segunda-feira, 30 de setembro de 2013

RJ: JUSTIÇA SUSPENDE MUDANÇAS NO PLANO DE CARGOS DOS PROFESSORES


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Depois dos protestos contra a corrupção dos transportes, agora são os protestos dos professores contra as arbitrariedades do governador fluminense Sérgio Cabral Filho e do prefeito carioca Eduardo Paes nos seus planos de cargos e salários para a categoria. E, no estilo "morde e assopra", só agora Eduardo Paes quer "dialogar". Parece Aécio Neves com o seu bordão "Vamos conversar", não é mesmo?

Pois aqui a Justiça decidiu suspender as mudanças, o que pode atrasar ainda mais as votações do plano na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

RJ: Justiça suspende mudanças no plano de cargos dos professores

Da Agência Brasil

Uma decisão judicial suspendeu nesta segunda-feira (30) os resultados de uma reunião entre vereadores do Rio. Com isso, pode haver adiamento da votação do Projeto de Cargos, Carreira e Remuneração do magistério municipal, prevista para amanhã (1º/10) na Câmara Municipal.

A juíza Gisele Guida de Faria, da 9ª Vara de Fazenda Pública, concedeu mandado de segurança ao vereador Jefferson Moura (PSOL). Ele reclamou de não ter sido convocado para a reunião, que ocorreu no último dia 23, e na qual foi debatido o projeto enviado pelo Executivo.

Em sua decisão, a juíza destacou que a não convocação de Moura para a reunião violou o direito do vereador, e pediu esclarecimentos à Câmara. “Não se deve esquecer que a existência de diferentes fases dentro do processo legislativo têm por finalidade possibilitar uma séria reflexão e o debate sobre o tema que vai ser inovado na ordem jurídica e, assim, produzir efeitos na esfera jurídica de um significativo número de pessoas, que, no caso, são os professores da rede municipal. A supressão de uma das fases ou sua incompletude – como na hipótese -, constitui, por si só, um vício insuperável”, escreveu a magistrada em sua decisão.

O vereador sustentou que nem ele, nem o colega Reimont (PT), foram chamados para a reunião. “Na semana passada foi divulgado que ocorreu reunião conjunta das comissões responsáveis por dar parecer ao Projeto de Lei 442, que trata do plano de carreira [dos professores], enviado pelo Executivo. Não houve convocação, e nós questionamos isso e os efeitos da reunião foram cancelados”, explicou Moura.

No entendimento do vereador, as emendas anunciadas pelo governo não podem ser apreciadas. "O projeto com as emendas não pode ser apreciado amanhã. Estaria sob suspeição. É preciso que haja nova reunião da comissão para apreciar a constitucionalidade das emendas”, disse o vereador.

A Câmara Municipal está cercada por tropas da Polícia Militar desde as primeiras horas do dia, porque centenas de manifestantes, a maior parte professores, estão em frente ao prédio. No último sábado (28), os professores que ocupavam o plenário da Câmara foram retirados à força pela PM, que usou bombas de gás e spray de pimenta para dispersar a multidão que estava do lado de fora.

INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA FALA NEOLIBELÊS

ESTA É A MAIOR QUALIDADE, PARA NÃO DIZER A ÚNICA, DA "CULTURA" BREGA NO PAÍS: GERAR MUITO DINHEIRO.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante defende ideias neoliberais na trincheira oposta. Tentam dar a impressão de que seu discurso em prol da bregalização do país é dotado da verve "mais progressista possível". Tentam convencer as pessoas de que ela é dotada da melhor vocação socialista, trazida por suas teses mais "provocativas" e persuasivas.

No entanto, se observarmos bem, o discurso, confuso e cheio de falhas, desses intelectuais pró-brega é dotado do mais puro economicismo. Pensam a "cultura popular" em termos econômicos, e atribuem à breguice valores que correspondem tão somente a sucessos de ordem econômica, e não exatamente cultural.

Primeiro, é só analisar por que os intelectuais dominantes defendem o brega. De cara, eles descrevem os motivos que os fazem: plateias lotadas, discos vendidos, alta execução nas emissoras de rádio e TV, alta visibilidade nos subúrbios e roças de todo o país, ou ao menos de uma significativa região de cidades ou Estados.

Eles tentam camuflar com verborragia sociológica, até porque vários deles são cientistas sociais, outros são jornalistas culturais e cineastas e todos mexem com uma verborragia que, na prática, parodia narrativas da História das Mentalidades, que descreve a História sob o ponto de vista dos cidadãos comuns, e do New Journalism, que narra reportagens como se fossem romances.

No entanto, é bastante seguro dizer que esses intelectuais, com todo o discurso "social" que trabalham, cheio de clichês pseudo-libertários e pseudo-ativistas, pensam a "cultura popular" sob o aspecto econômico. Atraiu mais gente, para eles é ótimo. Gerou mais dinheiro, para eles é uma maravilha.

A intelectualidade dominante, de Paulo César Araújo convertido a "consultor de brega" das Organizações Globo aos blogueiros "provocativos" do Farofafá, com toda a certeza fala neolibelês. Este termo é uma espécie de "idioma do neoliberalismo", compartilhado entre economistas de direita e a imprensa associada.

Para a intelectualidade dominante - que não consegue disfarçar seu neoliberalismo mesmo atuando nas trincheiras opostas do pensamento progressista mais flexível - , as classes populares só progridem pelo caminho da Economia. Sobretudo através do financiamento do MinC e dos recursos previstos pela Lei Rouanet (ela mesma de origem neoliberal) o povo pobre se emancipará.

De outro jeito, a intelectualidade dominante reprova todo tipo de melhoria. Eliminar o grotesco, o analfabetismo, a imoralidade, dos subúrbios, roças e favelas é visto pela intelectualidade pró-brega como expressões de "elitismo", de "higienismo", de "preconceito social". O povo pobre deve ser preservado, segundo essa visão, na "pureza"de sua pobreza e ignorância.

Para salvar as periferias, só mesmo o apoio das elites intelectuais e as verbas salvadoras do MinC, que dissolvem recursos particulares vindos de órgãos patrocinados pela CIA (como Fundação Ford e Soros Open Society), que somente liberam as melhorias sócio-culturais depois que as classes populares sejam economicamente convertidas em "abastadas".

Isso tem um aspecto grave, porque, enquanto classes populares, elas não podem ter uma cultura de qualidade, não podem ser consideradas gente. Vivem em condição sub-humana, que o paternalismo intelectual define como "positiva".

Para a intelectualidade dominante, tudo o que, na verdade, corresponde a defeitos, limitações e debilidades das classes populares é visto pelo seu discurso apologético como "qualidades positivas". Não se mexe sequer na ignorância das classes populares. Valores morais, nem pensar. Deixa-se o "outro" inalterado, apreciado de forma exótica por intelectuais paternalistas.

É o mito da "pureza" das periferias, que o neolibelês enrustido da intelectualidade que luta pela bregalização do país defende. É a glamourização da ignorância, da pobreza, da imoralidade, absolvidas pelo discurso intelectualoide como se fossem "qualidades do outro", corrompendo o processo de aceitação antropológica daqueles que não correspondem a dita "civilização".

"O que para nós é defeito, para as periferias é felicidade", diz o discurso intelectual. "Não precisamos gostar, mas devemos aceitar", é outro discurso clichê. Nesta retórica só a Economia salva, o que desmascara a intelectualidade que se passa por "progressista", mas que foi formada pelas ideias de Fernando Henrique Cardoso, Folha de São Paulo e até da Rede Globo.

Mesmo cineastas documentaristas que trabalham "antropologicamente" o "funk", usando e abusando dos clichês narrativos tomados de Marc Bloch e de Tom Wolfe, seguem essa lógica neolibelês, mesmo que tentem justificar "sociologicamente" elementos relacionados a sucessos de ordem econômica.

Portanto, a intelectualidade que quer a bregalização do Brasil não está aí com a cidadania. É inútil camuflar tal constatação com discursos "sociais", mesmo com falsas defesas à reforma agrária ou à regulação da mídia. O que a intelectualidade pró-brega quer é sucesso econômico, traduzido em bom neolibelês.

OSCAR CASTRO NEVES E O ENVELHECIMENTO DA MPB


Por Alexandre Figueiredo

Pobre MPB. A MPB autêntica, não a suposta "verdadeira MPB" que combina, numa só equação, plateias lotadas e uma cosmética de pompa e luxo que se observa sobretudo nos neo-bregas, está em crise, estagnada num envelhecimento que faz perder nossos mestres a cada temporada.

No último fim de semana, foi a vez do compositor, violonista e arranjador Oscar Castro Neves, um nome da Bossa Nova tão importante quanto Tom Jobim e Vinícius de Moraes, Johnny Alf e Billy Blanco, Carlos Lyra e Roberto Menescal.

Oscar - figura tão simbólica dos Anos Dourados brasileiros quanto seu xará Oscar Niemeyer - faleceu aos 73 anos de câncer, na última sexta-feira. É mais um grande nome da Bossa Nova, um músico empenhado no abrasileiramento do jazz em uma obra peculiar, que nos deixa e deixa a MPB órfã e a cada dia mais acéfala.

Oscar Castro Neves estava em atividade até pouco tempo atrás. Seu último disco individual foi em 2006. Ele faleceu em Los Angeles, EUA, país mais receptivo à Bossa Nova que o Brasil cada vez mergulhado em tendências brega-popularescas, sob uma blindagem de uma geração de intelectuais supostamente "progressista" que parece fazer free lance para a ditadura midiática.

A Bossa Nova anda muito injustiçada no Brasil. Por vezes parasitada por breguinhas em busca de algum lugar ao Sol, ou empastelada por covers politicamente corretas de sucessos qualquer nota, e por outras atacada duramente, a BN chegou a ser símbolo de sofisticação musical brasileira, de verdadeira cultura jovem e urbana no nosso país.

A Bossa Nova havia, juntamente com a música de raiz resgatada pelo movimento cepecista (leia-se Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes - CPC da UNE), fornecido os elementos musicais para uma geração de jovens universitários nos anos 60 estabelecer as bases do que hoje se considera a moderna MPB.

Nessa época, MPB era uma sigla de um movimento cultural de resistência contra os arbítrios da ditadura militar e contra as pressões da crescente indústria cultural, que no Brasil foi muito favorecida já que a grande mídia e a indústria fonográfica, em boa parte mas salvo exceções, apoiaram o regime militar.

Hoje a MPB vive o dilema de se tornar uma Academia Brasileira de Letras musical ou uma "casa da mãe Joana", no primeiro caso restrita ao mais rijo elitismo, no outro aberta à mais escancarada cafonice. Nos dois extremos, a cultura brasileira sai seriamente prejudicada.

E hoje, então, a MPB autêntica, que reúne qualidade artístico-cultural e visibilidade, está ficando muito velha. Oscar Castro Neves era apenas dois anos mais velho que os mestres remanescentes da MPB, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola e Milton Nascimento.

Isso é grave, porque os grandes nomes da MPB autêntica - não a "verdadeira MPB" que vive tão somente de lotar plateias - são idosos, muitos com idade para receber aposentadoria do INSS. Por sorte, vários deles têm saúde, disposição e fôlego para criar novas grandes canções, tocar nos palcos e dar entrevistas lúcidas e substanciais. Mas, até quando?

