quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

AS "MADAMES" CONTINUAM NÃO QUERENDO QUE POBRES SAMBEM


Por Alexandre Figueiredo

Há um conhecido samba de Haroldo Barbosa, "Pra Que Discutir Com Madame?", que fala da repugnância com que uma senhora aristocrática encara as rodas de samba das classes populares. A música foi composta em 1956 em parceria com Antônio Almeida e gravada pelo cantor Janet de Almeida (sim, cantor, com este prenome, que se lê "Janéti") e tornou-se famosa na gravação de João Gilberto.

A música era direcionada a uma crítica de música na época, mas tornou-se um tema para as paranoias elitistas da sociedade, não necessariamente de dondocas moralistas ou de patrulhas policialescas contra a roda de samba, mas de todo aquele que se incomoda com as manifestações populares.

Tudo bem. O problema é quando há oportunistas, como a tão badalada intelectualidade cultural que "joaquimbarbosamente" quer a bregalização da cultura brasileira, que no seu tendenciosismo necrófilo tenta sequestrar certos mortos para que eles "confirmem" as visões etnocêntricas dos prestigiados ideólogos do brega-popularesco.

Usurpam Haroldo Barbosa - pai de Maria Carmem Barbosa, roteirista parceira de Miguel Falabella - de forma tão hipócrita quanto usurpam Oswald de Andrade, Gregório de Mattos e até Carlos Lamarca para tentar corroborar suas visões em defesa da bregalização do país.

Neste caso, o "funk", que é a facção mais rebelde da música brega, é hoje a "causa maior" da intelectualidade dominante, já que o ritmo lançado no Rio de Janeiro e agora se projetando em sua forma paulista, o "funk ostentação", leva os ideais de bregalização às últimas consequências.

A intelectualidade cultural dominante, embora jure de pés juntos e de joelhos que é a "que mais entende, com uma visão totalmente aberta e despida de qualquer tipo de preconceito", tornou-se a versão moderna da "madame". Os contextos são muito outros, mas a histeria contra o samba manteve sua intensidade.

SAMBA VIROU "ZONA SUL"

O samba que dominava as favelas da Zona Norte carioca e que fazia com que cantores aristocráticos subissem os morros e comprassem dos compositores de samba canções que tiveram a autoria adulterada,ocultando os autores originais em prol dos próprios cantores que mal conseguiam compor uma marchinha e quanto mais um samba, virou "coisa de Zona Sul".

Sim, isso mesmo. O que nomes como Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Kéti faziam no alto de suas comunidades humildes virou a "Bossa Nova de hoje", apreciada por pessoas de classe média alta que vivem nos condomínios do Leblon e da Barra da Tijuca.

Enquanto o povo dos subúrbios mal consegue apreciar um "pagode romântico" - que emula a música negra norte-americana de forma caricata e patética, mas tocada com instrumentos de samba - e mal tem acesso ao pouco do samba autêntico que as rádios liberam para o grande público, as elites se apropriaram de todo o patrimônio cultural relacionado às classes populares.

Paulinho da Viola foi se apresentar em Madureira como um estrangeiro em seu próprio berço. O povo do subúrbio apenas "também gosta" de Paulinho da Viola, mas não o aprecia de maneira prioritária, como um filho de sua terra, gostar não ficou proibido, mas caiu em segundo plano. O mesmo com Martinho da Vila para Vila Isabel, Grajaú e arredores.

Hoje o povo dos subúrbios cariocas, pela força da ditadura midiática das rádios FM e suas oligarquias empresariais, se dividem entre o "pagode romântico" e o "funk". O primeiro parecendo uma soul music malfeita, caricata e piegas, que só em certos momentos soam imitações fajutas de Zeca Pagodinho e Jorge Aragão, e portanto longe de ser um vigoroso samba autêntico dos morros.

AS "MADAMES" DE HOJE ACHAM SAMBA "SOFISTICADO DEMAIS" PARA OS POBRES

Se pudéssemos fazer uma analogia mais literal das madames aristocráticas de 55, 60 anos atrás que não aguentavam que o povo pobre dance seus sambas, e as "madames" modernas que não querem ver os pobres sambando em outro contexto, podemos inserir neste caso as intelectuais que se dizem "conscientizadas" do país.

São cineastas, jornalistas culturais, acadêmicas, ativistas, produtoras culturais, mulheres que chegam ao ponto de defender valores machistas e criar um discurso pseudo-relativista que transforme a submissão ao machismo como uma usurpação supostamente subversiva de seus valores.

A atitude "anti-sambista" encontra outro contexto, porque a paranoia das "pensadoras" e "ativistas" não guarda, em tese, qualquer sentimento moralista ou aristocrático, porque, na teoria, essas mulheres "zelam" pelas manifestações culturais das classes mais pobres.

O grande problema, então, reside no fato de que as elites intelectuais de hoje confiscaram para si o patrimônio cultural do passado, e portanto são essas elites que agora detém o segredo das expressões culturais do passado. Isso cria outras paranoias, outras neuroses.

As "madames" modernas, que fazem documentários sobre "funk" ou monografias sobre supostos ativismos "feministas" das funqueiras, ou que mantém uma pauta de análise dos "movimentos sociais" dentro daquela prevista pela burocracia acadêmica e estatal (leia-se verbas da Lei Rouanet), acham que o "samba" é "muito sofisticado" para ser apreciado pelo povo pobre.

Elas acham que a "verdadeira cultura popular" não é mais transmitida pelos vínculos sociais comunitários. O que os antepassados fizeram já passou. O que o povo pobre tem que assumir como "verdadeira cultura popular" é um padrão de estereótipos de pobreza, ignorância e imoralidade difundido por emissoras e programas de rádio e televisão e imprensa "populares".

Daí o pânico quando as intelectuais veem os pobres descobrindo Jackson do Pandeiro, Nelson Cavaquinho, Monsueto, Jovelina Pérola Negra, Cartola e Pixinguinha. "Isso é expressão de saudosismo elitista", diriam as intelectuais assustadas.

"Não. O povo pobre tem que curtir o funk, que é o que expressa sua pobreza, a realidade das periferias", acrescenta a paranoica "madame" no seu discurso etnocêntrico servido em pretextos "progressistas".

Hoje os intelectuais se assustam quando se fala que o povo pobre precisa usufruir o legado de seus antepassados, dar uma continuidade à tradição de seus ritmos culturais, passadas de pais para filhos, de avós para netos. Daí a paranoia que nenhum pretexto "progressista" pode disfarçar.

As elites intelectuais não se confundem com o povo e seu paternalismo não significa que eles sejam os juízes máximos da cultura popular. Que desperdicem seus documentários, monografias, reportagens tentando dar seu parecer sobre o que deve ser a cultura do povo pobre. Só estarão transmitindo uma visão elitista, por mais "positiva" que tente parecer.

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