segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

"BREGA DE RAIZ" E AS FANTASIAS DA BLINDAGEM INTELECTUAL

O CANTOR NELSON NED, OUTRO ÍDOLO BREGA, FALECIDO ONTEM AOS 66 ANOS.

Por Alexandre Figueiredo

O brega, a princípio, nunca incomodou muito a sociedade. E nem foi um fracasso de crítica. Era apenas uma música comercial, tal como se faz nos EUA, sem pretensões de ser cultura séria, arte superior e muito menos a de querer mudar o mundo.

Isso mudou quando o brega começou a se tornar hegemônico, ameaçando tirar a MPB de seus próprios redutos e tomando quase todas as reservas de mercado, sob o pretexto de conquistar "novos espaços" por conta de sua "natural vocação" de lotar plateias.

Para piorar, o brega passou a contrair pretensiosismo e ganhou uma blindagem intelectual que estaria preparada para apoiar tudo que era breguice e fosse supostamente "popular", mas hoje o foco da blindagem intelectual se concentra no "brega de raiz" e em ritmos "polêmicos" como o "funk", espécie de filhote rebelde da música brega.

Poucos dias depois do falecimento de Reginaldo Rossi (dezembro passado), faleceu o cantor Nelson Ned, no começo da tarde de ontem. Ele se junta a uma galeria de ídolos bregas "de raiz" como Evaldo Braga (morto em 1972), Paulo Sérgio (morto em 1980), Carlos Alexandre (morto em 1987), Mauro Celso (morto em 1989), Waldick Soriano (morto em 2008) e Wando (morto em 2012). Dom & Ravel morreram, respectivamente, em 2000 e 2011.

O maior problema do brega não foi ter existido, mas da sua supremacia extrema que praticamente asfixiou a verdadeira cultura brasileira. Temos um rico patrimônio cultural que está condenado a ser artigo de museu, ou então patrimônio privativo das elites e mera amostra cerimonial em eventos institucionais, como exposições e ritos turísticos.

Enquanto isso, o que temos é uma confusa "cultura popular" em que todos podem ser qualquer coisa, menos eles mesmos. Uma "cultura" que só deslumbra os intelectuais culturais dominantes, tão paternalistas, que em suas visões delirantes e supostamente "objetivas" e "imparciais", acham legal a confusão porque lhes atende a uma visão oficialesca de "diversidades e misturas culturais".

Por isso a intelectualidade passou a ver cabelo em ovo. Criam mil sociologismos, mil alegações de cunho pseudo-modernista, em delírios que não se imaginava sequer nas mais altas "viagens" lisérgicas dos anos 60. O brega, meramente comercial, sem pretensões artísticas, sem levar-se muito a sério foi levado a sério demais pela blindagem intelectual.

E isso é que aumenta a rejeição da sociedade a bregas, funqueiros e tantos outros. Ou que aumenta o paternalismo elitista de intelectuais e artistas condescendentes. E estes, autoproclamados "sem preconceitos", mostram-se extremamente preconceituosos no seu pretensiosismo vão de parecerem "benevolentes" com a sociedade.

Daí que mesmo a propaganda que a intelectualidade faz, no seu sofisticado esquema retórico, dos bregas e derivados, acaba criando teses confusas e uma fantasia ao mesmo tempo sociológica e ativista que só está nas cabeças "julgadoras" da intelectualidade "tarimbada", mas não nos próprios ídolos bregas.

Daí Odair José reagindo indignado à imagem de "rebelde" que Paulo César Araújo havia difundido, sob o apoio aparentemente unânime de outros intelectuais. O próprio Odair afirmou que é apenas um cantor romântico, não tinha a pretensão de mudar o mundo, mas ser um astro pop dentro do contexto brasileiro.

Só que a intelectualidade não quer saber. O que vale é a visão oficial da bregalização do país, e acabou. Se ela acha que os ídolos cafonas são "guerrilheiros bolivar-guevariano-zapatistas", quem contestar tal visão é tido como "elitista" e "preconceituoso".

Sobre Nelson Ned, assim como em todo ídolo brega, a choradeira intelectual sempre prepara seus refrões: "sentimentos de gente simples", "porta-voz de um romantismo ferido que todos nós temos", "poesia popular que toca fundo no coração" e tudo o mais.

Eu nunca recorri ao brega para trilha sonora de minhas desilusões amorosas (que tive, e não eram poucas). Pelo contrário, eu recorria ao rock britânico dos anos 80, que dizia mais sobre minha vida do que muita música brasileira.

Não via, mesmo na MPB autêntica, temas relacionados às desilusões que eu sofria. Estava a fim de mulheres que já tinham outros namorados e até maridos. Me apaixonei por uma colega que depois se casou. Mesmo a melhor MPB quase nada tinha a me dizer a respeito, pois mesmo os problemas amorosos que cantava eram depois de uma relação amorosa existente.

Mas nem o brega poderia me dizer a respeito. Se o sucesso de Reginaldo Rossi falava de uma moça que ele amava e se casou com outro, o problema é que a "solução" da letra era a bebedeira, e eu, que não bebo álcool, me consolava com Nescau às colheradas, como numa espécie de bombom em pó.

Talvez minhas tristezas nunca tivessem sido inclinadas para o brega. Até não entendi porque, de uns doze anos para cá, as fãs de brega me paqueravam pela rua, sem que eu tivesse o menor interesse por elas e muito menos qualquer tipo de identificação. Talvez seja mais uma questão de mal entendido do que de qualquer ruptura de preconceito, até porque as moças, neste caso, são muito mais preconceituosas gostando de mim do que me desprezando.

Hoje ando curado dessas desilusões, embora com as cicatrizes emocionais mantidas para sempre. Mas me distraio com outras coisas. O brega nunca me consolou. Até porque seus cenários ligados a prostíbulos, botequins e outros ambientes velhos e mofados não foram a minha praia.

Mas, deixando experiências pessoais de lado, o brega foi glamourizado ao extremo pela intelectualidade e sua longa e supersaturada linhagem se prolongou sob o apoio da grande mídia. Quase não temos uma grande MPB, enquanto seus espaços são tomados aos poucos pela breguice musical dominante em rádios e TVs.

E tudo isso às custas de um pretensiosismo que o brega originalmente não teve. O brega, quando se assumia medíocre, conservador e despolitizado, e procurava permanecer nos seus espaços, era inofensivo e não nos preocupava.

Quando passou a desejar os espaços dos outros, criou um sério problema, que só se agravou quando passou a ter um poderoso lobby de intelectuais fazendo o serviço "frila" para empresáriosdo entretenimento e barões da grande mídia.

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