Enquanto isso, temos o crescimento gangrenoso da breguice musical, que dos pastiches de rocks e boleros dos anos 60-70 se desdobrou em caricaturas de sambas, merengues, modinhas, xaxados e até do funk autêntico eletrônico de Afrika Bambataa.

Criam-se ídolos brega-popularescos como se criam automóveis. Se a intelectualidade - a verdadeira, não a "farofafeira" - derruba um ídolo, outro é colocado no seu lugar, enquanto o ídolo derrubado ganha tempo no ostracismo para depois criar sua choradeira nos meios intelectuais.

Para piorar, vários deles agora fazem pastiches de MPB, mais preocupados com a marca dos ternos e a posição dos holofotes de luz nos palcos do que com a música que não sabem fazer. Contratam até arranjadores de luxo, enquanto aderem à fórmula preguiçosa de gravar covers de gente como Wilson Simonal, Renato Teixeira e Lupicínio Rodrigues só para enganar a rapaziada.

Fácil gravar covers de MPB. É como o mau aluno que, quando faz um trabalho escolar, copia textos inteiros de livros, ou talvez uma colagem de parágrafos copiados de diferentes textos, para depois fingir para a professora que escreveu tudo aquilo. Criar MPB, mesmo, no duro, é que é uma tarefa difícil que nem arranjadores alheios conseguem ajudar.

Afinal, reduzir ídolos neo-bregas a crooners de uma cosmética musical que apenas parece, na forma, com a MPB mais manjada, mas cujo conteúdo continua tão brega quanto antes, em nada contribui para a renovação ou melhoria da Música Popular Brasileira.

Pelo contrário, até piora. Não se produzem Oscar Castro Neves nas rodas de "pagode romântico" ou nas reuniões de "sertanejo romântico". A forma aparente não justifica o conteúdo, e o que vemos é uma MPB autêntica envelhecida que corre o risco de perecer e cair no esquecimento, e que já é deixada de lado pela "MPB de mentirinha" de bregas veteranos.

Ainda existe muita MPB nova por aí. Mas ela não tem espaço no mercado e na mídia. E nem todo mundo faz a linha "MPB obediente" - que agrada muito a gente como os blogueiros do Farofafá - a aceitar de forma cordeirinha a breguice dominante e ser coadjuvante ou figurante do espetáculo da cafonice escancarada.

A crise da música brasileira existe, mas infelizmente, não é notada. Muitos pensam que a crise só existe quando falta dinheiro. Ainda pensa-se o Brasil apenas de forma economista, e isso é mal. Em nome do desenvolvimento, sacrifica-se até a cidadania. E muita coisa digna dos tempos do general Médici hoje é relançada sob o rótulo de "progressista", por causa dessa visão.

E aí perdemos Oscar Castro Neves, um dos símbolos de um Brasil que queria mesmo crescer, se debatia, se reavaliava, se construía. Não era um Brasil de hoje que se imbeciliza por dinheiro, que faz masoquismo em prol de mais verbas. Com Oscar Castro Neves, morre um pouco daquele Brasil desenvolvimentista e verdadeiro.

domingo, 29 de setembro de 2013

ERIC HOBSBAWM NUNCA COMEU "FAROFA-FÁ"


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade cultural do exterior é muito diferente da festiva intelligentzia brasileira. Pensa as coisas de forma mais responsável, até porque provém de países que experimentaram todo tipo de problema relacionado aos problemas sociais, políticos e culturais enfrentados, principalmente em períodos trágicos como os das duas guerras mundiais.

No exterior, pesquisadores sérios não estudam a cultura de massa para defender o "estabelecido", e lá não existe a "panelinha" de acadêmicos defendendo a degradação sócio-cultural do povo pobre, nem existe a delirante obsessão em tratar o "mau gosto" como se fosse causa libertária. Lá fora, o termo "popular" não é desculpa para que se aceite qualquer porcaria comodamente.

Mesmo as verbas estatais não significam que a análise intelectual de cientistas sociais e jornalistas culturais deva se domesticar. Pelo contrário, o patrocínio estatal permite que mesmo modismos rentáveis sejam postos em xeque, as pesquisas intelectuais não se preocupam em preservar necessariamente toda a estrutura de entretenimento "popular" vigente.

Aqui, no entanto, existem intelectuais preocupados em defender o "estabelecido". Preferem vender o "peixe" travestindo modismos comerciais popularescos com um "verniz" de folclore e etnografia, num discurso supostamente libertário.

Lá fora, nomes como Umberto Eco, Noam Chomsky e os falecidos Jean Baudrillard, Guy Debord e Pierre Bourdieu, entre tantos outros, haviam escrito questionamentos sérios sobre cultura de massa.

Se eles não compartilham das teses apocalípticas dos antigos intelectuais como Walter Benjamin e Theodor Adorno, que ainda viviam na teoria epidérmica (corrente da Teoria da Comunicação que define a "cultura de massa" como uma relação mecanicista do poder midiático manipulando o povo sem possibilitar em tese sua reação), também não consentem com a utopia massificante.

Não por acaso, Eco havia escrito o livro Apocalípticos e Integrados, criticando os dois extremos: o questionamento fatalista da cultura de massa, tão típico da teoria epidérmica, quanto o adesismo que, no Brasil, se observa em gente como Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo.

E aí estou lendo o livro do historiador marxista Eric Hobsbawm (1917-2012), História Social do Jazz (The Jazz Scene, no original), originalmente lançado em 1959 sob o pseudônimo de Francis Newton, que o autor fez por bem abandoná-lo posteriormente e assumir o livro com seu próprio nome, ligado a livros como A Era dos Extremos (1914-1991) e Como Mudar o Mundo.

Adquiri a edição de 2011, baseada na edição de 1989 da publicação original, na época em que Eric havia escrito um prefácio a respeito dos trinta anos do livro, descrevendo sobretudo o cenário jazzístico dos anos 80, do qual se destacam nomes como os filhos do jazzista Ellis Marsalis, Winton e Branford Marsalis.

No texto original do livro, que Eric começou a escrever por volta de 1958, ele faz uma definição de "cultura de massa" que soa bastante atual e encaixa exatamente nos tempos brasileiros de hoje, em que a "cultura" brega-popularesca configura toda uma supremacia de uma indústria que se acha dona da cultura popular e que acha que pode se confundir com esta.

Eric define "cultura popular" sem as aspas, mas pode ser entendida como uma forma trabalhada pelos mecanismos industriais, em que os vínculos sociais não são espontâneos e existe uma relação vertical e não horizontal de promoção de fenômenos, símbolos, ídolos e valores.

Cabe aqui retirar um pequeno trecho, que esclarece tudo, através da tradução em português feita por Ângela Noronha. Ele se encontra impresso entre as páginas 39 e 40 na edição de 2011 do referido livro, publicado no Brasil pela editora Paz e Terra:

"A cultura popular atual, nos países urbanizados e industrializados, consiste em entretenimento comercializado, padronizado e massificado, transmitido por meios de comunicação como a imprensa, a televisão, o cinema e o resto, e produzindo o empobrecimento cultural e a passividade: um povo de espectadores e ouvintes, que aceita coisas pré-empacotadas e pré-digeridas. Não faz muito tempo (...) a cultura popular era viva, vigorosa e em grande medida autêntica, como no caso de canções folclóricas rurais, danças folclóricas e atividades semelhantes".

Bingo! Quanta diferença faz uma análise dessas. Aqui o que se tem é a intelectualidade endeusando o tal "entretenimento comercializado, padronizado e massificado" e escondendo seus vínculos com a grande mídia por debaixo do tapete.

Aqui existe até mesmo uma tendência, tão dominante quanto incoerente, de contraditoriamente defender os fenômenos "populares" atribuindo-os como "populares" e "não-populares" ao mesmo tempo. O ídolo faz sucesso na mídia, vende muitos discos, alavanca audiência de emissoras de rádio e TV, mas no entanto é tido (erroneamente) como "alternativo".

E o pior é que essa "panela" de intelectuais é que detém os privilégios de visibilidade nos meios sócio-acadêmicos, praticamente monopolizando seus "microfones abertos" e dando a palavra final (por sinal inconsistente) nos supostos debates sobre cultura popular que dizem defender.

Pior, essa intelectualidade brasileira, que cria uma série de armadilhas discursivas, ainda quer pegar carona nas campanhas pela regulação da mídia, mas no fundo não da forma que pessoas sérias como Venício A. de Lima, Emir Sader e Laurindo Lalo Leal Filho fazem, mas da forma duvidosa da pirataria e da supremacia da Informática sobre a ação humana.

O Brasil é um país já com avançado processo de industrialização e urbanização. No entanto, ainda não tem uma intelectualidade suficientemente madura que possa questionar de verdade a cultura de massa. O que temos são "debates" que não debatem, "provocações" que não provocam, "reflexões" que não refletem, "questionamentos" que não questionam.

A intelectualidade dominante brasileira, ou melhor, "transbrasileira" e "farofafeira", adepta de um "pós-modernismo de resultados", só está aí para defender o "estabelecido" com uma verborragia etnográfico-libertária.

E, por mais que essa intelectualidade tente renegar seu vínculo com a grande mídia, suas ideias nem de longe ameaçam ou contradizem os interesses dos barões da grande mídia. Estes há muito oferecem "farofa-fá" nos banquetes do Instituto Millenium. Mas, lá fora, a intelectualidade séria nem está aí para essas "farofa-fices" intelectualoides.

89 FM PERDEU HÁ TEMPOS A SINTONIA COM A CULTURA ROCK

PARA A 89 FM, "CLÁSSICO DO ROCK" SE REFERE A NOMES DO "ROCK FAROFA" COMO A BANDA BON JOVI.

Por Alexandre Figueiredo

Se nos anos 90, a 89 FM era pop demais para o rock, e no começo deste século era muito brega para o rock, hoje ela simplesmente está antiquada demais para representar esse estilo musical. Isso é fato, conforme se nota na realidade que escapa a qualquer declaração publicitária ou a qualquer dado corporativista lançado pelos portais e fóruns virtuais de rádio.

O aparentemente bom (mas não excepcional) desempenho da 89 FM pouco tem a ver com a cultura rock. A rádio atrai os mesmos fãs de pop e de brega que ouvem outras rádios, como a Jovem Pan2, Energia 97, Band FM e Nativa FM (esta dos mesmos donos da 89, os hoje adeptos de Geraldo Alckmin da famiglia Camargo), interessados em ouvir algo mais "pop-rock".

Portanto, é um público que, entre um One Direction e um Munhoz & Mariano, entre um MC Guimé e um Justin Bieber ou entre uma Jennifer Lopez e uma MC Anitta, aceita ouvir algum Charlie Brown Jr., algum Offspring, algum Guns N'Roses, Evanescence ou Nickelback.

Há muito tempo o suposto radicalismo "roqueiro" da 89 FM, que já causava desconfiança nos roqueiros paulistanos, deixou de convencer até mesmo aqueles que nem são tão entendidos em rock, mas que não se contentam com o cardápio subnutrido oferecido pela emissora, que vai abaixo até mesmo das necessidades mais básicas de cobertura da cultura rock.

Em tempos de fim da MTV Brasil como conhecíamos, a 89 FM hoje soa velha, cansada. E, depois de prometer uma performance "daquelas", em dezembro de 2012, voltou a ser exatamente aquela emissora pseudo-roqueira cuja indignação dos roqueiros fez a emissora abandonar, por um breve período, o perfil supostamente roqueiro, em 2006.

