sexta-feira, 31 de maio de 2013

AMADO BATISTA E A TORTURA


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A imagem de "coitadinhos" trabalhada pelos ídolos bregas, de Waldick Soriano a MC Naldo, é bastante conhecida e é feita como um truque publicitário para tentar devolver ídolos esquecidos ao sucesso comercial ou a inserir ídolos popularescos para plateias de maior poder aquisitivo.

Mas em certos casos a imagem de "coitado" cai em certos exageros, como se vê na declaração de Amado Batista, o ídolo cafona apoiado pelo neocon Lobão, que tentou caprichar na sua postura de "vítima da ditadura", seguindo a deixa do historiador Paulo César Araújo, um dos "semi-deuses" da intelectualidade etnocêntrica. Só que Amado excedeu na dose e não conseguiu sequer ser verossímil na sua choradeira.

Amado Batista e a tortura

Por Uraniano Mota - Blogue Direto da Redação

Recife (PE) - As declarações do cantor Amado Batista no programa “De frente com Gabi”, do SBT,  merecem um pouco mais de reflexão. As notícias registram que assim falou o astro da canção brega:

“Eu acho que mereci a tortura. Fiz coisas erradas, os torturadores me corrigiram, assim como uma mãe que corrige um filho. Acho que eu estava errado por estar contra o governo e ter acobertado pessoas que queriam tomar o país à força. Fui torturado, mas mereci".

A reflexão sobre uma frase assim não deve ir pelo caminho do deboche, no gênero da última comédia stand-up, que tudo avacalha como se a vida fosse uma só avacalhação. Portanto, não diremos que há pessoas que gostam de espancar, e outras que adoram ser espancadas. Nem tampouco diremos que no cantor de triste nome Amado sobrevive a síndrome de Estocolmo, aquela em que a vítima passa a se identificar emocionalmente com a tortura que sofreu do criminoso, pois tem medo de maior violência. Esse mal cairia melhor em Geraldo Vandré. Não, o caso Amado Batista é outro. Tentarei refletir por um segundo caminho, em duas ou três coisas.

A primeira coisa que destaco na frase do cantor Amado é a mentira, sob duas faces. Na que mais aparece, a mentira objetiva, da realidade a que se refere, pois a ninguém deve ser dada a punição da tortura, e no caso de Amado com o agravo do adjetivo  “merecida”.  Na outra face, mentira subjetiva mesmo, porque o não muito Amado desloca a dor sofrida para a felicidade da ética, aquela em que fazemos o justo, ainda que seja desconfortável.  Por que esse deslocamento? A sua queda na consciência amoral deve ter ocorrido por motivos que ele não declara. Que bom acordo seguiu Amado Batista ao sair da tortura para o sucesso? É claro, todo conformista fala que as pessoas têm que sobreviver. Mas seria reveladora a apresentação da amada conta.  Qual foi o seu valor?

A segunda coisa é a vitória parcial do conservadorismo, da repressão, que se encontra na raiz do espírito de escravo e da história da escravidão no Brasil. Amado Batista fala como um escravo que saiu da senzala e se vestiu de senhor. Ele fala como um escravo agraciado que acha justo o pelourinho porque alguma coisa de ruim o homem – ou parecido com homem - que sofre a tortura fez. Castigo merecido, ele declara. E nesse particular, Amado Batista é o retrato de um Brasil oprimido que sobrevive. Os pobres cujo espírito não se liberta da pobreza carregam por toda a vida o respeito à ordem e à autoridade. Se um miseráavel ou marginalizado recebe a morte ou o espancamento, ele fez por merecer, dizem. Em um Brasil que atravessa a recuperação dolorosa da memória, a frase de Amado Batista é um escárnio. Nesta semana, as ex-presas Dulce Pandolfi e Lúcia Murat expuseram com a verdade o que  é a tortura: estupros, abjeção além do limite, exemplos nos próprios corpos de aulas para torturadores.
   
A terceira e última coisa a destacar no escárnio stand-up, do saudoso da humilhação Amado Batista, é a ignorância, o nível de apreensão da vida, da sociedade, que não se confunde com a ignorância de muitos homens e artistas iletrados. João do Vale, ou Vitalino dos bonecos de barro,  marginalizados que foram do ensino nas escolas formais, jamais sorririam assim dos choques sofridos no pau de arara. Esse nível do cantor de injusta alcunha Amado se reflete melhor, creio, nas letras que a sua arte comete. Não precisam escutar, leiam um dos seus poemas cantados:

“Princesa, a deusa da minha poesia, ternura da minha alegria, nos meu sonhos quero te ver. Princesa, a musa dos meus pensamentos, enfrento a chuva e o mau tempo pra poder um pouco te ver”.

E agora comparem, enfim, a justeza e boa ética da tortura, que pune os criminosos  na frase de Amado Batista, com as palavras de Dulce Pandolfi:  "Dois meses depois da minha prisão e já dividindo a cela com outras presas, servi de cobaia para uma aula de tortura. O professor, diante de seus alunos, fazia demonstrações com o meu corpo. Era uma espécie de aula prática com algumas dicas teóricas". E nas de Lúcia Murat: "A tortura era prática da ditadura, e nós sabíamos disso pelo relato dos companheiros que tinham sido presos antes. Mas nenhuma descrição seria comparável ao que eu vim a enfrentar. Não porque tenha sido mais torturada do que os outros, mas porque o horror é indescritível". Tamanha era a dor e destruição que Lúcia tentou se matar duas vezes.


Tortura, a deusa da sua poesia, Amado Batista enfrentou a chuva e o mau tempo pra poder um pouco te ver. 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

PARA ELITE INTELECTUAL, PIMENTA NOS OLHOS DO POVO É "REFRESCO"


Por Alexandre Figueiredo

Poucos percebem, mas a intelectualidade cultural dominante, aquela que jura estar desprovida de preconceitos, possui preconceitos piores do que aqueles que julga ter rompido. Afinal, essa intelectualidade, com seus cientistas sociais e críticos culturais atrelados à grande mídia, adotam uma postura paternalista e elitista a respeito da cultura popular.

Eles se tornaram senhores do antigo patrimônio cultural das classes pobres, de tal forma que o povo pobre, para eles, não pode ter a responsabilidade de assumir o patrimônio de seus ancestrais. O que o povo pobre tem que fazer agora é a tal "cultura de massa" difundida pela grande mídia e pelo grande mercado.

Qualquer semelhança com o conto "O amigo dedicado" de Oscar Wilde não é coincidência. Afinal, a história do conto do famoso escritor irlandês conta o drama de um pobre jardineiro que possui uma rica coleção de flores cobiçada por um moleiro rico e ganancioso, que em troca das flores lhe dá um carrinho de mão quebrado para o jardineiro.

Compare isso com o fato de que o povo brasileiro possui um rico patrimônio cultural que é usurpado pelas elites de "especialistas" que, em troca, reservam para o povo a degradação sócio-cultural trazida pelo poderio midiático. Juntos, barões da mídia e chefões do mercado promovem a decadência cultural do povo pobre, sob o apoio explícito da intelectualidade cultural hoje influente.

Se você, caro leitor, imagina que estamos falando de Paulo César Araújo, Hermano Vianna, Ronaldo Lemos e outros, acertou. São esses mesmos intelectuais "tarimbados" e "intocáveis" que promovem a degradação cultural, eles tão vistos como "sagrados" por muita gente.

Muitos se assustam quando alguém resolve pôr em xeque a reputação de um Paulo César Araújo (ou Paulo César de Araújo, para ajudar na busca na rede), visto como "coitadinho", "vítima de Roberto Carlos", "guru da cultura brasileira" etc, mas a verdade é que ele não difere muito em defeitos em relação a um ministro do Supremo Tribunal Federal que hoje vive de mãos dadas com os barões da mídia.

Não existe diferença entre um Carlos Ayres Britto prefaciando livro de Merval Pereira e PC Araújo feliz da vida falando para as Organizações Globo. Será preciso um Altas Horas juntando o historiador dos bregas e o jurista da grande mídia para que as esquerdas médias vejam o erro que estão fazendo na defesa da "cultura de massa" e seus ideólogos?

Pois é essa intelectualidade "sagrada", não só Araújo como outros tantos que façam a mesma coisa, que promovem a decadência cultural e adotam sua visão etnocêntrica achando que essa decadência é "sinal da felicidade criativa e emancipada da população pobre", lançando mão de todo tipo de choradeira para que suas teses sejam apoiadas pela sociedade.

E para quem não consegue entender por que criticamos essa intelectualidade "tão querida", tão "solidária" com as classes populares, capaz de diluir seu discurso neoliberal nas páginas e arquivos htm das mídias progressistas (sobretudo as revistas Caros Amigos e Fórum) mesmo não representando ameaça à velha grande mídia, uma explicação simples merece ser feita.

Em primeiro lugar, essa intelectualidade põe na prática o famoso ditado popular que diz que "pimenta nos olhos dos outros é refresco". Ou seja, para esses intelectuais dotados de visibilidade e alta reputação, pimenta nos olhos do povo é "refresco". Para esses pensadores "sem preconceitos" mas muito preconceituosos, o povo deve ser "melhor" naquilo que ele tem de pior.

Isso notamos quando seus pensadores atribuem como "valores positivos" os defeitos, debilidades e retrocessos quando eles ocorrem nas classes populares. Se são valores machistas que envolvem a coisificação da mulher etc, eles são vistos como "feminismo". A degradação feminina só é reconhecida da classe média alta para cima, o machismo só é grave dentro dos ambientes limpinhos da "boa sociedade".

"VOCÊ FALA MAL SÓ PORQUE ELE É POBRE", DIZ O INTELECTUAL DA MODA

Vendo as ruas cheias de lixo, as casas mal construídas das favelas, a precária educação e os baixos salários das classes trabalhadoras, a intelectualidade etnocêntrica, numa falsa bondade, acha isso "maravilhoso". A "cultura de massa" baseada na hegemonia do "mau gosto" é então defendida como uma forma de "aliviar" o sofrimento do povo pobre, evitando focos de revolta e protesto.

Sim, as esquerdas médias ficam babando lendo textos e entrevistas de Paulo César Araújo e companhia, sem saber do perigo que sofrem, porque esses intelectuais representam uma visão elitista e paternalista graves, uma visão um tanto hipócrita e demagógica sobre o que eles acham que deve ser a cultura popular.

Para esses intelectuais, é bonito ver o povo pobre se manifestando docilmente através da imbecilização sucessivamente expressa nos "tchans", "créus", "tchererês" e "leleks" imposta pela grande mídia, porque é "o que o povo gosta e sabe fazer".

No entanto, é essa mesma intelectualidade que fica horrorizada quando vê trabalhadores rurais se manifestando pela reforma agrária, populações das favelas fazendo passeatas contra a impunidade ou pedindo melhorias na comunidade, ou alguém mais pobre pedindo pela regulação da mídia no Brasil.

Dá para perceber que certos intelectuais, seja um Paulo César de Araújo, seja um Rosenthal Calmon Alves - o "bom velhinho" que está por trás do projeto imperialista Jornalismo nas Américas do Centro Knight da Universidade do Texas (Estado norte-americano famoso por sua população conservadora) - evitam assumir algumas posturas ideológicas pessoais.

Afinal, se eles forem assumir algumas posturas a respeito de certos fatos e fenômenos sociais, o que sairia desses intelectuais supostamente progressistas seria algo digno de um Fernando Henrique Cardoso em momentos de fúria ou um Marcelo Madureira desgostoso com as transformações da sociedade. Mesmo assim, Rosenthal já sinalizou isso ao atacar "cordialmente" Julian Assange e ao elogiar Yoani Sanchez.

