quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

AS VERDADEIRAS VÍTIMAS DE PRECONCEITO DA MÚSICA BRASILEIRA

TONINHO HORTA - Integrante do Clube da Esquina, cantor e músico é um dos maiores injustiçados (mesmo!) da Música Popular Brasileira.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade cultural dominante, aquela que muitos consideram a "mais legal", a "mais bacana" e a de "mente mais aberta", adora se autoproclamar "vítima de preconceitos". Fazendo a choradeira em prol de si mesma, a intelectualidade "tão sofrida" se julga desprovida de qualquer preconceito e prega apenas o respeito à mais irrestrita diversidade cultural no país. Certo?

Errado. Essa intelectualidade é tomada dos piores preconceitos que se pode imaginar em termos de pensamento cultural. Ela acha ótimo que os cardápios musicais das FMs popularescas sejam o padrão do folclore do futuro, como se a bregalização fosse o destino final da Música Popular Brasileira e da cultura popular como um todo.

Para seus ideólogos dotados de muita visibilidade e prestígio, é lindo jogar a bregalização para os altos rincões da sociedade brasileira. Transformar as poucas rádios de MPB que existem em meras extensões das FMs mais bregas faz a intelectualidade dominante achar que atingimos o estágio mais elevado da humanidade planetária.

Lindo é jogar "funk ostentação" direto para a programação diária das rádios de MPB. Sociólogos, antropólogos, jornalistas culturais e cineastas "mais bacanas" caem em delírio. "É a conquista das classes populares, é o reconhecimento definitivo das periferias", despejam eles, em seus discursos que arrancam aplausos de desavisados em plateias lotadas em palestras e seminários.

Mas feio é fazer com que as periferias ouçam música brasileira de qualidade. Para a intelligentzia, soa "higienista", "elitista". Os ideólogos "legais" da cultura brasileira acham que os jovens das periferias não têm compromisso algum em zelar pelo patrimônio cultural de seus antepassados. Aprimorá-los, então, não pode.

AS VERDADEIRAS VÍTIMAS

E adianta aquele intelectual "bacana" misturar Alípio Martins com Itamar Assumpção, MC Guimé com Tom Zé, Tati Quebra-Barraco com Leci Brandão, Michael Sullivan com Sérgio Ricardo, Odair José com Riu Maurity? Não. É completamente inútil.

O discurso de "diversidade cultural" (ou melhor, do princípio de "livre mercado" na música brasileira) só usa o "lado B" da MPB autêntica - aquele que a intelectualidade "bacaninha" tendenciosamente respeita - para tentar vincular a bregalização que faz muito sucesso a uma MPB que não faz tanto sucesso assim, como se breguice fosse sinônimo de vanguarda (mas não é).

A intelectualidade cultural dominante tenta, com isso, dizer que é "contra" o apartheid cultural brasileiro, mas a verdade é que o "lado B" da MPB nem de longe é apreciado pelo público que consome breguices, e a tentativa de vincular os bregas a essa ala da MPB que não vira "vidraça" como Chico Buarque só afasta o grande público de apreciar até mesmo essa facção emepebista.

O discurso tenta afirmar insistentemente que é contra o separatismo cultural, mas na verdade faz o contrário: agrava, aumenta, acentua. E, em dado momento, eles deixarão de lado até os Rui Maurity, Quinteto Violado, Arrigo Barnabé e outros que usaram no seu "balaio de gatos" da música brasileira, só ficando os breguinhas "coitadinhos".

A intelectualidade "sem preconceitos" é muito preconceituosa. Mesmo em seu simpático discurso, ela prega que os sambas não podem mais ecoar nos morros. O antigo samba da Zona Norte carioca, das emergentes favelas, hoje é quase uma "Bossa Nova" restrita à apreciação privada da juventude Zona Sul.

Paulinho da Viola e Martinho da Vila são "estrangeiros" nos seus próprios bairros de origem. A intelectualidade "bacana" quer que a "música dos morros" seja o sambrega de Belo e Alexandre Pires, Thiaguinho e Péricles, Revelação e Exaltasamba, Pixote e Bom Gosto, ou então os "injustiçados" Leandro Lehart e Raça Negra.

As verdadeiras vítimas de preconceito não são os bregas e derivados - como a geração "híbrida" dos anos 90 que fazia brega disfarçada de pretensa MPB - , que sempre apareceram em rádios e TVs, lotam plateias com facilidade e só são "massacrados" por um pequeno punhado de resenhadores de discos.

