segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

89 FM NO CONTEXTO DE TRÊS CRISES

APRESENTADOR DE PROGRAMA DE BESTEIROL E FUTEBOL DA 89 FM - "Jovem Pan 2 com guitarras".

Por Alexandre Figueiredo

Juntando a memória curta com o nivelamento cultural cada vez mais baixo que acontece no Brasil, nota-se a aplicação do ditado popular que diz; "Em terra de cego, quem tem um olho é Rei". Qualquer coisa que esteja um pouco acima do que é pior no momento, vira "genial". Vide a rádio 89 FM, de São Paulo.

Na semana passada, ocorreu um documentário, exibido no canal pago Warner Brasil, sobre a suposta "rádio rock" 89 FM, que até agora não disse a que veio. Embora "bem sucedida" em audiência desde que voltou a explorar (caricaturalmente) o rock, no final de 2012, até agora a emissora não revitalizou a cultura rock e nem conseguiu lançar alguma banda de rock de projeção nacional.

Em vez disso, a emissora retomou a duvidosa conduta "Jovem Pan 2 com guitarras", com locutores do tipo "engraçadinho" que soam muito estranho para o perfil rock, programas nada roqueiros como os que juntam besteirol e futebol e um repertório que não vai além do hit-parade mais corriqueiro.

Na sociedade hipermidiatizada, a 89 FM parece, à primeira vista, ter uma reputação maior do que a antiga Fluminense FM, última rádio autenticamente rock a se projetar nacionalmente e que era sediada em Niterói. Mas só à primeira vista.

Numa observação cautelosa, a verdade é que a 89 só é "mais querida" que a Fluminense pelas relações de poder que os donos da rádio paulista se envolvem é muito maior e mais estável do que o da Fluminense FM.

Todavia, a 89 FM sempre teve menos competência ou vocação para o rock. Ela era muito mais do que um impactante logotipo do que uma rádio que marcou as mentes das pessoas. Mesmo sua fase mais ousada - a de 1985-1987 - , que na prática era de uma rádio alternativa muito moderada, ficava aquém do que a Fluminense FM representou entre 1982 e 1985.

"PEIXES GRANDES"

A diferença, porém, é que os donos da rádio 89 FM sempre foram ligados aos grandes donos do poder. A rádio faz parte de um poderoso lobby do mercado de concertos internacionais no Brasil. Seus radialistas podem não entender muito de cultura rock, dependendo praticamente das gravadoras para fazer o repertório a ser tocado, mas seus patrões são amigos de "peixes grandes".

O patriarca da 89, José Camargo, havia sido deputado durante a ditadura militar, apadrinhado por Paulo Maluf e amigo de José Maria Marín, outro antigo malufista, hoje presidente da Confederação Brasileira de Futebol, portanto, também ligado a Ricardo Teixeira. Camargo também é aliado de Roberto Medina, rico empresário ligado à indústria de eventos internacionais no país.

Atualmente, a 89 também é ligada ao grupo político do PSDB e tem Otávio Frias Filho, dono da Folha de São Paulo, como um dos sócios. Consta-se que a "rádio rock" voltou para tentar neutralizar a influência da juventude progressista que evitou a vitória de um tucano para a Prefeitura de São Paulo.

É bom deixar claro para os anti-petistas que esse retorno não se deu porque os malufistas estão com Fernando Haddad ou coisa parecida. A questão aqui se relaciona muito mais à derrota do PSDB do que a vitória de qualquer outro partido, mesmo o PT, que pode cometer até sérios erros, mas não está por trás de todos os males do planeta.

CRISE MIDIÁTICA

Além da 89 FM, em que pese sua "excelente audiência" - que não chega tanto aos "100 mil por minuto", vale destacar - , não ter conseguido lançar até agora um grande nome nacional do rock - até agora, no máximo só temos um Pollo, um sub-Natiruts que rola em qualquer rádio pop da vida, misturado a Naldos e Anittas - , seu brilho é muito fraco num sério contexto de crises.

Afinal, se a Folha de São Paulo não possui a mesma reputação que havia nos anos 80, quando a 89 FM era um totem inabalável e protegida dos então fortalecidos grupos Abril e Folha, não será a "rádio rock" que destoará do contexto da mídia conservadora em que sempre fez parte.