Mas aí existe um jeitinho dessa intelectualidade disfarçar seu elitismo. Eles sempre tiram o corpo fora nas discussões mais delicadas. Quando o assunto é regulação da mídia, eles se mantém em silêncio. Quando perguntados sobre a mesma, eles até se dizem a favor, sem dizer claramente por quê, mas na hora do aperto, eles acabam mesmo demonstrando serem contra a regulação democrática da mídia.

E quando se trata de degradação social, eles apelam para a choradeira para justificar a ocorrência dessa decadência nas classes pobres. "Você fala mal de fulano porque ele é pobre", apelam, histericamente, esses intelectuais, que usam a pobreza como pretexto para justificar certas barbaridades que se tornam fenômenos da mídia.

Eles fazem isso para tentar intimidar o debate. Sobretudo no "funk carioca", quando se fala sobretudo da exploração da mulher como objeto sexual dos machistas. Primeiro, atribuem um falso feminismo para as mulheres funqueiras, só porque elas falam mal de certos homens ou vão se divertir à noite desacompanhadas de algum homem, como se isso dissesse alguma coisa sobre emancipação feminina.

Segundo, na hipótese do primeiro argumento ser visto como sem fundamento, eles vão logo dizendo "Para você, o problema não está no machismo, mas porque ela é pobre". Sempre a "pobreza" como escudo. Para esses intelectuais, só seremos "cidadãos" quando restringirmos à crítica ao machismo a, por exemplo, um comercial de uma dona-de-casa dançando balé com uma garrafa de detergente na mão.

Por trás desse discurso às vezes falsamente generoso, em outras cinicamente reacionário, há toda uma postura reacionária que éramos para nos atentar. Afinal, o Brasil que Paulo César Araújo tanto exalta é o Brasil da miséria, da prostituição, do subemprego, do alcoolismo, o Brasil da glamourização da pobreza, da apologia à miséria, da manutenção do povo pobre no seu estágio inferior. Isso é "superioridade"? Não.

São intelectuais assim que travam a necessidade de evolução social, de progresso do povo pobre. Dizem apoiar o povo pobre "naquilo que ele é", ficando felizes quando o povo pobre se situa na sua posição de coitadinho ingênuo e imbecilizado, culturalmente precarizado.

Mas quando o povo pobre passa a exigir mudanças sociais, a intelectualidade se enfurece, deixando passar seus piores preconceitos e seu reacionarismo. Mas, por enquanto, essa intelectualidade que defende o brega, o "funk" e outras decadências, precisa engolir seco no seu reacionarismo, até porque essa intelectualidade tenta atrair para si o apoio das esquerdas.

Nessas horas, os "urubólogos" viram "canariólogos" enquanto o povo pobre se "refresca" com a pimenta midiática de valores sociais decadentes. E não podemos criticar essa "baixa cultura". Para a intelectualidade dominante, a pobreza não é para ser resolvida, mas para ser apenas apreciada.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

ROBERTO CIVITA, A CRISE DA ABRIL (SOBRETUDO DA VEJA)


Por Alexandre Figueiredo

Roberto Civita, o empresário do Grupo Abril, morreu diante de um contexto de crise de sua empresa. Além do escândalo do envolvimento de seu jornalista de Brasília, Policarpo Júnior, no esquema do bicheiro Carlinhos Cachoeira, a Veja sofre a mais aguda crise de reputação e o Grupo Abril já ter decidido por um plano de demissões para até setembro.

Para a blogosfera progressista, é chover no molhado falar sobre a decadência de Veja, pois a sua linha editorial rabugenta diz tudo. E o que se vê, a cada fim de semana, são pilhas e pilhas de exemplares de Veja, encalhados nas bancas de todo o país, como uma reação ao jornalismo reacionário e pedante - nas matérias de comportamento e saúde - da publicação que faz 45 anos com a moral baixa.

Afinal, Veja não é a sombra do que havia sido na sua origem. Quando surgiu, depois de várias edições experimentais, em 11 de setembro de 1968, com capa apresentando uma reportagem sobre o comunismo, Veja até era mais moderada que a revista Realidade, de linha editorial mais arrojada, inspirada no New Journalism e com alguns matizes progressistas, mas seu jornalismo era mais honesto e eficiente.

Mino Carta foi um dos responsáveis por essa fase inicial, pondo na prática o receituário que Roberto Civita trouxe dos EUA através da narrativa literária das reportagens feita por gente como Tom Wolfe, Gay Talese, Norman Mailer e outros. Veja pode até ter sido, desde a origem, levemente conservadora, mas tinha profissionalismo e respeitava o leitor com sua linha editorial honesta e adequada ao interesse público.

Sabemos o caminho que Veja sucumbiu. Nos anos 80 já era um pouco reacionária, explorando de forma sensacionalista óbitos de gente como a cantora Elis Regina, ou através de posturas como desejar a extinção do rádio AM, pedra no sapato dos barões da grande mídia. Mas tinha um jornalismo ainda honesto e profissional, que ainda dava prestígio à revista.

E aí, dos anos 90 para cá, sabemos do resto da história, e que faz com que Veja tivesse uma baixa reputação e Mino Carta reagisse de forma enérgica contra sua antiga revista, já que hoje ele é responsável por Carta Capital, que segue uma linha bem mais arejada até mesmo em relação aos primórdios de Veja. Porque Veja nunca foi uma revista progressista, e Carta Capital é.

Mas a decadência do Grupo Abril se dá não só com a Veja. A Playboy, franquia da publicação norte-americana, tem dificuldades de investir em musas de verdade, preferindo sub-celebridades, moças de terceiro escalão no rol da fama e da beleza, longe dos tempos em que suas edições brindavam os leitores com musas do quilate de Luíza Brunet, Angelina Muniz e até a "comportada" Lídia Brondi.

A revista Caras também foi afetada pela crise. A publicação de origem argentina teve sua franquia brasileira ancorada em atores de televisão, empresários e executivos, como uma versão ampliada do colunismo social da grande imprensa. Até tentou ser pop, afastando de vez os "fantasmas" de Jacinto de Thormes (sobretudo pouco depois da morte de seu criador, Maneco Müller), mas ultimamente Caras bregalizou de vez.

A revista Bizz, que marcou o jornalismo musical nos anos 80, tentou um breve retorno entre 2004 e 2006, mas a revista estava muito desacreditada na medida que se desmoralizou nos anos 90, seja na fase André Forastieri, seja com o nome Showbizz, e o bom retorno em 2004 foi abortado dois anos depois quando o revival oitentista quase dava lugar ao revival noventista, com Forastieri e companhia invadindo a festa...

A MTV não é sequer a metade do que foi no Brasil dos anos 90, quando o tardio surgimento da franquia da emissora norte-americana no Brasil concretizava cobranças que músicos e imprensa faziam na década anterior.

É certo que houve exageros, como na fase "edifício-garagem" de 1993-1994 enfatizando demais as novas bandas de rock, ou na fase brega-popularesca de 1997-1999. No entanto, nada se compara à fase recente, com a emissora perdida como caricatura de si mesma, refém da fórmula fácil de reality shows e programas de entretenimento banais, enquanto quase não mostra videoclipes, que fez a MTV não fazer mais juz a seu nome, sendo uma Music Television sem música.

A situação da MTV é tão séria que o humorista Marcelo Adnet, lançado pela emissora, a via inicialmente como sua casa e chegou mesmo a resistir aos convites da Rede Globo, até que, vendo a crise recente, mudou de posição e aceitou ser contratado pela emissora carioca. Sua esposa, a também humorista Dani Calabresa, também saiu da MTV, mas foi para a TV Bandeirantes.

A crise da Abril também se dá quando o grupo resiste à Internet, vendo-a como uma tecnologia ameaçadora e não complementar. Presa à sua lógica "graficista", o Grupo Abril só escaneou publicações antigas da revista Veja, sem fazer o mesmo com outras revistas como Cláudia e Nova (esta uma franquia da norte-americana Cosmopolitan) - enquanto a Playboy é parcialmente escaneada livremente por internautas.

A Abril se dedica ultimamente ao projeto Abril Educação e é dona de cursos particulares de ensino médio e superior, potenciais "fábricas" de jornalistas da Veja e de outros veículos da grande mídia conservadora. Mas esse setor torna-se muito estranho e pouco eficiente, além da participação acionária da Abril em editoras de livros didáticos, porque não é um setor de ponta para um grupo como a Abril participar.

Os futuros demissionários do Grupo Abril são estimados em cerca de mil. Podem ser mais. A revista Veja encalha a cada semana, com sua crise de reputação. Talvez esse inferno astral do Grupo Abril tenha agravado a doença de Roberto Civita, cujo câncer foi ignorado pela grande mídia na medida do possível.

A omissão da doença foi tanta que, sarcasticamente, o humorista Sr. Cloaca ironizou a (não) cobertura da doença de Civita - juntamente com a choradeira do PIG com sua morte - e disse, no Cloaca News: "Criador da revista Veja morre, mas passa bem".

terça-feira, 28 de maio de 2013

A AUTODESMORALIZAÇÃO DO SUPREMO


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Vivemos a crise da representatividade, e o Supremo Tribunal Federal sofreu um abalo com a "partidarização" de seus membros, menos rigorosos com a lei, menos responsáveis pela ética, e que só passaram a agradar setores conservadores da sociedade por conta de uma condenação precipitada aos acusados de envolvimento com o "mensalão". São procuradores e ministros que não sabem os limites entre o Judiciário, o Legislativo, o Executivo e a mídia, querendo ser um poder interferindo ou se beneficiando de outros.


A autodesmoralização do Supremo

Por Paulo Nogueira - Diário do Centro do Mundo

Os reais culpados pelo descrédito do STF são os próprios juízes.

Uma das teses mais idiotas que circulam nos círculos de sempre no Brasil afirma haver uma “tentativa de desmoralização” do STF.

Vocês me dão uma pausa para risada?

Ora, não existe propósito em desperdiçar tempo e energia para desmoralizar nada que se autodesmoralize.

Ou alguém afirma que Fux, para ficar num caso, é vítima de uma campanha?

É mentira que ele:

1)Procurou Dirceu?

2)Admitiu que se encontrou com ele em sua campanha patética por uma vaga no Supremo, mas afirmou não saber que Dirceu era réu do Mensalão?

3)Julgou casos em que estava envolvido o escritório de um velho amigo que, não bastasse este vínculo de camaradagem, é patrão de sua filha, num monstruoso conflito de interesses?

Isto se chama “autodesmoralização” em grande escala.

Saiamos de Fux e examinemos seu chefe, Joaquim Barbosa.

Qual a atitude de Barbosa sobre o comportamento de Fux?

Seria muito esperar uma admoestação sobre a busca frenética de apoio político. Afinal, o próprio JB tem uma história não muito edificante neste capítulo. Pobre Frei Betto.

Mas sobre a conexão entre Fux e um grande escritório: nada a dizer? Nenhuma mensagem aos brasileiros?

O silêncio de JB neste assunto  – e ele tem conversado com jornalistas como Merval e Mônica Bérgamo  para defender a si próprio – é, também ele, desmoralizador.

Desmoraliza a ele mesmo e ao Supremo. (Acrescento aqui que desmoraliza também os jornalistas que o entrevistaram, por deixarem de fazer uma pergunta essencial.)