A crise havia se dado pela atitude arrogante dos produtores e adeptos da 89 FM, que, em fóruns sobre rádio, defendiam, sem qualquer sutileza, que rádio de rock não deveria ser feita por quem entendesse de rock, sob a desculpa de que isso se apegaria ao gosto musical pessoal.

Deram um tiro no pé. Tentaram dizer que rádios de rock comandadas por quem não curte rock teriam melhor profissionalismo. Declaração puramente estúpida, uma vez que, segundo as regras do mercado de trabalho, deve-se gostar do que faz, ninguém vira bom profissional pelo fato de não gostar nem entender o que está fazendo.

Naquela época, a Internet já começava a aumentar sua força, e aqueles tempos de supremacia absoluta da suposta "rádio rock" viraram coisa do passado. O You Tube oferece uma infinidade de nomes roqueiros que nem de raspão passam pelos 89,1 mhz paulistanos. E a 89 há muito nem oferece o "feijão com arroz" do rock, mas a "água com farinha" (ou farofa, talvez farofa-fá).

"RÁDIO CROAC"

A 89 perdeu a sintonia com o rock, uma palavrinha mal pronunciada em suas vinhetas, como em toda rádio pseudo-roqueira do Brasil (como houve, por exemplo, na rádio 96 FM de Salvador, no começo dos anos 90, ou na Rede Transamérica, em 1995) em que a palavra rock parece pronunciada por um rapagão imitando um sapo dizendo "croac".

A fuga dos ouvintes que realmente curtem rock de qualquer sintonia da 89, seja na Internet, seja nos 89,1 mhz paulistanos, é tão evidente que os últimos nomes de rock autêntico envolvidos no êxodo são justamente Iron Maiden e AC/DC, sobretudo o primeiro, que apareceu com o mesmo talento e carisma de sempre no último Rock In Rio.

Ninguém vai querer ouvir cinco ou seis sucessos de seus ídolos, se pode ouvi-los e ouvir muito mais músicas na sua seleção de MP3 ou na sua coleção de CDs. O fã de Iron Maiden, por exemplo, é bastante exigente, e prefere colocar seus CDs para rolar no equipamento de som do que ouvir uns poucos sucessos a serem "atropelados" a qualquer momento por um locutor "engraçadinho".

A Internet mostra, além de um acervo mais abrangente de rock, de todas as épocas e vertentes, rádios estrangeiras que dão um banho no provincianismo da 89 FM que pensa que "clássico do rock" é Bon Jovi, Guns N'Roses, Mamonas Assassinas e Smash Mouth.

Outro fator a considerar é que, se nos anos 90 a blindagem do Grupo Folha e do Grupo Abril em proteger a "rádio rock" era considerada um apoio luxuoso, hoje não aumenta mais a reputação. E, como a Folha e a Abril, a 89 soa por demais reacionária, conservadora, antiquada, fora de sintonia com os novos tempos.

Uma rádio cuja linguagem é um "meio-termo" entre a alegria emo e a agressividade dos skinheads, na prática algo como uma Jovem Pan 2 à beira de um surto psicótico, deixou de ter qualquer representatividade para a cultura rock, criando até mesmo um baixo astral para quem, em dezembro passado, apostava que o rock seria o estilo musical predominante em São Paulo.

89 É O "REINALDO AZEVEDO" DAS RÁDIOS DE ROCK

Para piorar, blogueiros da 89 teriam feito trolagens e até hackeagem em diversos sítios, mostrando seu grau de intolerância às críticas. A 89 FM virou uma espécie de "Reinaldo Azevedo" do radialismo rock, pensando que poderia levar vantagem confundindo rebeldia com pavio curto.

A arrogância, ignorância e um certo provincianismo da 89 FM, que mais valoriza um Mamonas Assassinas do que Legião Urbana, que maltrata o rock enquanto gringos como Bruce Springsteen deram toda a consideração ao rock brasileiro, cantando uma música de Raul Seixas em português esforçado, acaba piorando o que já estava pior: sua crise de reputação no segmento rock.

Somando tudo isso ao temor de que os game shows e programas com celebridades da 89 FM voltem a chamar famosos de segundo escalão ou nomes não-roqueiros - como a "rádio rock" havia feito com Wanessa Camargo e até Celso Portiolli - , o público roqueiro de São Paulo prefere manter o rádio desligado.

Não adianta reclamarem. A 89 FM não se adaptou à realidade do rock. Ela vive se autopromovendo às custas de sua efêmera fase boa, mas longe de ser genial, em que tocava mais Eurythmics, Billy Idol, Titãs, Lulu Santos e Kid Abelha, mas poderia inserir Frank Zappa, Violeta de Outono, Fellini e Violent Femmes no meio de tudo isso.

Foram apenas um período muito curto, de 1985 a 1987. Bem mais do que a fase áurea da Fluminense, que durou um pouco mais (1982-1985), fora a fase 1986-1990 em que, mesmo menos ousada, era melhor que os primórdios da 89 FM. A 89 no fundo vive de glórias passadas há 24 anos, quando começou a perder a noção de realidade na cultura rock.

O comercialismo da 89 até conseguiu enganar um país sem Internet. Mas, com um público roqueiro cada vez mais exigente e menos conformado com o "mais do mesmo", mais dedicado a garimpar raridades e comprar discos até de sítios estrangeiros, a 89 soa antiquada, cansada e impotente de acompanhar os novos tempos.

Não se sabe até quando a 89 FM vai durar nesta fase. Mas a velha grande mídia, que protege tanto a decadente Veja, vai proteger a 89. Sem ter o poder de prestígio de outrora. Seria melhor a 89 FM assumir logo seu "filho bastardo", o Restart, banda de emo alegre que só existe graças à linha (d)evolutiva que a 89 trabalhou em formas "comportadas" de punk rock, a partir do Não Religião.

Afinal, o Restart poderia pelo menos garantir uns pontos seguros no Ibope da 89 FM já que a rádio comandada pelo ex-vocalista do Não Religião, Tatola (com apelido do mesmo estilo do Tutinha da Jovem Pan 2 e locução do estilo da mesma emissora) anda em baixa no segmento roqueiro autêntico, por sinal hostilizado sem disfarce pelos ouvintes da 89.

sábado, 28 de setembro de 2013

BARBOSA E A PRISÃO DA JORNALISTA



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Uma jornalista da grande mídia foi detida pela polícia na Universidade de Yale, nos EUA, porque queria falar com Joaquim Barbosa, o "provocativo" astro midiático do Supremo Tribunal Federal, e expostas a humilhações em sua cela. Que "liberdade de imprensa" é essa?

Barbosa e a prisão da jornalista

Por Paulo Nogueira - Diário do Centro do Mundo


E a pergunta que está todo mundo se fazendo é: qual foi o papel de Joaquim Barbosa no episódio do qual resultou a prisão, por cinco horas, da jornalista brasileira Cláudia Trevisan, do Estadão?

Pode ser nenhum, é certo. Mas as especulações se multiplicam..

Cláudia tentava entrevistar JB depois de um seminário do qual ele participou na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Ele a avisara de que não iria falar com a mídia, e então Cláudia planejou abordá-lo na saída.

A polícia apareceu e a deteve. Algemada, passou por um constrangimento que incluiu uma cela na delegacia na qual, para fazer xixi, tinha uma privada da qual podia ser observada por policiais.

Cláudia foi acusada de “invasão de propriedade”, e ainda terá uma dor de cabeça jurídica para resolver nas próximas semanas. Mas ela simplesmente entrou em Yale, como tanta gente. Não “invadiu”.

Segundo seu relato, Joaquim Barbosa sabia que ela tentaria entrevistá-lo. Teria ele pedido providências à direção da universidade para se livrar da indesejada repórter?

É uma hipótese que faz sentido.

Joaquim Barbosa já tinha uma pendência com o Estadão. Destratou um jornalista do Estadão que lhe perguntou sobre os 90 000 reais em dinheiro público que ele gastou na reforma dos banheiros de seu apartamento funcional em Brasília.

O caso de Yale pega Joaquim Barbosa num momento particularmente ruim. Ele saiu desmoralizado das sessões das quais resultou a aprovação dos embargos para réus do Mensalão.

Agiu como acusador, não como juiz, fez chicanas, facilitou a pressão da mídia sobre magistrados, sobretudo Celso de Mello – e com tudo isso acabou miseravelmente derrotado.

Já entrou para o anedotário jornalístico brasileiro a capa da Veja que o classificou como “o menino pobre que mudou o país”. Aliás, até hoje pela manhã, os leitores da Veja ignoravam a prisão da jornalista do Estadão, noticiada até pela rival Folha e pelo Globo, tão amigo de JB.

Modestamente, o DCM nota que parece ter surtido efeito uma informação que demos sozinhos, relativa a uma outra viagem de JB, para a Costa Rica. Ele patrocinou, então, uma boca livre para jornalistas com o dinheiro público, e a bordo de um avião da FAB.

Desta vez, JB não levou, pelo visto, jornalistas para escreverem coisas laudatórias sobre sua viagem.

É um progresso.

Mas melhor ainda seria se ele dedicasse seu tempo não a visitar Yale e sim a resolver processos que se arrastam sob sua órbita, como o que diz respeito aos velhos e esquecidos pensionistas da Varig. JB não mudou e nem vai mudar o Brasil, mas pode melhorar a vida dura da turma da Varig.

PINTURA PADRONIZADA SÓ CAUSOU PROBLEMAS NO RJ


Por Alexandre Figueiredo

A prefeitura do Rio de Janeiro (e de Niterói, São Gonçalo e até São João da Barra) tentam, tentam, tentam. No entanto, a medida da pintura padronizada que unifica diferentes empresas em um mesmo visual mostrou-se, definitivamente, um retumbante fracasso.

Tudo isso está claro nas ruas. A população se redobrando para pegar um ônibus, a corrupção correndo solta sob o manto da pintura padronizada, os sistemas de ônibus em queda livre de qualidade. E as autoridades, com medo, tentando desmentir qualquer coisa. Em vão.

Nas últimas pesquisas em rondas por vários cantos do Rio de Janeiro, constata-se que nada menos que 80% da frota de ônibus está sucateada, e os acidentes que ocorrem deixam uma média mensal de aproximadamente 100 passageiros feridos.

Mas em Niterói e São Gonçalo, os ônibus municipais já começam a ser sucateados, e mesmo tendo suas estampas "padronizadas" com um design mais alegre que a do Rio de Janeiro - que mais parece uma embalagem de remédio - , também mostram ônibus com lataria amassada que rodam sacolejando e mostram problemas diversos, do letreiro digital aos freios.

A ampla documentação das fotos desses ônibus não indica o sucesso da medida. Pelo contrário, tornou-se apenas um modismo, um tanto exótico, outro tanto aberrante, e que deixará, no futuro, uma mancha grave no sistema de ônibus fluminense.

Até mesmo a busologia do Rio de Janeiro passou a ser criticada pela sociedade, pelo surto de intolerância que uma minoria barulhenta de busólogos, que defendiam radicalmente a pintura padronizada nos ônibus, teve nos últimos anos, com péssima repercussão na opinião pública.

Devido a essa minoria - que queria exercer supremacia no hobby, mal conseguindo esconder interesses políticos pessoais - , houve desde declarações irritadas como o surrado bordão "Pare de falar besteira" até mesmo ofensas pessoais que ridicularizavam o estado civil de alguns membros (no caso, solteiros) e até blogues caluniosos.