A rádio 89 FM, na verdade, enfrenta e é abalada por três sérias crises: a crise do poder político-midiático, a crise do rádio FM brasileiro e a crise da cultura rock, que até agora não conseguiu fazer frente às tendências brega-popularescas a ponto de superá-las definitivamente.

Na crise do poder político-midiático, a 89 FM se insere numa crise em que o grupo Abril, que antes protegia sua emissora sem ser rigorosamente proprietário dela - mas "parceira" da MTV, então franqueada pelo grupo que publica a revista Veja - , tenta evitar sua falência após a morte do dono Roberto Civita e a decadente Folha tenta criar novas reservas de visibilidade.

Na crise do rádio FM, por sua vez também resultante da crise do baronato midiático, ela acompanha a crise de TVs, jornais e revistas que são derrotados pela força da Internet. Embora inicialmente ignorada pelos radiófilos, a crise do rádio FM começa a ser admitida, antes notícias de grandes demissões, e torna-se um mito haver hoje FMs com mais de 10 mil ouvintes numa cidade.

Já a crise da cultura rock se dá pelo fato de que a 89 FM não consegue mais acompanhar a realidade do gênero no mundo inteiro. Vítima de seus próprios vícios, a 89 só é "brilhante" porque os setores dominantes da opinião pública são muito provincianos, e acham que até Jon Bon Jovi é "clássico do rock", num país de Merval Pereira e Joaquim Barbosa empastelando instituições.

Lá fora, não existe, por exemplo, questões de "rock novinho contra rock antigo". Até porque muitos dos nomes bajulados pelos fãs do "rock novinho", como Noel Gallagher (ex-Oasis), Eddie Vedder (Pearl Jam), James Hetfield (Metallica), Dave Grohl (Foo Fighters) e Billy Joe Armstrong (Green Day) sempre apreciaram o rock antigo e são abertamente influenciados por ele.

É só ver Noel Gallagher e Dave Grohl, em situações diferentes, tocando com Paul McCartney. Ou Eddie Vedder e seu Pearl Jam tocando com Neil Young. O Metallica foi parceiro do último disco da vida de Lou Reed e Billy Joe Armstrong se reuniu com a cantora e musicista Norah Jones para regravar um álbum inteiro dos Everly Brothers, dupla contemporânea de Elvis Presley.

No exterior, não existe essa fronteira que só existe na imaginação fértil dos fanáticos (e reacionários) da 89 FM e sua congênere, a carioca Rádio Cidade, que do contrário da rádio paulista não parece ter chances reais de retorno, já que até agora não se definiu o estilo dos 102,9 mhz do RJ, atualmente abrigando um vitrolão pop chamado apenas "102,9 FM".

Os roqueiros lá de fora possuem uma capacidade de garimpagem muito grande. Não se contentam (e nem se iludem) em achar que poser metal é "rock clássico" e mesmo meninotes de 15 anos encarariam um Thin Lizzy dos primórdios sem qualquer tipo de problema.

A valorização dos estrangeiros com o rock antigo é tanta que grupos como o inglês Zombies e o canadense Guess Who - dos músicos Burton Cummings e Randy Bachman, este o mesmo do Bachman Turner Overdrive - , há muito extintos, voltaram a tocar juntos por força dos internautas mais novos.

Ninguém tem essa frescura de achar que tudo que foi produzido no rock antes de 1989 "não presta" ou "é coisa da vovozinha". Esse preconceito dos roqueirinhos brasileiros, reacionários o suficiente para promover violentas trolagens, mas submissos o bastante para aceitar padrões de comportamentos difundidos por gente como Luciano Huck, é único no Brasil.

A 89 FM, aliás, também se insere no contexto em que alguns ícones juvenis tornam-se reacionários. O pseudo-ativista Luciano Huck (que os ouvintes da 89 FM "odeiam", mas o seguem, como se fossem seus maiores devotos, em tudo o que ele determinar como "comportamento jovem"), os roqueiros Lobão e Roger (Ultraje a Rigor), o humorista e produtor Marcelo Tas e a ex-MTV Soninha Francine são alguns exemplos.

Portanto, fora da órbita da provinciana grande mídia, a 89 FM continua tão decadente quanto antes. Se no documentário um dos entrevistados admite que a 89 "não tem a ousadia de antes" mas "mantém uma programação de qualidade", a realidade mostra que sua reputação está baixa, com a rádio impotente demais para acompanhar as transformações da cultura rock e da cultura jovem no Brasil e no mundo.

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