Gastar 90 mil reais na reforma de banheiros também não contribui para elevar a imagem de JB, e muito menos ele ter chamado de “palhaço” o repórter do Estadão que, ele sim, perguntara o que tinha que ser perguntado.

É importante lembrar, quando se reflete sobre o mensalão e os recursos que vão aparecendo, que os brasileiros não conheciam as monumentais fragilidades dos integrantes do Supremo à época do julgamento.

Vigorava a crença, alimentada pela mídia, de que eram Catões.

A mídia “a serviço do Brasil” não dera a seus leitores as informações mínimas essenciais sobre a natureza real da principal corte brasileira.

Ora, estava escrito num livro de Frei Betto muito anterior ao julgamento como JB chegou ao Supremo – mas nenhuma linha foi dedicada a isso entre as milhares sobre o caso.

Ou não é importante saber que JB foi escolhido não pela excelência e sim porque Lula quis colocar um negro no Supremo?

Diante de tantas informações novas que mostram a face real dos juízes que foram absurdamente incensados, é natural que cresça a pressão para que todos os recursos cabíveis sejam analisados do jeito que devem ser, no Brasil ou no direito internacional.

Havia, antes do julgamento, pistas sobre a debilidade dos juízes, é verdade. Mas eram apenas pistas.

Uma que julgo particularmente forte foi dada por Marco Aurélio Mello.

O discurso que ele fez em maio de 2006, ao assumir a presidência do Tribunal Superior Eleitoral, é revelador.

Vou selecionar duas frases que valem por mil:

1) “Não passa dia sem depararmos com manchete de escândalos.”

2)“Perplexos, percebemos, na simples comparação entre o discurso oficial e as notícias jornalísticas, que o Brasil se tornou um país do faz-de-conta.”

O que está dito aí é que Mello tomou como absolutamente verdadeiras as notícias que leu num momento de acachapante vale tudo jornalístico em que todas as fronteiras éticas foram cruzadas.

O símbolo dessa era foi uma capa da Veja em que se publicou um dossiê com a informação de que Lula tinha milhões no exterior . Ah, sim, os leitores entre vírgulas  foram avisados de que a revista não conseguira confirmar nem desmentir uma informação de tamanha gravidade.

Foi o boimate na versão política.

Crer cegamente na imprensa – nas manchetes – como Mello pode levar a erros brutais.

E não só no Brasil.

Nos dez anos da Guerra do Iraque, há algumas semanas, a mídia americana foi obrigada a enfrentar os erros colossais que cometeu na época.

O maior deles – que representou o apoio a um ataque que acabaria por destruir virtualmente um país inteiro – foi afirmar que o Iraque tinha, como dissera Bush, “armas de alto poder de destruição”.

Não tinha.

Olhando para trás, as marcas da precariedade do Supremo já estavam impressas naquele bestialógico de 2006 – aliás saudado como “discurso histórico” por alguns colunistas.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

TSE ENTENDE QUE AÉCIO NEVES USOU PROPAGANDA DO PSDB PARA SE PROMOVER


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Aécio Neves está com muita fome para concorrer ao Planalto em 2014, mas se precipitou no programa eleitoral do PSDB, dando uma ênfase na sua promoção pessoal que a lei não permite. Embora o PT tenha movido uma ação para suspender a propaganda, a questão deve ser encarada como acima de qualquer briga partidária.

TSE entende que Aécio Neves usou propaganda do PSDB para se promover

Da Agência Brasil

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou a substituição de uma das quatro propagandas do PSDB veiculadas na semana passada em rede nacional de rádio e televisão. Em decisão liminar, a ministra Laurita Vaz entendeu que o espaço foi usado para a promoção pessoal indevida do possível candidato da legenda à Presidência da República, senador Aécio Neves (PSDB-MG).

A representação é de autoria do PT, que pedia a suspensão das quatro propagandas, aplicação de multa e suspensão de 25 minutos da tempo do PSDB em rádio e televisão no segundo semestre. A legislação eleitoral proíbe o uso da propaganda partidária para promoção de candidatos, que só será autorizada a partir de julho do ano que vem.

A ministra do TSE entendeu que há promoção pessoal em uma das propagandas e determinou que ela seja substituída nos programas que ainda serão apresentados. Ela disse que o fato de o protagonista ser titular de mandato pelo PSDB não significa que houve "exclusiva promoção pessoal em desvio das finalidades legais, sobretudo quando se cuida do presidente nacional do partido".

Segundo a ministra, a peça que deve ser substituída tem uma "nítida predominância da linguagem em primeira pessoa", com ênfase na atuação de Aécio Neves, além da convocação do público para conversar com o político.

PENSE EM HERZOG ANTES DE ELOGIAR O "ESPÍRITO DEMOCRÁTICO" DE RUY MESQUITA


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A grande mídia conservadora e seus barões se julgam "democráticos", mas escondem seu passado golpista. E escondem sem muita sutileza, na medida em que entram em surtos reacionários de vez em quando. Mas quando algum figurão do meio morre, criam-se discursos melífluos sobre a "corajosa" personalidade do finado.

Pense em Herzog antes de elogiar o ‘espírito democrático’ de Ruy Mesquita

Por Paulo Nogueira - Diário do Centro do Mundo

Uma homenagem aos brasileiros que não tiveram protetores na hora do pesadelo.

Li muitas coisas sobre a morte de Ruy Mesquita. A maior parte do que li poderia muito bem não ter lido, essa é a verdade – lugares comuns lacrimosos e sentimentais pouco vinculados à realidade.

De minhas leituras o que mais me incomodou foi o elogio ao “grande democrata” que “salvou seus jornalistas perseguidos”. (Aqui, cabe uma comparação com Roberto Marinho, que se gabava de cuidar, ele mesmo, de “seus comunistas”.)

Bem, é uma colocação amplamente absurda, e ofensiva para aqueles que não estavam sob o guarda-chuva de golpistas como Mesquita e Marinho.

Vamos ao caso célebre, o do jornalista Vladimir Herzog, da TV Cultura, torturado e morto por uma ditadura que provavelmente jamais se instalasse não fosse o trabalho de sabotagem antidemocrática feita por Ruy Mesquita e congêneres.

Fosse genuinamente democrático, Mesquita não tramaria, com seu jornal, contra um governo eleito nas urnas.

Ser democrático é, acima de tudo, respeitar as urnas.

No livro Dossiê Geisel, que traz documentos pessoais dos anos do poder de Geisel, você pode ver o verdadeiro Ruy Mesquita.

Numa carta ao então ministro da Justiça, Armando Falcão, Mesquita fazia o elogio do general Castelo Branco, como se se tratasse de um De Gaulle e não do general ultraconservador que deu início a um pesadelo que duraria mais de duas décadas.

Nela, Mesquita mostrava outra traço forte seu e da família: o racismo arrogante. Ele se queixava a Falcão de que o Brasil, pós-Castelo, corria o risco de virar uma “Uganda”, ou uma “republiqueta hispano-americana”.

Canonizá-lo por haver dado uma mão a um ou outro jornalista do Estadão em apuros é um erro extraordinário.

A ditadura que perseguiu, torturou e matou tanta gente foi possível graças ao trabalho de boicotagem da democracia de pessoas como Ruy Mesquita. (A família Mesquita já tinha as mãos sujas no suicídio de Getúlio Vargas, aliás.)

Antes de louvar Ruy Mesquita, ou Roberto Marinho, por ter ajudado este ou aquele, pense em tantas outras pessoas que ficaram expostas à brutalidade que os barões da imprensa tanto contribuíram para que se tornasse realidade entre os brasileiros.

Pense em Herzog, por exemplo.

Na cela em que ele apareceu enforcado, depois de ser barbaramente torturado, ele estava sozinho, absolutamente sozinho – como tantos outros brasileiros que não tinham o telefone de Ruy Mesquita para ligar na hora do pesadelo.

domingo, 26 de maio de 2013

"PAI" DA VEJA, ROBERTO CIVITA MORRE EM SP


Por Alexandre Figueiredo

Depois de Ruy Mesquita, outro barão da grande mídia vem a falecer. O empresário Roberto Civita, presidente do Grupo Abril, faleceu depois de vários meses internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, por complicações causadas por um aneurisma na aorta. O empresário tinha 77 anos incompletos.

Seus problemas de saúde geraram controvérsia, numa época em que havia pressões para que ele depusesse na CPI do Cachoeira, por causa do envolvimento de seu empregado Policarpo Júnior com o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Civita era filho do fundador do Grupo Abril, Victor Civita e, como ele, era italiano de nascimento, tendo inclusive apoiado o acordo entre a Time-Life e as Organizações Globo para a criação da TV Globo, nos anos 60. Victor faleceu em 1990, ano em que Roberto assumiu os negócios do pai.

O Grupo Abril surgiu em 1950 lançando a revista em quadrinhos do Pato Donald, mas pouco depois passou a publicar revistas como Quatro Rodas (automóveis), revistas femininas como Cláudia e Manequim, a revista Capricho (inicialmente de fotonovelas, hoje dedicada ao público adolescente) e é responsável pela franquia de revistas de origem estrangeira como a argentina Caras e a norte-americana Playboy.

Comparado a Rupert Murdoch pelo poderio e até pela aparência física, Roberto Civita foi redador-chefe da revista Realidade, que introduziu a linguagem do New Journalism e acolhia jornalistas de esquerda, como Sérgio de Souza e Milton Severiano (depois fundadores da Caros Amigos)

Roberto também criou a revista Veja, que teve o também italiano Mino Carta (hoje responsável pela Carta Capital) como chefe de redação. Com 45 anos de existência, Veja, que nasceu como uma versão moderada ideológica e esteticamente de Realidade, atualmente não é sequer a sombra do que foi em 1968.

Um dos últimos negócios de Roberto Civita foi no setor educacional, através do Abril Educação, que inclui as editoras Ática e Scipione, os sistemas de ensino Anglo, Ser, Maxi e GEO, o Siga (de preparação para concursos públicos), o Curso e o Colégio pH, o Grupo ETB (Escolas Técnicas do Brasil), a Escola Satélite, a rede de escolas de inglês Red Balloon e a Livemocha, de ensino de idiomas.

Roberto Civita viveu nos Estados Unidos antes de migrar para o Brasil, tendo estudado física nuclear na cidade de Rice, no Texas, e, depois, se formou em jornalismo na Universidade da Pensilvânia. Ao morrer, Roberto deixa os negócios ao seu filho Giancarlo, que já administra a empresa durante o afastamento do pai.

POR QUE AS ELITES E A GRANDE MÍDIA ADORAM TANTO O "FUNK CARIOCA"?


Por Alexandre Figueiredo

Cortejado pela grande mídia e pelas elites, o "funk carioca" é o brega levado às últimas consequências. Seja ele "melody" ou "proibidão", "de raiz" ou "comercial", o "funk carioca" representa a glamourização da pobreza que volta e meia sofre uma onda de "adesões" de neocons ou até mesmo das esquerdas médias com algum coração mole inclinado ao paternalismo.

O "funk carioca" tornou-se o maior motivo da recente onda de paternalismo existente entre intelectuais, artistas, celebridades, autoridades e empresários. Esse apoio todo das elites, sobretudo a partir da imagem de "coitadinho" que normalmente se trabalha em relação ao "funk" pela grande mídia, mostra o quanto o "funk carioca" é elitista, higienista e asséptico.

O "funk carioca" é uma das primeiras amostras do "preconceito do bem" de gente que se autocelebra "sem preconceitos". Seu poder de glamourizar a miséria e a pobreza, em alguns momentos alimentando "polêmica" em ocorrências policiais, em outros tentando o sucesso em redutos de lazer das classes mais abastadas, é bastante notório.