A situação ficou tão séria que a tão sonhada ascensão da busologia fluminense ficou comprometida, e se os busólogos adeptos da pintura padronizada chamavam seus detratores de "viúvas de latas de tinta", agora a coisa se reverte e tais adeptos começam a ser chamados de "beatas de carimbos de prefeituras".

Com a intolerância, até mesmo busólogos de outros Estados ficaram preocupados, enquanto o povo fluminense, que já tinha preconceito com pessoas que admiram ônibus, passou a ver na minoria de busólogos pró-padronização um grupo de pessoas em busca de cargos nas prefeituras envolvidas, ou no DETRO e até na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ).

Outro fator de crise é que várias das posturas defendidas pela minoria prepotente de busólogos ia contra os interesses das classes populares, como defender empresas deficitárias (a Turismo Trans1000, de Mesquita, que recentemente perdeu o direito de explorar linhas de outro município, Nilópolis) e a redução de frotas de ônibus em circulação.

Além disso, o fato de várias dessas posturas estarem associadas aos interesses de âmbito rodoviário do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, e do governador fluminense Sérgio Cabral Filho, em época de intensa revolta popular contra esses dois políticos, deprecia ainda mais a postura dos busólogos que defendem as mesmas causas dos dois governantes.

O próprio fato do agravamento da corrupção nas empresas de ônibus cariocas, tão grande que quase transformou a CPI dos Ônibus numa ampliação desse mesmo esquema, já que a comissão era feita por gente ligada a Paes e Cabral Filho, também desmoraliza a pintura padronizada, que serve de véu para a corrupção político-empresarial, confundindo o povo impedido de verificar o desempenho de cada empresa.

A medida tenta resistir, se estendendo às frotas rodoviárias cariocas. A repintura dos ônibus ocorre em ritmo lento em Niterói e São Gonçalo. A renovação das frotas é retardada. Há processos judiciais contra a pintura padronizada. A população está irritada ao ver empresas de ônibus diferentes com a mesma pintura e sabendo que isso não traz a tão prometida transparência.

No entanto, a decadência só faz aumentar a crise, com o crescimento de reportagens negativas sobre os ônibus e com a revolta popular cada vez mais crescente. Daqui a pouco, a indignação contra a pintura padronizada, esse verdadeiro mascaramento do sistema de ônibus - ironicamente vindo de governantes que não gostam de ver manifestantes mascarados - perderá o controle.

Aí, não haverá mais sentido para manter esse "baile de máscaras" de uma mobilidade urbana falsa, politiqueira, corrupta e que nada traz de funcionalidade nem de transparência. Os passageiros comuns se sentem agredidos com esses "novos" sistemas de ônibus implantados nos últimos anos que até mesmo os BRT's se tornam ofensas demagógicas. A crise ficará insustentável.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

BRIGAS SOBRE AUTORIA DE MÚSICAS NOS FAZ PENSAR SOBRE O TAL "COPYLEFT"


Por Alexandre Figueiredo

Os intelectuais dominantes fazem a pregação do tal "copyleft", o engodo que "flexibiliza" as relações de propriedade intelectual das obras artísticas, mas que na prática aposta na pirataria e na derrubada de qualquer tipo de normas de direitos autorais, transformando o processo de produção cultural num verdadeiro vale-tudo, numa "feira de Acari".

Nossa intelligentzia, que acha tão zelosa pelo que entendem como "verdadeira cultura popular" - o brega-popularesco - sobretudo os "farofa-feiros" (o Black Bloc da intelectualidade pró-brega), acha que o "copyleft" irá proteger os autores e garantir o devido retorno da veiculação de sua obra, mas não é assim que acontece.

Se as normas rígidas do copyright fazem com que a renda da execução de um produto cultural se concentre nas mãos de editores, produtores, empresários e outros chefões envolvidos, o "copyleft" também não é garantia que o autor seja realmente o beneficiário de sua obra. Pelo contrário, há atravessadores e, quando todo mundo "rouba", o verdadeiro responsável se torna um mistério.

O "copyleft" acaba criando um problema maior do que havia nos anos 40, quando havia a exploração comercial dos sambas do morro. Havia casos de seresteiros comprando sambas de compositores das favelas e tomando para si o crédito de autoria, mesmo não tendo capacidade de compor um samba dessa natureza, mas quando muito alguma marchinha carnavalesca.

Existe até mesmo uma frase dita pelo sambista Sinhô, que diz: "Samba é como passarinho; é de quem pegar". Há um grande histórico de autorias controversas nos sambas brasileiros, fruto de disputas de autores, o que causou muita controvérsia na época, entre os anos 40 e 50.

Num contexto bem diferente, o brega-popularesco, que do contrário do samba se insere num contexto propositalmente comercial, há dois casos de disputas por autorias envolvendo dois sucessos da Música de Cabresto Brasileira.

Um é a música "Ai Se Eu Te Pego", o hoje mofado sucesso do breganejo Michel Teló. A música, na verdade, nem é de autoria dele, mas de três garotas que, fãs de breganejo, compuseram a letra de pirraça, lembrando de suas festas de fins de semana. A música chegou a ser alvo de disputa, já que Teló, apenas intérprete, não podia ficar com os créditos.

Outro caso é o sucesso "Passinho do Volante", do grupo MC Federado e Os Lelekes, um dos nomes do "funk carioca" que hoje se desgasta na sociedade. Conhecido pelo refrão "Ai Lelek-Lek-Lek-Lek", o sucesso teve problemas quando um antigo empresário criou um clone do grupo funqueiro para se apresentar paralelamente ao original.

Não bastasse isso, há disputas também no âmbito da autoria. Ninguém sabe quem realmente compôs o tal "Lelek-Lek", e a coisa está tão complicada que, em processo na Justiça, está impedindo o grupo original de se apresentar, já que não tem o seu maior sucesso. Música comercial é isso aí.

Daí que a intelectualidade dominante brasileira, aquela mesma que possui uma reputação aparentemente alta obtida às custas de sua visibilidade - nada diferente dos juízes midiáticos do STF - , às vezes brinca com fogo e acha que a "pimenta" do brega nos olhos dos "outros" (as classes populares) é refresco.

Para ela, é legal samplear, haquear, imitar, caricaturar. Vide os Black Blocs (ou Brega Blocs) do Farofa-fá, com suas pregações "provocativas" que soam como música para os barões da grande mídia. Só que essa coisa de derrubar as regras do copyright só cria bagunça, muita bagunça.

Daí que o ideal não é derrubar as normas do copyright, mas tornar suas regras mais justas, mais democráticas e que estejam em sintonia com as novas tecnologias e linguagens. "Copyleft" só transforma a produção cultural numa grande desordem.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

CAMPANHA DIVULGA CORREÇÕES GRAMATICAIS. A 'INTELLIGENTZIA' ESTÁ COM MEDO!!

A INTELECTUALIDADE DOMINANTE, "URUBOLOGICAMENTE", NÃO QUER QUE O POVO FALE CORRETAMENTE A LÍNGUA PORTUGUESA. MAS UM ADVOGADO REMA CONTRA A MARÉ "FAROFA-FEIRA".

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade pró-brega está com medo. Para ela, o mundo vai acabar. Os "farofa-feiros" estão apreensivos diante do que consideram uma catástrofe: logo na terra natal de Pedro Alexandre Sanches, a cidade paranaense de Maringá, um advogado quer divulgar as formas corretas de pronúncia da língua portuguesa.

Trata-se do projeto Sinal do Saber, lançado pelo advogado Lutero de Paiva Pereira, que divulga cartazes sobre a forma correta de pronunciar as palavras, um esforço que o advogado promove para tentar diminuir os constantes erros de pronúncia cometidos na fala cotidiana.

Assim, cartazes são divulgados como o que aparece na foto acima. Eles aparecem também em forma de outdoors. A campanha é financiada através de doações de empresas, que pagam os custos de confecção dos cartazes e a remuneração dos trabalhadores envolvidos.

Lutero começou a campanha pensando nos vícios de linguagem cometidos pelas pessoas no dia a dia, enquanto jogava golfe. Ele conversou com um sócio da empresa que mantém e então decidiu iniciar a campanha, que divulga as faixas nos sinais das ruas, além de instalar faixas nas praças e outros lugares das cidades.

A intelectualidade dominante, que nem está aí para a cidadania e usa o pretexto do "popular" para promover o vale-tudo da degradação sócio-cultural que enriquece os barões da mídia, acha isso um horror, porque, para ela, a campanha Sinal do Saber é uma forma de "higienismo social" que vai contra o que entendem como "legítima oralidade popular".

A intelectualidade pró-brega prefere que o povo pobre continue falando errado, porque isso expressa o estereótipo da "pureza" que seus "pensadores" pregam a respeito das classes populares, dentro de uma concepção de glamourização da pobreza e da ignorância.

Mas o povo de Maringá, indiferente a essa "urubologia" da intelectualidade "farofa-feira", aceitou a ideia de Lutero Pereira, e a medida está fazendo tanto sucesso na cidade paranaense que já existem pedidos para que a campanha seja implantada em Curitiba e até em outros Estados, como Cuiabá, no Mato Grosso, e Presidente Prudente, no interior de São Paulo.

Lutero pretende também criar uma outra campanha para informar a população sobre a origem de muitas palavras da língua portuguesa. Ele acredita na correção gramatical como forma de promover a cidadania e melhorar, em parte, a educação do povo brasileiro.

TOGAS E DIPLOMAS: "POPULAR" NÃO SERVE DE ESCUDO


Por Alexandre Figueiredo

O que é uma intelectualidade cultural progressista? Aquela que defende o "popular", seja o que ele for ou o que, ao menos pareça ser? Não. Estamos lidando com um grave problema, por conta da intelectualidade cultural que temos, que é o de defender o "estabelecido" no entretenimento comercial representado pelo brega.

O brega e seus derivados - houve quem não achasse, por exemplo, o "funk" derivado do brega, mas sociologicamente a realidade mostrou que os dois têm a ver, sim - apostam na imagem estereotipada do povo pobre, glamourizando a miséria, o sofrimento, a degradação social, como um teatro da desgraça alheia que conforta e diverte as elites pensantes do país.

Há muito denunciamos que o povo pobre está sem sua própria cultura, seu patrimônio original foi usurpado pelas elites pensantes dos anos 90, que se autoproclamam "progressistas" e fazem falsos ataques à "urubologia" reinante, mas que são dotadas de gente cuja linha de pensamento é herdada das pregações acadêmicas de Fernando Henrique Cardoso.

Aí esses pensadores vão dizer: "Ih, lá vem o Mingau dizendo que eu tenho origem tucana. Que papo cansativo!", e vão fazendo mil malabarismos. Uns tentam dizer que isso não tem a ver, outros que estão acima das ideologias, mas a maioria faz vista grossa, confiante demais que a visibilidade lhe esconde detalhes sombrios.

Até agora não temos uma intelectualidade cultural que pense numa perspectiva esquerdista. Há apenas uma intelectualidade que expressa apenas seus referenciais pessoais e outra que estabelece pontos de vista "emprestados" de visões de centro-direita. Nesta segunda categoria incluem-se os alienígenas como Paulo César Araújo e a turma do Farofa-fá.

