domingo, 31 de março de 2013

O "RARDICÓR" DA 89 FM

CPM 22: VERSÃO DOMESTICADA DO PUNK HARDCORE, FOI O PRIMEIRO GRUPO A ASSUMIR O RÓTULO "EMO".

Por Alexandre Figueiredo

A 89 FM sempre trabalhou um modelo de "punk hardcore" desprovido de qualquer consciência crítica definida, o que evita o máximo manter a essência que caraterizou essa vertente do punk rock surgida no final dos anos 70, depois que o punk original, da linha Sex Pistols, se desdobrou em tendências e abordagens mais comportadas e ligadas ao mundo da moda.

O punk hardcore foi difundido a partir do grupo californiano Dead Kennedys, originalmente liderado por Jello Biafra e hoje reduzido, sem ele, a um cover de si mesmo, enquanto o ex-vocalista segue carreira solo como cantor e atua também como ativista político e social.

A tendência surgiu não somente para recuperar a raiva punk perdida, mas de radicalizar sua revolta juvenil através de uma politização que era muito rara na primeira fase do punk rock de 1976-1977. Enquanto a raiva dos Sex Pistols era apenas comportamental e grupos como Buzzcocks, Ramones e Undertones falavam de assuntos da juventude, poucos dessa safra, como o Clash, adotavam uma postura politizada.

É verdade que o radicalismo hardcore chegou a gerar tipos de intolerância social como os skinheads e os neo-nazistas, mas no geral essa variação do punk rock, curtida sobretudo por skatistas, segue o caminho da solidarização com as causas populares e com os movimentos sociais em prol das minorias.

Existe até mesmo uma variação do hardcore que abomina o consumo de álcool e drogas e as baixarias sexuais, que é o straight edge, cujo principal expoente é a banda norte-americana Fugazi, conhecida no cenário independente e que surgiu na própria capital dos EUA, Washington.

No Brasil o hardcore é mundialmente conhecido através da banda Ratos do Porão, que por conta de seu entrosamento com grupos de heavy metal - o que não é novidade, vide a camaradagem conhecida entre grupos como Motorhead, de metal, e o punk Ramones - , passou a adotar elementos do estilo, o que causou muita polêmica.

Os Ratos do Porão (ou RDP ou RxDxPx) são liderados por João Francisco Benedan, o João Gordo, e são musicalmente íntegros, em que pese o fato de seu vocalista seguir uma carreira paralela de apresentador de TV e ser popularizado fora do âmbito roqueiro.

DO HARDCORE AO "RARDICÓR"

No entanto, a 89 FM, depois que seus donos receberam injeções de dinheiro do Estado pelo apoio político a Fernando Collor, resolveu apostar num arremedo de punk hardcore mais inofensivo, mais voltado a um humorismo mais grosseiro e uma rebeldia limitada a poses, gestos, roupas e sons que só fazem sentido na forma, mas deixam o conteúdo completamente vazio.

É o tal "rardicór" de Raimundos e companhia, que se convencionou, em casos extremos, a ser chamado de "rock engraçadinho", feito mais para fazer graça do que para representar um som que conduza o instinto de rebeldia juvenil. Pois é justamente a "rebeldia sem causa" lembrada pelo Ultraje a Rigor nos anos 80.

Ironicamente, os grupos de "rardicór" até evocavam o Ultraje, tocavam com o grupo de Roger Rocha Moreira e tudo. Mas o Ultraje havia feito uma postura bem mais crítica em suas músicas, mesmo num som new wave e numa postura mais próxima da abordagem comportamental de Buzzcocks e Undertones já "nil-ueivizados", do que o suposto hardcore brasileiro dos anos 90, de postura bem mais "cordeirinha".

Depois dos Raimundos, veio a adoção "roqueira" dos humoristas dos Mamonas Assassinas, e o narcisismo de Charlie Brown Jr. e seu projeto um tanto confuso e vago de "conscientização social". E, em seguida, vieram Ostheobaldo / Tijuana, Virguloides, CPM 22, Detonautas Roque Clube, até descambar nos "emos" do Fresno, NX Zero e Restart.

CPM 22, NÃO RELIGIÃO E RESTART

Hoje a UOL 89 FM se recusa a tocar Restart, mas na prática o grupo de "emo colorido" liderado por Pe Lanza, já que o grupo levou até as últimas consequências toda a domesticação estabelecida para o punk brasileiro a partir dos anos 90, através de grupos como Raimundos e Baba Cósmica, que "traduz" a filosofia "rardicór" aos moldes infantilescos tipo Trem da Alegria. Mas não somente por meio deles.

Afinal, o próprio radialista Tatola, também coordenador da UOL 89 FM e um conhecido figurão da 89, havia integrado o grupo paulista Não Religião, que tentava uma releitura do punk brasileiro com uma postura mais domesticada. E que lançou um paradigma de "atitude crítica" que fazia o pretenso "novo punk" brasileiro parecer mais comportado e inofensivo sem que seus fãs deem conta disso.

A rebeldia é mantida em aspectos formais e até reforçada na aparência, com músicos fazendo caretas e poses de malvados nas fotos. O som capricha nas guitarras distorcidas e no vocal gritado, enquanto é usada uma bateria de qualidade ruim, que faz um som de lata de Neston ou Nescau, para forjar um "som sujo" compensando a mixagem "limpinha".

Essa sonoridade é feita também pelo Restart, um herdeiro incômodo para os pretensos "punks" da 89, uma vez que a imagem do grupo está sempre associada a um público similar àquele que aprecia gente como Justin Bieber e One Direction.

Só que ninguém deve se esquecer que o próprio CPM 22 havia lançado a expressão "emo" para definir o seu som, na medida em que seu "rardicór" começava a incomodar os verdadeiros fãs de punk hardcore na medida em que o repertório do grupo carecia de politização e indignação social.

Quando muito, via-se nesse "rardicór" de apelo radiofônico letras de vagas contestações sociais, que não determinavam problemas nem a quem se deveria criticar. Quando muito, falava-se mal de "playboys" e "políticos corruptos", sem "dar nome aos bois", só para aquecer uma pseudo-rebeldia necessária para manter as aparências.

Dessa maneira, mantém-se todo o verniz de rebeldia que garante até mesmo o pavio curtíssimo dos adeptos da 89 FM e congêneres. Esse aparato de rebeldia é um álibi para esconder o caráter ultrarreacionário desses jovens, dando a impressão de que a rebeldia juvenil se expressa intata.

Mas as letras de vagas contestações sociais, não apresentando questões nem culpados definidos, não trazem qualquer impacto, não ameaçam o "sistema", não mostra uma causa, não traz incômodo, e ao mesmo tempo em que imobiliza a juventude para causas realmente importantes, pode por outro lado desviar os jovens a embarcar em causas reacionárias defendidas em falsas militâncias.

A 89 está mais próxima da viva Yoani Sanchez do que do morto Che Guevara, no que se diz ao "modelo" de rebeldia que promove em sua programação, a partir de sua catarse roqueira alimentada sobretudo pelo seu "rardicór" que só garante o sono das classes dominantes.

sábado, 30 de março de 2013

A AMEAÇA DO FIM DO BLOGUE VIOMUNDO


Por Alexandre Figueiredo

Pressionado pelo processo judicial movido pelo jornalista Ali Kamel, que não gostou de ser chamado de "todo-poderoso do jornalismo da Globo", o jornalista Luiz Carlos Azenha, que tenta recorrer da condenação de indenizar Kamel por uma quantia de R$ 30 mil por "campanha difamatória", anunciou que está pensando em encerrar o blogue que ele mantém, o Viomundo.

O Viomundo, juntamente com o Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, e Escrevinhador, de Rodrigo Vianna, compõe a trincheira de luta contra a mídia monopolista. E seus esforços de combater o poderio midiático de Globo, Folha, Abril e similares acabam eventualmente provocando a reação desses monopólios através de processos "por danos morais" contra esses blogueiros.

Figuras como Diogo Mainardi e Ali Kamel, além da Folha de São Paulo, tornaram-se famosos não somente por processá-los, mas também de processar outros blogues parceiros, como Doladodelá, de Marco Aurélio Mello, e o humorístico Cloaca News, de um gaúcho barbudo conhecido como Sr. Cloaca.

A blogosfera progressista, como se tornou conhecida, passou a ser um fenômeno de mídia na medida em que trazia uma gama de informações e uma abordagem diferentes do que os grandes veículos de mídia transmitem. A força da Internet, neste caso, permitiu uma transformação nos meios de comunicação de tal forma que a grande mídia passou a ser abalada com isso.

Jornalões passaram a sofrer prejuízo nas vendas nas bancas e nas assinaturas. Revistas associadas idem. Rádios FM passaram a sofrer quedas vertiginosas de audiência e emissoras de TV aberta simplesmente perdem milhares de telespectadores a cada ano.

A blogosfera atuou de forma tão diferenciada que nem mesmo a instantaneidade radiofônica, antes o diferencial absoluto dos meios de comunicação, foi imune a esse abalo. Afinal, o que é a instantaneidade se uma notícia dada em primeira mão só possui exclusividade por poucos segundos e, aperfeiçoada por terceiros, faz seus primeiros divulgadores caducarem num pioneirismo esquecido?

E, além do mais, noticiários televisivos, telejornais e emissoras de rádio all news mais parecem hoje versões ampliadas do "gilette-press", que eram aqueles boletins mofados de rádio, diante da abrangência da blogosfera progressista. E, não bastasse isso, o "opinionismo" da velha grande imprensa só rumava para abordagens reacionárias, contrárias ao interesse público, apegadas a interesses dos donos do poder.

Jornalistas que trabalharam na Globo como Amorim, Azenha, Vianna e Mello sabem muito bem que a grande imprensa está caducando. Eles tentam criar um contraponto com suas atuações na Rede Record, mas são desprovidos de ilusões. Sabe-se que a Rede Record é muito longe de ser uma rede progressista como foi a TV Excelsior, mas pelo menos eles têm uma liberdade de atuação que a Globo não lhes daria.

TRUCULÊNCIA "GLOBAL"

A aparente decisão de Azenha de encerrar seu blogue acaba se tornando uma denúncia da censura que a blogosfera progressista sofre da Internet. Acaba expondo a prepotência do poder midiático em preservar seus interesses e privilégios, além de manter uma hegemonia que se perde a cada dia, já que até mesmo pessoas não muito progressistas já começam a duvidar da credibilidade da Globo.

O Jornal Nacional, há muito tempo, deixou de ser o telejornal mais visto e mais influente do país. Outros programas da Globo, como Fantástico, Esporte Espetacular e mesmo o badalado Big Brother Brasil e os lúdicos Domingão do Faustão e Caldeirão do Huck, perdem boas fatias de audiência.

Azenha ouviu horrores do jornalismo da emissora, sobretudo manobras noticiosas que envolveram a cobertura jornalística das eleições de 2006, que evitavam divulgar sobretudo denúncias contra políticos de PSDB envolvidos em corrupção ou mesmo contra figuras estratégicas como o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

O que Azenha define como "assassinato de caráter" tornou-se a regra da grande mídia, cada vez mais comprometida nos interesses empresariais em declínio, como um efeito de reação contra as transformações vividas na sociedade brasileira nos últimos dez anos.

Daí a preocupação da grande mídia em criar novos meios de apoio ao seu poderio, chegando até mesmo a ressuscitar a "rádio rock" 89 FM, de um empresário historicamente ligado a Paulo Maluf, como uma forma da Folha de São Paulo, que se tornou sócia da rádio, buscar suas últimas bases de apoio na juventude brasileira.