Hoje mesmo, só nas Organizações Globo, o "funk carioca" esteve na "pauta" várias vezes. O popularesco jornal carioca Expresso, com a manchete "Funk virou Passarela", cita agora as novas MCs "bonitinhas" do gênero, como MC Pocahontas. No mesmo caminho, o jornal O Globo fala de um "funk light", citando a própria MC Pocahontas, além de outras, como MC Brunninha, MC Britney e os festejados MC Federado e Os Lelekes.

Há também Caetano Veloso escrevendo, no Segundo Caderno, que ouve "funk" junto com um de seus filhos, e a atriz Letícia Sabatella dizendo no jornal Extra (também das OG) que "adoraria" gravar um "funk" na novela Sangue Bom, produção da Rede Globo que corteja o gênero.

O "funk carioca" é capaz de unir os desafetos Caetano Veloso e Lobão numa mesma trilha sonora. O ex-baterista do Vímana e ícone do Rock Brasil, hoje convertido num neocon furioso, vê no "funk carioca" o único consolo para sua raiva contra as transformações sociais do país. E nunca o "funk carioca" tornou-se tão queridinho da grande mídia, em especial Organizações Globo e Grupo Folha.

A reportagem de O Globo, intitulada "O pancadão da classe média", cita como "novidades" o sucesso do "funk carioca" em programas como Caldeirão do Huck e TV Xuxa. Isso é chover no molhado. Afinal, os dois programas já divulgaram o ritmo desde quando se propagou, há dez anos atrás, toda a choradeira intelectual em defesa do ritmo.

IMAGEM CONSTRUÍDA, CONSENSO FABRICADO E ESCRAVIDÃO

E por que as elites cortejam tanto o "funk carioca"? A hipótese de paternalismo é a mais provável, até porque o estilo nada tem, na verdade, da suposta vanguarda que oficialmente se atribui ao gênero, a ponto de muitos apostarem no resgate da carioquice perdida através do tal "funk light", que vai a reboque dos novos medalhões MC Naldo e MC Anitta.

O "funk carioca" teve esse discurso "socializante" construído para "melhorar" a imagem do gênero, e o establishment do direitismo midiático, sejam as Organizações Globo, os grupos Folha e Abril, o antropólogo Hermano Vianna atrelado à Globo, ao tucanato acadêmico e à Fundação Ford (instituição ligada à CIA, agência de informações do governo dos EUA), desenvolveram esse discurso usando dos mais diversos tipos de linguagem.

A partir disso, a "boa sociedade" passou a apoiar abertamente o "funk carioca", lembrando os fidalgos que defenderam a escravidão no século XIX. Os motivos tornam-se exatamente os mesmos, e da imagem construída do "funk carioca", se fabrica um consenso entre as elites que apoiam o gênero.

Afinal, assim como a antiga escravidão, o "funk carioca" é defendido pela sociedade porque deixa as classes populares, de acordo com a ótica elitista, "mais tranquilas". Seria um meio de frear as inquietações sociais. E se essa visão, no tempo do Império, contagiava alguns semi-iluministas brasileiros - como as elites da Inconfidência Mineira - , hoje o mesmo acontece com as esquerdas médias.

Há um julgamento de valor elitista, que contagia de socialites até cientistas sociais, que cria uma visão idealizada do povo pobre, mais domesticada, asséptica e por demais risonha. As elites sonham sempre em ver os pobres felizes mesmo dentro de suas limitações. E isso faz com que o "funk carioca" se encaixe nesse paternalismo, nesse elitismo cordial que prefere ver a população pobre domesticada.

POBREZA "LINDA"

A visão chega a ser pior do que aquela que se atribuía às elites que fizeram os Centros Populares de Cultura da UNE e o Cinema Novo. Acusava-se seus membros, nos idos dos anos 60 e 70 (quando os CPCs já estavam extintos e o cinema brasileiro trocou o CN pela pornochanchada), de dirigismo ideológico, de idealização da cultura popular e de apologia à miséria.

Naqueles tempos, era comum, nas universidades ou mesmo na imprensa cultural, fazer gozação com os cepecistas e cinemanovistas dizendo que eles achavam a pobreza "uma coisa linda", uma glamourização do subdesenvolvimento que o cineasta convertido em colunista de jornais, um Arnaldo Jabor (ex-cepecista e ex-cinemanovista) pouco antes de sua febre neocon, escrevia em seus artigos.

Hoje o contexto é completamente outro, mas o sentimento elitista de que "ser pobre é lindo" que contagia nas defesas do "funk carioca", do brega e de seus derivados. A pobreza e a miséria, assim como "atividades" relacionadas como a prostituição, o alcoolismo e o comércio de produtos clandestinos, são condições provisórias e nada agradáveis, mas as elites as veem como "virtudes" permanentes.

Sim, isso mesmo. Existe até "sindicatos" para prender as prostitutas no comércio do corpo. As desculpas intelectualoides tentam misturar o joio e o trigo e atribuir ao infeliz comércio de prostitutas que poderiam ter outros empregos mais dignos a mesma "expressão do corpo" que movimentos teatrais de vanguarda expressam.

Tentam creditar a retaguarda brega como "vanguarda", e tudo é festa nos espaços da grande mídia quando celebridades, intelectuais e outras personalidades julgam que "o funk é lindo". Da mesma forma, acham que a prostituição é linda, o subemprego é maravilhoso, o alcoolismo é a maior diversão - não é preciso dizer que há intelectuais que também tomam porre - e ser "lelek" é melhor do que ser bem alfabetizado.

As elites, com o "funk carioca", não precisam dizer que são contra a reforma agrária, a regulação da mídia e o método Paulo Freire. Disfarçam seus preconceitos sociais por um paternalismo cordial que julgam "desprovido de preconceitos". O "funk carioca" não é arte nem cultura: é apenas comércio, marketing e valores retrógrados, além de ser um processo típico de glamourização da miséria.

Com o "funk carioca", as elites dão um jeito para disfarçar seu elitismo de todas as formas. Com todo o seu dirigismo ideológico, sua idealização da cultura popular e apologia à miséria que têm direito, mas evitam assumir. De qualquer forma, para os defensores e adeptos do "funk carioca", a pobreza também é "linda". Coitados dos pobres.

MC NALDO E OS FACTOIDES AMOROSOS


Por Alexandre Figueiredo

Na música brega, funciona assim. A vida particular, mesmo com sentido de veracidade duvidoso, é divulgada de maneira exagerada e exibicionista, alimentando o teor sensacionalista que faz do ídolo em questão um "fenômeno" de sucesso às custas desse marketing improvisado.

O mais novo nome da música brega, o cantor MC Naldo, novo ídolo do "funk melody" e principal investimento musical da Rede Globo, é, no momento, pivô de uma "crise amorosa" que envolve uma ex-mulher, de quem o ídolo não se divorciou, e a atual namorada dele, a dançarina de "funk" Mulher Moranguinho.

Os noticiários da imprensa dita "popular" alimentam diariamente a fama, ainda que de forma "controversa", do ídolo funqueiro, com declarações ou fatos aparentes que dão um tom "dramático" para a vida do cantor, famoso pelo sucesso "Amor de Chocolate".

Num dia, ele diz que pretende se casar com a Mulher Moranguinho. No dia seguinte, a ex-mulher de Naldo dá um depoimento espinafrando a "mulher-fruta". Noutro, Naldo diz que não pode se casar porque ainda não é divorciado. Depois, a ex-mulher volta a falar e chama a Mulher Moranguinho de "prostituta". Deve haver mais coisas nos próximos dias.

Embora pareça um "drama pessoal", situações assim são muito eficazes no marketing midiático. No hit-parade brasileiro, tendencioso e pretensioso, a regra é essa mesmo, forjando aparentes dramas pessoais para criar "polêmica" e alavancar o envolvido à fama, mesmo através dessa situação "incômoda".

Não se sabe se a ex-mulher de Naldo realmente sente raiva dele e da Mulher Moranguinho. No sensacionalismo midiático, muitos dos conflitos familiares que se vê nos programas popularescos da TV são inventados, e não obstante os motivos dessas brigas são risíveis de tão canhestros. Coisas do tipo: "fulana se atracou com a vizinha porque esta trepou com o marido daquela em pleno culto evangélico".

É muito sensacionalismo que se vê em notícias como as do MC Naldo, o primeiro intérprete 100% criado nos moldes do hit-parade, sem o "idealismo" que glamourizou os ídolos brega-popularescos lançados antes pela mídia. O que pode indicar apenas uma estratégia publicitária de promover o ídolo às custas de "escândalos", a exemplo dos ídolos de gangsta rap norte-americanos, de cuja estética Naldo se inspira.

Nem mesmo a MC Anitta, também 100% criada nos moldes do comercialismo, chegou a tanto. Seu marketing é mais suave, em que pese as fotos "sensuais" da moça e do visual retrô da linha Flashdance. Até agora, MC Anitta disse que estava "encalhada" (exagero: ela não tem namorado por causa dos compromissos de carreira), que não curte amor à moda antiga e depois foi "conhecer" o jogador Neymar.

Isso evidentemente não irá absolver os pecados dos outros brega-popularescos, mesmo envoltos numa aura de "idealismo" que faça muitos incautos confundirem com a MPB autêntica, o que faz a festa para a intelectualidade etnocêntrica para a qual, na cultura brasileira, "lixo" quer dizer "luxo", como se pudesse criar nessas duas palavras diferentes o mesmo sentido de "oiro" e "ouro", "coisa e cousa".

Afinal, o brega-popularesco sempre foi fundamentalmente hit-parade. Mesmo quando seus ídolos choravam diante da imprensa dizendo que "adorariam estar no primeiro time da MPB". Isso porque seu DNA não está na formação sócio-cultural, mas meramente midiática. O brega sempre se compôs de "restos" do que a mídia jogava para o "povão". O brega só produz mercadorias, não conhecimento.

Por isso, o brega sempre se alimentou com seu marketing, com sua choradeira e seu comercialismo um tanto envergonhado, mas explícito. Sua ideologia apenas atingiu as últimas consequências quando nomes como MC Naldo passam a ser inteiramente midiáticos, sem o falso lirismo dos outros bregas. Estes sempre foram, são e serão comerciais, mas MC Naldo, MC Anitta e similares levam isso ao extremo dos extremos.

sábado, 25 de maio de 2013

"HABEAS" CORPUS PARA OS BOATEIROS?


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Está certo que a Bolsa-Família causa polêmica, e que o ideal é que esse benefício seja apenas emergencial, para ajudar as famílias que vivem em extrema pobreza e possuem muitos filhos para criar. Mas espalhar as notícias sobre seu fim mostra também o outro lado de pessoas maldosas criando boatos para tumultuar a sociedade e causar o caos, como se viu em pessoas correndo para tirar dinheiro nas suas contas da Caixa.

“Habeas corpus” para os boateiros?

Por Fernando Brito - Blogue Tijolaço

Uma semana depois, confirma-se o óbvio: foi uma empresa de telemarketing que iniciou a onda de boatos sobre o fim do Bolsa-Família e levou a uma corrida pelos terminais de saque da Caixa.

A empresa é do Rio, está identificada e iniciou sua ação pelo Maranhão. A Polícia Federal fez o que era simples: pegou os dados da Caixa e viu por onde começaram os saques.


Portanto, há dolo e, logo, criminosos por trás do tumulto.

Como era óbvio.