As vítimas de preconceito são muitos nomes da MPB autêntica, que não chegam a virar "vidraça" entre intelectuais influentes, mas são desprezados e até maltratados por internautas que acham que o futuro da emancipação cultural do país está no jabaculê radiofônico supostamente "popular".

É só ver, por exemplo, a falecida cantora Silvinha Telles, um dos maiores nomes da Bossa Nova e cuja voz ao mesmo tempo suave e sensual, meiga e comovente, não encontra uma única sucessora entre as novas cantoras brasileiras.

O que vemos hoje são arremedos de cantoras pós-tropicalistas, para não dizer certos vícios de, por exemplo, loirinhas serem obrigadas a cantar feito divas negras, ou então cantoras tomadas de um ecletismo que já nem mais é eclético de tão repetitivo, alternando falsos reggaes com efeitos de scratch, Jovem Guarda tocada como se fosse Bossa Nova ou falsos boleros com violoncelo.

O preconceito passa a ser em relação ao melhor da música brasileira. A intelectualidade transforma Chico Buarque na "geni", botando toda a culpa dos males da música brasileira sobre ele e evitando fazer o mesmo com Tom Jobim e Elis Regina, porque são falecidos, e Milton Nascimento e Djavan, por serem negros, para que não haja qualquer complicação de ordem legal.

Já entre os internautas, tem de tudo. Tem gente até querendo que João Gilberto vire mendigo e morra de fome, não bastasse o fato de que outro ícone pré-Bossa Nova - sim, João era um músico ativo antes da BN - , Lúcio Alves, tenha morrido pobre e esquecido.

Há também o desprezo quase criminoso a Turíbio Santos, Toninho Horta, Oscar Castro Neves, Diana Pequeno, vistos como "chatos" pelos esnobes internautas que acham "funk" o máximo, sejam os fascistoides populistas do Facebook, sejam os "esquerdistas de mentirinha" que bajulam Che Guevara mas respeitam silenciosamente Roberto Campos.

Mesmo nomes como Maria Rita Mariano, Flávio Venturini, Roberta Sá e Wilson Simoninha só encontram algum "lugar ao sol" na apreciação pública oficial quando aparecem em trilha sonora de novela Rede Globo. Aí, passam a furar o bloqueio do apertadíssimo espaço à MPB que mesmo jornais tipo o carioca O Dia reserva, em detrimento do espaço privilegiado aos bregas.

PROCESSO INJUSTO DE DIVULGAÇÃO

A MPB passa a ter um processo bem mais injusto de divulgação em relação aos bregas. Os bregas (e seus derivados neo-bregas, pseudo-sofisticados, e pós-bregas, pseudo-arrojados), podem divulgar seus trabalhos em quase todos os espaços de apresentações ao vivo, e volta e meia "assombram" a sociedade com um dueto com medalhões de MPB para inserir em novos espaços.

Se os bregas quase chegam perto de entrar em rádios de MPB, eventualmente ameaçadas de se reduzirem a extensões do playlist de rádios como Nativa FM, Band FM e Beat 98, a MPB só acontece quando entra em trilha sonora da Rede Globo, não bastasse o pouco espaço das raras rádios de MPB autêntica existentes no país e no espaço parcial dado por FMs de pop adulto.

Que importam os espaços de música brasileira que até mesmo canais de TV paga como a TV Senado e o canal SESC concedem para poucos espectadores, se os bregas têm até mesmo a TV Cultura para entrar pela porta da frente, aparecendo até mesmo em espaços sérios como Viola Minha Viola e Metrópolis?

Não será um tributo de MPB para o chefão do brega Michael Sullivan - o "todo-poderoso" que hoje finge ser "injustiçado" - ou um tributo "alternativo" ao Raça Negra que resolverão a situação. E nem mesmo um intelectual que defende MC Guimé, Ângelo Máximo e Gaby Amarantos falar em Banda Azymuth como se tudo fosse "igualmente genial".

Juntar brega e MPB foi inútil. O mercado sempre prevaleceu a breguice, a MPB autêntica só aparecia para assinar embaixo em apoios forçados à bregalização cultural. Isso em nada foi feito para melhorar a cultura brasileira. Só garantiu a mediocrização cultural, ou mesmo a degradação, que prevaleceu sob o rótulo de "causa nobre".

Tudo isso só favoreceu a vaidade de uma elite de intelectuais "bacanas", o poder de barões da grande mídia e dos grandes senhores do mercado e do empresariado associado. Todos felizes com um Brasil mais cafona e culturalmente mais enfraquecido. Enquanto isso, a MPB de verdade sofre os preconceitos que os bregas praticamente desconhecem, apesar de toda pose.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...