

Esses compositores vendem suas músicas para os empresários dos intérpretes interessados e, em certos casos, o intérprete se apropria tanto de uma música que há disputas de créditos de autorias, dessas confusões de direitos autorais que só deixam felizes os blogueiros neoliberais do Farofafá.

Exemplos desses conflitos estão as músicas "Ai Se Eu Te Pego", sucesso de Michel Teló composto por três patricinhas, e "Passinho do Volante", sucesso de MC Federado e Os Lelekes. Mas mesmo "Você Não Vale Nada" já foi alvo de disputa de outros grupos de "forró eletrônico".

"REFORMA AGRÁRIA NA MPB" É O CACETE!

Há também o envolvimento de rádios, sobretudo FM, controladas por oligarquias nacionais e sobretudo regionais, e o claro apoio financeiro de latifundiários, a todo esse entretenimento "popular" que deslumbra jornalistas, cineastas e cientistas culturais "tarimbados".

A farra de concessões de rádio e TV, pelos oligarcas José Sarney e Antônio Carlos Magalhães nos anos 80, com emissoras dadas de presente a aliados políticos e empresariais, desenhou essa "fantástica cultura popular" que encanta farofafeiros, "navegadores" e outros "bacaninhas". "Reforma agrária na MPB" é o cacete!

Até porque não pode ser considerada "reforma agrária" só porque seu público alvo são as classes populares. Mas o "pobrezinho" empresariado que está por trás das breguices radiofônicas e televisivas nem de longe pode se equiparar às classes trabalhadoras, mas sim aos capatazes de fazendas que há muito esqueceram a origem pobre para agir em defesa do poder dominante.

Muito das "canções populares" que tomam conta do rádio e consistem na suposta diversidade cultural cortejada pela intelectualidade é financiada pelo latifúndio. Os primeiros patrocinadores de muitos nomes dos supostamente admiráveis "funk" e "forró eletrônico" são políticos conservadores locais, que financiam as primeiras apresentações destes grupos.

É um mercado cruel, dominador. Por trás disso, seus "pobres" empresários cometem sonegação fiscal, burlam obrigações trabalhistas. Eles mesmos que são os "humildes produtores culturais" das periferias tão sonhadas pelos intelectuais mais badalados do país.

São empresários que manipulam não só a imagem das classes populares, claramente idiotizadas pelo entretenimento brega, como manipulam os próprios "artistas", sejam eles de um talento apenas mediano, sejam os de um talento claramente ruim. Manipulam suas vidas, suas opiniões, seus interesses, dentro de um mercado de exploração e opressão.

Os "artistas" em questão são vítimas? Sim, é claro. Mas isso não significa que sejam heróis. Eles aceitam todo o processo de forma submissa, e quando caem na real é tarde demais. Na maioria dos casos, são nomes que realmente não teriam talento para fazer grande coisa, se andassem por conta própria.

Em outros casos, porém, são ídolos medíocres que, em que pese sua facilidade em lotar plateias e vender discos feito água, só possuem talento mediano, mais sofrível do que modesto, precário em suas formas de expressão e criação. Não serão duas décadas de sucesso que os transformarão em gênios visionários depois de presentear o grande público com tantas porcarias.

Nós falamos mal do brega e de seus derivados. Por isso somos tidos como "moralistas", "elitistas", "higienistas", "preconceituosos" e tudo o mais de ruim. Mas a verdade é que esses "sucessos populares" fizeram e continuam fazendo por onde para receber essas duras críticas, que, pensando melhor, nada têm de preconceituosas.

Preconceituoso é o deslumbramento que a intelectualidade dominante (que não se assume como tal) faz da bregalização que atinge o país do Oiapoque ao Chuí. A bregalização só é "libertária" na imaginação fértil e confusa desses intelectuais.

Estes "pensadores" dizem altas maravilhas sobre esta "cultura popular" do alto de seus apês confortáveis nos grandes condomínios em que moram. Só que eles ignoram que, por trás desse "negócio da cultura", existe todo um esquema podre de exploração, manipulação e de deturpação dos valores sócio-culturais.

Questionar tudo isso é, sim, perder o preconceito. Até porque existe muito mais preconceito numa aceitação deslumbrada e conivente do que na recusa pensada com análise e isenção.

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