Mas a Folha, hoje, adota a linha de que a vítima é quem tem culpa.

Diz que a Caixa liberou os saques antes do calendário e o dinheiro estava disponível.

Será que se quer insinuar que a Caixa providenciou uma corrida contra si mesma?

A Folha vai embarcar nessa?

Porque seria como dizer que “a mulher apanhou porque gosta de apanhar”.

O espírito de Nelson Rodrigues anda baixando em muita gente.

Aliás, o UOL, do grupo Folha, já havia criado o “segredo de multidões”, ao publicar que os milhares de sacadores “não queriam falar”, por medo, como souberam da notícia.

Só para imaginar: o que aconteceria se milhares de pessoas chegassem aos caixas eletrônicos movidas pelo terrorismo do fim do Bolsa-Família e não pudessem sacar seu dinheiro?

Isso ia ser maravilhoso para o Governo, não ia?

O “plano maligno” é assim: a Caixa libera o dinheiro e espalha a notícia de que “é hoje só, amanhã não tem mais”.

Era a “mulher de malandro”.

Ainda bem que agora temos a lei Maria da Penha…

APOIO UNÂNIME AO NOVO MINISTRO DO STF


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Carlos Ayres Britto encerrou sua carreira com o constrangedor prefácio que escreveu para o livro de Merval Pereira sobre o "mensalão", talvez a única coisa realmente inédita que há nesse livro. Em seu lugar, entrou alguém relativamente mais jovem, o advogado e procurador Luís Roberto Barroso, de tendência constitucionalista. Vamos ver se desta vez o Judiciário ganha sangue novo e procure uma atuação independente e sem promiscuidade com a grande mídia.

Apoio unânime ao novo ministro do STF

Por Ricardo Kotscho - BlogueBalaio do Kotscho

A indicação do constitucionalista Luís Roberto Barroso para o Supremo Tribunal Federal, na vaga do ministro Ayres Brito, provocou um fato raro na vida brasileira: o apoio unânime da sociedade, tanto no mundo jurídico como no político. De tudo que li e ouvi até agora, não encontrei uma única crítica ou restrição à sua vida profissional e pessoal, e a única pergunta que poderíamos fazer é esta: por que não foi nomeado antes?

Demorou seis meses, mas a presidente Dilma Rousseff fez o certo para não se arrepender depois: desta vez, venceu a meritocracia, sem as interferências políticas indevidas que marcaram algumas das últimas nomeações para o STF. Foi uma escolha pessoal de Dilma.

Barroso não teve que fazer campanha para chegar ao posto mais alto da magistratura. Bastou o seu currículo como advogado constitucionalista, professor universitário e procurador do Estado do Rio de Janeiro, com pensamentos solidamente liberais e progressistas, intransigente defensor dos direitos humanos.

No STF, o constitucionalista já defendeu teses polêmicas como a união estável de homoafetivos, pesquisas com células tronco e a permanência no Brasil do italiano Cesare Battisti. Os ministros do STF também foram unânimes nos elogios ao seu novo colega. Quem melhor resumiu o pensamento geral foi o ex-presidente do STF e ministro aposentado Sepúlveda Pertence:

"A presidente Dilma optou por um nome que há anos grande parte da opinião jurídica brasileira já havia reconhecido, como homem e como jurista, um dos mais qualificados para ocupar o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal".

Ainda não há data marcada para a sabatina de Barroso no Senado, que deverá ter aprovação rápida, mas ele já sabe qual será sua primeira tarefa depois de assumir. Entre os 7.841 processos que o aguardam, está o do mensalão do PSDB em Minas, criado por Marcos Valério, que envolve o tucano Eduardo Azeredo e o senador Clésio Andrade, do PMDB. O caso é de 1998 e o processo também estava sob a relatoria de Joaquim Barbosa, sem previsão para ser julgado.

Como o presidente do STF só deverá dar no começo do segundo semestre sua decisão sobre os embargos declaratórios dos réus do mensalão petista, Luís Barroso poderá participar do julgamento dos recursos apresentados pelos advogados de defesa.

Em entrevista dada no ano passado à revista Poder, Barroso fez críticas ao julgamento do mensalão.

"O Supremo, que sempre teve uma posição bem liberal e em defesa do acusado, principalmente do princípio de presunção da inocência, revela uma guinada um pouco mais dura e punitiva, superando, inclusive, alguns precedentes, como no entendimento de que não é mais necessário um documento assinado pelo acusado ou um ato oficial para que o crime de corrupção seja configurado. Minha avaliação é que houve um certo endurecimento do STF, talvez como reflexo de uma interação com a sociedade".

sexta-feira, 24 de maio de 2013

"CULTURA DE MASSA" E O DESLUMBRAMENTO BRASILEIRO


Por Alexandre Figueiredo

Há uma grande diferença entre o questionamento severo que se tem da "cultura de massa", da overdose de informações, da coisificação do homem e da espetacularização da sociedade entre a intelectualidade europeia e o deslumbramento de tudo isso pela intelectualidade brasileira.

Note-se que, se brasileiros fossem, Umberto Eco, Noam Chomsky, Paul Virilio e os já falecidos Guy Debord e Jean Baudrillard simplesmente não chegariam sequer nas portas da seleção de mestrado, já que a orientação acadêmica brasileira pouco recomenda o pensamento crítico, mas tão somente uma retórica "científica" limitada a descrever e reafirmar o estabelecido, quando muito problemáticas sem problemas.

A "cultura de massa" brasileira pode ser um grande Cavalo de Troia. E é, em muitos momentos. Mas desde a banalização e a acomodação das expressões tropicalistas, na medida em que estas se esvaziaram da abordagem crítica da análise da "geleia geral" - que era a apreciação crítica de tudo que havia de bom e ruim na cultura em geral - , o que se vê hoje é a banalização conformista do pós-moderno no Brasil.

Isso faz com que se crie um ciclo vicioso em que temos expressões pós-tropicalistas culturalmente autênticas, mas mornas no que se diz ao seu teor de expressividade. Por outro lado, tem-se também a apreciação e a defesa da "cultura de massa" brasileira, o brega-popularesco, como o último grito de "provocação pós-moderna" segundo a chamada classe "esclarecida" de nosso país.

A nossa "geleia geral" que envolve desde diretores "complicados" como Gerald Thomas até as sub-celebridades do Big Brother Brasil, que musicalmente vai de pós-tropicalistas a funqueiros, de bregas de raiz, filmes de pornochanchada, programas de auditório "populares" etc, se acomodou numa apreciação passiva que chega às últimas consequências de uma "provocação" que não provoca mais.

Até mesmo ser "incomodado" ficou banal. Os "performáticos" da Gangue da Eletro, Felipe Cordeiro, Dudu Pererê, entre tantos outros espalhados pelo país, se preocupam apenas em criar uma estética "desarrumada" como se isso os fizesse superinformados, ultramodernos e metavanguardistas. Só que isso ficou banal demais.

Até o Big Brother Brasil chegou a ser anunciado pela grande mídia como se fosse "atração de vanguarda". Vivemos uma deturpação da vanguarda num "modernismo de resultados" em que temos "problemáticas" sem problemas, "provocações" que não provocam, "debates" que não debatem.

A espetacularização vira um fim em si mesmo. A "cultura de massa" brasileira é um pesadelo potencial para Guy Debord, se ele tivesse sido um brasileiro e estivesse ainda vivo hoje. E todo esse "espetáculo" se dilui em "viradas", "desfiles", "festivais", "coletivos" e "oficinas" que só servem para ser um amontoado de "referências" pop, que só mostram a obsessão consumista das gerações atuais.

Afinal, não se trata mais de uma pop art inserindo quadrinhos nas artes plásticas, nem um tropicalista vestido roupas de plástico ou algum cantor regional inserindo guitarra elétrica pela primeira vez quando a guitarra elétrica era ainda um tabu por aqui. Hoje tudo é gratuito, aleatório, "incomodar" deixou de ser um acessório para uma expressão corajosa, virou o fim em si mesmo.


Ninguém se incomoda em "incomodar". Não há mais polêmica, só há "polêmicas" que apenas mostram um fenômeno geralmente medíocre que ganha a adesão de algumas pessoas e a rejeição de outras, banalizando até mesmo a divisão de posições.

As gerações atuais que trabalham a "cultura" brasileira contemporânea, sejam como produtores ou apreciadores e pesquisadores, têm uma formação televisiva e mercadológica. Acham que a "cultura de massa" e altamente televisiva e mercadológica é sinônimo de "liberdade", do contrário que se considera lá fora, onde essa mesma "cultura" é sinônimo de "prisão".

Aqui no Brasil, muitos enxergam o neoliberalismo cultural, da hegemonia do comercialismo pop como norteador de expressões pós-modernas, sob uma ótica falsamente libertária. Sem perceber, muitos defendem valores de "livre iniciativa" e 'livre mercado" como se fossem guerrilha socialista, ingênuos na overdose de informações que lhes confundem emoções e razões.

Na Europa em crise, nos últimos dez anos, se vê filmes, peças e canções reflexivas dos tempos atuais. A queda do Muro de Berlim e do Leste Europeu, a globalização e o consumismo não trouxeram um tempo de prosperidade, uma belle-èpoque do consumo, mas a ruptura de identidades, sonhos, perspectivas e expectativas, gerando uma época de crises e incertezas.

Lá no velho continente, o pós-moderno tornou-se gasto, superado, banalizado. É hora de se rever os armários, limpar o mofo, jogar fora o que está obsoleto. No Brasil, porém, cheiro de mofo é perfume, ao lado do fedor do lixo, reciclamos o obsoleto sem recuperarmos sua utilidade, queremos ser tudo num amontoado de nadas. A retaguarda do brega brasileiro é, pasmem, vista hoje e aqui como "vanguarda".

Temos um cenário até mais complexo para análises contestatórias de overdose da informação, de espetacularização da sociedade, de coisificação do homem. Mas esse cenário, fértil para teses acadêmicas, até agora não é ricamente analisado nesses meios, porque o que a classe acadêmica, amarrada em interesses econômicos, burocráticos e corporativistas, simplesmente veta o pensamento questionativo nas produções de pesquisa e extensão universitárias.

Não vivemos ainda a ressaca dessa festa consumista de uma gama excessiva de símbolos, ícones, signos, contextos, teses, antíteses e outros elementos discursivos. Muitos pós-modernos brasileiros, felizes de juntar elementos cafonas, punks, regionais etc, choram lágrimas de crocodilo quando veem os europeus em crises existenciais, dentro do contexto da crise do euro e dos valores neoliberais no velho continente.

Mas quando virá essa ressaca? O Brasil brincará de pós-moderno a vida toda? O Brasil viverá o feitiço do tempo de um cenário cultural caótico, mais para gororoba do que para geleia geral, como um cachorro correndo atrás de seu próprio rabo? E a intelligentzia, até quando ela terá sangue de barata para se achar indiferente a críticas e a rejeições?

Vivemos a hegemonia da vaia e do incômodo como formas de satisfazer vaidades artísticas e intelectuais de quem quer que seja, "performáticos" ou bregas, das gerações intelectuais e artísticas atuais. Mas até que ponto fará sentido ser "genial" através da rejeição alheia é algo que o tempo dirá. Afinal, é muito fácil se passar por "gênio" diante da rejeição de todos. Difícil é provar se é realmente gênio ou não.