Pensar nos "esquecidos" ídolos bregas, falar, num tom meio jocoso, meio melodramático, que fulano um dia fez muito sucesso na TV e nas rádios, com suas músicas chorosas que falam de lamentos exagerados, mas um dia caiu no "injusto" esquecimento e hoje luta para voltar, não é em si um pensamento de esquerda. Esqueçam isso.

A intelectualidade que pensa assim, da mesma forma que a outra parcela que tenta exigir ampla respeitabilidade a ritmos como o "funk", que a ninguém respeita, só está querendo, "gilmar-mendesiosamente", vender o seu produto, e, "joaquim-barbosamente", convencer a opinião pública.

Se apoiam no "popular" achando que estão puros, tentam convencer a sociedade que expurgaram todos os preconceitos sociais, defendendo o som que toca no radinho de empregadas que esses mesmos intelectuais sentem o temor de que dirijam contra eles, a qualquer momento, algum processo trabalhista por baixos salários ou não cumprimento de encargos trabalhistas.

Eles pensam e pregam que trabalham para defender a "verdadeira cultura do povo", mas o que eles defendem é uma forma estereotipada de cultura das classes populares. É como um antropólogo que nunca defenderia as tribos indígenas da forma como realmente são, mas da forma caricata dos índios de bailes de fantasia ou dos filmes de Hollywood (?!).

Se as togas dos juízes não inspiram necessariamente total sabedoria, falhando muitas vezes com as leis e estabelecendo promiscuidade até com corporações midiáticas devedoras de impostos, por que a intelectualidade cultural, que defende os valores culturais dessas mesmas corporações midiáticas, ainda não é largamente contestada?

Dizer que não tem a ver com grande mídia ou com o grande mercado é fácil. Como é fácil a intelectualidade pró-brega, num surto pedante de crítica política, fazer ataques falsos, forçados e pouco criativos ao "urubólogo" da moda, seja Ali Kamel ou Arnaldo Jabor. O problema é que essa mesma intelectualidade cultural faz amor com a grande mídia, e a namora escondido com prazer.

Eles são diplomados, premiados etc. Mas isso não lhes garante a transparência nem a isenção de suas ideias. Pelo contrário, em algum momento eles são atropelados pelas contradições, na medida em que defendem a mediocrização cultural, a imbecilização sócio-cultural das classes populares e a permanência do povo pobre como estereótipo de si mesmos.

A cosmética discursiva pode maquiar seus argumentos, dizendo que o "funk" sempre esteve fora da mídia, por mais que esteja dentro dela, ou que o brega nunca teve a ver com a grande mídia, mesmo que dela tenha extraído seus valores, símbolos e crenças. Mas não pode maquiar a realidade, que está a olhos vistos.

Reduzir as classes populares a uma forma mais caricatural do que se vê nas comédias da TV aberta é o que o brega está fazendo. O tecnobrega, o "funk", o "sertanejo", a axé-music, o "forró eletrônico", todos esses ritmos "populares" mais tendências não-musicais como as "popozudas" e os noticiários "policiais", também trabalham na caricatura do povo pobre.

A intelectualidade pensa que questionar essa imagem - que, para ela, não é caricatural - é preconceito. Só que o preconceito está, na verdade, na visão supostamente "sem preconceitos" dessa intelectualidade. Ela é que acha que a imagem caricatural que a grande mídia, nacional ou regional, trabalha sobre o povo pobre, é que é "autêntica" e "pura".

Portanto, estamos lidando com elites pensantes que, na verdade, se recusam a pensar a cultura popular. Mais parecem economistas, porque eles defendem bregas e derivados através do sucesso que fizeram, ou seja, mais discos vendidos, maior sucesso no mercado. E sua concepção de "diversidade cultural" tem muito mais a ver com "livre mercado" do que cultura de verdade.

A própria cultura se evolui. Mas a intelectualidade dominante quer que a cultura popular caminhe para trás, permaneça naquela pasmaceira patética da breguice dominante, que transforma o povo pobre numa multidão apatetada, quase debiloide.

Pensam que só o dinheiro do Ministério da Cultura vai resolver qualquer problema no brega, e mais uma vez eles pensam economicamente. Mas cultura é um tema ligado a valores sociais e artísticos, não é uma questão de lotar plateias ou levantar audiências.


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A JUSTA CACETADA QUE DILMA DEU NOS ESTADOS UNIDOS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Embora o governo Dilma Rousseff deixe a desejar em muitas coisas, e as reformas sociais ainda sejam muito brandas e tímidas e as concessões a projetos neoliberais são preocupantes, há de se admitir que, quando quer, a presidenta adota uma postura enérgica, como no discurso de ontem na ONU, sobretudo diante dos EUA, no caso da espionagem feita pela CIA, ameaçando a soberania nacional.

A justa cacetada que Dilma deu nos Estados Unidos

Por Paulo Nogueira - Diário do Centro do Mundo

Foi um dos maiores momentos da história diplomática nacional – se não o maior – o discurso de Dilma hoje na ONU.

A justa, exata, forte pancada na espionagem americana simboliza um país que cansou de se colocar de joelhos perante a predação americana.


Os Estados Unidos abusaram da paciência não apenas do Brasil – mas do mundo. Se fosse um filme, eles fariam o papel de policial – mas um policial que, nos bastidores, é um criminoso intensamente perigoso.

A fala de Dilma consagra, também, o bravo Snowden, o jovem americano que sacrificou uma vida mansa no Havaí para expor ao mundo um esquema de espionagem planetário de extrema delinquência.

Não é de hoje que a política externa americana é um horror. Leia – recomendo vivamente – “A História do Povo Americano”, de Howard Zinn.

Nas Filipinas, no México, em Cuba, na Coreia, na Guatemala, no Irã, no Vietnã, no Iraque, no Afeganistão, em tudo que é lugar em que se meteram os Estados Unidos levaram praticamente desde sua independência destruição e exploração. Com sua política predatória sistemática no Oriente Médio, os americanos acabaram por se tornar uma fábrica de terroristas: jovens islâmicos em quantidade crescente se revoltam, se radicalizam e, desesperados, morrem e matam em seu ódio aos Estados Unidos.

É tal a raiva que os americanos despertam no mundo árabe que cresceram lá extraordinariamente, nos últimos meses, atentados de soldados locais treinados por tropas ocidentais. Teoricamente aliados, tais soldados simplesmente se viram e atiram contra forças americanas, britânicas etc.

No próprio Brasil, os americanos tiveram participação expressiva – com a famigerada CIA — no golpe militar que acabaria transformando o país no campeão mundial da iniquidade.

Os horrores americanos apenas se tornaram mais claros hoje graças à disseminação ampla de informações pela internet.

É neste quadro novo que entra o Wikileaks, que mostrou a guerra do Iraque como ela é, e não como os americanos fingiam que era.

E é aí também que brilha Snowden.

Snowden, caçado, ajudou as pessoas a entender melhor o mundo. De quantas pessoas se pode dizer o mesmo?

O "LIVRE MERCADO" POR TRÁS DA "DIVERSIDADE CULTURAL"


Por Alexandre Figueiredo

Basta ser "provocativo" para promover um debate justo sobre a crise - sim, crise - da cultura brasileira? Não. Quando os microfones estão sempre abertos para elites intelectuais que preferem defender o comercialismo "popular" em detrimento da cultura de qualidade que eles julgam "cansados" (no sentido "movimento Cansei" do termo) de apreciar, então algo está errado.

Eles falam tanto em "diversidade cultural", usam e abusam do termo "popular", perdem tempo ruminando questões sobre "bom gosto" e "mau gosto", quando o chamado "gosto popular" é manipulado de acordo com os interesses comerciais dos executivos da grande mídia.

A intelectualidade cultural que temos é reflexo da ditadura midiática da qual esses mesmos intelectuais tentam evitar o vínculo de qualquer jeito. Agora se dizem "independentes" ideologicamente, só para justificar a ambígua atitude de se infiltrar nas mídias progressistas e, por outro lado, fazer amor escondido com os barões da grande mídia.

Assim, eles estão a serviço de uma indústria de entretenimento, que inclui de gravadoras a casas noturnas, que promovem a mediocrização cultural do povo pobre, expressa desde os noticiários "populares" até "popozudas", passando pelos "injustiçados" ritmos "populares", para garantir os interesses remanescentes das classes dominantes em crise.

Claro que, como nas fábulas, o lobo não se infiltra no rebanho para dizer que é um lobo voraz. Ele irá jurar que sempre foi um carneirinho a mais no rebanho. Como nas esquerdas médias, que mais parecem defender que o Oriente Médio se torne Primeiro Mundo antes do Brasil - de preferência com o petróleo nas mãos de George Soros - , o "lobo tucano" não se assumirá como tal.

Enquanto passam sutilmente a herança de uma linha de pensamento sobre cultura popular herdada de ideias mescladas de Fernando Henrique Cardoso, Francis Fukuyama e Roberto Campos, a intelectualidade tenta dissimular suas posturas reais fazendo falsos ataques à "urubologia" da moda, tentando forçar uma dissociação da velha grande mídia da qual surgiu.

A intelectualidade "provocativa", "farofa-feira", pró-brega, pró-funqueira, pró-tecnobrega, dos "Black Blocs" etnográficos que capazes de jogar o cadáver de Itamar Assumpção no lodo de um "baile funk", ou de botar a culpa das baixarias popularescas de hoje a um Gregório de Mattos que faleceu há três séculos, tenta fazer prevalecer seu discurso sobre a cultura brasileira.

TENTANDO GANHAR TEMPO

Tentam ganhar tempo enquanto a sociedade se mobiliza pela regulação da mídia, pela reforma agrária, pela melhoria de vida e parte das classes pobres se transforma, aos poucos, em classe média (bem mais precária do que se supõe, mas é algum avanço).

Enquanto a sociedade clama por essas transformações, a intelectualidade simbolizada por gente "tarimbada" como Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e outros prestadores de serviço da ditadura midiática - entre antropólogos, cineastas, artistas etc - , tenta manipular o processo para que as pressões se anulem e as mudanças se reduzam à letra morta e aos aspectos meramente formais.

Prestando esse trabalho informal à ditadura midiática - aparentemente eles não são, ou deixaram de ser, formalmente vinculados a elas, no sentido profissional - , eles tentam combater as causas das quais se dizem "plenamente a  favor", procurando empastelá-las no máximo, por trás desse "apoio" falsamente apaixonado.

Como é que esses intelectuais vão defender a regulação da mídia, se eles defendem uma visão de "cultura popular" difundida e claramente promovida pelo mesmo poder midiático que dizem rejeitar? E como é que eles falam em "reforma agrária na  MPB", se ficam tristinhos com a decadência do "forró eletrônico" patrocinado pelo poder latifundiário?

E a "diversidade cultural" que tanto dizem defender? Criam todo um discurso, bem mais apaixonado que o contexto "científico" no qual parecem se inserir pode indicar, exaltando o povo pobre, as classes populares, num tom que mais parece o de um político demagogo em comício no interior.

Só que é muito duvidoso o valor desse discurso de "diversidade cultural", que apenas exige que se dê à mediocrização cultural brasileira a mesma respeitabilidade da cultura de qualidade, em que pese as omissões quanto à formação moral das classes populares, em que a degradação sócio-cultural é consentida sob a desculpa do "triunfo do mau gosto popular".