A grande mídia reage de todas as formas para que seus impérios, construídos sobretudo com o apoio que elas derem à ditadura militar, não sejam abalados. Sabem seus donos que a blogosfera têm um poder de pressão social antes nunca imaginado, e se a presidenta Dilma Rousseff anda condescendente com os barões da mídia, os blogueiros progressistas pressionam a cada dia pela regulação democrática da mídia.

As grandes empresas de comunicação já não conseguem mais se camuflarem para se confundir com o interesse público. O chamado "quarto poder" agora é posto em xeque, e o episódio com Luiz Carlos Azenha, um dos cinco processados por um único Ali Kamel - PHA, Marco Aurélio, Luís Nassif e Sr. Cloaca são outras vítimas - só revela essa truculência "global" que tempera o cardápio grão-midiático.

Só que, mesmo com as vitórias judiciais, a grande mídia não evitará o desgaste. A arrogância com que a grande mídia comemorará tais vitórias irá expor seu autismo cínico e sua prepotência, e só distanciará ainda mais esses jornalistas a serviço dela dos interesses da sociedade, pois a cada dia é mais difícil eles esconderem o conflito entre os interesses empresariais da mídia e o interesse público de nossa sociedade.

Fica aqui nossa solidariedade com o Viomundo e com o profissionalismo de Luiz Carlos Azenha e outras vítimas da truculência midiática.

ALI KAMEL E A CENSURA "LEGALISTA"


Por Alexandre Figueiredo

Na semana passada, o blogueiro e jornalista Luiz Carlos Azenha foi condenado a indenizar o Diretor de Jornalismo e de Esportes da Rede Globo, Ali Kamel, no valor de R$ 30 mil reais, por uma suposta campanha difamatória na qual Kamel é acusado de ser o "todo-poderoso da Globo".

Kamel anda chorando na Justiça e arrancando algumas vitórias por causa disso. A julgar pelo que a Justiça entende dos processos que Kamel e seu advogado lançaram contra blogueiros, ele é apenas um jornalista membro de uma equipe editorial que pretende transformar o jornalismo da Globo num processo transparente e objetivo, na qual a imparcialidade e o interesse público seriam respeitados.

Só que sabemos que a coisa não é assim e Kamel pretendia, com tais processos, arrancar mais de R$ 100 mil reais, pelo menos, dos cinco blogueiros que processou: Paulo Henrique Amorim, Luís Nassif, Luiz Carlos Azenha, Sr. Cloaca e Marco Aurélio Mello. O processo contra este foi "comemorado" até pela revista Veja.

A Globo é famosa pelo seu jornalismo ao mesmo tempo domesticado e conservador, em que não obstante assume posições contrárias aos interesses públicos, quando elas ferem interesses associados ideologicamente ao capitalismo neoliberal. É evidente que a Globo não tem a virulência de Veja, por exemplo, mas seu conservadorismo já mostrou pontos bastante delicados.

É o caso da edição de imagens sobre o massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996. A impressão que se dava, através da versão do Jornal Nacional, é que um bando de agricultores arruaceiros armados de foices e facões ameaçava a polícia que, pacificamente, tentava fazer a segurança do local e teve que atirar contra os manifestantes, exterminando vários deles.

Só que o fato que realmente aconteceu foi a repressão policial, a bala, a uma manifestação de trabalhadores rurais, históricas vítimas da precarização do trabalho e da opressão coronelista. Só depois a visão pró-policialesca do massacre de Eldorado dos Carajás foi minimizada, com reportagens "corretas" sobre julgamento e condenação de envolvidos.

Ali Kamel acha que está fazendo um bem para a humanidade promovendo um jornalismo asséptico, em que a espetacularização da informação é a sua caraterística maior. E não gosta quando é largamente criticado, sobretudo por jornalistas que haviam trabalhado na Globo e mudaram de plano ideológico, agora fazendo pesadas críticas a ele.

Kamel parece não ter senso de humor, e sozinho faz o mesmo que a Folha de São Paulo faz contra os irmãos Mário e Liro Bocchini. Usa alegações "justas" para mover tais processos, numa censura "legalista" contra a blogosfera. Os blogueiros processados, todos, já enviaram recursos contra as sentenças.

Em seus processos, Kamel rebate Mello por acusações ofensivas de cultivo de drogas. Rebate Sr. Cloaca e Rodrigo Vianna por comentários irônicos sobre a homonímia entre ele e um ator de pornochanchadas. Rebate Luís Nassif porque ele criticou duramente Kamel por um artigo em que este defendia cegamente o capitalismo.

Além disso, condenou Paulo Henrique Amorim pelas piadas que ele fazia em relação ao livro de Kamel, Não Somos Racistas (Ed. Record) e condenou Luiz Carlos Azenha por ele ter dito que Ali Kamel é o "todo-poderoso do jornalismo da Globo", sob a alegação, neste caso, de que Kamel não tem poder algum e que é apenas um integrante de uma equipe editorial e de uma cúpula de televisão.

Observando a fundo, não há motivo algum da Justiça dar causa a Kamel. Mas nós temos uma Justiça que mais parece ser refém da visibilidade dos detentores de poder. Existem dúvidas sobre o desfecho dado ao caso do "mensalão" sem investigações aprofundadas, independente de os acusados terem ou não se envolvido no esquema de corrupção de Marcos Valério.

Infelizmente, a grande mídia cria seus outros canais de expressão de poder. Tenta cooptar jovens através de "rádio rock" em São Paulo, tenta criar programa em TV educativa, tenta usar a Justiça para defender seus interesses. Entre oportunismos e censuras, os barões da mídia usam todos os artifícios para se manterem no poder, resistindo como podem às mudanças que acontecem no nosso país.

O problema é que, neste cenário propício para a regulação da mídia, o governo Dilma Rousseff nem sequer sinaliza com promessas. Deixa a mídia ladrar e morder e ainda dá gorjeta. A blogosfera e a mídia alternativa é que acabam sofrendo com isso.

sexta-feira, 29 de março de 2013

A REVISTA VEJA ESTÁ MESMO ENCALHANDO


Por Alexandre Figueiredo

A grande mídia está em crise. TVs perdendo audiência, rádios FM perdendo mais ainda - apesar do coro contrário do corporativismo nos fóruns e colunas de rádio na Internet - , e jornais e revistas perdendo leitores.

É sintomático que veículos de comunicação que apostam em valores retrógrados e indiferentes ao interesse público sigam esse caminho de decadência, porque não conseguem mais prender a atenção do público que está ocupado em seus afazeres.

Pois a revista Veja, a mais reacionária desses veículos que expressam o pensamento conservador de uma aristocracia empresarial brasileira, mais uma vez demonstrou que está fracassando nas vendas de seus exemplares.

Nesta semana, em que entra a edição do próximo dia 03 de abril - há um crédito antecipado de data, hábito comum nas revistas semanais de informação - , foi observada, numa banca bastante movimentada em Niterói, uma enorme pilha de exemplares da edição anterior, do dia 27 de março, com uma capa chamativa para seu público, que é a posse do novo papa, Francisco I.

E isso numa semana santa, de tradição católica, em que a edição em questão poderia ter vendido feito água. Mas a pilha estava toda lá. E evidentemente a situação não deve ser diferente em outras bancas do país, onde é fácil encontrar exemplares da semana anterior nas bancas. Na banca pesquisada, os exemplares encalhados eram em torno de 12 (!).

Veja tenta ampliar seus canais, assim como a Folha de São Paulo. Se o jornal dos Frias tenta expandir sua influência através de um programa da TV Cultura e através de uma "rádio rock", a UOL 89 FM, em apoio a um antigo empresário malufista dono da rádio, Veja tenta criar seu canal através das televisões que são transmitidas em ônibus, terminais de transportes e edifícios comerciais.

Veja decai pelo desprezo absoluto que dá ao interesse público. Contrária aos interesses de trabalhadores, estudantes, ativistas sociais e populações indígenas, a revista chegou a ironizar a união das tribos indígenas em texto referente à expulsão dos índios na Aldeia Maracanã, no Rio de Janeiro.

Reinaldo Azevedo é o principal astro de Veja, e dispensa comentários. Escreve como troleiro, em certos momentos parece saltar raiva em suas palavras. E como ele é carro-chefe da revista, ele é o que mais faz afundar a publicação, que pode não ter sido lá muito progressista, mas já teve dias bem melhores, sobretudo com o admirável profissionalismo de gente como Mino Carta, hoje na Carta Capital.

Portanto, se a revista Veja passar a ser distribuída de graça, não estranhe. É porque a revista anda encalhando muito que um dia vão fazer isso mesmo. Os Civita são ricos demais, mas para freiar o prejuízo, são capazes até de oferecer uma revista dessas com brinde.

EDUARDO CAMPOS E O CARNAVAL "EX-QUERDISTA"


Por Alexandre Figueiredo

Um assunto bastante corrente nos círculos esquerdistas é a possível guinada ideológica do governador pernambucano Eduardo Campos, do PSB, preparando as coligações para sua possível campanha presidencial para 2014.

Para quem não sabe, Eduardo Campos é neto do falecido político pernambucano Miguel Arraes, que havia governado Pernambuco naqueles períodos turbulentos entre a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, e o golpe militar de 1964.

Miguel Arraes estava presente no comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964, que despertou a fúria direitista que permitiu às Forças Armadas tirar Jango do poder e governar o Brasil por 21 anos. Ironicamente, uma figura que estava no comício migrou justamente para o outro lado.

Afinal, o jovem paulista José Serra, presidente da UNE naquele 1964, foi o símbolo da esquerda que mudou de lado, pois, do antigo líder estudantil que havia estado ao lado de Miguel Arraes e Leonel Brizola no apoio a Jango, converteu-se num direitista que, na última campanha eleitoral de 2010, se entrosou com membros ultradireitistas da Opus Dei e do (ainda existente) Comando de Caça aos Comunistas.

Há muito Serra representa o obscurantismo político, havendo muito mais semelhanças entre ele e o personagem de desenho animado de Matt Groening, o sinistro Sr. Burns do seriado Os Simpsons, do que o desenho facial.

Serra tornou-se, ao lado de Geraldo Alckmin, símbolo do que há de mais retrógrado no PSDB. Neste sentido, Aécio Neves pelo menos nos diverte por ser um figurão um tanto "festivo", misto de boêmio com "pegador".

Mas Serra também representa o símbolo do "ex-querdismo" que surpreende as esquerdas menos prevenidas, traídas pelos entulhos abandonados pela memória curta - como no caso de Mário Kertèsz, o filhote da ditadura baiano que tenta a todo custo cooptar as esquerdas locais para seu domínio - ou pela mudança repentina de posturas, como no caso de Fernando Gabeira.

Dos pseudo-esquerdistas - até mesmo pouco convincentes, como o mineiro Eugênio Arantes Raggi - aos direitistas "zangados", as armadilhas dispostas a derrubar as forças progressistas de esquerda estão armadas. E quando o então presidente Lula representava o paradigma da "gente simples", entre 2003 e 2006, o número de falsos esquerdistas no Brasil era bem maior.

Tinha gente que nunca leu um livro de Karl Marx e bastava gostar de Lula para se dizer "marxista". E muitos falsos esquerdistas pegavam carona em símbolos e fenômenos ligados ao esquerdismo, assinando Carta Capital e seguindo Emir Sader no Twitter.