A festa parece boa, mas a ressaca é inevitável. Que venham os Debord e Baudrillard brasileiros, nem que eles venham escondidos em blogues gratuitos ou artigos escondidos em algum arquivo htm da Internet.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

A INTELECTUALIDADE CULTURAL DO BRASIL MEDÍOCRE


Por Alexandre Figueiredo

Temos o Brasil em que jornalista medíocre entra fácil na Academia Brasileira de Letras porque trabalha na grande mídia, ainda que só lance coletâneas de artigos. Temos o Brasil de uma revista de informação cujo nome é relacionado ao verbo "ver" que só desinforma e condena os movimentos sociais. E temos um Judiciário tomado de estrelismo e pouco voltado à verdadeira luta por justiça social.

Pensando assim, alguns tentam achar que a intelectualidade cultural dominante que defende a breguice cultural nada tem a ver com isso e que ela representa a "salvação" da humanidade, "vítima" dos arbítrios da grande mídia e da política direitista.

Só que essa visão está errada. As esquerdas médias dão ouvidos à intelectualidade pró-brega achando que Odair José, Raça Negra e MC Federado e os Lelekes vão trazer o socialismo para o Brasil. Balelas. Com a multidão neocon - Lobão, Nelson Motta, Marcelo Madureira, Marcelo Tas etc - apoiando a breguice cultural com mais convicção que as esquerdas médias, não há como ver progressismo nisso.

Afinal, já prevenimos que não existe diferença essencial em ministros do STF e procuradores que "escolhem" os corruptos para serem condenados ou poupados conforme a preferência ideológica e namoram a grande mídia e a intelectualidade cultural que defende a supremacia do "mau gosto" na cultura brasileira e também namora a grande mídia.

É o mesmo contexto que envolve Merval Pereira, Gilmar Mendes e Paulo César Araújo e similares. Ou será que é coincidência Hermano Vianna ser ligado academicamente ao grupo de Fernando Henrique Cardoso e ser patrocinado pela Fundação Ford? Infelizmente, a opinião pública média de esquerda despreza tais questões, achando que isso nada tem a ver com o neoliberalismo.

Tem, sim. Gilmar Mendes e Paulo César Araújo, por exemplo, se inserem no mesmo contexto da mediocridade social do país, a qual eles se empenham em proteger, em vez de combater. São pessoas que andam de mãos dadas com a grande mídia, e se o historiador dos bregas e "vítima" de Roberto Carlos só aparece na grande mídia "por coincidência", o mesmo acontece com Gilmar.

Não existe ruptura com a grande mídia. É só ver como as tendências brega-popularescas se relacionam com a grande mídia, com surpreendente e gritante cumplicidade. O "funk carioca", por exemplo, se sente muito mais à vontade nos palcos da Globo do que nas proximidades do Centro Barão de Itararé.

O brega e seus derivados (como "sertanejo", axé-music e "funk carioca") não quer regulação da mídia, porque isso praticamente os anulará. Com a regulação da mídia, o rádio FM não mais tocará Michel Teló, Gaiola das Popozudas, Odair José, Waldick Soriano, É O Tchan, Asa de Águia e outros queridos da intelectualidade "sorospositiva" (aquela que é patrocinada por George Soros, Fundação Ford e CIA).

Com a regulação da mídia, a intelectualidade cultural dominante ficará horrorizada em ver novamente aqueles sambas que hoje se tornaram "patrimônio da gente douta" voltarem a serem feitos nas favelas, os nordestinos fazendo baiões em vez do intragável "forró eletrônico" e gente pobre falando em coisas "incômodas" como reforma agrária em vez de "rebolarem até o chão".

A intelectualidade cultural dominante no Brasil tomado pela mediocridade nem de longe pratica heroísmo ao defender a breguice cultural hegemônica em todo o país. Pelo contrário, o que eles fazem é uma avacalhação do conceito de "popular", baseado em critérios economicistas usados para defender a degradação de valores sociais, culturais e morais nas classes populares vigentes desde a ditadura.

Eles ainda argumentam, assim como os ministros do STF fazem suas argumentações para seus pareceres errados ou incompletos. Tentam deturpar a necessidade de apreciação do "outro", aceitando todo tipo de decadência social quando o rótulo "popular" está em jogo. "Eu não gosto desses valores, mas vejam como o povo está feliz (sic) com isso", é o que pensa essa intelectualidade.

Não adianta saber de maracatus, sambas, música africana, world music e a tal "MPBzona" - termo pejorativo criado pelo "irretocável" Paulo César Araújo para definir a MPB autêntica por ele tida como "grandiloquente" e "bagunçada" (daí o sufixo "zona") - , se defende a degradação sócio-cultural só porque ela "arrasta multidões" e supostamente "gera mais empregos".

Os ministros do STF, juristas e procuradores que hoje vivem de estrelismo, viajando para o exterior com dinheiro público para receber prêmios de periódicos estrangeiros reacionários, também conhecem muito de leis. A "urubologia" do jornalismo político também entrevistou muita gente e faz pesquisas bibliográficas. Nem por isso eles se tornaram heróis ou salvadores da pátria.

Mas tratar a intelectualidade cultural como "sagrada", "intocável" e "irretocável", mesmo quando ela tenta definir como "feminismo" o machismo depreciativo das mulheres-objeto, não tem fundamento. Ver o "popular" como o depósito de lixo do inconsciente das classes "esclarecidas" não é uma demonstração de ruptura de preconceitos, mas da reafirmação de preconceitos sociais ainda piores.

Por isso, não se pode ver diferença entre a intelectualidade cultural que defende o brega, o Judiciário tomado de estrelismo e Merval Pereira tomando o chá servido na Academia Brasileira de Letras. É o mesmo contexto de mediocridade. A intelectualidade cultural não está fora disso, pouco importa se seus "pensadores" são amigos de sindicalistas ou ativismos sociais. Afinal, amigos, amigos, negócios à parte, e nossa intelligentzia está muito feliz quando está dentro da grande mídia.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O ERRO DAS ESQUERDAS MÉDIAS QUANTO SUA COMPREENSÃO DE CULTURA


Por Alexandre Figueiredo

As esquerdas médias, que ainda exercem influência na pauta dominante esquerdista, em que pese seus erros, omissões ou mesmo as afinidades que possuem com a centro-direita, ainda não conseguem entender o que é mesmo a cultura brasileira de qualidade, demonstrando total incompreensão a respeito do que deveria ser reconhecido como popular e moderno.

Paciência. As esquerdas médias não surgiram, a rigor, no seio das classes populares. Elas se tornam esquerdistas mais por uma relativa solidariedade aos movimentos populares, algum relativo descontentamento com os excessos das classes mais reacionárias e alguma visão de mundo que conteste, dentro de seus limites, as injustiças sociais.

Daí a visão um tanto vulnerável, que deixa posições um tanto dúbias ou contraditórias quando há temas mais delicados como a regulação da mídia e a reforma agrária. E isso reflete quando uma compreensão sobre cultura se torna ainda mais convencional e complacente com o "estabelecido", mesmo quando envolve valores defendidos pela mídia mais reacionária.

E como se dá essa incompreensão, que mostra um paternalismo mal-disfarçado e uma anti-brasilidade envergonhada? Como se constrói esse discurso aparentemente generoso, seja pela boa-fé ou má-fé, que pouco contribui para a transformação real da cultura brasileira?

O discurso de uma "cultura de verdade" defendido pelas esquerdas médias, independente se é MPB autêntica ou o brega-popularesco, erra a partir de duas perspectivas bastante problemáticas, que é o "compromisso" que as esquerdas médias atribuem para a cultura sempre estar associada ao paradigma do urbano e do mundial.

Isso faz com que os critérios de validade e mérito na cultura se restrinjam apenas à obrigação de parecer "urbano" e "internacional" ou "mundializado", o que torna a expressão cultural bastante superficial, na medida em que se banaliza esses paradigmas herdados da ideologia pós-tropicalista.

Há uma tendência dessas pessoas em rejeitar a continuidade da música brasileira tradicional por entender ela como "antiga", "rural" e "provinciana", visões evidentemente equivocadas, até porque há nelas um forte teor artístico e cultural próprios, como se vê nos sambas, baiões, modinhas, maracatus, marcha-ranchos etc, que mostravam qualidade expressiva e uma forte identidade sócio-cultural regional.

A intelectualidade mais influente, então, embora admita a validade desse estágio da MPB, tenta dar a essa fase o falso status de "superada", como se o rico patrimônio cultural brasileiro não servisse mais para coisa alguma, tido erroneamente como "inválido" e "ultrapassado", precisando ser substituído por expressões mais "pop" e "universais", palavras respectivamente associadas ao "urbano" e "global".

Daí os sambas que precisam ter um compasso soul, para serem "mais modernos", só porque soam mais "urbanos" e "universais". Daí a MPB autêntica que precisa ter um pouco de jazz, um pouco de hip hop, um pouco de tango, não pela liberdade de assimilá-los como expressões artísticas, mas pela obrigação de assimilá-los.

Essa obsessão pelo "urbano" e pelo "global" faz com que a intelectualidade cultural passe a apoiar expressões duvidosas, ligadas do brega-popularesco, porque elas, mesmo não obedecendo a critérios verdadeiramente culturais, de produção de saber, de conhecimentos e valores sociais, atendem às exigências de "urbanidade" e "internacionalidade" mínimas exigidas pelas esquerdas médias.

O brega-popularesco, desde o brega "de raiz" (Waldick Soriano, Odair José) até o "funk carioca", é claramente comercial, tendencioso e de valor cultural bastante duvidoso, e até mesmo possui uma "brasilidade" muito mal resolvida, tão envergonhada quanto subordinada é a forma de assimilar as tendências estrangeiras, contraditoriamente dentro de uma abordagem provinciana e bairrista.

Só que isso não fica melhor porque é supostamente "urbano" e "universal". Até porque, no brega e em todos os seus derivados, esses dois conceitos são mal resolvidos. A forma com que o brega trabalha esses conceitos pode satisfazer a intelectualidade dominante, de orientação pós-tropicalista, mas isso não criou qualquer diferença na evolução cultural brasileira.

Os conceitos de "urbano" e "global" (no sentido da ênfase nas influências estrangeiras mesmo num pretexto de "livre assimilação" local) não necessariamente fazem a cultura ficar melhor ou pior. São apenas perspectivas e atitudes que não deveriam ser obrigatórias, mas opcionais e mesmo assim sem serem tratadas como elementos determinantes de valor artístico-cultural.

A Música Popular Brasileira não é proibida de assimilar tendências estrangeiras, mas também não pode se escravizar a elas, porque o que está em jogo não é criarmos uma cultura musical mais "competitiva" para o mercado internacional, sobretudo latino-americano.

O que está em jogo é a expressão de brasilidades, da realidade do "eu" brasileiro, mesmo com a interrelação com o "outro". É a afirmação do "eu" com franco diálogo com o "outro", e mesmo com o que há de fora, mas sem que o "eu" seja um subproduto do "outro", nem um "escravo" do "outro".

Na ditadura midiática, a dita "cultura popular" nem sequer é "urbana" ou "global", mas meramente midiática, mercadológica e sem serventia social. As comunidades populares apenas aparecem como "produtoras" (no sentido industrial do termo) de "bens culturais" (onde prevalecem critérios econômicos) e as influências estrangeiras, transmitidas pela mídia, revelam que as classes populares são apenas inferiorizadas neste processo.

Por isso as influências estrangeiras são bem vindas à nossa cultura, mas esta não pode subordinar-se àquelas. O valor da cultura não está em expressar tão somente as realidades urbanas e globais, mas em expressar realidades locais e processos sociais. Isso é o que importa.