Afinal, o que falam de "diversidade cultural" é tão somente a aplicação dos conceitos de "livre mercado" no chamado "gosto popular". O discurso intelectual é um discurso publicitário, com todas as mentiras e meias-verdades trabalhadas como "verdades", até mesmo num blogue como o Farofa-fá, tão "provocativo" quanto as "urubologias" e os artigos de Veja.

Como o "livre mercado", a dita "diversidade cultural" não quer saber de valores morais, identidades nacionais ou coisa parecida. Ela só quer saber de sucesso econômico. Não por acaso, ritmos como o antigo brega romântico, ou o "funk", ou o tecnobrega e o combalido "forró eletrônico", valem mais pelo sucesso econômico de plateias lotadas, discos vendidos etc.

Tudo isso é Economia. Não é cultura. A pregação intelectual só quer saber de fenômenos economicamente bem sucedidos. O que tiver "apelo popular" é o que vale, pouco importa se é degradado ou não. E com isso a opinião pública comum vai pensando que esse discurso intelectual é progressista, quando ele é neuroticamente neoliberal.

Enquanto isso, o Instituto Millenium promove suas rodas de "farofa-fá" e pouca gente percebe.

O "PROVOCATIVO" MARCELO MADUREIRA GANHA ESPAÇO NA CBN


Por Alexandre Figueiredo

O "provocativo" Marcelo Madureira, que a intelectualidade pró-brega deve lembrar, mas não quer se lembrar disso, do apoio entusiasmado aos ídolos brega-popularescos (como a Banda Calypso) no Casseta & Planeta mergulhado em sua fase tucana, agora tem espaço na rede CBN.

O "humorista" - que, certa vez no Instituto Millenium, onde ele tem cadeira cativa, esqueceu de sua vocação humorística para fazer comentários políticos mal-humorados - irá comentar os fatos do cotidiano, prometendo que "nada escapará" de sua "análise bem-humorada".

As análises provocativas do "seu" casseta - sim, o Casseta & Planeta continua existindo, só está "de férias" (ou de castigo?) por causa das aventuras neocon de Madureira - estarão no quadro "Sacolão do Madureira", que integrará o "time das oito" do Jornal da CBN.

"Estou muito feliz de entrar para esse timaço da CBN, vai ser um tremendo desafio! Sempre adorei rádio e espero me dar bem, pois todos dizem que fico mais bonito no rádio do que na TV, mesmo porque o rádio não é a televisão, que engorda as pessoas", afirmou Madureira.

Amigo de Diogo Mainardi, Marcelo Tas, Arnaldo Jabor, além de ter sido divulgador da "verdadeira cultura popular" no antigo Casseta & Planeta Urgente, Madureira tornou-se um dos ativos porta-vozes da militância neocon, que virou direitista por não aguentar os erros cometidos pelas esquerdas no Brasil, confundindo isso com a perda de validade do esquerdismo no país.

O que Marcelo Madureira vai fazer não será muito diferente do que os citados três amigos fazem. Cada um com sua "urubologia", como é de praxe nessa provocativa elite da grande mídia. A intelectualidade pró-brega deverá ouvir o "sacolão" e escrever por aí que "odeia" Marcelo Madureira, "esse ridículo neocon".

Mas isso é uma forma provocativa da intelectualidade pró-brega, pró-funqueiros e similares dizer que, no fundo, ama muito a fauna neocon com a qual compartilha muitos (e provocativos) interesses de fortalecer o mercado às custas da defesa da degradação sócio-cultural do povo pobre.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

JAIR BOLSONARO E A DIREITA TRUCULENTA


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Sendo curto e grosso: o deputado federal Jair Bolsonaro sente muitas saudades da ditadura militar, como se observa em mais um de seus surtos reacionários.

Jair Bolsonaro e a direita truculenta

Por Cadu Amaral - Blog do Cadu - Reproduzido também no Blog do Miro

Jair Bolsonaro, deputado federal pelo Partido Progressista (PP), agrediu fisicamente o senador Randolfe Rodrigues do PSOL. Segundo o psolista, a agressão foi um soco. Bolsonaro afirmou apenas que “foi um toquezinho”.

Já na entrada do 1° Batalhão de Polícia do Exército – local onde funcionava o Destacamento de Operações de Informações-Centro de Defesa Interna (DOI-Codi) nos tempos da ditadura civil-militar de 1964.

A visita se dava por conta de trabalhos da Comissão Nacional da Verdade e da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro. Logo na entrada do Batalhão, Bolsonaro criou tumulto por querer participar da visita, mas ele, além de não fazer parte da Comissão é fervoroso defensor do golpe de Estado dos anos de 1960.

Não é a primeira vez que Bolsonaro agride defensores dos Direitos Humanos. Em outra ocasião agrediu verbalmente a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário nos corredores do Congresso. Em entrevista à tevê Bandeirantes afirmou que seu filho jamais se casaria com uma pessoa negra. “Eu eduquei meu filho. Não corro esse risco”.

Mas truculência não se dá apenas com agressões físicas ou verbais explícitas, digamos assim. Negar direitos também é.

O “blogueiro” Reinaldo Azevedo do site de Veja é, sem dúvida alguma, um dos mais truculentos porta-vozes da direita – pastelão, por que não? – no país. Em recente artigo, condenou e atacou o novo Procurador-geral da República, Rodrigo Janot por causa de uma entrevista concedida ao jornal O Estado de São Paulo, o Estadão.

Na ocasião, Janot afirmou que “pau que dá em Chico, dá em Francisco” ao ser questionado sobre o processo do, assim chamado, mensalão do PSDB (a “grande imprensa” chama da mensalão mineiro tentando não vincular o caso aos tucanos). Nada mais correto. O Ministério Público não pode ser seletivo, principalmente nesse caso. Foi em Minas Gerais, sob a batuta do tucanato que o esquema de Marcos Valério surgiu com força na cena política.

Para quem não sabe, em Minas Gerais foi montado um esquema de caixa 2, com dinheiro público de, entre outras empresas públicas, Furnas – ao contrário da AP470, conforme documentos do inquérito 2474, tornado sigilosos pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. Agora o julgamento desse inquérito terá como relator Ricardo Lewandowski.

Azevedo defendeu que Janot age por motivações políticas por querer dar celeridade ao processo tucano. Chega a, arraigado de ironia, chamar o novo Procurador-geral de “companheiro”. O que ele quer é que o caso prescreva.

Ora, não se pode defender justiçamento para um e prevaricação para outro. Ainda mais em casos semelhantes e com personagens repetidos. No caso de Minas, se for feita Justiça, com jota maiúsculo, nem Gilmar Mendes escapa. Ele recebeu R$ 185 mil quando era da Advocacia Geral da União. Até FHC, príncipe dos vira-latas brasileiros recebeu uns “trocados”, perto de 500 mil reais. Tudo isso em 1998.

A truculência de Azevedo se dá ao negar que o Estado de Direito seja para todos. Quando cobra justiçamento para uns e “esquecimento” para outros, ele promove a injustiça, talvez a pior das truculências por que essa você não sente num primeiro momento, a não ser que seja o alvo em questão e, a reação é demorada, lenta a ponto de, por várias vezes, não ver resultado concreto.

Mas é assim que age a direita brasileira dita “granfina”. Com um sorriso nos lábios e com ironia escorrendo pelos cantos de suas bocas, do tipo que Reinaldo Azevedo pretende ser. Já a direita brucutu age como Bolsonaro, xinga e agride fisicamente. Mas em ambos os casos o deboche após seus atos está presente.

O SENTIDO OSCILANTE DO JORNALISMO TENDENCIOSO

JORNAL METRÓPOLE - Periódico baiano tem raízes em esquema de corrupção de ex-prefeito de Salvador, capital da Bahia.

Por Alexandre Figueiredo

Há um sentido deturpado do significado de jornalismo tendencioso. Aquele que se limita a tão somente defender o ponto de vista das elites, sem qualquer sutileza. É verdade que o tendenciosismo jornalístico inclui a cobertura facciosa, mas ela apenas é uma parte dele e não o seu significado como um todo.

Para entendermos o que é o jornalismo tendencioso, é só verificar quando veículos conservadores da grande mídia adotam posturas relativamente "progressistas", mais por oportunismo ou por uma questão concorrencial - quer levar vantagem a outro veículo rival mais abertamente reacionário - do que por alguma solidariedade aos movimentos populares diversos.

A própria Folha de São Paulo agiu assim. Tentando apagar o passado de jornal que apoiou a ditadura militar e que forneceu até viaturas para transportar presos políticos para as prisões, em colaboração com o DOI-CODI, chegou mesmo a apagar essa imagem sombria quando tentou pegar carona nas mobilizações pela volta das eleições diretas no Brasil, entre 1983 e 1984.

A Folha aproveitava a intransigência das Organizações Globo em fazer a cobertura do movimento Diretas Já e parecia triunfar no seu profissionalismo. Só mesmo denúncias recentes, como as feitas pelo jornalista de Caros Amigos, José Arbex Jr., no livro Showrnalismo: A Notícia como Espetáculo (Casa Amarela, 2004), mostraram a farsa desse projeto, o Projeto Folha.

A Folha de São Paulo mostrou-se, com o tempo, um jornal tão reacionário quanto o rival regional O Estado de São Paulo e o rival nacional O Globo. O verniz progressista do Projeto Folha, que tornava o jornal supostamente mais enxuto e "digestível", escondia um conservadorismo "higienista" e cada vez mais voltado ao status quo da burguesia paulista.

Por ora, o verniz progressista do Projeto Folha apenas reflete na aparente reputação de pelo menos dois de seus "alunos", Pedro Alexandre Sanches (blogueiro do Farofa-fá) e Ronaldo Lemos (advogado e professor da Fundação Getúlio Vargas, no RJ), que aprenderam direitinho as lições ditadas por Otávio Frias Filho, sobretudo a visão que este tem de "cultura popular".

O CASO BAIANO

O que poucos percebem, sobretudo na Bahia, é o caso do monopólio da influência do Grupo Metrópole (revista e rádio), do ex-prefeito de Salvador Mário Kertèsz, na cobertura aparentemente "progressista" da mídia local, é uma forma típica de jornalismo tendencioso.

O próprio histórico de Kertèsz não deixa mentir. Ele foi político lançado por Antônio Carlos Magalhães pela ARENA, o partido da ditadura militar. De perfil bastante conservador, Kertèsz teve uma inclinação para a corrupção política e o oportunismo administrativo que o fez um equivalente baiano do ex-governador paulista Paulo Maluf, também surgido na ARENA.

Na sua segunda gestão como prefeito de Salvador, já na década de 80, Kertèsz realizou, ao lado de Roberto Pinho (recentemente ligado ao esquema mensaleiro de Marcos Valério), um esquema de desvio de dinheiro público, em tese destinado para obras urbanas da capital baiana, no qual duas empresas "fantasmas" foram criadas para o recebimento do dinheiro sujo.

Ambos usaram o dinheiro para alimentar seus patrimônios pessoais. Kertèsz, querendo ser um barão da mídia local, resolveu comprar ações em emissoras de rádio e numa de TV locais. Desse patrimônio, que teve que ser parcialmente desfeito a cada denúncia de corrupção, criou-se o feudo midiático de Kértesz com a Rádio Metrópole FM e o jornal Metrópole.

Um dado que não há nas historiografias oficiais do Jornal da Bahia é que Kertèsz foi o responsável direto pelo assassinato do jornal progressista, fundado em 1958 e extinto em 1994. A culpa foi atribuída apenas ao mandante, ACM, pois, na época, os fundadores do JBa, João Falcão e Teixeira Gomes, precisavam da Rádio Metrópole para obter visibilidade.