Tinham uma perspectiva de compreensão da cultura popular e das classes populares digna de adidos do PSDB, mas tinham que reagir com gracejos quando alguém os chama de "tucanos enrustidos". O gracejo é uma forma de um acusado ridicularizar o acusador, sem desmentir as acusações que este lhe faz, não obstante verídicas.

E agora o circo se arma dos dois lados, com o PSD "ressuscitado" por Gilberto Kassab para diminuir a ferocidade demotucana da direita associada, e a "Rede" de Marina Silva ideologicamente vaga, mas repleta de demotucanos dissidentes e esquerdistas "indignados". Mas agora vemos o governador de Pernambuco ser cortejado acima da medida pela grande mídia e pela direita política.

Eduardo Campos governava como um peemedebista, mas recentemente é cortejado pela mídia dominante, de tendência demotucana, como a "terceira via" da corrida presidencial, provavelmente a ser dedicida entre Dilma Rousseff, que sinaliza querer a reeleição, e um político tucano, do qual Aécio Neves parece ser a aposta mais "moderna".

O problema é que o assédio da grande mídia a Eduardo Campos, feito sobretudo pela Folha de São Paulo, além do assédio político dos demotucanos. Roberto Freire, também pernambucano e ex-comunista que preside o PPS, já era amigo dos "caciques" do PSDB e recentemente se reuniu com Eduardo Campos para tratar de rumos de sua carreira política.

Portanto, o "socialista" Eduardo Campos parece promover uma euforia maior do que a festa, na grande mídia e na política direitista entre si associadas. Ele se lança como se fosse uma celebridade política, sem qualquer programa definido, a não ser pelas propostas vagas e assépticas de "cidadania" e "progresso" que a ninguém empolga nas propagandas partidárias.

Trata-se, portanto, de um carnaval "ex-querdista", que pode se tornar um aglutinador de pseudo-esquerdistas que não conseguiram enganar as esquerdas e de direitistas "indignados" que agora abraçam causas sociais que, no fundo, nunca se interessariam em assumir pra valer. E vamos ver como se dará essa "folia política" nos próximos meses, perto de se desenhar o quadro sucessório para 2014.

quinta-feira, 28 de março de 2013

BIG BROTHER BRASIL: AUDIÊNCIA CAI, LUCROS CRESCEM


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O Big Brother Brasil deste ano não foi tão polêmico quanto o anterior, mas segue em sua lenta decadência. O programa é difícil de ser derrubado, ante os interesses empresariais e midiáticos ao todo e ao apoio explícito da mídia "popular".

Mas dá para perceber o seu desgaste, por mais que o espaço que, por exemplo, o programa da Globo Mais Você, deu ao encerrado programa tenha tentado dar um falso tom saudosista ao mesmo, já dá para perceber que o formato não tem mais o que dizer. E a decadência é tanta que alguns pacotes da TV por assinatura tentaram promoções relacionadas ao programa, chegando a liberar alguns canais específicos.

BBB-13: audiência cai, lucros crescem

Por Altamiro Borges - Blog do Miro

Finalmente chegou ao fim, ontem à noite, a 13ª edição do Big Brother Brasil, da TV Globo. Dados preliminares indicam que este foi o pior BBB em termos de audiência. Mesmo assim, o programa voyeurista e consumista, que explora e estimula os piores instintos da sociedade, garantiu muita grana para a famiglia Marinho. Dois artigos de Keila Jimenez, da Folha, que acompanha os bastidores da televisão brasileira, confirmam este fenômeno contraditório: queda de audiência e aumento dos lucros.


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Outro canal – 27 de março de 2013

Keila Jimenez

“Big Brother Brasil” perde metade de seu público

O “Big Brother Brasil 13” encerrou ontem a sua passagem pela TV Globo seguindo a tendência de queda de audiência da atração, que acontece ano a ano.

Segundo dados do Ibope, a média geral do “BBB 13” da estreia até o dia 24 de março (domingo) foi de 23,6 pontos de audiência. Cada ponto equivale a 62 mil domicílios na Grande São Paulo.

Esse índice é a metade da média de audiência da quinta edição do programa, o "BBB5", exibido em 2005, que bateu recorde de público, alcançando média de 47,5 pontos de audiência.

O “BBB 5”, vencido pelo hoje deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), também surpreendeu a Globo em share (participações no total de televisores ligados), com 69,7%. Sete em cada dez televisores ligados no horário estavam sintonizados na atração.

Mesmo com o faturamento sempre em alta, o programa veio sofrendo perdas anuais de audiência.

Mas as maiores quedas vieram mesmo após 2008. O confinamento na TV passou de 37,2 pontos de ibope (“BBB 8”) de audiência para 25,3 pontos de média (“BBB 12”). A atração perdeu mais de dez pontos de Ibope em apenas quatro anos.

Mesmo assim, a 14ª edição do reality show já está garantida na programação da Globo em 2014.

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Outro canal – 06 de fevereiro de 2013

Keila Jimenez

“BBB 13” tem o triplo de merchandising do “BBB 12”

Cansado das edições anuais do "Big Brother Brasil"? Se a longevidade do reality show for condicionada ao seu faturamento, o formato terá vida longa na TV Globo.

Apesar de seguir a tendência de queda de audiência vista a cada edição, o “BBB 13” já contabilizou o triplo de ações de merchandising em comparação ao “BBB 12”.

Segundo a Controle da Concorrência, empresa que monitora inserções comerciais para o mercado, do dia 8 de janeiro (data de estreia) ao dia 3 de fevereiro, o “BBB 13” exibiu merchandising 309 vezes, ante 106 do “BBB 12” no mesmo período.

Há quase um mês no ar, a nova edição da atração já tem 11 anunciantes diferentes apostando nesse tipo de ação. No mesmo período, nove anunciantes fizeram merchandising no “BBB 12”.

Entre as marcas presentes nas duas edições estão: Ambev, Fiat, Carrefour e Unilever.

Mas ter o pote de margarina no café da manhã do confinamento, em rede nacional, não sai barato.

Uma única ação de merchandising dentro casa do “BBB” custa em média R$ 3 milhões.

É por essas ações e milionários patrocinadores que o reality show ainda figura como um dos programas de curta duração (três meses) com o maior faturamento na TV.

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O reality show já foi um fenômeno mundial, sendo exibido em vários países. Atualmente, a maioria deles já superou esta fase e o BBB sumiu das telinhas. No Brasil, onde a qualidade da tevê aberta é cada dia mais deplorável, o programa já dura 13 anos e deve continuar seduzindo os telespectadores com seus gemidos e diálogos emburrecedores. A famiglia Marinho enriquece e agradece! 

O APOIO QUE LUCIANO HUCK DÁ AO "FUNK CARIOCA"


Por Alexandre Figueiredo

"Funk é o Caldeirão". A famosa gíria funqueira não veio por acaso, pois a gíria, que quer dizer algo como "o 'funk carioca' é o máximo", se inspirou claramente no programa Caldeirão do Huck, apresentado pelo insuspeito Luciano Huck e transmitido para todo o Brasil pela Rede Globo de Televisão.

Enquanto uma parcela da intelectualidade acreditava, numa possível desinformação, que o "funk carioca" era discriminado pelas corporações da grande mídia, uma figura como o Mr. Catra, só para citar um nome de grande sucesso no gênero, já era familiarizado com o cenário do Caldeirão do Huck.

O pior é que enquanto a "boa intelectualidade", que se gabava de "muita inteligência" e "compromisso social", ignorava o que milhares de telespectadores viam em rede nacional, Luciano Huck já encomendava até mesmo uma coletânea de "funk carioca", o Pancadão do Caldeirão do Huck, lançado pela Som Livre, braço fonográfico das Organizações Globo.

Na semana passada, Luciano Huck concentrou todas as atenções ao seu segundo "amigo de infância", o citado Mr. Catra (ou MC Catra, para diversificar a busca do Google), já que o primeiro "amigo de infância" é o conhecido neto de Tancredo Neves, o bon vivant Aécio Neves.

O motivo da última edição do Caldeirão do Huck foi o nascimento do novo filho de Mr. Catra, o 22º de uma família poligâmica, um exemplo de como um meio machista como o "funk carioca", a exemplo de todo o brega-popularesco, tenta travestir seu conservadorismo com valores "modernos" ou "polêmicos", como no caso o suposto "amor livre".

Uma longa entrevista foi feita com o funqueiro, além de mostrar várias imagens de sua carreira, embora ele não tenha sido o assunto único do programa. Mas ele dá uma amostra do óbvio: Luciano Huck dá um grande aval ao "funk carioca", queiram ou não queiram aqueles que ainda sonham que o ritmo é "boicotado" pela grande mídia.

E, sabendo que Luciano Huck, amicíssimo de Aécio Neves, afiliado do PSDB e muito querido até pela revista Veja que condena tudo que é movimento social (e no entanto exalta MC Naldo e Gaby Amarantos), já dá para perceber o quanto o "funk carioca", tido como "injustiçado", está muito bem entrosado com o establishment da grande mídia.

E o Grupo Abril também dá seu aval aos funqueiros, através de eventuais inserções em Caras e na propaganda nas revistas Contigo e Ti Ti Ti, além da Superinteressante que foi a "casa" de Leandro Narloch ter publicado um artigo que chamou as funqueiras de "feministas". 

Luciano Huck apoia não somente o chamado "funk comercial", mais animado e cercado de popozudas, mas também o chamado "funk de raiz" que mais carrega na imagem de "discriminado". Para Huck, todas as tendências do "batidão" ou "pancadão" têm cadeira cativa no seu programa, daí os funqueiros agradecerem usando a gíria "É o Caldeirão" inspirada no seu programa.

O apoio "global" ao "funk" ainda se estende à 98 FM (atual Beat 98) que sempre apoiou o "funk carioca" e fez provar por A mais B que até mesmo o magnata DJ Marlboro, outro que adora posar de "pobretão" e "injustiçado", foi muito favorecido em sua carreira pela famiglia Marinho.

A Globo gosta do "funk carioca". A Folha de São Paulo, também. E, pelo jeito, o PSDB também se amarra num "pancadão", e o ritmo carioca prova estar muito mais próximo da Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso do que do Movimento Antropofágico de Oswald de Andrade. Até porque Hermano Vianna, o maior propagandista do "funk", surgiu do meio.

E aí PSDB, Organizações Globo, Grupo Folha e Grupo Abril dão todo seu aval ao "funk carioca". E Luciano Huck é um dos astros mais entusiasmados nessa defesa aos funqueiros. Não há como afirmar que o "funk" esteve ou está fora da mídia, com esse apoio de peso, que salta aos olhos de qualquer um. Os barões da mídia também são "o caldeirão".

quarta-feira, 27 de março de 2013

SENADO APROVA PEC DAS DOMÉSTICAS E AMPLIA DIREITOS DAS TRABALHADORAS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Os empregados domésticos, que incluem não somente as empregadas propriamente ditas, mas também motoristas particulares e diaristas, conseguiram novas conquistas sociais que os equiparam a trabalhadores comuns, com direito a uma carga horária de oito horas e outras garantias. Ainda está longe do ideal, mas representa uma transformação significativa para a classe.

