quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A RIDÍCULA DEFESA DE INTELECTUAIS AO "FUNK OSTENTAÇÃO"


Por Alexandre Figueiredo

A blindagem intelectual em torno do "funk", desde a onda do "funk carioca" pós-2001, é bastante engenhosa e sofisticada na forma. Reportagens, documentários, monografias, artigos e resenhas, todo um processo discursivo arrojado é feito para a defesa dos funqueiros, dentro de uma perspectiva claramente paternalista das chamadas elites pensantes de nosso país.

Mas o que antropólogos, historiadores, sociólogos, cineastas e jornalistas culturais, entre outros colaboradores, fazem através desse processo discursivo é muito menos coerente, objetivo ou imparcial do que se imagina. O processo discursivo pode ser sofisticado, mas as ideias transmitidas são confusas e dotadas de vários erros de método e principalmente de conteúdo.

Num dado momento, até mesmo a monografia rigorosamente organizada, pelo menos dentro dos critérios científicos, esconde alguma abordagem piegas ou mesmo anti-científica na defesa do "funk". Mesmo citações surreais de Oswald de Andrade e Gregório de Mattos podem ser usadas, como se eles tivessem defendido o "funk" em seus tempos.

Durante anos a alegação de que o "funk" é "vítima de preconceito", uma tese que, por si só, tem um valor bastante discutível, tornou-se um lugar comum entre os intelectuais apologistas. Parecia um disco riscado, tamanho o caráter hipnótico e repetitivo da alegação, que não era mais do que desculpa para os funqueiros ampliarem suas reservas de mercado para plateias mais cultas.

De repente, veio depois outra desculpa clichê. A de que o "funk" era rejeitado pelos valores moralistas da sociedade situada entre o Segundo Império e a República Velha, algo entre 1860 e 1910.

Houve até a falsa analogia da rejeição ao "funk" àquela sofrida pelo samba, embora o samba fosse culturalmente (e musicalmente) muito mais elaborado, diversificado e vibrante do que o chamado "pancadão".

No recheio de tudo isso, havia delírios de ordem pseudo-sociológica ou pseudo-modernista, em alusões ao mesmo tempo panfletárias e verborrágicas (dentro do "bom procedimento científico" de cada processo textual) que "teorizam" demais sobre alguns aspectos meramente comerciais e lúdicos do "funk".

Se o "funk" é muito pornográfico, a intelligentzia usa como desculpa a "livre expressão do corpo", em alegações pseudo-modernistas. Se o "funk" faz apologia à pedofilia, a intelectualidade desconversa e diz que é apenas uma "expressão de descoberta sexual das jovens pobres".

"PODER DE COMPRA"

Agora, com o "funk carioca" sofrendo uma crise de reputação, principalmente pela pressão das mídias sociais, o "funk ostentação" torna-se a opção mercadológica de seus ideólogos, que procuram ganhar tempo na "recuperação" da cena carioca através da exaltação da "novidade" paulistana vista como "revitalizadora" do gênero.

E aí o discurso, mesmo evocando as mesmas alegações de "vítima de preconceito" das "patrulhas moralistas de 1910" dada ao "funk carioca", ganha agora um novo ingrediente, que no entanto já perde a sutileza discursiva das outras argumentações.

Trata-se da desculpa de que o "funk ostentação", ao falar da vontade de seus intérpretes, ídolos e porta-vozes de obter objetos de luxo, como joias, carrões, aparelhos eletrônicos, roupas e calçados caríssimos, estaria expressando a "ascensão econômica" dos jovens das periferias.

Os intelectuais associados, que já não conseguem mais convencer ante a pressão contra-argumentativa da blogosfera - que, mesmo sem a alta visibilidade dos apologistas do "funk", consegue neutralizar sua influência, diminuindo o poder persuasivo destes - , até tentam fazer análises de ordem "sociológica-econômica" para justificar as temáticas do "funk-ostentação".

O TEOR DO RIDÍCULO: "FUNK OSTENTAÇÃO" NA VERDADE EXALTA NEOLIBERALISMO

Só que a tentativa dessa visão parecer progressista fica em vão. Como intelectuais que defendem as letras de exaltação ao consumismo dos funqueiros de ostentação podem parecer progressistas achando que é legal comprar um carro de luxo e não ter qualidade de vida?

O que se nota no "funk ostentação" é apenas a rendição do homem à mercadoria. O homem se torna coisa, a mercadoria se torna sujeito. O homem ou mulher só se tornam importantes quando possuem mercadorias caríssimas, da mesma forma que a mulher funqueira só se afirma quando se torna objeto sexual, defendendo uma "liberdade de corpo" sem a liberdade da alma.

Portanto, o que os intelectuais "bacaninhas" querem nos fazer crer como "revolução socialista das comunidades pobres", o "funk ostentação" propagado pelos "rolézinhos" de shopping,  na verdade não passa de mera exaltação ao capitalismo neoliberal, que não significa justiça social nem qualidade de vida, mas tão somente a inserção do público suburbano no consumismo.

A intelectualidade "bacaninha" delira, e descreve seus delírios dentro de suas capacidades discursivas arrojadas. Recorrem ao melhor discurso sociológico, criam um verniz "científico" para sua defesa ao "funk" e garantem um poder de visibilidade e formação de opinião na qual  só eles se acham com a "visão mais objetiva e livre das coisas".

Mas eles caem em contradições, uma vez que eles não podem explicar direito por que os funqueiros de ostentação aumentam sua obsessão pelas mercadorias - já latente e eventualmente explícita na cena carioca - e se limitam a dizer que "agora são os pobres que cobiçam ou ostentam bens de consumo mais caros".

Já nem podem dizer se isso rompe ou não com a antiga apologia à pobreza do "funk". Se bem que não há uma contradição em cantar "o pobre tem seu lugar" do "Rap da Felicidade" e letras consumistas feitas por nomes como MC Guimé e quejandos.

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