quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A AXÉ-MUSIC, SUA CRISE AGUDA E SEUS INCIDENTES


Por Alexandre Figueiredo

Gafes, tragédias, protestos. Eis que a axé-music, que há muito tempo exerce um mercado monopolista e explorador na cultura da Bahia, vive a sua crise mais aguda, que não poupa sequer um de seus maiores totens, o cantor Bell Marques, prestes a encerrar seus compromissos profissionais à frente do grupo Chiclete Com Banana, daqui a dois meses.

O anúncio da saída de Bell surpreendeu a todos que fez com que sua multidão (ou "multidinha"?) de fanáticos, os chamados "chicleteiros", fizessem "protesto" em frente ao escritório central do conjunto baiano.

A saída teria ocorrido porque Bell, que liderava o grupo com mãos de ferro, já acumulava também sérios incidentes que o fizeram ter desavenças sérias com os demais membros da banda. Entre sonegação fiscal e maus tratos em relação a um músico gravemente enfermo - o ex-guitarrista Cacique Jonny - , Bell ainda cometeu uma gafe dias atrás.

Nos bastidores de um ensaio de sua então banda, Bell estava irritado e reclamou com um membro da produção, durante os preparativos para o especial televisivo Axé Brasil Multishow, realizado em Minas Gerais para o canal pago Multishow, das Organizações Globo.A gafe foi registrada em vídeo que circula na Internet.

“Bacana, eu só preciso saber quanto tempo eu tenho de tocado. Você diz o valor aqui e não me dá o tempo. Não, assim é coisa de tabaréu, coisa lá de baiano, de Iaçu…", reclamou, irritado, sobre a falta de organização da produção do evento.

"Tabaréu" é a gíria que é conhecida entre os baianos que quer dizer "matuto", "jeca". A expressão significa também pessoa que não sabe fazer as coisas, que é desatenta ou que simplesmente demora muito para entender e fazer alguma coisa.

Mas a crise da axé-music como um todo, não só entre os "medalhões" como Chiclete Com Banana, Asa de Águia e Ivete Sangalo (que, assim como os outros, Bell e o vocalista do Asa, Durval Lélis, são vistos como arrogantes pelos próprios baianos), como também envolvem grupos de menor projeção.

Várias notícias envolvem mortes de nomes do "pagodão" - ritmo lançado pelo É O Tchan e que, na Bahia, também gerou um cenário de "proibidão", a exemplo do "funk" no Rio de Janeiro - ou mesmo acidentes que matam de músicos de apoio a membros da produção. Desta vez, a vítima, num acidente automobilístico no interior da Bahia, vitimou um produtor do Bonde dos Playboys.

Parece que a bruxa está solta, mas a verdade é que talvez os envolvidos na axé-music estejam mesmo perdendo a cabeça. Tanto a elite da axé-music, como seus medalhões que praticamente controlam o Carnaval baiano desde o aperitivo do Festival de Verão de Salvador até as micaretas pelo Brasil afora, quanto os "populares" arrocha e "pagodão", vivem uma séria crise.

A crise é de certa forma tão grave que, nos últimos anos, um melancólico Milton Moura, antes um defensor neurótico do "pagodão" baiano, antecipando toda a blindagem que hoje vemos em Pedro Alexandre Sanches, Eduardo Nunomura e similares, apenas fazendo comentários modestos sobre a roqueira baiana Pitty (que no entanto faz carreira hoje em São Paulo).

A crise que envolve o mercado do entretenimento e a mídia em Salvador revelam a decadência de todo um sistema de valores coronelistas que prevaleciam na capital baiana durante anos, e que atingem os antes inabaláveis chefões do rádio e do Carnaval baiano.

No âmbito midiático, o barão-da-mídia Mário Kertèsz, que se achava "dono" das esquerdas baianas, havia esculhambado os esquerdistas em seu programa de rádio, no meio de 2008, no final do mesmo ano, ele quase morreu de infarto quando foi denunciado pelo seu envolvimento com dirigentes esportivos baianos num esquema de barganhas e favorecimento ilícito.

A perda de influência de Mário Kertèsz, que repercute nas violentas quedas de audiência de sua rádio, a Metrópole FM (de perfil "Aemão"), que atinge até mesmo o programa apresentado pelo ex-prefeito de Salvador, é tal que, na sua tentativa de voltar à política, ele não conseguiu ser eleito, o que comprova a queda de popularidade (que já não era tanta) do "radialista".

Outro barão-da-mídia, Marcos Medrado, um ex-membro do antigo PDC (Partido Democrático Cristão) e que, mesmo direitista, migrou para o PDT para se jogar para a plateia (diga-se eleitorado), foi denunciado em 2009 por esquema de suborno com um radialista. Pouco depois, ele, que é deputado federal, foi denunciado como membro da bancada ruralista do Congresso Nacional.

A decadência se reflete também na queda vertiginosa que as emissoras FM - sobretudo aquelas que adotam, mesmo parcialmente, o perfil "Aemão" -  andam caindo em audiência a cada ano, e suas estratégias em usar a poluição sonora - sobretudo durante as transmissões de futebol -  para forçar audiência só causam irritação e indignação dos soteropolitanos.

A Bahia foi o primeiro Estado a adotar iniciativas destinadas a promover a regulação da mídia no país. Criou a Secretaria Estadual de Comunicação, com diversos representantes da sociedade civil, para exercer um controle contra os abusos cometidos pelo coronelismo midiático local.

Embora Salvador seja governada pelo prefeito Antônio Carlos Magalhães Neto - cujo nome diz tudo, sobre a herança política do famoso avô - , ela se deu mais pela falta de realizações do antecessor João Henrique Carneiro (um Eduardo Paes mais "tabaréu", termo que já vale para o atual prefeito carioca), o que não impede a decadência do coronelismo que dominava o Estado.

Embora não tenham surgido alternativas viáveis que signifiquem uma ruptura do poderio midiático e carnavalesco dominante, esse poderio não consegue esconder seu declínio. O provincianismo em Salvador pode ser um bom alerta para a acomodação político-cultural observada no eixo Rio-São Paulo, entregue ao fisiologismo político e à mesmice brega-popularesca.

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