Senado aprova PEC das Domésticas e amplia direitos das trabalhadoras

Por Mariana Jungmann - Portal da Agência Brasil

Brasília - O Senado aprovou hoje (26), em segundo turno, a proposta de emenda à Constituição (PEC) que estende aos empregados domésticos todos os direitos dos demais trabalhadores regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Foram 66 votos favoráveis e nenhum contrário.

A PEC das Domésticas, como ficou conhecida a proposta, garante a essa classe trabalhadora o direito, entre outras coisas, a ter recolhido o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e a receber indenização em caso de demissão sem justa causa. A indenização, no entanto, deverá ser regulamentada posteriormente por projeto de lei complementar.

Os empregados que trabalham em domicílios, caso de faxineiras, jardineiros, cozinheiras e babás, por exemplo, também passam a ter a jornada máxima de trabalho estabelecida em oito horas diárias e 44 horas semanais. Em caso de o serviço se prolongar para além desse período, eles também passam a ter direito ao recebimento de horas extras de 50% a mais que o valor da hora normal e adicional noturno de 20%, no caso de o trabalho ocorrer após as 22h.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) aponta que existem atualmente cerca de 6,6 milhões de trabalhadores domésticos no Brasil, sendo 92,6% deles mulheres. Apesar de mostrar o receio de que as empregadas domésticas caiam ainda mais na informalidade com o aumento dos custos da contratação para os patrões, os senadores oposicionistas também apoiaram a aprovação da PEC.

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) disse que a nova fase de transição vai “demandar cuidado e atenção”, mas que o Brasil está fazendo um avanço. “Hoje, de fato e não apenas na retórica, nós damos um passo para nos aproximarmos dos países desenvolvidos”, disse Aécio.





A presidenta da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas, Creuza Maria Oliveira, acompanhou a votação e disse não acreditar em aumento do desemprego ou da informalidade. “Não acredito no desemprego, ele ocorre quando o salário aumenta. Vai haver uma acomodação do mercado”, disse. Para ela, isso compensa porque se trata de “uma conquista de quase 80 anos”.

A Secretaria Especial de Políticas para a Mulher (SPM) também acompanhou de perto a votação. A ministra Eleonora Menicucci compareceu ao Senado, mas deixou as declarações a cargo da secretária de Autonomia Econômica das Mulheres, Tatau Godinho. Para ela, a ampliação de direito não pode ser vista como um “problema” e a PEC não vai significar um aumento importante dos custos para quem já paga os direitos trabalhistas das domésticas.

“O que aumenta efetivamente é a obrigatoriedade do FGTS. Aqueles empregadores que cumprem a legislação, esses já pagam décimo terceiro salário, férias, INSS, já cumprem com a jornada de 44 horas semanais. São direitos que já existiam. Então para esses, o aumento é muito pouco”, disse.

O presidente do Congresso Nacional e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), disse que a promulgação da PEC será feita em uma sessão solene na próxima terça-feira (2).

A ARROGÂNCIA DE GUSTTAVO LIMA E A FRAGILIDADE DE MORRISSEY


Por Alexandre Figueiredo

Nas últimas semanas, dois cantores de universos bastante antagônicos haviam feito declarações sobre suas carreiras musicais, dentro de uma época em que a música de qualidade, mesmo no exterior, torna-se a cada ano mais rara de se ver.

O cantor inglês Stephen Patrick Morrissey, ou apenas Morrissey, que havia feito parte da excepcional banda de rock alternativo The Smiths, nos anos 80, andou sofrendo, nos últimos anos, sérios problemas de saúde. Perto de fazer 54 anos (daqui a dois meses), Morrissey admitiu em entrevistas recentes que sofre o efeito da idade e que, mesmo a contragosto, pretende se aposentar em 2014, por conselho médico.

A aposentadoria de Morrissey foi um baque que os fãs de música de qualidade sofrem, depois que o grupo norte-americano R.E.M. (de estilo melódico próximo dos Smiths) anunciou sua extinção, há dois anos. O que traz um grande impasse sobre os rumos da música de qualidade, que, não bastasse isso, já sofre as mortes de diversos artistas.

Enquanto isso, no Brasil, o cantor breganejo Gusttavo Lima - dos "expressivos" versões "tchê-tchêrerê-tchê-tchê, tchê-tchêrerê-tchê-tchê" - fez um "desabafo" para a imprensa depois de, durante uma apresentação, ter dito para a plateia que "não aguentava mais" e que aquela seria uma de suas últimas apresentações em 14 anos de carreira.

A declaração sobre o possível abandono da carreira musical foi dada na cidade de Iperó, interior paulista. Pouco depois, porém, ele declarou no YouTube que não vai abandonar a carreira e, de uma forma arrogante mas "triunfalista", vai continuar atuando por muito tempo, através dessas palavras:

"O meu maior sonho eu consegui, que era fazer minha música, o meu som fazer parte e virar trilha sonora da vida das pessoas. Se eu cheguei até aqui, não vai ser agora que eu vou desistir, o sonho não pode acabar... Aos meus fãs, jamais vou deixar vocês, e, aos que não gostam do Gusttavo Lima, ééé vão ter que me aturar por muitos e muitos anos".

Até aí, nada demais, afinal Gusttavo Lima é um dos carros-chefes do moderno hit-parade brasileiro, que trabalha ídolos como ele, Ivete Sangalo, Michel Teló, Luan Santana, MC Naldo e Thiaguinho com as caraterísticas explícitas da música comercial norte-americana, adaptada às caraterísticas brasileiras, que adotam, por exemplo, medidas "peculiares" como o lançamento sucessivo de CDs e DVDs ao vivo.

Só que o que Gusttavo Lima vai produzir em sua carreira, em qualidade e quantidade, não se comparará com Morrissey, cuja música, no caso brasileiro, tornou-se mais influente no som da Legião Urbana. Isso porque a música de Gusttavo Lima é de valor duvidoso, algo como uma releitura "emo" do já indigesto breganejo de Chitãozinho & Xororó e quejandos.

Além do mais, Morrissey tinha uma boa produtividade musical e era um dos poucos cantores que faziam turnê pelo simples gosto de divulgar sua música, sem qualquer contrato de gravadora nem uma campanha publicitária prévia. E as apresentações, incluindo o Brasil, lotavam o público sem qualquer apelação, tudo era divulgado informalmente, no contato verbal de cada pessoa.

Já Gusttavo Lima é daqueles ídolos brega-popularescos que são meros lotadores de plateias e só. Não oferecem uma música de qualidade e essa facilidade de lotar plateias é impulsionada pela pressão publicitária da mídia associada.

Gusttavo, além disso, é queridinho das Organizações Globo, contratado pela Som Livre e, além de representar o comercialismo explícito do hit-parade brasileiro, simboliza uma concepção ideológica de "cultura popular" defendida pelos cãs Marinho, Frias e Civita e corroborada pela intelectualidade etnocêntrica "sem preconceitos", mas bastante preconceituosa.

A fragilidade da saúde de Morrissey contrasta com sua força artística de cantor que não precisa da mídia para ser popular, mas graça ao seu talento de cantor, letrista e personalidade íntegra, além de estar cercado de excelentes músicos e compositores de melodias. Pela vontade dele, ele seguiria sua carreira, mas sua saúde frágil faz ele ter que seguir a exigência médica de abandonar sua carreira.

Já Gusttavo continuará por "muitos e muitos anos" gravando basicamente CDs e DVDs ao vivo, com parca produção musical, já que os discos conterão sempre os mesmos sucessos e alguns covers, de uma forma repetitiva levemente interrompida com pequenas variações.

Talvez Gusttavo sofra o mesmo medo dos medíocres: o de virar passado. Porque quem tem talento de verdade pode desaparecer (morrendo ou se aposentando) que a posteridade lhe garante algum lugar na memória das pessoas. Já quem é medíocre se revolta em, caso se aposente ou morra, seja apagado pelo esquecimento que o julgamento do tempo faz a quem nada faz de importante.

Daí não só um Gusttavo Lima, um Chiclete Com Banana, um Chitãozinho & Xororó, um DJ Marlboro tenham que permanecer no presente para não morrerem, mesmo vivos, no passado. Ou mesmo uma 89 FM, ou uma Solange Gomes, ninguém quer virar passado. Os medíocres querem permanecer presentes, no carreirismo de sua inutilidade social, porque, se eles pararem, cairão automaticamente no esquecimento.

No entanto, eles sofrerão sempre a concorrência daqueles que, virando passado por algum motivo na vida, deixaram uma grande marca que se mantém, de uma forma ou de outra, preservada na memória. Um Renato Russo, falecido há mais de 15 anos, consegue ser muito mais lembrado e amado que um Gusttavo Lima com um "caminho todo pela frente". Essa é a realidade.

terça-feira, 26 de março de 2013

INDIFERENTE AO CLAMOR POPULAR, PSC APOIA MARCOS FELICIANO EM COMISSÃO


Por Alexandre Figueiredo

Indiferente às pressões da sociedade pela queda do pastor Marcos Feliciano, o PSC (Partido Social Cristão) insiste em manter o apoio à permanência do deputado federal por São Paulo na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.

Segundo o presidente do PSC, Everardo Pereira, o deputado é "ficha limpa" e tem "odas as prerrogativas de estar na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias". O PSC não abre mão da escolha por Marcos Feliciano para a função e pediu aos líderes dos demais partidos políticos que respeitassem a decisão.

Ao aparecer hoje na Câmara dos Deputados, Marcos não disse se pretendia renunciar ou permanecer no cargo. Na semana passada, porém, o pastor havia afirmado que permaneceria na presidência da Comissão, desmentindo as acusações de racismo e homofobia que lhe fizeram fama.

No entanto, as pressões da sociedade pela saída do deputado foram expressas em muitas passeatas e declarações. Até mesmo a funqueira Valesca Popozuda, uma sub-celebridade midiática, pegou carona nos protestos contra o pastor deputado.

A situação parece não atingir o PSC nem o seu pastor que preside a CDHM. Como um partido satélite do fisiologismo do PMDB, o PSC é um partido de vagas pretensões ideológicas, fora o caráter "religioso" da sigla. E, usando o pretexto do "interesse público" e da "transparência" para defender seus interesses políticos, teme pela perda de representação com a saída de Marcos Feliciano.

No entanto, muita coisa ainda vai rolar. Se Marcos Feliciano continua presidindo a CDHM, sua situação fica cada vez menos tranquila no exercício da função.

89 FM E SUA "REBELDIA" MEDIEVAL


Por Alexandre Figueiredo

Só mesmo um país provinciano, historicamente marcado pelo coronelismo que domina a chamada "cultura popular", para achar que uma 89 FM é "rádio de vanguarda". Passado o deslumbramento cego pela volta de uma suposta "rádio rock", começa-se a questionar a emissora de forma mais imparcial, que chega mesmo a pôr em xeque toda aquela aura de fantasia e cor que envolvia a emissora.

Evidentemente, os adeptos da hoje UOL 89 FM - resultado da parceria das demotucanas famiglias Camargo e Frias - não gostaram disso e um blogue de humor e críticas sócio-políticas Expobesta (inspirado no Febeapá de Stanislaw Ponte Preta) foi infectado depois que um texto questionou a suposta rebeldia de um jovem cantar uma música dos Mamonas Assassinas num culto evangélico.


O hacker teria inserido um trecho de uma frase que um blogueiro do portal da UOL 89 FM escreveu no texto intitulado "Santos Mamonas Assassinas", em memória ao falecido grupo humorístico que, em termos de música e de atitude roqueiras, sempre foi um dos mais medíocres e inócuos. A frase corta a cabeça de um tópico mais recente, como se vê na imagem acima deste parágrafo.