O ÓDIO SE DISSEMINA NA REDE


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O reacionarismo digital já foi muitas vezes alertado aqui, devido ao fenômeno da trolagem, em que muitos internautas, defendendo o "estabelecido" pela mídia, pela política e até pela indústria do entretenimento, lançam mão de comentários agressivos, calúnias e até ameaças, se tornando uma juventude neocon que agora evidencia seu reacionarismo.

O ódio se dissemina na rede

Por Bepe Damasco - Blog do Bepe, reproduzido também no Blog do Miro

Eles não têm apreço pela democracia e são saudosos da ditadura; desprezam negros, pobres, nordestinos e gays; movimento social é coisa de bandido; sentem engulhos estomacais quando esbarram nos aeroportos com os "intrusos" das classes baixas; o caos no trânsito das grandes metrópoles é culpa dos pobres que deram para comprar carros de uns tempos para cá; em geral, só leem Veja, Globo, Estadão e Folha e vivem a matraquear as chavões facistóides ali publicados; por eles, o Congresso Nacional seria fechado, já que o sistema representativo de nada serve e os políticos são safados.

Esse é o retrato em preto e branco de um contingente nada desprezível da classe média brasileira. Na internet, seus pontas de lança são os chamados "trolls", cujos comentários nos facebooks, sites e blogs da mídia conservadora, e também nos espaços alternativos e progressistas da rede, são cada vez mais frequentes. Muitas vezes encobertos pelo manto covarde do anonimato, eles distribuem ofensas, destilam preconceito e pregam a ruptura da ordem democrática.

Dias atrás um imbecil desses enviou para este blog um comentário sobre artigo que postei cobrando da presidenta Dilma a nomeação de um substituto para o ministro Ayres Brito no STF. Pregando abertamente a volta da ditadura militar, o comentário apócrifo não poupava ofensas a Lula, Dilma, PT e ao povo brasileiro.

Como não foi a primeira vez, recomendo a esses militantes virtuais do facismo que não percam seu tempo me enviando comentários anônimos e repletos de baixarias. Aqui, eles jamais serão publicados. Melhor cantar em outra freguesia : que tal assistir a um show do Lobão, o roqueiro recém-convertido às teses do coronel Ustra e do deputado Bolsonaro ?

terça-feira, 21 de maio de 2013

MORRE RUY MESQUITA, DIRETOR DO ESTADÃO


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O jornalista Ruy Mesquita, da tradicional oligarquia que controla o jornal O Estado de São Paulo, falecido hoje, pertenceu à geração que acompanhou episódios ligados à crise do governo João Goulart, a ditadura militar e a redemocratização, sendo um dos porta-vozes da linha bastante conservadora que consagrou o jornal na mídia de direita do Brasil.

Morre Ruy Mesquita, diretor do Estadão

Do portal Brasil 247

O jornalista morreu às 20h40 desta terça-feira; Ruy Mesquita foi internado no último dia 25 no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo; em abril, ele teve diagnosticado um câncer de base de língua; mesmo aos 88 anos, manteve sua rotina de trabalho até a véspera da internação; o jornalista era responsável pela opinião do Estadão desde a morte de seu irmão Julio de Mesquita Neto, em 1996

247 - Diretor de O Estado de S. Paulo, o jornalista Ruy Mesquita morreu às 20h40 desta terça-feira. O jornaiista foi internado no último dia 25 no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Em abril, ele teve diagnosticado um câncer de base de língua. Leia obituário publicado no site do Estadão:

Seguindo a tradição da família, Ruy Mesquita foi um defensor da liberdade, da democracia e da livre-iniciativa, princípios que sempre nortearam a linha editorial do Estado. Ao longo de seus 88 anos, teve participação ativa em momentos importantes da história do Brasil e da América Latina. Presenciou o início da revolução em Cuba, nos anos 50, e foi homenageado pelos irmãos Castro, de cujo regime se tornou depois crítico contumaz.

Reuniu-se com militares antes do golpe de 1964, que apoiou, em nome da defesa da democracia, mas, assim como seu pai e seu irmão, também passou a criticar a ditadura, uma vez instalada. Os três lideraram uma das mais emblemáticas resistências à censura prévia, substituindo as reportagens cortadas por poemas e receitas.

Aos 88 anos, Ruy manteve sua rotina de trabalho até a véspera da internação. Responsável pela opinião do Estado desde a morte de seu irmão Julio de Mesquita Neto, em 1996, ele se reunia diariamente com os editorialistas para definir as tradicionais "Notas & Informações" da página 3. De hábitos reclusos, dividia seu tempo entre o jornal e a casa, onde se dedicava a leituras. Deixa a mulher, Laura Maria Sampaio Lara Mesquita, os filhos Ruy, Fernão, Rodrigo e João, 12 netos e um bisneto.

FEMEN DECRETA FIM DE FILIAL BRASILEIRA: "NÃO NOS REPRESENTA"


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O polêmico movimento Femen se carateriza por suas militantes protestarem nuas da cintura para cima, com seus corpos sendo pintados com mensagens de protestos. Diante de acusações de ligações com o fascismo, além de críticas quanto aos seus métodos de protesto, o Femen ainda sofreu a divergência com uma representante brasileira, Sara Winter, que desobedecia a orientação da organização, atuando de forma independente. Agora, o Femen não possui mais representação no Brasil.

Femen decreta fim de filial brasileira: “não nos representa”

Do Portal Opera Mundi

A filial brasileira da organização feminista Femen não existe mais. A informação foi dada por uma das fundadoras do movimento original, a ucraniana Alexandra Shevchenko, em entrevista ao jornal Zero Hora. Segundo ela, a dissolução da organização no Brasil se deve aos problemas que tiveram com a sua organizadora no país, a paulista Sara Winter, que confirmou a notícia.

“Gostaria de dizer algo que imagino seja novo para vocês. Não temos mais Femen Brazil. A pessoa que nos representava, Sara Winter, e que tem sua própria conta no Facebook, o Femen Brazil, não faz parte do nosso grupo. Tivemos muitos problemas com ela. Ela não está pronta para ser líder. É uma pena, mas essa decisão faz parte do nosso crescimento como movimento honesto. O Femen Brazil não nos representa”, disse Shevchenko ao jornal.

A ucraniana não deu mais detalhes sobre a decisão, mas prometeu que o movimento será reconstruído no país.

Por sua vez, Sarah confirmou atritos com a matriz ucraniana. “As ucranianas são muito autoritárias. Em vários aspectos discordamos da postura delas, como no caso do comportamento discriminatório que elas tem com relação às mulheres islâmicas. Somos a favor da pluralidade religiosa”, afirmou.

Ela afirma que não recebeu a ajuda de custo prometida para poder se dedicar somente ao movimento de maneira regular. No entanto, ela afirma que, mesmo sem o nome, pretende continuar organizando protestos.

Também afirmou ao Zero Hora que a organização lhe exigia ações “absurdas”: “Elas queriam que eu contratasse um helicóptero para desenhar um símbolo do Femen no Cristo Redentor. Como iria fazer uma coisa dessas? Queriam que eu encontrasse uma cruz de madeira no Rio ou em São Paulo e serrasse?”.
Histórico

O Femen é um coletivo de ativistas feministas que nasceu na Ucrânia em 2008 e ganhou ramificações em diversos países, que chama a atenção da mídia tradicional nos protestos em que participa pelo “ativismo de topless”.

No entanto, a atuação de Sara, que chegou a ser presa diversas vezes durante protestos realizados no país, sempre foi vista como controversa e criticada por diversos grupos feministas.

Em 2011, a então vice-presidente do grupo, Bruna Themis, decidiu sair em razão de discordâncias pela forma com que Sara organizava o movimento, como por exemplo , rejeitar integrantes acima do peso (o que Sara nega). Seu passado ligado a grupos de skinheads e sua homenagem à ex-premiê britânica Margaret Thatcher, que morreu no mês passado.

Em resposta ao blog BiDê Brasil, a filial britânica do Femen respondeu dizendo que Thatcher não é um símbolo feminista.

INTELECTUALIDADE ETNOCÊNTRICA E SEU CONCEITO DE "VANGUARDA"


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade etnocêntrica, que exerce grande influência nos "novos" paradigmas culturais do Brasil, bateu o pé. Ela quer manipular não somente o gosto médio do "povão", como também os referenciais das classes mais "esclarecidas", defendendo a "cultura de massa" por debaixo dos panos.

Foi o que vemos na intelectualidade que deu suas dicas de "atrações recomendáveis" da Virada Cultural de São Paulo, edição deste ano. A ênfase nas "recomendações" inclui nomes consagrados pelo brega, sobretudo o dos anos 90, mas que estavam "de molho" no mainstream musical dos últimos anos.

Os "recomendados" são queridinhos da intelectualidade da moda: o veterano Odair José, o axézeiro Luís Caldas, os pioneiros do sambrega Raça Negra e Leandro Lehart (ex-Art Popular), e a turma paulista que faz o cenário local de "funk carioca", ou o chamado "funk ostentação" de nomes como MC Guimé.

Aparentemente, poderiam ser dicas despretensiosas de especialistas, mas vendo o status de "superioridade" que a intelectualidade cultural dominante têm no Brasil, não muito diferente dos "urubólogos" da imprensa política e dos ministros-estrelas do Judiciário, o que se vê é claramente um processo de "dirigismo cultural", de pura manipulação do gosto não só popular, como até mesmo do gosto mais alternativo.

Pois os tais "especialistas" - a partir do exemplo "clássico" de Paulo César Araújo - exercem uma aura de "sabedoria" e oficialmente são figuras "irretocáveis", que você, caro leitor, é desencorajado a questionar. A partir desse status, que lembra os tempos em que os "urubólogos" eram mais prestigiados, tais intelectuais tentam exercer o poder de formação de opinião do chamado público médio.

DIRIGISMO CULTURAL

Com base no ditado popular "olha só quem fala", esses intelectuais esculhambam os pensadores do CPC da UNE, do ISEB, ou pessoas como José Ramos Tinhorão, acusando todos eles de "dirigismo cultural". Chegam mesmo a "urubologicamente" compará-los ao Partido Comunista norte-coreano e a acusá-los de mero patrulhamento ideológico contra a "liberdade cultural".

A tese que a intelligentzia atual, de orientação pós-tropicalista com matizes bregas, usa para justificar tais acusações é que a "cultura de massa" atual representa um "maior processo de liberdade" aliado ao pretexto da facilidade de acesso às informações atual, que faz qualquer MC Leozinho da vida virar "gênio".

Só que, por trás desse discurso "libertário", intelectuais como PC Araújo e seguidores inserem abordagens dignas do pensamento neoliberal aplicados à chamada "indústria cultural", onde a "diversidade cultural" torna-se um pretexto de sentido análogo ao de "liberdade de imprensa" e de "democracia" dados pelo jornalismo político.

Afinal, a "liberdade de expressão" da mediocridade artística do brega-popularesco ignora que arte e cultura sejam relacionadas à produção de conhecimento. A cultura popular, da forma que é vista pela grande mídia, deixou de ser a expressão do saber para ser a "expressão do não-saber", atribuindo "positivamente" às classes populares as piores qualidades, porque "é que o povo gosta e sabe fazer".

O "dirigismo cultural" travestido de "sabedoria" desses intelectuais determina que a opinião pública aceite a breguice cultural e todos os baixos valores sócio-culturais vinculados. A intelectualidade apela para a choradeira discursiva lamentando a denominação de "baixa cultura", enquanto defende de forma paternalista a breguice cultural e se anuncia como protetora e salvadora pronta a ensinar "alta cultura" aos bregas.