As esquerdas baianas estavam iludidas com Kertèsz, como as esquerdas paulistas chegaram a serem iludidas pelo Projeto Folha. Uma consequência dolorosa disso foi quando Kertèsz, nos seus surtos reacionários, desmoralizou os esquerdistas Emiliano José e Oldack Miranda (autores de um livro sobre Carlos Lamarca) no ar, durante seu programa de rádio.

Emiliano e Oldack, até aquele momento, ainda confiavam na "diversidade ideológica" prometida pela Rádio Metrópole. Traídos pelo tendenciosismo da rádio, e desmoralizados diante de muitos transmissores - embora a audiência da emissora seja bem menor do que oficialmente é declarado - , resolveram ir mais fundo na campanha pela redemocratização da mídia na Bahia.

Kertèsz, que hoje reúne o oportunismo político de Paulo Maluf com a astúcia político-midiática de Silvio Berlusconi, é o símbolo do tendenciosismo midiático local. Ele se acha "dono" das esquerdas baianas e "senhor" da opinião pública, exercendo monopólio numa fração supostamente "menos coronelista" da mídia baiana.

Eventual bajulador do PT - chegou a participar como locutor de campanha de Luís Inácio Lula da Silva - , Kertèsz, que é machista, tem fama de fazer assédio sexual com as funcionárias, possui "gatos" de energia elétrica em sua casa, promove culto à sua personalidade em suas empresas e contradiz seu falso esquerdismo endossando notícias até da reacionária revista Veja.

Além disso, o jornal Metrópole já chegou a imitar uma concepção visual da Folha de São Paulo e criou uma campanha publicitária para mídia impressa que plagia quase que totalmente um anúncio da CBN para a mesma mídia, em que aparece um cãozinho pegando um jornal pela boca.

Kertèsz é o tipo de pessoa que ninguém deve recorrer para obter apoio para a regulação da mídia. Porque ele é o tipo de pessoa que fará tudo para parecer apaixonadamente solidário à causa, mas que no fundo fará tudo para a mesma causa ficar perdida e reduzida à letra morta.

Ele é perigoso. No primeiro momento, ele defende o bom jornalismo, a diversidade de opiniões e quer vincular à sua imagem os movimentos sociais e as instituições de esquerda baianas. Em segunda instância, comete surtos reacionários de fazer Bóris Casoy ficar boquiaberto, além de mostrar-se machista e corrupto, fazendo acordos ilícitos até com dirigentes esportivos.

Portanto, o grupo Metrópole tem muito mais a ver com província. Ou talvez com a visão antiquada de modernidade que a Folha de São Paulo chegou a pregar para o país, e que foi herdada com gosto pelo Maluf baiano.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A SONEGAÇÃO DA GLOBO E A "SÓ-NEGAÇÃO" DO COPYLEFT


Por Alexandre Figueiredo

As Organizações Globo são a mais "provocativa" corporação da grande mídia do país, seguida pelo Grupo Folha e, em larga distância de diferença, do Grupo Abril. E desde que foi divulgada a gigantesca sonegação fiscal da corporação dos irmãos Marinho, tudo se torna ainda mais "provocativo" diante do que a intelectualidade dominante pensa.

Aliás, se a Globo sonega a Receita Federal - já foi divulgada uma dívida de R$ 713 milhões - a intelectualidade dominante "só nega" seu envolvimento com o status quo midiático. Volta e meia vemos intelectuais pró-brega fingindo que atacam direitistas da moda, seja Marcelo Madureira, Ali Kamel, Eliane Cantanhede, Merval Pereira, como se os primeiros não tivessem a ver com estes.

Tem, e muito. E são ataques muito, muito ensaiados. Uma coisa é um blogueiro questionar substancialmente um texto de Merval Pereira ou uma postura reacionária de um ator da Globo. Outra é ver um intelectual pró-brega fazer ataques forçados a um Ali Kamel, a um Marcelo Tas, a um Reinaldo Azevedo, querendo impressionar os amigos com seu falso progressismo.

São comentários forçados, ensaiados. Você lê um Pedro Alexandre Sanches falando mal da grande mídia, e de cara você lê que ele não o faz com palavras próprias. Ele parece ter arrancado clichês colhidos de um Conversa Afiada. Com Eugênio Arantes Raggi, o mineiro pseudo-esquerdista que escreve como um Reinaldo Azevedo pós-Tropicalista, ocorre também a mesma coisa.

Mas o que é a falta de originalidade para quem defende a bregalização do país? Ela, que se baseia nas imitações baratas dos modismos estrangeiros, imitações baratas e tardias. É gente que defende a mediocrização cultural achando que isso vai salvar a vida do povo pobre e pensa que está sendo revolucionária pregando a derrubada do processo de direitos autorais por si só.

QUAL É A DIFERENÇA?

Portanto, qual é a diferença entre as Organizações Globo que há muito deixou de pagar mais de setecentos milhões de reais de impostos de renda, apesar da grana que acumula tanto de projetos como o Criança Esperança quanto do "bônus de volume", espécie de bonificação por veiculação de publicidade do Governo Federal, e a turma do tal "copyleft"?

O "copyleft", essa farsa que leva ao outro extremo do processo de copyright, daí o termo um tanto jocoso e tendencioso, não pensa na verdadeira flexibilização nas regras datadas e ultrapassadas de propriedade autoral, mas simplesmente prega a sua eliminação e a desregulamentação total do setor.

A mesma cantora da música "Xirley" (aquela do refrão "Eu Vou Samplear, Eu Vou Te Roubar"), Gaby Amarantos, participa de um reality show do Fantástico, da mesma Rede Globo cuja empresa é acusada de sonegação. E que prova, por A mais B, que o "abraço da mídia" no brega-popularesco não é algo oportunista ou acidental, mas uma relação de cumplicidade mesmo.

A grande mídia não divulga o brega-popularesco porque se apropriou dele ou porque esses supostos "ritmos populares" invadiram a grande mídia. Nem uma coisa, nem outra. Senão haveria tensão nos bastidores só pela presença de um Mr. Catra ou uma Joelma do Calypso em algum palco da Globo. E até hoje não houve registro qualquer de rebelião associada a esses nomes.

Mas essa intelectualidade que temos se insere no mesmo contexto do Judiciário midiatizado. Espera-se um comunicado oficial dizendo que Paulo César Araújo e Gilmar Mendes navegam juntos no mesmo barco. Araújo, aliás, defende um "padrão" de cultura popular que satisfaz aos interesses dos barões da grande mídia, e virou até "consultor" de brega das Organizações Globo.

Portanto, a sonegação da Globo não está num contexto bem diferente de uma intelectualidade que pouco se importa com a melhoria cultural do Brasil. Se há crise de valores sócio-culturais mas rola dinheiro no mercadão dito "popular", tudo está bem, é só estender os BV (os tais "bônus de volume") também para a bregalização da cultura brasileira.

Sampleagem sem crédito de fonte, hackeagem, trolagem, crédito de autoria duvidoso, fora a própria breguice que, por si só, não passa de uma linha de montagem de modismos ultrapassados, de ideias indigentes, de baixos valores sócio-culturais. Isso tudo não é diferente da sonegação fiscal da Globo. 

Os autores não veem a compensação sócio-econômica para sua obra, e quem pensa que o "copyleft" irá socializar a propriedade autoral está enganado. Pelo contrário, haverá atravessadores que, aproveitando da "flexibilização" das regras, toma para si o dinheiro que fica de fora e se torna senhor absoluto daquela "grana livre" prometida pelo tal "copyleft".

Portanto, não há diferença alguma entre o "copyleft" pregado sobretudo pelos "farofa-feiros" (o Black Bloco da intelectualidade pró-brega) e a sonegação fiscal da Globo. É a mesma ruptura de compromissos, e o "funk" e o tecnobrega possuem cadeira cativa na Globo. Mas a intelectualidade dominante só nega isso. Só nega.

domingo, 22 de setembro de 2013

"FUNK" É UM RITMO CONSERVADOR

DJ MARLBORO - Ícone do chamado "funk exportação", feito para turista ver.

Por Alexandre Figueiredo

O "funk" é um ritmo muito rígido e fechado nos valores e na sua estrutura. Essa constatação põe em xeque todo tipo de alegação de "riqueza artístico-cultural" atribuída por seus propagandistas ao ritmo, o que faz a intelectualidade associada reagir com neurótico desespero, na tentativa de tentar salvar a reputação do gênero.

A intelectualidade dominante está muito preocupada com o desgaste do "funk", que recorre, com um apelo bastante tendencioso, às comparações com a sociedade brasileira de 1910, bem diferente da atual, para "explicar" a rejeição que o ritmo carioca anda sofrendo.

Sem poder apresentar argumentos consistentes - são sempre as mesmas desculpas de "preconceito", a mesma choradeira - , os intelectuais dominantes e seus adeptos demonstram muita aflição de não poderem elevar a reputação do "funk" num pretenso status de superioridade cultural.

O que eles não sabem é que o "funk" é um ritmo bastante conservador. Tanto no sentido ideológico quanto no sentido sonoro. Nele não há possibilidade de evoluções sonoras e artísticas nem progressos sociais. O "funk" prende o povo pobre numa concepção sonora e num projeto ideológico que nunca muda e não traz qualidade de vida.

No âmbito sonoro, o "funk" não aceita instrumentos musicais diversos, o que coloca o ritmo num patamar abaixo até mesmo do rock. O "funk" consiste na formação de um DJ, um MC principal e outro MC de apoio que fica balbuciando. E só. Não se admite mudanças nem evoluções, porque estraga com a "originalidade" e o "discurso direto" que os defensores veem no gênero.

A própria intelectualidade dominante já rejeitou um aparente caminho "evolutivo", bastante patético e caricato, mas cogitável: os "fenômenos" Anitta e Naldo Benny podem ser bregas, cafonas, bem mais domesticados que a média dos funqueiros, mas aparentemente sinalizariam algum caminho para as mudanças sonoras do "funk".

O "funk" não se tornará grande coisa com esses dois astros do "funk melody", mas o que se quis dizer é que eles poderiam, dentro da retórica e da ideologia funqueira, sinalizarem algum caminho de mudança, numa adaptação aos públicos de maior poder aquisitivo.

O aparente radicalismo dos intelectuais, que não demonstra senão outra coisa que é o caráter conservador do "funk", já que se eles nem aceitam Anitta - tida como "higienista", como se o "funk", como um todo, não fosse higienista - , então o "funk" torna-se vítima de seu próprio discurso de defesa.

Mesmo a suposta sofisticação do "funk exportação", ou "funk de DJ", transformado em arremedo de música eletrônica, não consegue garantir a evolução de seu som. Representado por DJs como o próprio DJ Marlboro, o "funk exportação" é "melhor elaborado" visando o público estrangeiro, turistas e as plateias de maior poder aquisitivo possível.

Outro agravante é que única novidade em torno do "funk ostentação", a cena funqueira de São Paulo, é apenas simbólica, em elementos ligados ao gangsta rap norte-americano, como a adoração da riqueza e do luxo, que nada acrescenta aos funqueiros. Pelo contrário, os põe em contradição diante da surrada alusão à "cultura pobre".