Esse incidente dá o tom do extremo reacionarismo dos adeptos da 89 FM, e cujo teor já foi provado na Internet pelos seguidores da então afiliada da emissora paulista, a carioca Rádio Cidade. Um reacionarismo travestido de rebeldia roqueira, mas ideologicamente retrógrado e intolerante.

Imagine grupos de jovens que adotam um perfil intermediário entre emos, skinheads e torcidas organizadas de futebol. Ou imaginemos, como na foto no alto, o jornalista Reinaldo Azevedo, o pit-bull da revista Veja que escreve feito um trolleiro, fazendo papel de roqueiro radical. Está na cara que é uma falsa rebeldia de conteúdo medieval que pensa a "cultura rock" com o próprio umbigo.

PRIMEIROS "TROLEIROS" DA INTERNET DEFENDIAM 89 FM E SIMILARES

Esse é o perfil típico do "rebelde" trabalhado pela 89 FM, nos últimos 25 anos, um perfil que, certamente, não difere em coisa alguma da Juventude PSDB paulista ou do antigo Comando de Caça aos Comunistas que manchou a história do nosso país. E cujos jovens foram pioneiros na prática de trolagem, que é uma espécie de bullying feito na Internet.

O que salva de qualquer desmascaramento imediato dos pseudo-rebeldes da 89 FM (ou da Rádio Cidade, ou da UOL 89 ou outra associada) é o verniz de radicalismo que tentam ter. A rebeldia é apenas formal, sobretudo pelo temperamentalismo frágil dos "roqueiros" da 89, que se irritam à menor crítica, como se quisessem dizer "Veja como sou esquentadinho!! Cuidado comigo que eu ladro e mordo!!".

Se vestem de forma diversificada, em certos casos como universitários comuns, em outros como um misto de skatistas com rastafáris, e sempre falam um palavrão ou fazem alguma xingação contra um discordante. Aparentemente, são ideologicamente niilistas, mas deixam vazar algum reacionarismo extremo.

Esses "roqueiros" são capazes de algum pseudo-esquerdismo, como se dizerem "contra o Imperialismo" ou atacarem figuras como José Serra e George W. Bush, menos pelo seu reacionarismo do que pela imagem ridicularizada que eles têm da opinião pública. E se os clamores anti-FMI soam forçados e falsos, não menos falsa é a pretensa idolatria que alguns fazem por figuras como Che Guevara.

Afinal, Che está morto e é muito fácil idolatrá-lo, mas muita gente o faz da mesma forma que um caçador de um urso faz com o animal morto e transformado em pele empalhada. Há um riso secreto de alívio por ver Che morto, o que faz qualquer direitista extremo fingir admiração cordial a alguém que ele sabe não poder mais interferir em nosso cotidiano e ameaçar o privilégio da direita.

"REBELDIA" RETRÓGRADA

Mas a "rebeldia" logo deixa sua máscara cair quando há uma vaga indignação contra a corrupção política, que faz os jovens que apoiam a 89 mais próximos de movimentos como Cansei e Instituto Millenium do que de qualquer passeata dos movimentos sociais.

Isso pôde ser notado nos vários fóruns da Internet que a 89, a Cidade e congêneres eram temas ou então os próprios provedores do debate. Não raro um desses "roqueiros" aparecia para defender o fechamento do Congresso Nacional, generalizando a corrupção política, numa clara demonstração de vocação golpista travestida de "rebeldia radical".

O ultraconservadorismo desses "roqueiros" não pode ser confundido com o suposto conservadorismo atribuído aos chamados "puristas" do rock. Até porque a 89 FM está cada vez mais distanciada do rock clássico, porque sabe que não consegue enganar aos mais velhos, e chegou mesmo a ignorar os 70 anos de nascimento do ex-beatle George Harrison.

A emissora concentra suas atenções ao rock dos anos 90, sobretudo o poppy punk e o poser metal, tendências bastante comerciais. Concentra-se ainda mais nos critérios de hit-parade, restringindo ao extremo a divulgação de canções e intérpretes de rock, o que dá dúvidas sobre a credibilidade do rótulo "A Rádio Rock" inserido no logotipo em fonte gráfica de impacto.

Portanto, o conservadorismo está no que se diz a outros valores em volta da atitude rock, já que a 89 FM sempre procurou substituir a rebeldia autêntica e progressista, herdada da Contracultura dos anos 60 por um estereótipo intermediário entre o garoto Kevin dos filmes Esqueceram de Mim e o boneco Chucky dos filmes de terror.

Até mesmo as ações de cidadania são inócuas, sem fazer algo transformador. A "conscientização" política também é bastante vaga. Até mesmo os temas de punk rock "recomendados" pela 89 FM nunca vão além de críticas genéricas, vagas e indeterminadas.

Por isso o estereótipo de rebeldia da UOL 89 FM é muito perigoso. A rádio, para os olhos dos Frias, é tanto uma extensão de seus interesses de poder midiático quanto o programa TV Folha da TV Cultura. E poderá ser um polo de apoio político e ideológico para o demotucanato, no momento ocupado em assediar o apoio do esquerdista (ou ex-querdista?) Eduardo Campos, neto de Miguel Arraes.

Hoje o "roqueiro" da 89 esnoba do demotucanato, ri quando é acusado de "tucano". Mas esnobar não é desmentir, podendo ser apenas uma forma garantida pela pouca idade da juventude mascarar seus verdadeiros interesses. Mas o futuro sempre mostra que eles rumam sempre para o reacionarismo ideológico, quando se despirem dos ranços de juventude do seu verniz de rebeldia formal.

A própria Folha de São Paulo encampou esse apoio ao projeto da 89 - que esteve perto de ser vendida para uma seita evangélica - por estar preocupada com os rumos da juventude paulistana, que a cada dia rejeitam o demotucanato. Por isso, investiu na 89 FM para criar um arremedo de rebeldia juvenil, na tentativa de neutralizar e enfraquecer as mobilizações de quem luta por direitos humanos e sociais.

Por isso, a vontade da 89, e, por conseguinte, de toda mídia reacionária brasileira, é que "rebeldia" não seja lutar pela educação pública, pela reforma agrária, pela regulação da mídia, pelos direitos das mulheres, negros e índios, pelas melhorias sociais das classes trabalhadoras, mas tão somente fazer trolagem na Internet, falar palavrão ou então cantar músicas dos Mamonas Assassinas em cultos evangélicos. 

Subestimar o papel dessa falsa rebeldia é dar as chaves do futuro para a mesma ditadura midiática que a blogosfera se empenha em combater. É jogar na lata de lixo o futuro da verdadeira democracia no Brasil, aquela de interesse público e voltada à verdadeira cidadania.

Afinal, com o passado malufista dos donos da 89 e o presente demotucano que os acerca, não dá para esperar uma revolução juvenil a partir disso. Pelo contrário, virão novos Reinaldo Azevedo pregando valores anti-sociais que somente se adequam aos interesses das classes dominantes, e que historicamente trouxeram muitas injustiças e sacrifícios às classes populares.

segunda-feira, 25 de março de 2013

O RÁDIO "POPULAR": POLITICAGEM E CORONELISMO


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade etnocêntrica, supondo estar apoiando as classes populares, costuma defender o que aparece no rádio e televisão portáteis de suas empregadas domésticas ou dos porteiros de seus prédios. Acham que o entretenimento que eles curtem passivamente é a legítima demonstração da "cultura das periferias" que tanto pregaram em milhares de páginas, fitas, vídeos, arquivos HTM etc.

Tomados de uma campanha retórica sofisticada, em que até Marc Bloch e Tom Wolfe - para não dizer Antônio Conselheiro, Oswald de Andrade, Itamar Assumpção e Sérgio Ricardo - são usados para justificar a imbecilidade cultural dominante no país, eles tentam inocentar o poder midiático da manipulação popularesca do povo pobre.

Em compensação, é o povo pobre responsabilizado pelas barbaridades que aparecem na televisão, no rádio e na imprensa, e agora nas chamadas redes sociais da Internet. E o rádio, então, o "primo pobre" da mídia eletrônica, inverte sua situação subalterna com um discurso bem mais pretensioso do que as demais modalidades dos meios de comunicação.

E, no caso da politicagem, o rádio, sobretudo FM, vai fundo nesse discurso. A intelectualidade etnocêntrica, "sem preconceitos" mas muito, muito preconceituosa, tenta inocentar as rádios da breguice reinante, ou, pior, supervalorizam o suposto poder revolucionário dos programadores e gerentes das rádios, ocultando a realidade política e econômica que está por trás.

Sabemos que boa parte dessa "cultura popular" que vemos, glorificada por gente como Hermano Vianna e Paulo César Araújo, é resultante dos interesses de divulgação das rádios controladas por latifundiários e políticos ultraconservadores.

Elas veiculam valores retrógrados, juntando extremos como o moralismo rígido e a baixaria grotesca, o luxo exagerado e a falta de elegância, e criam um ideário da "cultura" brega feito para enganar o povo pobre, se aproveitando de sua ignorância.

Assim, a péssima digestão do moderno e do arcaico, do nacional e do estrangeiro, do rural e do urbano, do moral e do imoral e do provinciano e do global criam um sistema de valores sócio-culturais que criam uma "cultura popular" que não é aquela que faz parte da vida do povo, mas aquela idealizada por executivos de rádio, barões regionais da grande mídia e empresários do ramo do entretenimento.

A mídia que formatou essa "cultura popular" que os intelectuais badalados, de forma populista e paternalista, exaltam - com direito ao urubológico hábito de chamar quem reprova essas tendências popularescas de "elitista e preconceituoso" - foi impulsionada, de forma decisiva, pela politicagem feita por dois coronéis midiáticos, José Sarney e Antônio Carlos Magalhães.

Foi entre 1985 e 1987, quando Sarney era presidente e Magalhães o ministro das Comunicações. Eles deram de presente, a políticos e empresários "idôneos" que os apoiaram, concessões de rádio (sobretudo FM) e televisão feitas sem qualquer tipo de critério técnico, puramente a base do clientelismo.

Isso gerou efeitos nefastos para a cultura popular e para a transmissão de informações e prestação de serviço. Barões regionais da mídia se fortaleceram sem que os analistas da grande mídia tomassem real conhecimento, sendo pegos de surpresa quando alguns analistas de coração mole tentam apoiar algum barão da mídia "menos" reacionário e em posições secundárias do poderio midiático.

Isso criou problemas para a cultura popular, porque privilegiou aquelas músicas popularizadas pelo jabaculê e cuja permanência do sucesso fez até mesmo os públicos mais qualificados se acostumarem com a falsa MPB a que foram empurrados alguns ídolos neo-bregas veteranos, tendenciosamente "melhorados" pelos artifícios que incluem vestuário, publicidade, técnica e tecnologia.

Por outro lado, vieram sub-celebridades que nada têm a dizer que se mantém famosos a qualquer preço. Há também mulheres-objetos que só vivem para mostrar o corpo mas que, de vez em quando, precisam usar algum pretexto "nobre" para se autopromoverem.

A verdadeira cultura popular não veio na durabilidade dessas sub-celebridades, desses sub-artistas, dessas sub-musas. Pelo contrário, eles fortaleceram o poderio de donos de rádios, TVs e outros empresários do entretenimento e da mídia, enquanto víamos intelectuais invadindo até mesmo a mídia de esquerda para dizer que essa futilidade "não existe".

