segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A PERIFERIA QUE A INTELECTUALIDADE "BACANINHA" QUER


Por Alexandre Figueiredo

Uma reportagem do jornal El País reforça, mais uma vez, a choradeira em torno do "funk", tão famosa pela pregação insistente da intelectualidade "bacaninha", desta vez usando uma ocorrência do ano passado, quando jovens pobres foram em grande quantidade para se divertirem no Shopping Internacional de Guarulhos, na Grande São Paulo.

Evidentemente, a ação policial contra esses jovens tornou-se injusta, uma vez que eles não cometeram qualquer tipo de crime. É fato corriqueiro que a polícia cometa sérios abusos contra populações pobres, mesmo quando os policiais também têm origem pobre, devido à habitual paranoia social contra assaltantes que faz a sociedade rejeitar generalizadamente as periferias.

Mas aí a autora da reportagem intitulada "Os novos 'vândalos'", Elaine Brum, parte para uma visão surreal de glorificação do "funk ostentação", numa tendência discursiva desesperada da intelectualidade em defender o "funk" a qualquer preço.

MAIS CONSUMO, MENOS CIDADANIA

O que chama a atenção no discurso da jornalista é ver como um ponto "positivo" o fato do "funk ostentação" pregar uma vida de luxo, de consumismo e de ostentação, como diz o nome, tomando como base o gangsta rap dos EUA.

Para corroborar a tese, Elaine chamou um xará meu, o professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Alexandre Barbosa Pereira (o nome só difere do meu porque não sou um Barbosa, sou um Figueiredo), que "sociologicamente" afirma o "valor"do "funk ostentação" para as "identidades culturais"da juventude pobre de São Paulo.

Assim como está havendo no "sertanejo universitário", cada vez voltado aos carrões e à bebedeira, o "funk ostentação" também está voltado a carrões, relógios de ouro, joias, mansões e apartamentos. A intelectualidade cultural dominante acha isso ótimo.

Como no costumeiro discurso do "funk", supostamente tido como anti-mídia, Alexandre Barbosa tenta argumentar que o "funk ostentação" se propagou "sem mídia" por causa do YouTube. Errado. YouTube é apenas uma "demo" que não está descontextualizada do cenário midiático, pois até o Instituto Millenium tem um canal nesse serviço de vídeos digitais.

Além disso, o "funk ostentação" tem apoio até mesmo da revista Veja, em seu suplemento de São Paulo, o mesmo que exaltou o "Rei do Camarote" Alexander de Almeida, dentro de uma redação paulista que trabalha junto com figurões como Augusto Nunes e Reinaldo Azevedo.

Alexandre e Elaine apontam que acham ótimo que o "funk ostentação" simbolize o que eles entendem como "ascensão econômica das periferias". Eles acham "ótimo" que o ritmo fale de bens de luxo, porque assim "não fala de violência e crime".

Só que se trata de um ritmo cuja ideologia se volta para a defesa de mais consumismo e menos cidadania. A intelligentzia não dá bola, porque acha que a cidadania "já está conquistada", embora haja muita coisa a fazer. Entende-se por cidadania a conquista de qualidade de vida, que vai muito além do simples consumismo, do mero aumento de poder de compra.

O próprio "funk carioca" já sinalizava isso, através de seus nomes mais comerciais (Tati Quebra-Barraco, Mr. Catra, Valesca Popozuda, MC Marcelly, Bonde das Maravilhas). Mais consumismo, menos cidadania (só aquela dentro dos limites esperados). O "funk ostentação" leva isso ao extremo, impulsionando a vontade de comprar de seu público. Alexandre Barbosa tenta dar uma visão "positiva" disso:

"Pensemos num grupo de pelo menos quatro amigos dividindo o valor da compra. Não sai tão caro brincar de ostentar. Agora, tem os carros. Estes sim estão fora do alcance da maioria desses jovens. Mas aí há uma explicação interessante, que Montanha, um produtor e diretor de videoclipes da Funk TV, em Cidade Tiradentes, sabiamente me deu. Ele me disse que as novelas já vendiam uma vida de luxo há muito tempo, só que nelas os ricos eram os que pertenciam ao mundo de luxo. Nos videoclipes de funk ostentação, são os pobres que aparecem como um mundo de “riqueza” ou de “luxo”, com carros, mansões, roupas de marcas mais caras. Os jovens agora poderiam, segundo afirmou Montanha, ver-se como parte de um mundo de prestígio, daí a grande identificação."

FUNQUEIROS SE SUBMETEM A VALORES DA GRANDE MÍDIA E DA CLASSE DOMINANTE

O grande problema é, não bastasse a mediocrização artístico-cultural caraterística do "funk", que essa obsessão do consumo revela uma subordinação social. O "funk" se constituiu dentro de tudo que corresponde aos valores conservadores e dominantes: desde valores machistas que pregam a coisificação da mulher até valores sócio-culturais difundidos pelo poderio midiático.

O "funk" não é algo que veio nas almas das classes populares. Seu discurso "socializante" é muito, muito falso. A longuíssima entrevista com Alexandre Barbosa Pereira filosofa demais sobre o que não tem que ser filosofado, que é a legitimação do "funk", que não passa de um ritmo meramente dançante e comercial, sem relação real com a imagem de "vanguarda" construída pela intelectualidade dominante articulada num lobby poderoso.

O "funk" nada tem de progressista. Não defende a redemocratização da mídia, até porque se apoia, com muito gosto, com barões da grande mídia para conseguir sucesso. É apoiado, com gosto, por gente reacionária do porte de Luciano Huck, Gilberto Dimenstein e Lobão.

O próprio "funk" quer que o povo pobre deseje comprar relógios de luxo, carões caros etc. Nada contra pobre comprar roupas de marca, por exemplo. Mas seria necessário um equilíbrio entre o desejo pelo necessário e a ânsia em obter o supérfluo, equilíbrio este que não é sequer cogitado no "funk".

Musicalmente, a ruindade do "funk", seja o carioca, o de ostentação ou outro similar ou derivado - já existe o tal "funk-brega" do Nordeste, patrocinado a gosto pelo coronelismo de lá - impede que o povo pobre deseje tocar violão e gaita, só para citar instrumentos populares. No "funk", o pobre não pode ser instrumentista nem fazer melodias, ele que se vire na sua ignorância cultural.

O apoio ferrenho da intelectualidade "bacaninha", de parte de acadêmicos, jornalistas e cineastas "tarimbados", mostra o quanto a intelligentzia brasileira idealiza demais das periferias. O "funk" simboliza essa visão paternalista, defendida por intelectuais badalados por ser um meio de manter o povo pobre "ocupado" e "sossegado" com um padrão midiático de "entretenimento popular".

Esqueçam as alegações antropo-sociológico-concreto-tropicalistas. O "funk" é apenas uma forma estereotipada de tratar as classes populares dentro de padrões que juntam supostas tradições inventadas pela grande mídia e critérios burocráticos que norteiam o pensamento acadêmico brasileiro, desde o auge da ditadura militar.

Portanto, o "funk" não é a periferia que realmente é. Pouco importam as alegações contrárias. Isso porque o "funk", pelo seu poder de domesticar o povo e desviar o foco do debate público para as classes populares, representa, na verdade, um modelo de periferia que a intelectualidade "bacaninha" quer.

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