É um jogo paternalista e manipulação da opinião pública, e agora que a intelectualidade dominante conseguiu impor seu conceito de "verdadeira cultura popular" - baseada em visões estereotipadas do "popular" associadas ao pitoresco, ao piegas ou ao grotesco - , ela quer agora impor sua concepção do que deve ser considerado "vanguarda" no Brasil.

A "VAIA" COMO JULGAMENTO DE VALOR ÀS AVESSAS

Sempre invertendo o discurso, a intelectualidade etnocêntrica que influi na opinião pública hoje, tenta creditar genialidade em ídolos marcados por ensurdecedoras vaias do público e por comentários agressivos de uma parte da crítica musical (por sinal superestimados, porque as críticas não são tão frequentes assim).

Assim como na pseudo-MPB falsamente sofisticada de nomes como Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Belo e Zezé di Camargo & Luciano, há uma combinação ideológica do "apelo popular" midiático com a estética pomposa de imagem e de som (incluindo vestuários, arranjos musicais, publicidade, técnica, tecnologia etc), há também uma combinação ideológica envolvendo bregas "mais difíceis".

Essa combinação ideológica envolve um quase ostracismo que, combinado com o antigo "apelo popular" do auge do sucesso com as vaias do público e da crítica musical, dão aos bregas "injustiçados" uma falsa aura de "alternativos" ou "vanguardistas". Basta ser vaiado, estar há um bom tempo sem fazer sucesso estrondoso, ter um suposto apelo popular e, pronto, virou "cult", "alternativo" ou "vanguarda".

O "funk carioca" se beneficiou muito dessas lorotas discursivas. Mas também são elas que tiram nomes como Amado Batista, Luís Caldas, Leandro Lehart e Raça Negra do ostracismo, arrumando a desculpa de que eles seriam "alternativos" como uma tentativa fácil de reinseri-los no mercado, tentando atrair um público mais "cabeça" para suas plateias.

Somos tratados feito palhaços pela intelectualidade cultural dominante, que diz "não estar atrelada" à grande mídia mas comunga fielmente com seus interesses. Condenando o que entendem como "julgamentos de valor", como os questionamentos acerca da breguice dominante, esses intelectuais "divinizados" pelo meio acadêmico acabam fazendo um julgamento de valor pior do que o que atribuem aos outros.

Desse modo, as "recomendações" de atrações da Virada Cultural mostram o tom de manipulação e julgamento de valor da intelectualidade cultural dominante, o que indica a forte influência da tirania do mau gosto que o mercado e a grande mídia quer prevalecer sobre a cultura popular brasileira.

Assim, cria-se um hit-parade brasileiro camuflado de vanguardista. Usa-se o rótulo de "alternativo" e "vanguarda" para empurrar a breguice para uma plateia mais selecionada. Tudo em vão. Mas a mentira cola direitinho.

Mas daqui a pouco Luís Caldas, Raça Negra e outros aparecerão abraçados a Marcelo Madureira e Marcelo Tas tocando nas FMs "populares" controladas por "coronéis" e politiqueiros exercendo todo o poderio mercadológico em detrimento dos verdadeiros valores sócio-culturais, perdidos pela espetacularização da breguice que reduz a sociedade em fantoche da grande mídia.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

COMO A VIRADA CULTURAL VIROU VIRADA CRIMINAL


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: É verdade que as grandes capitais são cidades muito complexas, e que a tarefa de trazer segurança para um evento eclético e espalhado em vários lugares como a Virada Cultural de São Paulo, não é fácil. Mas isso não é desculpa para que se ocorram violências como assaltos, furtos, brigas etc. Seria preciso um melhor planejamento na segurança pública que possa estar à altura de um evento como esse, até para garantir a oportunidade do público de assistir aos eventos de graça.

Como a Virada Cultural virou Virada Criminal

Por Kiko Nogueira - Diário do Centro do Mundo

O problema de levar 4 milhões de pessoas num dia a uma região desprezada o resto do ano inteiro.

A Virada Cultural de São Paulo tinha tudo para ser algo de que os paulistanos se orgulhassem. Existe desde 2005 e é inspirada nas Nuits Blanches de Paris. Uma de suas motivações oficiais é o “renascimento do centro, que habitualmente se esvazia à noite”. Bem, não adianta enchê-lo num dia do ano e esquecê-lo pelos outros 364. A Virada tornou-se uma vitrine do horror em que se transformou a segurança pública e do abandono do centro da maior metrópole do Brasil.

O apelido “Virada Criminal” pegou. Segundo a Folha, no 3º DP, na Rua Aurora, mais de 40 pessoas esperavam atendimento numa tarde, sendo que tinha gente que estava lá desde a véspera. Eram vítimas de assaltos, brigas, furtos etc, tentando fazer um boletim de ocorrência.

Houve vários arrastões. Ao menos 25 suspeitos foram detidos.

O garoto Elias Martins Morais Neto, 19 anos, morreu com um tiro na cabeça depois de tentar recuperar o celular. O primo dele foi agredido. O assassinato ocorreu na Avenida Rio Branco, perto do 3º DP.

Um rapaz foi esfaqueado no Viaduto do Chá. Outros foram espancados. O senador Eduardo Suplicy subiu ao palco de Daniela Mercury para pedir que lhe retornassem seu celular e a carteira. “Podem ficar com o dinheiro, mas devolvam os documentos”, pediu. A carteira reapareceu. E vida que segue.

Houve a suspeita de que a PM pudesse estar fazendo corpo mole para prejudicar a prefeitura, organizadora do evento. Segundo o sargento Rodrigo Campelo, com quem falei, o arranjo não é bem esse: “Há um acerto da prefeitura com a PM para que a polícia não pegue pesado com os frequentadores. São muitos jovens e a repressão não interessa a ninguém”.

“Vi muita covardia nas ruas. O que eu vi ontem no centro está longe de ser uma evolução”, afirmou Mano Brown durante a apresentação dos Racionais MCs. Não adianta que 4 milhões ocupem o centrão durante uma noite, numa espécie de safári. Vá à Praça da República no próximo domingo de manhã. Eu estive lá com meus filhos recentemente. Não há nostalgia que sobreviva a anos de desprezo oficial.

A Virada Cultural é como uma festa numa casa abandonada, cujo dono ninguém gosta. Passadas 24 horas de shows e piadas, tudo volta ao que era antes. Até o ano que vem, quando por mais uma noite alguém se lembra do lugar – mas não para lamentar que ele esteja atirado às traças, sujo, caótico e detonado, mas para destruí-lo um pouco mais, até não sobrar nada.

VIRADA CULTURAL, DIRIGISMO INTELECTUAL E O BREGA DOS ANOS 90


Por Alexandre Figueiredo

Festivais musicais ecléticos costumam ser um balaio de gatos que vai de nomes comerciais explícitos e medíocres até outros, também comerciais, porém mais decentes, e outros mais alternativos e não-comerciais, uns excelentes, outros maçantes. Isso é compreensível, porque a natureza dos eventos é oferecer diversas opções para vários tipos de públicos.

O problema é quando o julgamento de intelectuais e celebridades "bacanas" passam a "recomendar" a mediocridade musical, a pretexto de ser "popular", como "as mais recomendáveis" para um evento do porte da Virada Cultural de São Paulo.

A edição deste ano inclui, entre várias atrações, as cantoras Gal Costa, que retoma a fase clássica de 1967-1971 divulgando o mais recente disco com músicas de Caetano Veloso, e Fafá de Belém, além de nomes como A Banca (grupo formado por remanescentes do Charlie Brown Jr.), e atrações popularescas como Odair José, Raça Negra e MC's do "funk" paulistano ("funk carioca" paulista?). Há também Wanderleia, Walter Franco, Funkadelic e outras atrações mais cultuadas.

Vendo o portal Terra e a Carta Capital, nota-se a ênfase que o jornalista do texto do primeiro, sem crédito de assinatura, e boa parte dos consultados pela revista, têm em relação a atrações brega-popularescas, já que as elites entendem essa "cultura de massa" que tanto agrada os barões da grande mídia e do mercado como foco de "rebeldia" e "superação do preconceito".

O Terra "recomenda" praticamente o brega dos anos 90, além de Odair José, o "Pat Boone brasileiro" (denominação exclusivamente deste blogue) e do "performático" do tecnobrega, Felipe Cordeiro, do Kitsch Pop Cult.

A ênfase no brega dos anos 90 está no Kaoma (grupo criado por um empresário francês mas hoje empresariado por um brasileiro detentor do nome), em Luís Caldas e no Raça Negra, nomes que representavam a mediocridade musical brasileira mas que hoje são tidos como "geniais" por conta de um saudosismo ao mesmo tempo demagógico e cabecista.

Já entre os entrevistados de Carta Capital, a ênfase está no "funk carioca" paulista (vá entender...), nota-se a presença de nomes como Eduardo Nunomura (portal Farofafá) e Alê Youssef (jornalista, político, líder do Coletivo Fora do Eixo e que desviou a bela Leandra Leal para o caminho duvidoso do gororobismo cultural), gente que faz parte daquele grupo de intelectuais, artistas e ativistas brasileiros que recebem mesada do magnata George Soros.

Youssef se lembrou de outro ídolo do sambrega, Leandro Lehart, ex-Art Popular, cantor que, ao lado do Raça Negra, virou queridinho da intelectualidade etnocêntrica. O namorado de Leandra Leal ainda recomendou Kaoma e os palcos de tecnobrega e "funk", este último também defendido por Nunomura, que veio com um discurso cabecista-militante para defender os funqueiros:

"Minha maior curiosidade será, então, acompanhar a reação do público na pista Alfredo Issa. Os principais nomes do funk paulista passarão por esse espaço, que não foi considerado "palco" pela organização do evento. MCs Dedê, Backdi, Bio G3, Nego Blue, Boy do Charme e Menor do Chapa, entre outros funkeiros, são responsáveis pelas maiores audiências do YouTube. Estão também nas danceterias ricas da cidade, onde não há repressão, e nas esquinas das periferias, onde um forte movimento de repressão policial procura criminalizá-los. No espaço midiático, em geral, é essa a versão que prevalece - o funk é baixa cultura, não vale nada. É uma relação de amor e ódio na sociedade, que desta vez ganha a força e a legitimação da Prefeitura", disse.

Até que ponto essa pregação intelectual é "válida" para estabelecer o que deve ser o "gosto vanguardista" da juventude atual é algo que rende um debate que não cabe neste texto, e deixo para as rodas universitárias. Mas, ver que a turma dos "bacanas" do Brasil está se rendendo à breguice mais escancarada é assustador. Ver que "vanguarda", no Brasil, é Raça Negra, Leandro Lehart e "funk carioca" é o cúmulo do ridículo pretensiosista.

Enquanto isso, lá fora, uma atriz do canal Disney, Debby Ryan - cuja aparência é uma síntese de Raquel Welch com Brigitte Bardot das fases começo dos anos 1960 - , sorri feliz da vida pesquisando discos de The Doors e Velvet Underground.

Fico imaginando se essas "recomendações" são o verdadeiro dirigismo intelectual que a intelectualidade etnocêntrica tentou atribuir a nós, que reprovamos a mediocrização cultural. Fazendo tais "recomendações", a pretexto de indicarem o que é "vanguarda" na música brasileira, esses "bacanas" não fazem outra coisa senão dirigismo. E vários deles bem remunerados por instituições "filantrópicas" a serviço do capitalismo internacional que patrocina a breguice brasileira junto aos barões da mídia.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...