Existe, sim, e sobretudo pela influência das emissoras de rádio "populares", que conceberam uma visão caricata e preconceituosa do povo pobre, e que tudo fizeram, sobretudo nos últimos 25 anos, para transformar as classes populares em caricaturas de si mesmas.

Certo, não temos que ser preconceituosos em relação à cultura das classes populares. Mas o problema é que as rádios "populares" e a TV aberta é que desenharam, elas mesmas, uma visão preconceituosa do povo pobre. São elas é que difundem esse preconceito. E perder o preconceito não é apoiar essa mídia, mas questioná-la, nem que seja preciso questionar também os intelectuais mais badalados.

domingo, 24 de março de 2013

PARA ENTENDER A LEI DOS MEIOS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Há vários aspectos que a defesa da regulação midiática no Brasil ignora ou subestima, o que dá margem tanto a interpretações equivocadas, reações enérgicas e convictas de repúdio ou mesmo ao apoio oportunista de alguns poucos. Luiz Nassif esclarece alguns dos principais aspectos da chamada Lei dos Meios, uma proposta ignorada pelo governo Dilma Rousseff.

Para entender a Lei dos Meios

Por Luís Nassif - Brasilianas.Org

Ainda há uma notável confusão sobre a Lei dos Meios.

Qual a razão do PT e setores de esquerda pretenderem sua promulgação, se ela não impõe nenhuma forma de censura aos meios de comunicação?

Qual a razão dos grupos de mídia a temerem, se não haverá restrições ao que publicam?

Para entender essa confusão, é necessário saber o seguinte:

A Lei dos Meios dispõe apenas sobre concessões públicas, TVs abertas, TVs a cabo e rádios.

Ela terá que legislar obrigatoriamente sobre a chamada propriedade cruzada, impedindo grupos de mídia de controlarem - em uma mesma localidade - emissoras de TV, rádios e jornais. É uma proposta que afeta diretamente as grandes redes nacionais e os grandes grupos regionais.

Ela deverá legislar, também, sobre o formato das redes de emissoras. Hoje em dia, por exemplo, grande parte da rede Globo é de terceiros. Mas a Globo controla rigidamente a programação e os modelos comerciais. Ou seja, exerce o poder de fato sobre a rede. A discussão da Lei dos Meios certamente obrigará a se rever o formato dos contratos entre emissoras e afiliadas.

A maioria das concessões regionais está em mãos de políticos. Se alguém exigir a Ficha Limpa para manter as concessões, grande parte delas terá que mudar de mãos.

Hoje em dia, as emissoras tratam as concessões como propriedade privada, inclusive sublocando espaços ou vendendo os direitos de concessão. O que explica uma rede como a CNT valer R$ 700 milhões? Ora, o espaço concedido, que não é dela. Certamente a Lei jogará luz sobre essa confusão de concessionários tratarem as concessões como ativos próprios.

Nunca as concessões de emissoras foram tratadas dentro do regime de serviços públicos. Como serviço público, elas teriam obrigações adicionais, como o respeito à pluralidade, a prestação de serviços de utilidade pública etc.

Em suma, são esses pontos que explicam as várias posições em relação à Lei dos Meios.

MACHISMO TENTA INVERTER PAPÉIS DAS MULHERES


Por Alexandre Figueiredo

O machismo que exerce influência muito forte na grande mídia, sobretudo a dita "popular", tenta inverter os papéis das mulheres famosas, deixando a emancipação feminina a meio caminho.

A exploração da imagem da mulher brasileira não é só feita através de comerciais de televisão que transformam a dona-de-casa ou numa débil mental ou a profissional liberal numa heroína, mas também é feita através da exploração da vulgaridade feminina, onde o tendenciosismo é ainda mais forte.

Nota-se que a mídia machista tenta inverter os papéis da mulher independente, de maneira que os efeitos das lutas das mulheres por melhor qualidade de vida e justiça social sejam minimizados da maior maneira possível.

Assim, a mídia tenta impor valores sociais que fazem com que as mulheres não se libertem totalmente da simbologia dos valores machistas, mesmo quando tenta de alguma forma uma emancipação social e profissional. O machismo tenta de um meio ou de outro exercer sua influência, ainda que indireta.

As mulheres capazes de dizer opiniões relevantes, expressar inteligência e adotar um mínimo de elegância e compostura possível e referenciais pelo menos não muito constrangedores, precisam, segundo a mídia machista, se projetarem ao lado de algum marido, geralmente ligado a algum cargo de comando ou liderança.

Já as mulheres que "sensualizam" demais, sem medir contextos nem situações e cometem todo tipo de gafe possível, elas, que adotam uma imagem de "mulheres-objetos" para um público masculino menos qualificado, são dispensadas de viverem sob a sombra de algum parceiro evidente.

Elas seguem um receituário machista da mídia popularesca, que no entanto tenta reduzir o teor machista na aparência, para não despertar suspeitas. Assim, as "musas" da mídia machista precisam participar de eventos LGBT (ligados às minorias homossexuais e congêneres) para dar a impressão de que seu meio social não é homofóbico.

O próprio brega se traveste de moderno e a cafonice dominante faz de tudo, em vários setores da dita "cultura popular" midiática, para que pareça "vanguardista" mesmo cheirando a mofo tóxico. O "popular" é pretexto para camuflar valores retrógrados sob o verniz do "novo".

Assim como as mulheres modernas - aquelas que unem classe e inteligência - são empurradas a viver sob a proteção conservadora do poderoso marido, as mulheres retrógradas, que só "mostram demais" seus corpos, são induzidas a usar artifícios "modernos" como divulgar fotos sensuais no Instagram e dar declarações (infelizes) nas redes sociais, dando a crer que elas estão "em dia com os avanços tecnológicos".

NO PASSADO, "BOAZUDAS" SE CASAVAM COM BICHEIROS E "CARTOLAS"

Num passado recente, as chamadas "musas populares" eram esposas de homens machistas geralmente mais velhos. Quando muito, um filho de um banqueiro de bicho com uns seis ou sete anos a mais que a moça em questão. Mas havia casos em que essas mulheres eram esposas de homens bem mais velhos, como velhos bicheiros e dirigentes de escolas de samba (bicheiros ou não) e presidentes de times de futebol ("cartolas").

Hoje, com as mudanças tendenciosas do brega-popularesco, essas mesmas moças precisam dar a impressão de que não querem golpe do baú e são "despretensiosas" no amor. Houve tempo em que elas eram entregues a um celibato profissional, onde havia paqueras de duas horas, namoros de duas semanas e casamentos de três meses. Fora aquelas pseudo-solteiras que vivem muito bem casadas por aí...

Chegaram a dizer que elas "viviam solitárias" porque não aparecia um "cara legal". Mas, nos bastidores, rejeitavam pretendentes. Não convencendo esse celibato, essas moças precisam agora mostrar novos namorados. Recentemente, há rumores de que Nicole Bahls, ex-paniquete, está namorando Enzo Celulari, filho de Cláudia Raia e Edson Celulari, e que Geisy Arruda estaria namorando o palhaço e político Tiririca.

Num caso, é a "morenona" traída por jogador de futebol que agora quer se associar amorosamente a um adolescente ou um rapaz mais novo. É uma forma de minimizar o ambiente machista onde ela faz parte, pois, com um rapaz bem mais novo, inverte-se a relação conjugal em que a supremacia masculina se projeta através da idade e da presumida experiência.

No caso também de ídolos associados ao humorismo, esteticamente considerados pouco atrativos, no caso de Tiririca, é uma maneira de mostrar que, aparentemente, as "musas populares", como Geisy Arruda, possuem escolhas amorosas mais "modestas" e "não muito exigentes".

Enquanto isso, a maioria das mulheres famosas consideradas de classe segue sua vida com seus maridos "importantes", símbolos de liderança e sucesso profissional, mas meros "instrumentos" para "dosar" a independência sócio-econômica de suas esposas através de sua "singela" função marital.

São duas tendências, mas duas fases de uma mesma moeda. O machismo doma as mulheres independentes com a presença "reguladora" de seus maridos poderosos. E, por outro lado, libera as mulheres-objetos, que já servem a valores machistas, a curtir a vida como quiserem, adotando falsa militância LGBT - já que não podem expressar um feminismo de verdade - ou então pegar homens mais novos ou mais modestos.

sábado, 23 de março de 2013

AS ARBITRARIEDADES DE PAES E CABRAL FILHO PARA TURISTA VER


Por Alexandre Figueiredo

Ontem foi o desfecho, trágico em sentido antropológico, da ocupação indígena na Aldeia Maracanã, com forte repressão policial e ampla resistência indígena, que procurou, pacificamente, resistir à ordem de despejo, só reagindo quando necessário.

Já a tropa de choque da polícia, que parecia estar invadindo não uma área de ocupação indígena, mas um reduto do narcotráfico, disse que "não fez truculência" e apenas "agiu para evitar um incêndio dentro do prédio". Só que a truculência não poupou quem estivesse na frente, sejam procuradores ou mesmo repórteres fotográficos.

Foram ataques de gás de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo jogadas pela polícia, a mando dos prepotentes Sérgio Cabral Filho, governador fluminense, e seu protegido Eduardo Paes, prefeito carioca. Para eles tanto faz colocar uma UPP que não funciona e um centro comercial que só servirá para as elites. Eles pensam de forma mercadológica e política, o interesse público é só "um detalhe".

Afinal, em vez de um centro cultural de memória indígena - as tribos indígenas foram a população mais antiga do Brasil e matriz de nossa identidade cultural - , se construirá meros "parques" de consumismo, movidos tão somente pela geração de dinheiro, sem muita relevância sócio-cultural.

Serão demolidos a área de um antigo museu e antigos centros esportivos para a comunidade. No lugar deles, apenas a ampliação da saída do Maracanã e o tal centro de compras, além de um amplo estacionamento para quem tem automóvel.

Paes e Cabral Filho parecem governar para turistas. Criam um projeto autoritário de reformulação da Cidade Maravilhosa no qual a única coisa acertada será a derrubada do Viaduto da Perimetral, que acobertava uma área abandonada que era reduto de assaltos e consumo e tráfico de drogas.

Mas até mesmo no sistema de transporte de ônibus o arbítrio prevaleceu, pois a tal padronização visual das empresas de ônibus só serviu para acobertar as irregularidades e permitir os abusos das empresas de ônibus que, sem uma identidade visual a zelar e reduzidas a "operadoras" da Prefeitura do Rio, deixam de conservar os ônibus, o que justifica os diversos acidentes que ocorrem nas ruas cariocas.

Sob o véu da pintura padronizada, houve empresa mudando de nome sem que o passageiro de ônibus comum soubesse e houve linha mudando de empresa e o povo só foi o último a saber. Enquanto isso, até mesmo empresas conceituadas como Matias, Real e Litoral Rio aparecem com ônibus sucateados. Mesmo os mais novos ônibus Volvo da Litoral Rio, adquiridos há poucos meses, mais parecem carros de entulho.

Um busólogo até chegou a fazer blindagem, na Internet, para defender Eduardo Paes e Sérgio Cabral Filho. Ligado a um projeto de informática numa prefeitura da Baixada Fluminense, ele fez de tudo na sua trollagem, até mesmo blogue de calúnias, usando um pseudônimo. Ele defendia tudo de ruim, da pintura padronizada até mesmo as irregularidades da empresa Transmil, que atua em linhas intermunicipais da região.