O "funk" não permite que o MC toque instrumento, não permite inclusão de melodias. E isso faz com que sonoramente ele fique bastante repetitivo, o que faz com que a rejeição dada ao gênero nem de longe seja fruto de algum preconceito, mas sim de uma observação atenta que não faz o "funk" parecer agradável nem aceitável, por razões óbvias.

Ideologicamente, então, o "funk" também é conservador. Ele não quer a superação da pobreza das favelas, não quer qualidade de vida, as tentativas de associar "funk" e Educação sempre foram patéticas e a imoralidade associada ao gênero é apenas aceita de forma condescendente por intelectuais a pretexto de serem "outros valores".

O "funk" até parece, com determinada sutileza, defender o fim do policiamento nas favelas. Tenta generalizar a violência policial. Evidentemente, no discurso, os dirigentes funqueiros não mostram isso de forma evidente, mas da forma como falam em policiamento nas favelas, a impressão que se tem que o modelo de policial que querem é o de um "biruta" de posto de gasolina.

O "funk" não quer qualidade de vida. Mesmo o "funk ostentação" usa português errado até para falar de carrões e joias. A imoralidade, com suas baixarias explícitas que envolvem até mesmo pedofilia - que voltará a ficar em alta com a autorização judicial para integrantes menores no Bonde das Maravilhas - e a criminalidade, é, infelizmente, vista pela intelectualidade como "virtude".

E é tudo isso que faz o "funk" não um ritmo revolucionário ou subversivo, e nem mesmo como um ritmo transformador. O "funk" resiste à transformação, daí que ele não viverá as mesmas experiências do jazz, do samba e do rock, que sempre eram receptivos à evolução sócio-cultural.

O "funk" nunca foi. Ele usa um discurso de "diversidade cultural", de "riqueza artística", que na realidade não procede de forma alguma. As ricas referências culturais associadas ao "funk" - de Antônio Conselheiro a Andy Wahrol, passando por Leila Diniz, Hélio Oiticica, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Malcolm McLaren - só existem na imaginação etnocêntrica da intelectualidade dominante.

Isso porque nenhum desses referenciais é sequer de conhecimento pleno de um funqueiro. Pouco importa se o dirigente funqueiro passou a ouvir falar em Movimento Pop Art e dizer, de uma forma bem pretensiosa, que Andy Wahrol e Roy Lichtenstein "têm a ver" com o "funk". Tal atitude só revela a hipocrisia demagógica e os malabarismos discursivos e ideológicos que cercam o ritmo.

O "funk" é conservador. Essa é a conclusão definitiva, que nada tem de moralista, elitista ou higienista. O "funk" é moralista com sua imoralidade, pois através desse moralismo às avessas - aceitar as baixarias do "funk" - se estabelece todo um processo higienista e elitista da degradação sócio-cultural das periferias.

Afinal, sem qualidade de vida as periferias acabam se autodestruindo dentro de um processo de domesticação mesclada com degradação de valores, sejam culturais, artísticos ou morais. Aliás, o "funk" não é cultura porque cultura se evolui, algo que o "funk" se recusa a assumir.

O que o "funk" quis até agora é ser aceito pelas elites, mesmo em todos os defeitos. Isso nem de longe possibilita a evolução cultural em si. Pelo contrário, o "funk" deixa a máscara cair no seu conservadorismo um tanto fascista de manter o povo pobre refém de sua própria pobreza, se não a financeira, pelo menos a pobreza simbólica da baixa qualidade de vida.

sábado, 21 de setembro de 2013

INTELECTUALIDADE FAZ MALABARISMO COM A CRISE DO BREGA


Por Alexandre Figueiredo

O brega-popularesco começa a agravar sua crise. Tendências se desgastam em efeito dominó, valores da supremacia do "mau gosto popular" estão em crise, enquanto que as críticas a tudo isso vão além dos limites das elites esclarecidas para chegar até mesmo às mais pobres famílias das periferias.

O "forró eletrônico" foi um dos primeiros a apontar esse quadro, tanto é seu desgaste. Mas a intelectualidade pró-brega, "urubologicamente", chora a sua decadência, choramingando o fim de uma imagem estereotipada de Nordeste, de um Nordeste que só existia nas suas imaginações acadêmicas, imagem que os divertia plenamente.

Vendo a decadência de um modelo de "cultura popular" trabalhado pelo poder midiático e reforçado pela verborragia acadêmica e pelas edições de imagens dos documentários, entre outros recursos discursivos sofisticados, a intelectualidade faz mil malabarismos para fazer prevalecer sua visão "provocativa" sobre o futuro do folclore brasileiro.

Há mobilizações por todos os lados. Das mães pobres preocupadas com o "vale-tudo" dos ritmos popularescos e dos fenômenos "populares" - da imprensa policialesca às "popozudas" - até as lutas pela regulação da mídia, os intelectuais pró-brega, supostamente progressistas mas alinhados a uma linha de pensamento herdada do PSDB e dos barões da mídia, tentam mudar as estratégias.

Sem defender tanto algumas tendências brega-popularescas, depois do choque causado pelos surtos neocons de nomes como Zezé di Camargo & Luciano e Banda Calypso, ou da explícita ligação do "funk carioca" com as Organizações Globo, a intelectualidade se contenta em criar um "elenco" de bregas-coitados para continuar promovendo "provocativamente" como "gênios injustiçados".

As argumentações ficam mais confusas. Até parte do movimento feminista adepta do brega, sem poder explicar a contradição entre repudiar uma Gisele Bündchen "sensualizando" em comerciais e o apoio às chamadas "popozudas" cometendo grosserias piores, tenta explicar que, no contexto do "popular", deve-se respeitar o tal "direito à sensualidade".

Mais parecendo as "neuras" dos comerciais, com suas conversas chatas sobre "defender as periferias", dentro de uma perspectiva que mais parece surgir das mentes de um produtor da Globo ou de um editor da Folha de São Paulo, os intelectuais choram ao ver os fracassos sucessivos da diluição da cultura popular por todo o país.

A CRISE DO BREGA E SUAS TENDÊNCIAS

O "brega de raiz" não conseguiu até agora uma reabilitação plena de seus antigos ídolos, de Waldick Soriano a Michael Sullivan, passando por Odair José e José Augusto, por enquanto integrando o dirigismo ideológico dos intelectuais, que, como que numa determinação de cúpula, pregam que tais ídolos sejam considerados "vanguarda", mesmo nada tendo a ver com isso.

A falsa sofisticação dos neo-bregas dos anos 90 - Chitãozinho & Xororó, Só Pra Contrariar, Belo, Exaltasamba, Leonardo, Daniel, Ivete Sangalo etc - consegue ter ainda um forte apelo de mídia, mas já não arranca qualquer prestígio como antes, até porque sua verossimilhança em relação à MPB pasteurizada pelas gravadoras faz os neo-bregas ficarem piores ainda que a chamada "Música Para Burguês".

A axé-music, com sua megalomania e seu mimetismo camaleônico de parasitar do rock ao samba-reggae, dos ritmos caribenhos à Bossa Nova, não conseguiu se segurar e, começando um processo de falência devido às denúncias de precarização do trabalho, sonegação fiscal e até de violência sexual, ainda é questionado pelo monopólio que exerce no mercado baiano, que causa a fuga para outras capitais de artistas que não querem compactuar com esse cenário.

O tecnobrega, uma das "meninas dos olhos" da intelectualidade dominante, só é mesmo exaltado por ela. No Pará, o tecnobrega, tido como "discriminado pela mídia", é na verdade símbolo de neo-coronelismo cultural, patrocinado pelos barões da mídia e pelos latifundiários de lá. Os "farofa-feiros" e até George Soros acham o tecnobrega o máximo, a grande mídia "do Sul" adotou Gaby Amarantos, mas os paraenses estão irritados com sua supremacia e o rejeitam.

O "forró eletrônico", do qual o tecnobrega é seu derivado, vive uma aguda crise, acumulando denúncias de precarização do trabalho, concorrência desleal de compositores e de letras que estimulam do alcoolismo à pornografia, além de deter um monopólio de mercado que se estende do Acre até o Espírito Santo, passando por capitais como Belém e Recife. O povo passou a rejeitar esse monopólio, reconhecendo nisso um ponto nocivo, e não benéfico, à regionalidade cultural.

O "funk carioca", mesmo com a mais poderosa blindagem intelectual, não conseguiu convencer tentando passar uma imagem de falsa superioridade artístico-cultural. A intelectualidade falou demais, disse muitas bobagens, atribuiu ao "funk" um caleidoscópio de referências que só existia na imaginação dessa elite, enquanto o ritmo mostrava sua indigência sonora, suas baixarias, seus escândalos, irritando não somente as elites como também as próprias periferias.

Além disso, a conversa de que o "funk" era "discriminado pela grande mídia" - lorota que era difundida até mesmo nas páginas da Folha de São Paulo (!) e de O Globo (!!) - a ninguém convenceu, a não ser as "focas" que aplaudem até tosse de antropólogo. A associação do "funk" com a grande mídia era explícita demais, era só ligar a Rede Globo que tinha "funk" por todo lado.

Hoje o discurso pró-funqueiro mudou o foco para o "funk ostentação". Mas ele começa a ser duramente criticado, apavorando a intelectualidade, os dirigentes funqueiros, assustados com o fim de seu poder de persuasão. Tentam dizer que isso não tem a ver com a crise midiática, mas tem, e muito. Por enquanto, insistem na choradeira pela cena paulista, mas a crise de reputação já começa a assombrar.

E a vulgaridade feminina? Ela também sofre uma grave crise, e as chamadas "popozudas" são duramente criticadas até mesmo por homens. É só aparecer uma nota sobre elas que a lista de comentários acumula mensagens negativas, sobretudo relacionadas ao baixo QI das "musas" relacionadas. O "direito à sensualidade" descrito pelas intelectuais feministas (?!) solidárias não procede, da mesma forma que as tentativas de desvincular as "popozudas" de seu contexto machista.

E a imprensa policialesca? A "divertida" ou "realista" imprensa "popular" - dependendo do contexto, um mesmo periódico pode ser visto como "humorístico" ou "investigativo" conforme o sabor da retórica - já aponta uma crise quando seus porta-vozes não conseguem esconder seu caráter desumano, através da exploração gratuita das desgraças alheias ou mesmo da exploração leviana que atinge até mesmo astros falecidos como Heath Ledger.

E os demais aspectos? Por que a intelectualidade acha maravilhoso o povo pobre ficar no subemprego, na prostituição, no alcoolismo, na contravenção? Acha que as verbas do Ministério da Cultura irão "melhorar" essa situação? Ou será que com mais dinheiro em circulação, a cidadania virá num piscar de olhos?

A crise dessa ótica "popular", dessa visão pitoresca, caricata e estereotipada que diverte antropólogos, sociólogos, cineastas, historiadores, documentaristas e outros que pregam a bregalização do país, desafia a intelectualidade a mudar seu discurso, a tentar vincular o que resta da cafonice à cultura de qualidade que tais "pensadores" tanto desprezavam.

Temendo que o povo pobre supere seu processo de cafonização, sobretudo à revelia do paternalismo intelectual, as elites intelectuais, através da "provocativa" blindagem de "farofa-feiros", tenta dar seus últimos gritos, numa sociedade que se transforma fora de redações, colegiados, escritórios. O "povão" começa a se cansar de sua imagem de "brega" trabalhada pela mídia.
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