Desmascarado pelos seus colegas, hoje esse busólogo, que apareceu até num programa de uma emissora da TV paga, é obrigado encarar broncas até mesmo com seus aliados, por conta dos excessos que cometeu, que incluiu até mesmo comentários racistas contra um outro busólogo.

Por sorte, o tal busólogo dos "comentários críticos" ainda não arrumou briga com motoristas de vans, não foi passageiro de um dos ônibus acidentados e nem encontrou pessoalmente com os funcionários da Transmil, pois seria pior para ele, pelas consequências dolorosas que tais incidentes podem trazer.

Mas um apoio desses um busólogo esquentadinho nunca iria fazer mesmo diferença à imagem de Cabral Filho e Paes, porque outros episódios como os incêndios trágicos em casas históricas abandonadas, as mortes na saúde pública, as derrubadas de moradias populares e áreas de proteção ambiental e, agora, a expulsão dos índios sob repressão policial falam muito da má reputação dos dois políticos.

Talvez a derrubada do Viaduto da Perimetral seja ótima não apenas para dar novos ares à Zona Portuária, apesar dos protestos de muita gente. Pois mesmo esses protestos contra o projeto são positivos, já que o próprio Eduardo Paes admitiu, em entrevista para O Globo, que sairá com grande queda de popularidade depois que o viaduto for totalmente destruído, em 2015.

Neste sentido, o fim do viaduto poderá ser o canto do cisne de um grupo político acostumado em governar indiferente à vontade pública. Se muitos cariocas acham que o fim do Viaduto da Perimetral é o mal, ele poderá representar o fim de um ciclo político. E, convenhamos, a paisagem carioca, em que pese a forma com que será feita a revitalização da Zona Portuária, sem moradias populares, será bem menos sombria.

RÁDIO FM E O "VOTO DE QUALIDADE"


Por Alexandre Figueiredo

Uma prática eleitoral da República Velha anda sendo ressuscitada pelo mercado radiofônico, para tentar forjar o sucesso de audiência de muitas emissoras FM que, na verdade, não conseguem decolar entre seu público.

Essa prática é a do "voto de qualidade", que é o valor que se dá a poucos indivíduos, atribuindo a eles uma equivalência artificial a mais pessoas. Era muito comum, na República Velha, que homens das elites dominantes tenham maior peso de votos do que a maioria da população pobre.

Era comum que um único fazendeiro tivesse mais capacidade de eleger um político do que um grupo de mil trabalhadores rurais. E isso numa época em que analfabetos e mulheres não tinham direito ao voto, e os políticos eram eleitos pela fraude eleitoral que completava o "serviço" do "voto de qualidade" de uns poucos "cidadãos".

No rádio, a sintonia de gerentes de estabelecimentos comerciais está sendo utilizada para "alavancar" artificialmente a audiência das FMs. Basta atribuir o número de fregueses atendidos no seu estabelecimento e eles automaticamente são tidos como "ouvintes" da rádio que somente interessa ao gerente ouvir no lugar.

DISCURSO INVERTIDO, ANTE A CRISE MIDIÁTICA, BENEFICIA O RÁDIO

Sabe-se que a grande mídia vive uma séria crise, e emissoras de TV aberta e jornais e revistas impressos estão sofrendo queda de público em índices como entre 10% e 15%, já considerados preocupantes pelo mercado.

O rádio FM segue o mesmo caminho, mas aparentemente ninguém diz a respeito. Pelo contrário, de vez em quando, nas colunas e fóruns sobre rádio na Internet, há quem "comemore" a aparente subida de emissoras de rádio FM no Ibope, em números surreais.

Diz até uma piada bastante ilustrativa do corporativismo que envolve profissionais e adeptos de rádio no Brasil. A de que determinados programas de rádio se tornam líderes de audiência antes mesmo de entrarem no ar, tal é a "importância" atribuída pelo colunista ou debatedor de rádio.

E o rádio acaba se beneficiando de sua postura de "vítima", superestimando sua posição "frágil" no mercado publicitário, já que é o setor que recebe menos verbas dos anunciantes. Isso dá uma inversão ideológica que faz com que o rádio passe a ocultar algumas posturas que claramente vemos na imprensa escrita ou na televisão

Afinal, o rádio "não" poderia sofrer a mesma crise sofrida pela televisão e pela imprensa escrita, porque supostamente não exerce o mesmo poder dessas outras modalidades midiáticas, maculadas por esse privilégio que o rádio também tem, mas finge não possuir.

PECADOS "ABSOLVIDOS"

Desse modo, o discurso que se vê em relação ao rádio é um discurso que o absolve dos pecados que a grande mídia, sem excluir o rádio, comete. Do pecado de edição de imagens na televisão, por exemplo, o rádio não desempenha porque não trabalha com imagens. Mas isso não faz o rádio mais "santo" e mais transparente, porque, se não pode manipular a imagem, pode escondê-la por motivos óbvios.

A intelectualidade etnocêntrica, aquela que defende a "cultura popular" midiática (de Waldick Soriano a Michel Teló, passando por zezés-filhos-de-francisco e tatis-que-quebram-barracos), até deu um jeito para tirar o rádio da ciranda grão-midiática, subestimando o poder midiático dos empresários regionais de rádios FM, mesmo com a herança histórica do apadrinhamento político de José Sarney e Antônio Carlos Magalhães.

Nesse discurso, as rádios, mesmo as mais comerciais, eram atribuídas à "vontade popular", enquanto a figura do programador ou produtor de FM tinha seu poder exageradamente valorizado, como se fosse um "guerrilheiro do rádio", um "revolucionário das ondas hertzianas", ignorando que tais profissionais seguem interesses ditados pelos proprietários das emissoras, muitos destes integrantes do "coronelismo" de suas regiões.

Assim, o rádio que pouco recebe de verbas publicitárias é "inocentado" de seus pecados, mesmo quando feitos por emissoras controladas por poderosos latifundiários ou deputados federais. E, só porque não edita mensagem, o rádio não é considerado mais honesto, até porque a falta de imagem permite um mascaramento discursivo, um tendenciosismo ainda maior.

É uma ironia que justamente a posição subalterna no mercado midiático garanta ao poder radiofônico regalias e consentimentos que permitem também afastar qualquer hipótese de que o rádio FM esteja sofrendo a mesma agonia que jornais impressos e emissoras de TV aberta estão sofrendo, apesar do contexto midiático unir aquele e estes.

FALSOS "REIS DO IBOPE"

Essa inversão discursiva acaba criando um discurso unânime nos fóruns e colunas de rádio, em que deve-se acreditar que o rádio possui uma audiência gigantesca em todo o país e que todo indivíduo possui um aparelho de rádio acoplado no seu organismo, como um marca-passo no seu coração.

Mesmo não sendo verdade, essa visão fictícia e um tanto fabulosa deve ser encarada como uma realidade nos fóruns de discussão sobre rádio, para o bem de interesses corporativos e sob pena do contestador ser humilhado da pior maneira pelos principais debatedores ou mesmo pelos âncoras desses fóruns ou colunas.

A partir dessa norma "social", deve-se acreditar também nos números registrados pelo IBOPE, em que até mesmo rádios FM surgidas do nada e ouvidas em lugar nenhum apresentam índices "satisfatórios" de audiência.

Muitas vezes criam-se falsos estereótipos que consagram qualquer figurão no rádio. Não obstante, surgem do nada locutores esportivos ou broncos que viram "Reis do Ibope" só porque são paparicados em colunas de rádio e correspondem a um filão "popular" que precisa ser "obrigatoriamente bem sucedido", sobretudo no chamado "Aemão de FM", ou seja, programação tipo rádio AM transmitida nas ondas de FM.

E aí é que entra o "voto de qualidade". Quando uma FM não consegue ter a audiência esperada, de repente, na semana ou no mês seguinte, há uma "multiplicação" de estabelecimentos comerciais sintonizados na emissora. Do barbeiro da esquina e da banca de jornais até à papelaria e loja de eletrodomésticos existentes num shopping center, de repente a FM parece estar "em alta" da noite para o dia.

Até mesmo a poluição sonora é feita, sobretudo durante as transmissões de futebol, para "anabolizar" a audiência. E aí o "voto de qualidade" ganha ainda maior impulso, já que seu alcance não é apenas na presença física de outras pessoas, mas em aspectos geográficos de possibilidade de recepção de um som.

COMO ISSO SE DÁ?

No caso de estabelecimentos comerciais - equipara-se a eles a sintonia individual de porteiros de prédio ou o rádio ligado de cada veículo de táxi, por exemplo - , calcula-se a presença de pessoas no local onde uma única pessoa sintoniza uma emissora de rádio e atribui-se a ela a audiência, ainda que involuntária, dessa mesma emissora.

Se uma loja de material de construção, por exemplo, atende diariamente 30 mil pessoas e possui 50 funcionários, e seu gerente é que sintoniza a emissora de rádio ouvida no seu recinto, então, para os olhos do IBOPE e outros institutos e para alegria dos colunistas de rádio e seus séquitos, são 30.050 pessoas que involuntariamente somam à audiência pessoal do gerente a sintonia da rádio.

Você pode odiar a rádio X que toca na loja em que você compra ou pesquisa seu produto, mas oficialmente você acaba sendo atribuído à audiência da emissora. É a mesma tática do fumante. Quem está por perto, fuma junto.

Se a rádio promove poluição sonora - sem medir escrúpulos em sintonizar transmissões esportivas até em fins de noite - , que o corporativismo midiático não entende como tal, se o som dessa rádio atinge 60 mil pessoas num raio de 50 m², então o dono de botequim que sintoniza essa emissora, não bastasse puxar para "compartilhar" forçosamente a sua sintonia funcionários e fregueses, faz o mesmo com 60 mil outros cidadãos.

Assim o jabaculê de FM se torna brincadeira de criança. Qualquer FM inexpressiva pode virar "campeã de audiência", qualquer radialista vindo do nada torna-se um falso Rei do Ibope. Mas a realidade mostra que isso tudo só influi na fama publicitária artificialmente trabalhada pela emissora, que só favorece a vaidade de alguns radiófilos, mas não traz efeito algum na sociedade.

Exemplo disso é a Rádio Metrópole FM, de Salvador. Liderada pelo barão midiático Mário Kertèsz, ela trabalhava a falsa imagem de "campeã de audiência" a custa de audiências tendenciosas de estabelecimentos comerciais, porteiros de prédios, donos de botequins e até serviços de vans escolares. Tudo uma audiência individual de uma minoria inexpressiva de pessoas, mas sempre ligados em alto volume na rádio.

Só que o poder da Metrópole e de seu "astro-rei" foi testado quando Kertèsz virou garoto-propaganda do candidato ao segundo turno para a Prefeitura de Salvador, Nelson Pelegrino. O "jornalista" e "radialista", tido como "grande comunicador" e "combatente midiático", viu sua máscara cair quando não conseguiu influir a opinião pública para eleger o petista (num envolvimento tendencioso com o PT, por influência de amigos publicitários de Kertèsz, que é um direitista doentio mas enrustido).

A vitória eleitoral acabou sendo para Antônio Carlos Magalhães Neto, o ACM Neto, que hoje é prefeito de Salvador. Sinal que nem sempre o "voto de qualidade" adotado por emissoras de rádio representa votos reais para as vitórias nas urnas.

sexta-feira, 22 de março de 2013

É ASSIM QUE SE FAZ UMA COPA DO MUNDO?





COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Infelizmente, o grupo político de Sérgio Cabral Filho e Eduardo Paes são dotados de decisões autoritárias. Eles acham que, agindo assim, estão promovendo o desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro e sua capital, enfrentando oposições aos seus projetos "progressistas". Mas num momento ou em outro eles mostram que não têm a menor sensibilidade com o interesse público, parecendo que estão governando para turistas. E hoje eles realizaram a expulsão das tribos indígenas da Aldeia Maracanã, mesmo com todos os clamores de juristas e ativistas sociais em defesa dos índios.

É assim que se faz uma Copa do Mundo?

Por Fernanda Sánchez* - Reproduzido do blogue Maria da Penha Neles e do blogue de Raquel Rolnik


Nesta sexta-feira, o Batalhão de Choque da Polícia Militar invadiu a Aldeia Maracanã, antigo Museu do Índio, e agiu com extraordinária truculência. Os policiais  jogaram bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo, gás pimenta, bateram nos manifestantes e prenderam ativistas e estudantes. A Aldeia estava ocupada desde o ano de 2006 por grupos representativos de diferentes nações indígenas que, nos últimos tempos, diante do projeto de demolição do prédio (para aumentar a área de dispersão do Estádio do Maracanã, estacionamento e shopping), vinham resistindo.


As lideranças indígenas são apoiadas por diversos movimentos sociais, estudantes, pesquisadores, universidades, comitês populares, organizações nacionais e internacionais de defesa dos Direitos Humanos, redes internacionais e outras organizações da sociedade civil. A luta dos índios e o conflito estabelecido entre o governo e o movimento resultaram num importante recuo do governo, que diante da pressão social desistiu da demolição do prédio e passou a defender a sua “preservação”. A desocupação do prédio foi decretada, com hora marcada. Os índios, no entanto, continuaram a resistir, apoiados por diversas organizações.


Certamente essa posição política ensina muito mais aos cidadãos cariocas e ao mundo sobre preservação, direitos e cidades do que as violentas ações que vêm sendo mostradas nos diversos meios. Para os índios e para as organizações sociais que os apoiam, preservar o prédio vai muito além de preservar sua materialidade. A essência da preservação, neste caso como em muitos outros, está na preservação das relações sociais, usos e apropriações que lhe dão sentido e conteúdo. Seria um exemplo para o Brasil e para o mundo a preservação da Aldeia Maracanã, o reconhecimento de seu uso social e a pactuação democrática acerca da reabilitação arquitetônica do edifício.


Cada vez que se comete um ato de violência que coloca em risco a integridade de um grupo social indígena, se esfacela sua cultura, seu modo de vida, suas possibilidades de expressão. É uma porta que se fecha para o conhecimento da humanidade, como dizia Levi-Strauss. É essa a Copa do Mundo que o governo quer fazer? É esse espetáculo da violência, a lição civilizatória que o Rio de Janeiro tem para mostrar ao mundo? A política-espetáculo tem um efeito simbólico: mostrar que o avanço do projeto de cidade, rumo aos megaeventos esportivos, far-se-á a qualquer custo.


Direitos humanos, democracia e pactuação estão fora da agenda deste projeto de cidade. Os manifestantes, em absoluta condição de desigualdade frente à força policial e seu aparato de violência, lançaram mão de instrumentos bem diferentes daqueles utilizados pelo Batalhão de Choque: ocuparam o prédio para apoiar os índios, resistiram à sua desocupação e manifestaram, no espaço público, nas ruas e avenidas do entorno do complexo do Maracanã, sua reprovação e indignação frente à marcha violenta desta política.


*Fernanda Sánchez é professora da UFF e pesquisadora sobre megaeventos e as cidades.

MC FEDERADO, LELEKES E AS FRAUDES NO "FUNK CARIOCA"


Por Alexandre Figueiredo

Depois que um grupo farsante que usava o nome de MC Federado e os Lelekes foi detido depois de se apresentar em Juiz de Fora e revelar que recebeu R$ 500 mil adiantados para futuras apresentações, a briga judicial em torno do grupo mostra o cenário de fraudes e corrupção que cerca o "funk carioca".

O episódio derruba definitivamente toda aquela retórica linda e sonhadora que cientistas sociais, jornalistas culturais, celebridades e artistas faziam do gênero, que não passava de uma retórica paternalista e dócil que investia na glamourização da pobreza e na apologia à mediocridade cultural dominante.

Desde que o grupo começou a fazer sucesso com o "Passinho do Volante", sucesso funqueiro que contou até mesmo com a propaganda do craque Neymar - a exemplo do que o português Cristiano Ronaldo fez com o "Ai Se Eu Te Pego", sucesso do breganejo Michel Teló - , vieram as ações fraudulentas e até mesmo outros incidentes que mostram o lado sombrio da "alegre cultura popular" defendida pelos intelectuais "mais bacanas'.

Além das suspeitas de que o grupo farsante seria uma forma de garantir lucro para os empresários originais - inclusive o ex-funqueiro Dieddy Santana - , que disputam o passe do grupo com o mega-empresário do gênero, Rômulo Costa, da Furacão 2000, agora existe as disputas sobre quem é o verdadeiro autor do "Passinho do Volante".

Infelizmente, no brega-popularesco, questões como quem é o autor de uma música não são levados em conta. Na burrice musical de hoje, em que meros agrupamentos de cantores e dançarinos são denominados, pela própria mídia, de "bandas", muitos acreditam que o intérprete é necessariamente o "autor" das músicas que interpreta, mesmo quando ele nunca compõe tais músicas.

Há casos até de cantores de "pagode romântico" que, se aproveitando dessa ignorância em torno do processo artístico ou dos bastidores dos sucessos popularescos envolvidos, contrata um arranjador para fazer todo o trabalho de seus discos.

Em cada caso, o arranjador faz todo o trabalho, mas o "pagodeiro" mais ambicioso pede para ser creditado como co-arranjador, quando o máximo que ele fez foi o pedido de como deveria ser esse arranjo, conforme a tendência do momento.

No "funk carioca", tomado pela ruindade artística, a coisa é pior ainda. Afinal, não se faz arranjos num "funk". E, além do mais, apesar de ser muito fácil "fazer um funk", há casos de funqueiras que não compõem coisa alguma mas assumem crédito solitário nas autorias dos sucessos que, na verdade, foram compostos pelos seus empresários.

Daí os processos judiciais que, no caso do "Passinho do Volante", o repasse de verbas do ECAD foi bloqueado até que haja uma decisão judicial sobre quem deve assumir a autoria do sucesso. E isso mostra o quanto o "funk carioca" é um mundo de fraudes e de mentiras, como no caso das "falsas solteiras" cujos maridos são muito "viris" para fazerem sombra ao sucesso delas.

E não dá para comparar com o samba, como faz a intelectualidade badalada em momentos de desespero. Pois no samba, em que pesem eventuais disputas de autoria entre vários compositores, havia um processo artístico mais criativo e um pouco mais transparente.

Em muitos casos os sambistas eram vítimas de sub-seresteiros que, tentando fazer sambas, compravam composições dos morros e tomavam elas para si, adulterando o crédito de autoria para eles e não para seus autores originais.

Afinal, o "funk carioca" nem de longe reflete essa criatividade que o paternalismo intelectual tanto alardeia "bondosamente". O ritmo é a imbecilidade cultural levada às últimas consequências, e sempre esteve, desde o começo, apoiado pela grande mídia, pelas Organizações Globo e pelo Grupo Folha.

Foram os veículos dos Frias e dos Marinho que primeiro esboçaram essa retórica "socializante" do "funk carioca" que fez o pessoal acreditar que se trata do "supra-sumo da diversidade cultural" ou "genuína expressão das periferias". E há quem acredite que Globo e Folha não participaram desse projeto, tomado sempre da habitual memória curta. "Funk é o Caldeirão", que o diga Luciano Huck.

Pois o caso de MC Federado e os Lelekes - que uma reportagem do G1 definiu equivocadamente como "banda" - mostra o quanto há de sujeira no "funk carioca", dentro de um mercado milionário que engana até mesmo turistas estrangeiros. E que faz uma Valesca Popozuda forjar um falso sucesso na Europa só para fazer propaganda em seu documentário. Faz parte do negócio, o "pancadão" é puro jabaculê.

YOANI SANCHEZ E A TORTURA EM CUBA


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A blogueira Yoani Sanchez, tão aclamada como exemplo de "defesa dos direitos humanos", silencia quando a repressão é feita por autoridades norte-americanas. A exemplo do que ocorre com o soldado Bradley Manning, colaborador de Julian Assange na divulgação dos segredos de Estado dos EUA, cubanos presos na base militar de Guantánamo, controlada pelos EUA, sofrem também humilhações e, em protesto, realizam greve de fome. Mas a "militante" Yoani não fala bulhufas a respeito disso.

Yoani Sanchez e a tortura em Cuba

Por Antônio Mello - Blog do Mello, reproduzido também no Blog do Miro e no blogue Solidários

Por que a blogueira Yoani Sánchez não denuncia a greve de fome que está acontecendo agora em Cuba?

Prisioneiros em Cuba "estão em greve de fome há 43 dias em protesto contra o confisco de bens pessoais como fotografias, cartas e exemplares do Corão" ... e a blogueira Yoani Sanchez não dá uma palavra sobre o assunto. Por quê?

A "ONG Centro de Direitos Constitucionais, baseada em Nova York, afirma que a greve de fome já alcança 130 dos 166" detentos em Cuba... e a blogueira Yoani Sanchez não dá uma palavra sobre o assunto. Por quê?

O antropólogo Mark Mason, especialista em fatores culturais causadores de sofrimento humano, em entrevista à rede russa RT declarou: "Mais da metade deles está livre de acusações. Eles deveriam estar na rua, saírem da prisão hoje mesmo". No entanto, estão presos em Cuba, em greve de fome... e a blogueira Yoani Sanchez não dá uma palavra sobre o assunto. Por quê?

O mesmo antropólogo prosseguiu: “Eu não consigo descrever as condições horríveis, o tratamento e a humilhação que muitos desses detentos reportaram. Eles são obrigados a ficar em pé, sem roupas, em salas geladas por horas. Só isso já constitui estresse físico, é uma tortura psicológica indescritível”. E agora há a greve de fome... e a blogueira Yoani Sanchez não dá uma palavra sobre o assunto. Por quê?

Um dos prisioneiros relatou que “Eles realmente tentam de tudo para nos quebrar, incluindo tortura física e psicológica. Eu mesmo fui torturado com eletrochoques e waterboarding [simulação de afogamento]. Presenciei ainda crianças entre nove e 12 anos dentro dos campos. É muito difícil observar essas crianças sendo espancadas em minha frente”. Por isso muitos dos 133 detentos em Cuba estão em greve de fome desde o dia 6 de fevereiro... e a blogueira Yoani Sanchez não dá uma palavra sobre o assunto. Por quê?

Sabe por quê? Porque tudo isso está acontecendo na ilha de Cuba, mas não sob administração cubana. Tudo isso se passa na prisão de Guantánamo, na Base Naval dos Estados Unidos na Baía de Guantánamo, sob responsabilidade dos Estados Unidos da América.

Por isso Yoani Sanchez não fala nada. Também as Damas de Blanco estão silentes.

Yoani Sanchez não fala nada, e mais uma vez deixa cair a máscara e mostra a serviço de quem se encontra.


[Fonte]
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